ARTIGO

Círculos danados, alimento para nossa evolução

Por Carlos Reis | Edição 91 | 01 de Setembro de 2003

Círculos Danados encontrados este ano
Créditos: stuart dike

Círculos danados, alimento para nossa evolução

Nos anos 70, os círculos ingleses eram pouco explorados, havia pouquíssimas informações a seu respeito e a literatura praticamente ignorava o assunto. Nos anos 80, surgiram algumas notícias aqui e ali, sempre informando que o fenômeno persistia, principalmente na Inglaterra, mas ainda era insuficiente para provocar um estudo mais profundo, até porque era um acontecimento pontual na Europa, e não no mundo (com raras exceções), ao contrário do que acontecia com os UFOs. E agora, na última década, surge um universo impressionante de livros, revistas, teses, sites na internet etc, tratando do assunto. No Brasil, temos o pesquisador Wallacy Albino e seu livro O Mistério dos Círculos Ingleses [Código LV-12 da Biblioteca Ufo], a única obra de referência na área. Mas, o que é lógico nos círculos se o mistério maior reside exatamente no caráter ilógico da sua manifestação? Afinal, o que está acontecendo?

O leitor perspicaz já deve ter percebido porque usei o adjetivo danado no título. A referência aos acontecimentos fortianos [Estudados pioneiramente por Charles Fort] do passado é proposital e indissociável. Fort descreveu e investigou mistérios absurdos, como chuvas de rãs e peixes, de pedras e sangue coagulado, de substâncias gelatinosas e de tantas outras coisas. Embora aberrações, que nunca tiveram uma explicação satisfatória pelas circunstâncias insólitas em que aconteciam, esses mistérios são legítimos. E permanecem envoltos no mais absoluto enigma até os dias atuais. Será que vai acontecer o mesmo com os círculos nas plantações? E sua semelhança com as famosas Pistas de Nazca, no Peru, aqueles gigantescos desenhos de aranhas, pássaros e outros animais que, a exemplo das manifestações “artísticas” nos campos da Inglaterra e outros países, só podem ser identificadas quando vistas do alto? Parece que tudo isso faz parte do que vem sendo chamado, nas últimas décadas de Realismo Fantástico, cujos precursores foram Louis Pawels e Jacques Bergier... São danados esses círculos!


Charles Fort, o pioneiro que investigou mistérios absurdos, como chuvas de rãs e peixes, de pedras e sangue coagulado etc. Embora aberrações, esses mistérios são legítimos. É de Fort a expressão ‘danados’, que usava descrever esses fenômenos. Seriam os círculos também danados?
Rara Oportunidade — Onde estão as respostas que há décadas desafiam a nossa inteligência? Como diria nossa amiga e jornalista Iracema Pires, “estamos fazendo as perguntas certas?” E nem vou mencionar tantos outros enigmas que a humanidade até hoje se contorce em desvendar. Pois os círculos acabam de se juntar a essa elite dos grandes e inexplicáveis mistérios, e nós somos a geração que está tendo a rara oportunidade de ver a coisa acontecer. O que vamos dizer as que virão depois de nós? Que patrimônio vamos deixar aos estudiosos do futuro? Outras tantas milhares de fotografias sem explicação, uma impressionante estatística de formas, desenhos, locais e datas, apenas para abarrotar os arquivos? Ou já teremos tido algum vislumbre do que é que está atazanando nossa inteligência?

O fenômeno dos círculos nas plantações é investigado sob os mais diversos ângulos, e as análises laboratoriais referentes às alterações moleculares das plantas atingidas têm sido da maior relevância. O estudo comparativo das imagens lindamente elaboradas em todo o mundo busca encontrar um padrão, uma “assinatura” comum. A classificação das imagens em insectogramas, geoglifos, agroglifos e outros nomes igualmente tentam colocar ordem na casa. Tentar traduzir as imagens também tem se mostrado em vão, embora algumas delas tratam de tentativas explícitas de comunicação. Mas cuidado aqui: nem sempre um desenho representa o que aparenta ser. Por isso, quando se diz que a determinada imagem significa uma molécula de DNA ou um sistema estelar, pode não ser nada disto. Estamos sempre trabalhando com os nossos conhecimentos, mas as imagens podem não estar “falando” a nossa língua.

crédito: M. J. Fussell
Litchfield, 04 de julho e Weyhill, 18 de julho
Litchfield, 04 de julho e Weyhill, 18 de julho

Em resumo, o caos está instalado. Pesquisadores em todo o mundo não têm a menor idéia de quem são os autores dos desenhos, o que significa sua conformação geométrica e as relações matematicamente exatas que apresentam. Seriam mandalas ou mapas astronômicos estas magníficas formações espiraladas, florais ou simplesmente circulares? Não sabemos. Ou seja, após três décadas de incidência dos círculos e muita pesquisa, sequer saímos da estaca zero. O fenômeno aumentou em tamanho e em mistério, e os desenhos estão cada vez mais instigantes e intrigantes. Isso nos faz sentirmo-nos como alunos do primário recebendo conhecimentos universitários. Brincadeiras à parte, os círculos estão nos fazendo andar em círculos.

Bem disse o pesquisador francês Jacques Vallée, há alguns anos, referindo-se ao Fenômeno UFO, mas que se encaixa perfeitamente aqui: “Quanto mais luz projetarmos sobre o assunto, mais zonas de sombra estaremos criando”. Dentre as opiniões emitidas pelos convidados de Wallacy Albino a se manifestarem em seu cuidadoso livro, acima referido, identifiquei-me particularmente com uma, a do ufólogos paulista Ari J. Mallmann, cujo trecho mais interessante reproduzo aqui: “Quem provoca isso está muito além dos nossos padrões de entendimento, sejam seres extraterrestres ou não. É como se estivessem preparando uma abertura para os nossos limitados arquétipos de conhecimento sobre nós mesmos”.

Chave — Uma citação do pesquisador paranaense Júlio César Goudard, também convidado a opinar, é interessante ao se referir a uma cena do filme Contato [1997], quando as imagens recebidas pelos astrônomos compunham-se de desenhos e esquemas complexos que não se encaixavam, não tinham continuidade e, por isso, não eram compreendidos. Quando se descobre que a chave para decifrar tais esquemas não era simplesmente colocá-los lado a lado, linearmente, e sim montá-los tridimensionalmente, o mistério se desfaz. É o que devemos fazer com os círculos? Encaixá-los uns com os outros? Juntar a ponta de um com o centro de outro? Só quero lembrar que, se alguém se aventurar a fazer isso, esse quebra-cabeças contém 12 mil peças, no mínimo!

A menos que apareça um fato novo que revolucione os conhecimentos adquiridos até o momento sobre os círculos ingleses, ainda temos que nos manter no terreno da especulação, com a mente o mais aberta possível. Mas não há como impedir a imagem que surge na mente, de um longo e frio corredor composto de centenas e centenas de arquivos de aço, todos rigorosamente iguais, e alguém caminhando entre eles com uma grossa pasta nas mãos. Então, abre uma das gavetas e encaixa a pasta junto a outras tantas. Na etiqueta lê-se “Círculos Ingleses” e, batido acima, um destacado carimbo com a palavra “Indecifrável”. Apagam-se as luzes. Faz-se o silêncio.

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Sobre o Autor

Carlos Reis

E designer gráfico e ombudsman da UFO. Foi um dos fundadores do Centro de Estudos de Fenômenos Aeroespaciais (CEFAE)

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