Edição 72
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Seitas apocalípticas evocam alienígenas

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01 de Jul de 2000
O reinado terrestre não é o reinado da virtude e da paz, mas sim o desenrolar do drama, queda e redenção, repleto de catástrofes
Créditos: philipe kling david

Todas as vezes que a Humanidade é sacudida profundamente por um cataclismo político, militar ou moral de inusitada amplitude, pensa no fim dos tempos e evoca o Apocalipse que, segundo sua origem grega, significa descobrir ou revelar o que lhe confere múltiplas conotações. O mundo, assemelha-se a um ser vivo que depois de passar pelo período da maturidade entra na velhice e, conforme predisse o apóstolo, deve morrer. O reinado terrestre não é o reinado da virtude e da paz, mas sim o desenrolar do drama, queda e redenção, repleto de catástrofes. O movimento cresce como uma maré na medida em que o século se aproxima do fim. Assim como ocorreu às vésperas do ano 1000, esperava-se para o ano 2000 a culminação de tais terrores. Nada aconteceu...

Em 8 de janeiro de 1998, uma tragédia semelhante a da seita Heaven’s Gate quase se repetiu. A polícia espanhola conseguiu impedir que 32 membros da facção Centro Holístico Ísis cometessem suicídio coletivamente. As mortes rituais ocorreriam na ilha de Tenerife, no arquipélago das Canárias, a oeste do continente africano. Membros do grupo se matariam junto ao Vulcão Teide, inativo. Eles acreditavam que, depois das mortes, um disco voador pousaria no local para resgatar os cadáveres pouco antes do fim do mundo, previsto por eles para a noite daquele dia. Às 10:00 h do dia 31 de março do mesmo ano, momento em que Deus deveria aparecer na Terra – segundo Hon-Ming Chen, líder de uma seita chinesa de Taiwan – todos os que estavam presentes na cidade de Garland, no Texas, “viraram o próprio Deus”. Ele pediu aos presentes que se abraçassem, dessem as mãos e conversassem, pois assim tocariam e ouviriam a voz de Deus. Chen havia anunciado que o mesmo apareceria pessoalmente na Terra com uma frota de discos voadores para salvar milhares de fiéis de um holocausto nuclear.

Contudo, o domingo de Páscoa de 1998 na Argentina ganhou em suspense e dramaticidade. Um grupo de 11 pessoas permanecia acampado em Uspallata, noroeste do país, à 100 km da fronteira com o Chile, enfrentando frio e rezando há 28 dias para a Virgem de Lourdes, enquanto as autoridades, preocupadas com o desfecho, aguardavam de sobreaviso. O temor vinha de cartas enviadas por integrantes do grupo a seus parentes. Elas continham mensagens do tipo: “A virgenzinha vai nos levar a um lugar onde estaremos a salvo e nada do que se passa neste mundo chegará a nós”. Ou ainda: “A guerra começou, e Deus dará uma sacudida tremenda neste inferno formado por vivos. As pessoas roubarão cada vez mais e os alimentos terminarão”. As mensagens sugeriam uma possível tentativa de suicídio coletivo, que não chegou a ocorrer. Havia 40 crentes no local.Depois da visita de psicólogos, a maioria deixou o acampamento. A cabeleireira e líder do grupo, Margarita de Beltramo, dizia ter contatos com a Virgem Maria e estava convencida de que o fim do mundo seria no dia 12 de abril daquele ano.

Em função de sua necessidade de crença, o ser humano é levado a buscar respostas no misterioso. As seitas criadas em torno dos UFOs oferecem terrenos férteis para esta busca


Ações Violentas – Atuando em conjunto, serviços secretos israelenses e do FBI detiveram no dia 03 de janeiro de 1999, perto de Jerusalém, 14 norte-americanos – oito adultos e seis crianças – membros da seita extremista cristã Concerned Christians [Cristãos Preocupados], sediada em Denver, Colorado. No dia seguinte, o governo de Israel expulsou 11 deles. Outros três, John Bayles, Eric Malesic e Terry Smith, permaneceram detidos e prestaram depoimentos sobre o paradeiro dos demais integrantes. Segundo uma entidade norte-americana que monitorava as atividades de seitas radicais, cerca de 60 membros do grupo estariam desaparecidos há vários meses. A seita planejava ações violentas ou mesmo um suicídio coletivo em Jerusalém, cidade sagrada para cristãos, judeus e muçulmanos. O objetivo seria apressar o retorno de Jesus Cristo na virada do milênio.

Adepto da tese da reencarnação de Jesus, o guru do grupo, Monte Kim Miller, de 44 anos, profetizou que morreria nas ruas de Jerusalém em 1999, o que marcaria o fim apocalíptico do segundo milênio. O Ministério da Segurança Pública israelense afirmou dispor de informações sobre a chegada ao país de diversos integrantes de seitas do gênero. Os membros da Concerned Christians teriam ido para Israel em pequenos grupos, em setembro de 1998. Naquele ano, os serviços secretos israelenses formaram um grupo com a missão especial de prevenir atos religiosos e de violência às vésperas do ano 2000.

Poderíamos ficar repassando uma série de incidentes envolvendo seitas que inundaram os noticiários nos últimos meses, mas estas não passariam de repetições e lugares-comuns. No entanto, o que importa é analisarmos porque as referências ao Apocalipse estão em todas as partes e de maneira tão contundente. Nas igrejas de bairro pregadores em êxtase fazem explanações sobre profecias bíblicas, e em livrarias, títulos sobre misticismo e nova era são os bestsellers do momento. Além disso, na Internet, seitas multimídia se valem de homepages para disseminar suas doutrinas esdrúxulas e nos cinemas, filmes como Independence Day, Contato, Impacto Profundo e O Sétimo Selo atraem milhões de espectadores com seus temas apocalípticos. Sem falar na tevê, na qual vislumbres do Apocalipse surgem na obscura série Millennium, de Chris Carter, o mesmo criador de Arquivo X.

Na Internet, seitas multimídia se valem de sites para disseminar suas doutrinas esdrúxulas e nos cinemas, filmes como Independence Day, Contato, Impacto Profundo e O Sétimo Selo atraem milhões de espectadores com seus temas apocalípticos

A idéia de fim do mundo aparece em quase todos os povos antigos como elemento fundamental de sua religião ou filosofia, bem como a idéia do renascimento glorioso e o tema da periodicidade milenar. Assim, no masdeísmo iraniano, ao cabo de 11 mil anos, o inverno e a noite abatem-se sobre o mundo, mas os mortos ressuscitados descem do reino de Yima para repovoar a Terra. Crenças análogas encontram-se na antiga mitologia germânica e em certas comunidades muçulmanas. A filosofia de Heráclito e a filosofia estóica já estavam mais ou menos impregnadas de doutrinas idênticas. Já o Apocalipse de São João – escrito no fim do século I d.C., quando os cristãos da Ásia Menor enfrentavam perseguições do imperador romano – é formal neste ponto. O reino messiânico deve durar mil anos – em latim millennium e em grego chiliasme. Interpretando erroneamente as escrituras sagradas, milhões de pessoas aferram-se à crença de que contêm a chave para o fim da História e para a instauração do reino divino, entrevendo prenúncios do segundo advento de Cristo e do fim dos tempos, como o surgimento do Anticristo, uma variedade de pestes, catástrofes naturais e a batalha final de Armaggedon.

Calendário Lunar – Naquela ocasião, o Anticristo era uma alusão a Nero, imperador romano (37-68 d.C.), cruel e depravado, perseguiu intensamente os cristãos e suicidou-se se atirando sobre uma espada ante a revolta popular liderada por Galba. Lendas posteriores referem-se a Nero voltando do mundo dos mortos para atormentar os vivos. Ao apontarem o ano 2000 como a data crucial para a concretização das profecias, essas pessoas ignoram que para os judeus, que usam um calendário lunar cuja contagem de anos começou há muito tempo, em 3760 a.C, já estamos no ano de 5760. Para os chineses, que se baseiam em outro calendário lunar cujo marco inicial é 2600 a.C. (quando o imperador Huang Ti iniciou o primeiro ciclo do zodíaco), estaríamos em 5698. E para os budistas, que começaram a contar o tempo em 544 a.C., ano que se considera ter sido o da morte de Buda, em 2544.

Na época do Velho Testamento, os profetas eram vistos como indivíduos escolhidos que tinham sido enviados por Deus para transmitir uma mensagem a seu povo. Dos três apocalípses bíblicos, dois deles, Ezequiel e Daniel, estão em livros do Velho Testamento e datam dos séculos VI e II a.C., épocas em que Israel estava sob domínio e ocupação de seus inimigos – portanto em intensa espera messiânica. No ano 66, um grupo de mil judeus entrincheirou-se para resistir aos romanos na fortaleza de Masada, no topo de uma montanha na Judéia, em Israel. Resistiram por sete anos, até que, ante o cerco de 15 mil soldados de Roma, todos se mataram, exceto duas mulheres e cinco crianças.

Já atualmente, os recrutas das unidades blindadas de Israel prestam juramento em Masada, ao grito de “Masada jamais cairá de novo”. Judeus mais críticos e psicólogos, cientes dos traumas deixados pelo fatídico episódio na constituição daquele povo, identificaram um novo tipo de patologia que afeta predominantemente os membros dessa comunidade, o Complexo de Masada. A expressão define bem um tipo de estado de espírito, para os judeus, ou de paranóia, para os psicólogos, que leva uma pessoa a sentir-se ou considerar-se permanentemente perseguida e assediada por inimigos – na maioria das vezes inventados ou fantasiosos – que desejam a todo custo destruí-la, muitas vezes sem nenhum motivo, a não ser pela nacionalidade judaica.

crédito: cortesia aum shinrkyo
George King, fundador do culto a contatados Sociedade Aetherius (à esquerda). E Shoko Asahara, guru da seita japonesa Aum Shinrikyo, que promoveu vários atentados em nome de suas crenças religiosas
George King, fundador do culto a contatados Sociedade Aetherius (à esquerda). E Shoko Asahara, guru da seita japonesa Aum Shinrikyo, que promoveu vários atentados em nome de suas crenças religiosas

Com a intensificação do afã milenarista, as visões apocalípticas se tornam cada vez mais destrutivas. Acreditar no fim iminente do mundo pode levar muitos a pensarem que seus desafetos também são inimigos de Deus, o que justificaria qualquer ato de violência contra os mesmos. Leituras distorcidas das escrituras – e às vezes mal intencionadas – possuem efeitos potencialmente perigosos, despertando a desconfiança e o ódio contra determinados indivíduos ou setores. As pessoas sempre desconfiaram do governo, em maior ou menor grau. No entanto, ao acrescentar uma visão apocalíptica a essa desconfiança, o governo passa a ser visto não apenas como ineficiente, mas como algo demoníaco.

A expectativa de que forças do demônio lançassem uma ofensiva contra o Ramo Davidiano fez com que seus membros estocassem armas no Rancho do Apocalipse, em Waco, Texas, e mais tarde disparassem contra os agentes federais que cercavam o local. Timothy McVeigh, condenado pelo atentado de Oklahoma City, foi afetado psicologicamente pela peregrinação que fez a Waco, antes da crise. McVeigh escolheu o aniversário do incêndio naquela cidade como a data em que detonaria as bombas no prédio do governo federal em Oklahoma, o pior atentado terrorista da história norte-americana. Até as milícias de extrema direita dos EUA usam imagens bíblicas para justificar o terrorismo. O Movimento Identidade Cristã, por exemplo, acredita que os cristãos enfrentarão violenta perseguição antes da volta de Jesus. “Eles querem enfrentar à bala a besta da Revelação”, alertou Charles B. Strozier, da City University de Nova York.

Há duas décadas, Larry Wayne Harris e William Leavitt, suspeitos de ligações com grupos de extrema direita, foram presos pelo FBI a caminho da cidade de Henderson, Nevada, 20 km ao sul de Las Vegas. Segundo as autoridades, iriam testar armas biológicas fabricadas com a bactéria Bacilus Anthracis, que provoca uma infecção aguda chamada antraz. Harris havia sido condenado em 1995 por ter obtido bactérias da peste bubônica de maneira ilegal em um laboratório de Rockville, Maryland, subúrbio de Washington. Ele e Leavitt, integravam a Nação Ariana, um grupo de ideologia neonazista que advoga a supremacia branca. Em 1996, Harris lançou um livro intitulado Guerra Bacteriológica: Uma grave ameaça para a América do Norte, que promoveu e vendeu em reuniões de grupos políticos conservadores. Supunha-se que ambos tentariam imitar o ataque realizado em 1995 pela seita Aum Shinrikyo no metrô de Tóquio.

Calendário Lunar – Dos inúmeros pontos em comum entre as seitas modernas, uma é particularmente notória. A origem delas é a mesma: os Estados Unidos. Centro econômico-material do mundo, somente esse país protestante poderia ser também a sua sede espiritual, tanto mais se considerarmos que lá a religião se monetariza. Também não é por acaso que a Ufologia ali tenha surgido, assim como as primeiras seitas que apregoam a chegada de extraterrestres salvadores. Um exemplo exótico é a Fundação Uranius, sediada nas proximidades de San Diego, Califórnia, e administrada pela autodenominada “visionária cósmica” Ruth Norman, também conhecida pelo nome de Uriel. Ela afirma ter recebido transmissões de seres “supercelestiais” e ter visitado 60 planetas. “Através de meus ensinamentos, os humanos poderão atingir um plano espiritual mais elevado, de preferência a tempo de saudar as 33 naves estelares da Confederação Interplanetária que irão aterrissar em San Diego em 2001”, diz Norman.

A Sociedade Aetherius, um culto a contatados, foi fundada em 1956 por “sua iminência” George King, ex-motorista de táxi em Londres, que ainda continuava cooptando novos adeptos em meados dos anos 90. King, que se interessava pelo misticismo oriental, certo dia estava sentado num estado próximo ao transe, quando supostamente recebeu mensagens de seres extraterrestres. Eles teriam lhe dito que Jesus e diversos santos estavam vivos e moravam em Vênus. King e os membros de sua sociedade acreditam no poder do pensamento e no poder da oração. Constroem baterias cósmicas de metal e madeira, carregadas através das mãos estendidas e orações dos membros. Os eterianos crêem que um parlamento interplanetário dirige essa energia para a prevenção de catástrofes. Visto que supostamente as baterias funcionam mais eficazmente nas montanhas, os eterianos levaram seus aparatos singulares a locais elevados, inclusive o monte Kilimanjaro. Por mais bizarras que essas afirmações possam parecer, principalmente aos que estão mais acostumados às religiões tradicionais, elas refletem as dimensões sociais da crença em UFOs divinos.

Edenilton Lampião, já falecido, quando atuava como editor da revista Planeta, escreveu um artigo antológico publicado na edição de 10 de setembro de 1984 do jornal Folha da Tarde, no qual já alertava para a sofisticação dos métodos e da linguagem das seitas no Brasil, que surgiam semanalmente. Lampião classificou-as em três tipos: as profundamente místicas (de inspiração cristã, em que Jesus surge como comandante de frotas de naves-mãe em trânsito pelas galáxias), aquelas que falam em nome de uma nova “consciência cósmica” (em que um líder serve de mediador com os ETs, aos quais, claro, só ele e mais uns poucos privilegiados têm acesso) e as mais traiçoeiras de todas, a corrente de seitas esotérico-científicas que se adaptam ao gosto do linguajar moderno dos meios de comunicação.

Destacava Lampião que em Barra do Garças, à 500 km de Cuiabá (MT), entre brigas de posseiros, grileiros, jagunços, latifundiários e as pregações de dom Pedro Casaldáliga, da Prelazia de São Félix do Araguaia (MT), havia o Monastério do Roncador. O templo era liderado por Udo Oscar Luckner, que se intitulava o Grande Hierofante: “Numa área de mais de 100 mil m2, construiu até discoporto e, garante, o vaivém de naves é freqüente. Só em torno da Serra do Roncador, perto de Barra do Garças, existem 21 correntes, entre elas a Sociedade Brasileira de Eubiose, que afirma ser o local uma entrada e saída de discos voadores, com uma passagem submarina para o Egito dos faraós”, explicou Lampião.

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Jul de 2000

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