Edição 134
DESTAQUE

A polêmica sobre a conquista da Lua

Por
01 de Jun de 2007
Seria possível que tudo foi apenas uma farsa?
Créditos: Cortesia NASA

Em fevereiro de 2001, a rede norte-americana de televisão Fox, para a surpresa de seus espectadores, anunciava a exibição de um documentário com o seguinte título: Teorias Conspiratórias: Nós Realmente Aterrissamos na Lua? Motivada por rumores existentes desde meados da década de 70, a Fox iria abordar a questão sob uma ótica inusitada: mostrar ao mundo que os EUA nunca colocaram astronautas sobre o solo lunar, e que o maior feito do século XX teria sido fraudado para que o país vencesse a corrida espacial, em 1969. A Fox daria eco às alegações de muitos adeptos das teses conspiracionistas, de que tudo não passou de uma incrível farsa, supostamente montada pela Agência Espacial Norte-Americana (NASA).

Apesar da estranheza que isso pode causar a muitos leitores, acostumados com notícias quase diárias sobre novas pesquisas e conquistas espaciais, ainda existe muita gente que, em pleno século XXI, não só não acredita que o homem chegou à Lua como também afirma com veemência que as famosas imagens da primeira alunissagem da história, transmitidas ao vivo em 20 de julho de 1969 para o mundo, não passaram de encenações feitas num estúdio cinematográfico aqui mesmo na Terra. Há ainda quem alegue que as marcantes palavras do astronauta Neil Armstrong – “Um pequeno passo para um homem, mas um gigantesco salto para a humanidade” – foram proferidas não sobre o solo acinzentado do Mar da Tranqüilidade, região onde o módulo lunar pousou, mas sim em algum estúdio hollywoodiano que simulava a Lua.

crédito: Arquivo UFO

Mesmo considerando-se o caráter disparatado e improvável que essas alegações sugerem, cada dia mais adeptos as defendem, seguindo a rápida e crescente divulgação das tais idéias conspiratórias, principalmente através da internet. Além disso, o documentário da Fox denunciando o suposto embuste da NASA teve uma repercussão enorme, levando até à realização de uma continuação, duas semanas depois. Dada a insistência em se manter o quadro de absurdos que as referidas alegações causam, por parte dos detratores da Agência Espacial, e a rapidez com que a influência desse grupo vem crescendo sobre a mídia, muitos leitores têm se perguntado: será que existe alguma verdade por trás de tais acusações de montagem e encenação? Seria possível que tudo foi apenas uma farsa?

20 % de incrédulos — O primeiro detalhe que precisa ser comentado para começarmos a compreender a dimensão do problema é a afirmação, igualmente espantosa, feita no documentário da Fox – que continua sendo inadvertidamente repetida por muitas pessoas até hoje –, de que cerca de 20% da população norte-americana não acredita que o pouso na Lua tenha algum dia ocorrido. A princípio seria uma cifra impressionante, porém ela esconde uma série de incorreções. Na verdade, durante a primeira apresentação do documentário, a rede fez menção a outro dado, uma suposta pesquisa que teria sido levada a cabo em 1999 pelo Instituto Gallup, informando que 11% dos norte-americanos não acreditam na veracidade das imagens da alunissagem transmitidas pela NASA. Essa pesquisa de fato existiu e foi feita com base numa pergunta clássica sobre o assunto, formulada aos entrevistados: se acreditavam que a Agência Espacial tinha conseguido chegar à Lua. Mas os resultados obtidos foram um pouco diferentes dos comentados publicamente pelo Gallup: 6 % dos entrevistados não acreditavam no pouso lunar, 5 % não tinham opinião definida e 89 % acreditavam que a Apollo 11 realmente chegou até nosso satélite natural.

Se prestarmos atenção nessas percentagens veremos que, em vez de desmerecer o sucesso da NASA, como inicialmente sugeria a Fox, a pesquisa na verdade confirma o que se sabe há muito tempo: a conquista da Lua é uma questão de orgulho nacional para os norte-americanos, e esmagadora maioria da população não tem dúvidas quanto a ter ocorrido. O que o locutor fez no documentário foi somar erroneamente os dois grupos de exceção como se fossem um só. Além disso, um pouco depois ao anunciar a continuação do programa, a rede voltou a exagerar nos números que apresentou, afirmando então que a repercussão da primeira exibição tinha sido tão grande que a quantidade de incrédulos subira de 11% para 20%. Até hoje não se sabe como esse número foi obtido...

Pouca credibilidade — A atitude da Fox, de divulgar erroneamente os números da enquete do Instituto Gallup, se reveste de gravidade ainda maior quando descobrimos que a equipe de “pesquisadores” convidada para a tarefa e para confirmar as acusações contra a NASA não era constituída por especialistas conhecidos nem engenheiros envolvidos no Programa Apollo. Ela era, na realidade, formada por entusiastas desconhecidos do público e que não tiveram qualquer participação no referido projeto nem em qualquer missão da Agência Especial. Na verdade, seus integrantes não tinham nem mesmo conhecimentos básicos sobre astronáutica para analisar o que se propunham.

Finalmente, todo o absurdo dessa seqüência de enganos chega ao seu ápice quando constatamos que as próprias acusações contra a NASA, afirmações feitas abundantemente durante o documentário, continham erros graves e elementares, demonstrando claramente a incompetência da equipe de produção da Fox para lidar com um tema tão específico e preponderantemente científico. O único integrante da equipe da rede que teve uma relação com a Agência Espacial, e ainda assim mínima, era tão somente um ex-candidato à vaga de astronauta, recusado nas provas de admissão.

O tom do documentário estava em sintonia com a abordagem preconceituosa contida nas afirmações conspiracionistas da internet, ou seja, de denúncia e revolta contra uma aludida ação de acobertamento da NASA. Mas a veemência e persistência dos detratores da chegada do homem à Lua somente demonstram, com seus atos, o quanto desconhecem o assunto tratado. Na realidade, até hoje, a afirmação de que o sucesso da Apollo 11 é uma farsa só consegue convencer as pessoas que têm algum motivo obscuro para odiar a NASA, os Estados Unidos e o que o país representa politicamente para o mundo. Nitidamente, as pessoas que assim agem misturam considerações técnicas muito específicas com um sentimento pessoal que não conseguem esconder.

crédito: Cortesia NASA
As viagens à Lua eram interessantes apenas por questões políticas e somente durante a Guerra Fria. Depois, caras e perigosas, foram abandonadas pela NASA
As viagens à Lua eram interessantes apenas por questões políticas e somente durante a Guerra Fria. Depois, caras e perigosas, foram abandonadas pela NASA

Além disso, é bastante reprovável a atitude de formular acusações antes de se tentar compreender devidamente o assunto em questão. Num exemplo, como se sentiria o leitor, que passou vários anos estudando e conseguiu com muito esforço se formar em alguma área de especialidade do vasto conhecimento humano, se alguém que nada entendesse sobre sua profissão emitisse opiniões equivocadas sobre ela? Ou pior, se o acusasse de mentiroso e afirmasse que não sabe o que faz em sua vida profissional? Sob esta ótica, é possível ter uma noção do que devem ter sentido os milhares de engenheiros, técnicos e funcionários, além de dezenas de astronautas da NASA envolvidos no Programa Apollo, ao verem o florescimento dessas teorias conspiracionistas na internet.

Esclarecendo as dúvidas — E é exatamente aí que está o maior problema de tais rumores. Se eles partissem de especialistas em astronáutica, de experts em fotografia tentando levantar evidências, de ex-funcionários da NASA que tivessem tido acesso às fraudes, ou ainda se fossem originadas de engenheiros especializados apontando suspeitas etc, teríamos elementos capazes de nos fazer crer que realmente há algo suspeito quanto à chegada do homem à Lua. Entretanto, entre os milhares de funcionários que trabalharam nos programas espaciais da Agência, nunca tivemos notícia de uma única dissidência sequer na NASA, nada nem ninguém que a acusasse de forjar a alunissagem. E nunca surgiu qualquer cientista sério e devidamente reconhecido, de fora dos quadros da instituição, que apoiasse essa idéia. Muito pelo contrário, vários deles, assustados com tamanha demonstração de ignorância e má-fé, vieram a público tentar esclarecer as coisas, pensando que a campanha difamatória fosse apenas um grande mal entendido.

Fica cada vez mais claro que o principal problema dos detratores é pessoal, pois se estivessem realmente exprimindo uma dúvida sincera sobre os fatos que criticam, se fossem movidos por um desejo honesto de esclarecer o que aconteceu, iriam procurar entender os fatos antes de emitir opiniões infundadas. Mas nem todas as críticas são movidas por interesses obscuros. Muitas das questões levantadas em tom acusatório pelos detratores são também dúvidas sinceras de curiosos que não entendem direito certos detalhes do Programa Apollo, em especial a missão Apollo 11, a que logrou chegar à Lua. E assim, pensando nos que se surpreenderam com o assunto e querem conhecer as respostas a essas acusações vazias, seguem algumas explicações, passo a passo, para as principais dúvidas levantadas.

Alternativa 3 — Uma questão crucial a se discutir é quando começaram as acusações de que os EUA não foram à Lua. E uma pesquisa sumária mostra que, antes mesmo da missão Apollo 11, já havia uma descrença de que o ser humano chegaria ao nosso satélite natural. Na verdade, até antes dos primeiros vôos tripulados ao espaço, no início dos anos 60, os movimentos contra-culturais que vicejavam naquela década já questionavam ferozmente todo e qualquer esforço que representasse ou enaltecesse os valores tradicionais da sociedade norte-americana. Motivada pelas guerras da Coréia e do Vietnã, e também pela chamada “revolução dos costumes”, toda uma geração de “rebeldes sem causa” se inspirou na imagem de James Dean para justificar uma negação pura e simples como forma de manifestação. Para quem aderiu a esse movimento, tudo o que viesse do governo dos Estados Unidos era sempre mentira, e não havia o mínimo interesse em se fazer análises mais aprofundadas ou contra-argumentações.

Naquela época, ser rebelde era simplesmente negar, seja lá o que for. E foi provavelmente esse o sentimento que motivou as primeiras dúvidas quanto ao pouso na Lua, logo após o feito e ainda no início da década de 70. Um pouco mais tarde, em 1977, foi exibido na televisão inglesa um documentário pretensamente científico – que, na verdade, era uma paródia – contando uma história exótica e totalmente surpreendente, que contradizia tudo o que as pessoas viviam durante a época da Guerra Fria. Era o controverso Alternativa 3, que oferecia à emissora a possibilidade de ganhar um pouco mais de audiência com uma notícia espetacular, embora falsa, para logo depois desmentir tudo. O programa teve um resultado impressionante, apesar do aspecto inverossímil do que continha. Muita gente levou a sério as afirmações de Alternativa 3, de que a Guerra Fria era somente um embuste para enganar o público e que, na realidade, os EUA e a URSS já exploravam conjuntamente a Lua e o planeta Marte desde o final da década de 50 e início da década de 60.

crédito: Cortesia US Govemment
O presidente Kennedy inspeciona a cápsula da Friendship 7, após retornar do espaço com o astronauta John Glenn. A corrida espacial era prioridade para o governo, mas apenas durante a Guerra Fria
O presidente Kennedy inspeciona a cápsula da Friendship 7, após retornar do espaço com o astronauta John Glenn. A corrida espacial era prioridade para o governo, mas apenas durante a Guerra Fria

Como o nome indica, o programa fazia referência a três alternativas “possíveis”, supostamente planejadas pelas duas grandes potências mundiais da época, para se lidar com uma catástrofe mundial, também supostamente iminente, causada pelo rápido crescimento populacional da Terra. A primeira alternativa era matar, pura e simplesmente, um grande número e pessoas. A segunda era acabar com as fontes de alimento, para causar a morte natural de muita gente. E a terceira alternativa era fugir para outros planetas, onde se pudesse criar uma “filial da Terra”. Como as duas primeiras opções não eram muito éticas, EUA e URSS teriam resolvido então adotar a terceira via, e assim estariam seqüestrando os homens e mulheres mais brilhantes da época, em especial cientistas, para levar a cabo um plano secreto de transportar a elite do nosso planeta para Marte – que a esta altura já havia sido conquistado e que se descobriu ser cheio de outras formas de criaturas vivas.

Meros fantoches — Os movimentos contra-culturais da época adoraram Alternativa 3 com todas as suas idéias extravagantes, e imediatamente incorporaram as mentiras divulgadas. Mais ainda, aproveitaram a oportunidade para espalhar a idéia de que o Programa Apollo, da NASA, tinha sido um projeto de fachada para disfarçar as reais – e sinistras – intenções de um aludido “governo secreto da Terra”. Esta seria a idéia, super radical, de que todos os governantes conhecidos do mundo seriam meros fantoches, e que nós seríamos mesmo controlados por forças secretas, insidiosas e mal intencionadas.

No ano seguinte, o filme Capricorn One [1978], aproveitando o embalo de Alternativa 3 e exibido em boa parte do mundo – mostrando como teria ocorrido um suposto pouso tripulado em Marte, no ano de 1962 –, colocou mais lenha na fogueira. Em seguida, um livro pretensamente científico foi publicado, acrescentando mais elementos ficcionais à trama representada pela terceira via. E assim essa esdrúxula história foi ganhando adeptos com o tempo, até chegar ao especial da Fox, citado no início deste artigo, um documentário que atingiu uma enorme popularidade ao denunciar a suposta farsa lunar. Ele foi o grande impulsionador das teorias conspiracionistas envolvendo a Lua e se transformou em mais um mito da rede mundial, conquistando novos segmentos da sociedade e gerando variações diversas para as teses da farsa lunar e do governo oculto.

Equilíbrio estratégico — Mas por que os americanos não voltaram à Lua? Eis uma pergunta constante nos meios conspiracionistas. Para entender a resposta é importante que se saiba que a chamada corrida espacial, tanto para os EUA quanto para a então URSS, tinha como foco o desenvolvimento de tecnologia avançada para se tentar manter um equilíbrio estratégico durante a Guerra Fria, e utilizá-la como propaganda para o resto do mundo. Havia a necessidade dessas potências alegarem e demonstrarem estar uma à frente da outra quando o assunto era armamento nuclear e exploração espacial. Ironicamente, essa disputa garantia o equilíbrio entre elas, e assim se mantinha a paz. A chegada à Lua – em 1969 e dentro do prazo estabelecido pelo presidente John Kennedy – acabou se transformando no ápice da contenda, com os norte-americanos se colocando à frente dos russos como “representantes do mundo” diante da fronteira final da humanidade: a conquista do espaço sideral.

Portanto, uma vez cumprido o principal objetivo, que era de “marketing espacial”, as outras missões Apollo, até a de número 17, continuaram realizando importantes expedições de exploração e pesquisa científica, mas com pouquíssima expressão em termos políticos. E o altíssimo custo de se manter o Programa Apollo e enviar seres humanos à Lua começou a incomodar os líderes norte-americanos, até que, com os novos desenvolvimentos tecnológicos, a NASA percebeu que era muito mais prático e viável continuar a exploração espacial usando sondas não tripuladas, em vez de manter um projeto tão caro e arriscado. Além disso, em termos políticos, o momento apontava para uma urgente necessidade de salvaguardar o domínio do espaço em torno da Terra, já que a URSS estava, na época, começando a encher a órbita do planeta com satélites espiões.

Objetivos revistos, o Programa Apollo foi cancelado e nunca mais os norte-americanos foram à Lua – e nem os russos. Somente em tempos recentes surgiu interesse em novas viagens ao nosso satélite natural, a partir das recentes declarações feitas pela China, de que pretende, em breve, enviar um astronauta à Lua. E tal afirmação acabou gerando, automaticamente, declarações semelhantes por parte da NASA.

Outro ponto de suposta controvérsia quanto ao assunto envolve o telescópio espacial Hubble. Sustentam os conspiracionistas que, se ele é tão potente como se imagina, por que não tira fotos dos módulos e artefatos deixados na superfície da Lua e as mostram aos incrédulos? Bem, primeiro porque esse objetivo não interessa aos astrônomos que operam as plataformas do Hubble – eles têm muito mais com o que se preocupar. Segundo, porque o telescópio espacial não conseguiria observar objetos na superfície da Lua, que está muito perto em termos cósmicos. Mesmo utilizando toda a sua capacidade de ampliação, o maior objeto distingüível no solo lunar, para as poderosas lentes do Hubble, teria que ter 60 m de comprimento. Ou seja, teria que ser muito maior do que os módulos lunares do Programa Apollo.

Falta de estrelas nas fotos lunares — Uma questão sempre levantada pelos que não acreditam que o homem esteve na Lua envolve as fotos obtidas pelos astronautas sobre o satélite e aquelas imagens feitas automaticamente a partir das câmeras instaladas nos veículos levados até lá. Argumentam que não aparecem estrelas em tais fotos, e por isso teriam sido forjadas. Esta é uma questão bastante simples de esclarecer, embora freqüentemente repetida em tom de suspeita pelos praticantes de teorias conspiracionistas, para quem a ausência de estrelas seria mais uma prova de que as fotos foram feitas em estúdios. Para entender a resposta, experimente colocar numa câmera fotográfica convencional [Não digital] um filme de baixa sensibilidade, como um de ASA 100, e bater uma foto do céu noturno. Ou então, regule sua câmera digital para tirar uma foto dentro de um quarto iluminado e, em vez de fazer isso, vire subitamente o equipamento para o céu estrelado e tente registrar as estrelas.

Nas duas situações sugeridas, se obterá um grande negrume, sem uma única estrela sequer. Isso é exatamente o que ocorre com as milhares de fotografias obtidas nas diversas missões Apollo, inclusive as que estiveram na Lua. E a explicação é simples: o que acontece é que a sensibilidade do filme ou da câmera, no caso das digitais, estava regulada para fontes de luz muito mais intensas do que as estrelas. Simplesmente, a superfície da Lua, os trajes dos astronautas e os objetos levados para nosso satélite natural refletem bem mais luz do que as estrelas do firmamento são capazes de emitir. Por isso elas não são registradas no filme.

Imagem feia — Numa linha semelhante de raciocínio estão os questionamentos que envolvem a bandeira dos Estados Unidos, que aparece tremulando nas fotos obtidas pelos astronautas – como isso seria possível, se não existe vento na Lua, perguntam. Ora, os cientistas e técnicos contratados para trabalhar nas missões Apollo sabiam muito bem que não há vento na Lua e que a gravidade por lá é muito fraca – cerca de 10% da que temos na Terra. Por isso, sabiam também que uma bandeira convencional, apoiada num pedestal sobre o solo ou num mastro fincado nele, nunca teria o mesmo efeito visual que obtemos na superfície do planeta. Lá a bandeira seria apenas um pedaço de pano retorcido aparentemente flutuando no ar, uma imagem no mínimo muito feia e sem graça. Para contornar o problema, que é unicamente estético, foi criada uma estrutura com material meio rígido estendido, que apoiava a bandeira e simulava estar tremulando. Nada demais.

Os conspiracionistas agarram-se a questões primárias, que não compreendem, para atacar a veracidade da alunissagem da Apollo 11. Alardeiam que há várias incoerências nas sombras que aparecem nas fotos tiradas da Lua. Entre suas perguntas mais constantes, está: se há somente uma fonte de luz – o Sol –, como pode haver sombras em várias direções diferentes? Bem, o fato é explicado da mesma forma como vemos que a Lua é visível para nós à noite. Se sua superfície não refletisse a luz solar que recebe – e reflete bastante –, nosso satélite natural seria somente uma mancha escura ocultando as estrelas. Além disso, a superfície da Lua é totalmente irregular, espalhando a luz que recebe em diversas direções, causando assim os diversos efeitos de sombra que vemos nas fotos publicadas.

Marcas de pouso e pegadas — Nesta linha de abordagem estão também dúvidas quanto ao módulo lunar, a parte da Apollo 11 que efetivamente pousou na Lua. Se ele tinha um peso enorme e um propulsor com uma potência correspondente, por que não deixou nenhuma marca mais profunda na superfície da Lua, como seria de se esperar? A explicação para este fato pode ser encontrada no seguinte exemplo: quando uma pessoa vai estacionar seu carro numa garagem, ela não entra porta adentro a uma velocidade de 100 km/h, como faria o veículo se estivesse numa rodovia. O motorista vai desacelerando e entra bem devagar na garagem, numa velocidade compatível com o tamanho da edificação e que lhe permita fazer um ajuste em sua posição antes de parar na vaga e desligar o motor. O mesmo aconteceu com o módulo lunar: ao chegar a uma determinada altitude da superfície da Lua, ele foi desacelerando aos poucos até pousar suavemente sobre o solo, atraído somente pela fraca gravidade do satélite. E não deixou marcas maiores devido às características peculiares do terreno lunar.

crédito: Cortesia NASA
Todas as espaçonaves das missões da NASA, antes do ônibus espacial, faziam seu retorno à Terra com aterrissagem no mar, como no caso ao lado, a chegada dos astronautas da Apollo 11
Todas as espaçonaves das missões da NASA, antes do ônibus espacial, faziam seu retorno à Terra com aterrissagem no mar, como neste caso, a chegada dos astronautas da Apollo 11

E se o módulo lunar é motivo para suspeita, o jipe usado pelos astronautas para se locomoverem na Lua é ainda mais. Argumentam os detratores da NASA que há incongruências quanto às marcas deixadas pelo veículo. As suspeitas giram em torno tanto da ausência como da presença das trilhas do jipe, e também aludem para o fato de que as pegadas dos astronautas são aparentemente mais profundas do que as marcas do carrinho. A confusão ocorre por uma série de razões. Primeiro, quanto à ausência dos rastros de pneus, notada em muitas fotos, é importante que se diga que em várias imagens eles não aparecem por terem sido desfeitos no meio de uma profusão de pegadas dos astronautas em volta do veículo. A ausência das marcas de pneus também pode se dar simplesmente devido ao ângulo em que as fotos foram tiradas e as características reflexivas da superfície lunar, que vão do claro para o escuro muito rapidamente, e assim tendem geralmente a saturar ou esconder detalhes nas fotos.

Outros adeptos das teorias conspiratórias vêem um problema grave na presença de marcas de pneu do jipe. Argumentam que o solo lunar é muito fino e não possui umidade, e assim o jipe não poderia deixar marcas, como um automóvel também não deixaria sobre um terreno de areia seca. Mas a falta de umidade não pode ser vista como um obstáculo ao estabelecimento de marcas. Especialistas explicam que o solo lunar tem características próprias e uma composição peculiar, e que a areia lunar tende a grudar em tudo o que toca, inclusive em si mesma. Por isso, permitiria que o jipe marcasse seu traçado.

Fotos em condições extremas — Um ponto sempre levantado pelos mesmos céticos quanto à chegada na Lua, para negar o feito da NASA, é o de que, em vários momentos e diversas fotografias tiradas no solo lunar, há diferença entre a profundidade das pegadas dos astronautas e a das marcas das rodas do jipe. Os conspiracionistas vêem nisso mais um sinal de embuste por parte da Agência Especial, mas se enganam completamente. É que devido à fraca gravidade lunar não é possível a um ser humano andar lá da mesma maneira como fazemos aqui na Terra. Os astronautas se movem na Lua dando pulos ora maiores, ora menores de um lugar para outro, e por isso pisam com mais força contra o solo vez ou outra, ocasionando pegadas mais ou menos profundas. Por outro lado, o jipe lunar tem peso suficiente para se manter “preso” ao chão, e assim deixar marcas mais constantes e semelhantes. É interminável o repertório dos céticos e conspiradores. Até mesmo as condições lunares são trazidas à tona para justificar sua descrença no feito da NASA.

Para eles, como as temperaturas na superfície da Lua vão de 130º C até -160º C, ao “meio-dia” e à “meia-noite” lunares, o filme fotográfico levado pelos astronautas teria se deteriorado com a temperatura. Como é que conseguiram tirar fotografias na Lua em condições tão rígidas, argumentam. Eis aqui um questionamento interessante. Para compreender a resposta, devemos primeiro lembrar que não há atmosfera na Lua, e que nosso conceito terrestre de temperatura ambiente não existe por lá. Aqui na Terra, em nossa atmosfera, a energia oriunda do Sol e do calor dos objetos é espalhada de maneira uniforme entre as moléculas dos gases que nos rodeiam, gerando uma temperatura mais ou menos constante à nossa volta. Mas como na Lua não há gases interagindo com os corpos, as temperaturas vão de um extremo ao outro sem uma graduação. Se expuséssemos uma superfície de cerâmica ao Sol sobre a superfície lunar, ela iria ao mesmo tempo aquecer muito na parte iluminada e congelar na parte não iluminada. A temperatura na Lua é sempre superficial e transmitida somente pelos materiais que a ela estão submetidos. Então, obviamente, as câmeras fotográficas que os astronautas utilizaram em nosso satélite natural foram desenvolvidas levando-se em consideração o problema das rígidas temperaturas e obedecendo às características daquele meio. Assim, fica equacionado o problema da transferência de calor para o filme através da superfície metálica da câmera, que está sempre exposta a grandes variações de temperatura.

crédito: Cortesia NASA
Neil Armstrong, o primeiro ser humano a pisar na Lua, seria um farsante, segundo os céticos da Missão Apollo 11. Nada poderia ser mais ultrajante para esse pioneiro
Neil Armstrong, o primeiro ser humano a pisar na Lua, seria um farsante, segundo os céticos da Missão Apollo 11. Nada poderia ser mais ultrajante para esse pioneiro

Parece simples, mas não é. Isso representou um grande desafio aos cientistas e técnicos do programa espacial norte-americano, e acabou por se tornar uma interessantíssima solução de engenharia. Além do que, para garantir que não haveria problemas com os filmes usados na Lua, devido ao excesso de calor ou frio, as fotos eram sempre feitas durante o nascer ou o pôr do Sol lunar, quando a intensidade dos raios solares era menor – aliás, outro motivo pelo qual vemos tantas sombras nas fotografias das Apollo. Depois disso as câmeras, com os filmes dentro, eram guardadas em compartimentos térmicos adequados.

Para saber mais

Se o leitor ainda não está totalmente convencido dos argumentos que confirmam que o homem esteve de fato na Lua, há mais fontes que pode consultar na internet. As questões tratadas neste texto e outras menores costumam ser levantadas avançando-se sobre detalhes também cada vez menores. Veja a seguir alguns endereços onde o leitor poderá encontrar mais informações e aprender mais sobre as viagens à Lua.

Sobre o programa Alternativa 3, que gerou grande parte das suspeitas que hoje fomentam as teorias conspiracionistas: http://video.google.com/videoplay?docid=9098938544636366793&q=alternative+3

Neste endereço o especialista em ciência espacial Jim Scotti, da Universidade do Arizona, comenta as acusações dos conspiracionistas: http://pirlwww.lpl.arizona.edu/~jscotti/NOT_faked/

Para quem é muito minucioso, eis uma dezena de explicações para incontáveis pequenos detalhes não citados neste texto: www.badastronomy.com/bad/tv/foxapollo.html

Endereço da página da Wikipedia dedicada às conspirações lunares, com muitos links interessantes: http://en.wikipedia.org/wiki/Moon_landing_hoax

Excelente site da NASA com centenas de fotos, vídeos e explicações sobre as missões Apollo, imperdível para quem realmente quer entender como foi a viagem à Lua: http://spaceflight.nasa.gov/history/apollo/

Informações sobre o jipe lunar [Lunar Rover], incluindo manuais, muitas fotos e vídeos: www.hq.nasa.gov/office/pao/History/alsj/a15/a15.html

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