Três naves invadem Marte para fazer história

Equipe UFO
7 minutos de leitura

Ilustração da chegada da nave dos Estados Unidos que transporta o veículo Perseverance à cratera Jezero.
Créditos: NASA

Nos próximos dias, a humanidade presenciará um momento histórico com a chegada a Marte de três missões robóticas que competem por seu quinhão de glória ao tentar responder à eterna pergunta: há ou já houve vida em Marte?

A primeira nave a entrar na tênue atmosfera do planeta vermelho será Al-Amal [Esperança], um atípico projeto liderado pelos Emirados Árabes Unidos e desenvolvido pelo país petroleiro em colaboração com universidades dos Estados Unidos. Esta é a primeira nave lançada rumo a Marte por um país árabe, e seus xeques querem que seja parte das celebrações de 50 anos de fundação da confederação dos emirados. Ela deve entrar na órbita marciana hoje, às 12h57 (hora de Brasília). O sucesso ou fracasso será recebido pelas antenas de espaço profundo mantidas pela NASA na localidade espanhola de Robledo de la Chavela, a 70Km de Madri. Esta missão orbital pretende desenvolver uma imagem completa do tempo marciano durante todo o ano. Menos de 24h depois, a missão chinesa chegará ao planeta vermelho. O maior rival dos Estados Unidos, dentro e fora da Terra, é uma sólida potência espacial que conseguiu em 20 anos marcos que os norte-americanos levaram 40 ou mais para alcançar.

Mas o momento mais espetacular ocorrerá alguns dias depois, em 18 de fevereiro, quando começar a descida à superfície de Marte da missão dos Estados Unidos, a maior já lançada em direção ao planeta vermelho. Em 70 anos de exploração espacial, os Estados Unidos são o único país que conseguiu pousar com total sucesso um veículo móvel na gélida superfície do planeta vermelho. Uma em cada duas missões a esse planeta fracassou. “É a primeira vez na história que três missões vão a Marte, cada uma liderada por um país”, ressalta Pla-García.

A aterrissagem da missão da Perseverance dará algo único à humanidade: câmeras encostadas ao módulo de aterrissagem gravarão toda a descida, seja qual for o final. Também haverá microfones para gravarem o som de Marte, uma ideia que Carl Sagan propôs à NASA já em 1996. O mais angustiante é que a equipe de engenheiros e cientistas da missão não poderá fazer nada para mudar o destino da nave e do veículo móvel de exploração que ela transporta: toda a sequência de aterrissagem é automática e controlada pelos computadores de bordo. “Estamos falando de meio milhão de linhas de código que determinam todos os passos, as fases, a ignição de dezenas de elementos pirotécnicos necessários, por exemplo, para liberar cargas ou se desfazer do paraquedas”, explica Pla-García, pesquisador do Centro da Astrobiologia de Madri e membro do instrumento MEDAS, a estação meteorológica da Perseverance.

Se apenas um passo falhar, todo o resto pode falhar também. A NASA define com certo dramatismo a sequência de aterrissagem como “os sete minutos do terror”. É o tempo que uma nave, chegando a Marte a 21.000Km/h, leva para se desacelerar até uma velocidade inferior à de uma pessoa andando, e tudo isso usando como freio principal o atrito da atmosfera do planeta, que é 100 vezes menos densa que a da Terra.


Depois de voar centenas de milhões de quilômetros pelo espaço, três exploradores robóticos estão prontos para pousar em Marte.
Fonte: NASA

Um dos fatores-chave é como estará o tempo em Marte nesse dia. Pla-García é membro da equipe de atmosferas planetárias encarregado de tentar prever o imprevisível: se haverá ou não tempestades de poeira na cratera Jezero, destino final do veículo de exploração Perseverance. “Neste momento tudo está claro, mas constantemente analisamos a zona procurando bolsões de ar formados por mudança de densidade que possam significar tempestade”, explica. A equipe vem trabalhando nisso desde 2015, e há seis anos já se sabia a hora exata em que a sonda tocaria o solo: às 17h55, hora de Brasília.

Nestas missões se vive uma versão reduzida do paradoxo das viagens no espaço, em que um astronauta retorna à Terra para ver que seus filhos são idosos, enquanto para ele só se passaram quatro ou cinco anos. Os sinais de rádio que o Perseverance emitirá de Marte viajará à velocidade da luz, mas ainda assim levará 11 minutos para chegar à Terra. Isto significa que, quando o centro de controle receber o sinal de começo da sequência de aterrissagem, na verdade o rover já terá pousado em Marte —ou sucumbido. O veículo tirará fotos de seu entorno apenas alguns segundos depois de tocar o solo.

Marte tinha as condições básicas para ser um planeta vivo, e é possível que nas argilas de Jezero haja rastros de formas de vida passadas. Encontrá-las representaria um marco histórico que não só os Estados Unidos perseguem. A China tentará se tornar o primeiro país a enviar a Marte um módulo orbital, um módulo de pouso e um pequeno veículo, já em sua primeira missão ao planeta vermelho. A Tianwen-1 se dirige à Utopia Planitia, no hemisfério norte marciano, um lugar ideal para tentar uma aterrissagem suave, por causa do solo fino e por ser um terreno pouco elevado, de modo que há uma atmosfera mais densa para frear.

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Nesta região também existe uma enorme reserva de água congelada no subsolo, com uma capacidade 400 vezes maior que todas as bacias hidrográficas da Espanha, e que poderia ser estratégica para futuras missões tripuladas. A missão chinesa entrará em órbita na quarta-feira. Segundo seu desenho original, está previsto que o módulo orbital continue se aproximando lentamente do planeta vermelho e analisando ao mesmo tempo o melhor ponto de aterrissagem. O veículo só pousaria no começo de maio, segundo os cientistas responsáveis pela missão. Se tiverem sucesso, será o primeiro dia na história em que duas superpotências que competem pela hegemonia na Terra farão o mesmo em outro planeta do Sistema Solar.

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