Por Carlos Mendes
A Rede Globo parece ter decidido atravessar mais um Rubicão — desta vez, não no terreno já conhecido do revisionismo político, mas num campo que, embora tratado com desdém por parte da grande imprensa, mobiliza há décadas pesquisadores, jornalistas independentes, militares e testemunhas civis: a ufologia.
O Caso Varginha não é um boato de rede social nem uma lenda urbana fabricada em mesa de bar. Trata-se do episódio ufológico mais investigado da história do Brasil nos últimos 30 anos, ocorrido em janeiro de 1996, com repercussão internacional, documentação abundante, laudos médicos, registros militares, testemunhos convergentes e uma cronologia que jamais foi desmontada de forma convincente.
Durante essas três décadas, o caso foi analisado por jornalistas experientes, por ufólogos respeitados no Brasil e no exterior, e até por integrantes das Forças Armadas que, fora do ambiente controlado das grandes redações, confirmaram participação direta nos acontecimentos.
Agora, a Globo resolve “revisitar” o caso — não para aprofundá-lo, mas para desconstruí-lo. E o faz de maneira sintomática: ouvindo fontes que, 30 anos atrás, investigaram seriamente o episódio, mas enquadrando seus depoimentos sob uma narrativa prévia de negação; e, sobretudo, dando palco a militares que afirmaram no passado ter visto e participado da captura de um ser não humano, mas que agora, convenientemente sob anonimato, ou ameaça do próprio meio militar, dizem que nada daquilo aconteceu, que se enganaram, que exageraram, que “interpretaram mal”.
Esse ponto é crucial. O anonimato, que deveria servir para proteger denunciantes e revelar verdades incômodas, aqui é usado como escudo para desdizer o passado, sem risco, sem confronto, sem responsabilidade histórica. O espectador é convidado a aceitar que homens treinados, acostumados a operar sob pressão, a reconhecer situações de risco e a relatar fatos com precisão, simplesmente “se confundiram” — e que essa confusão durou décadas, atravessou livros, entrevistas, relatórios e só foi dissipada agora, diante das câmeras da Globo.
É o mesmo método que marcou o revisionismo político da emissora: reescrever a história sem fazer autocrítica, deslocar responsabilidades, relativizar fatos, enquadrar versões convenientes ao presente e fingir que o passado sempre foi como agora se diz que ele foi. No campo político, essa estratégia custou caro. A Globo, que apoiou o golpe de 1964, que silenciou sobre a ditadura, que manipulou eleições e narrativas, passou décadas tentando “explicar” sua própria história — e acabou afundando num descrédito generalizado, especialmente fora do seu público cativo.
Na ufologia, o risco é ainda maior. Porque, diferentemente da política, onde narrativas concorrentes se anulam aos olhos de parte do público, o Caso Varginha resiste ao tempo justamente porque nunca foi devidamente explicado. O Exército nunca apresentou uma versão técnica plausível para a movimentação atípica de tropas. O laudo do médico que atendeu um militar contaminado jamais foi esclarecido. O destino dos supostos corpos, vivos ou mortos, nunca foi oficialmente informado. E os documentos prometidos, quando liberados, vieram incompletos, rasurados ou irrelevantes.
Ao optar por “detonar” o caso, a Globo não o enterra — apenas reforça a suspeita de que há algo a esconder. O revisionismo ufológico, assim como o político, funciona como uma faca de dois gumes. De um lado, tenta reafirmar a autoridade da emissora como guardiã da “versão correta” dos fatos. De outro, expõe sua fragilidade: se o caso fosse realmente uma farsa, não precisaria ser reescrito trinta anos depois, nem depender de depoimentos anônimos que negam o que antes afirmavam com nome, patente e contexto.
A Globo parece não perceber que o mundo mudou. O monopólio da narrativa acabou. Arquivos circulam, entrevistas antigas ressurgem, contradições são comparadas em minutos. Ao atacar o Caso Varginha com a mesma lógica com que tentou recontar sua própria história política, a emissora corre o risco de afundar de vez o que restava de sua credibilidade, não apenas entre ufólogos, mas entre todos aqueles que já aprenderam a desconfiar de versões tardias, limpas demais, convenientes demais.
No fim, a pergunta que fica não é se houve ou não um ser capturado em Varginha. A pergunta é outra — e muito mais incômoda para a Globo: por que reabrir o caso agora, para negá-lo, e não para esclarecê-lo de verdade? Quando o revisionismo vira método, a dúvida deixa de ser exceção e passa a ser regra. E, nesse jogo, a emissora parece ter esquecido que confiança, uma vez perdida, raramente é recuperada.
O Pará e o Chupa-Chupa: casa de marimbondos
Some-se a isso um risco ainda maior — e talvez mais revelador — que o revisionismo ufológico da Globo passa a carregar: nada impede que a emissora aplique o mesmo método ao caso mais emblemático da ufologia mundial ocorrido no Brasil, aquele que extrapolou o campo do testemunho civil e obrigou o Estado brasileiro a agir oficialmente. Trata-se das aparições de luzes na Amazônia entre 1977 e 1978, fenômeno presenciado por dezenas — talvez centenas — de pessoas, sobretudo em comunidades ribeirinhas do Maranhão e do Pará, onde objetos luminosos desciam do céu, perseguiam moradores, atacavam indivíduos, sugavam-lhes o sangue por meio de feixes de luz e os deixavam desfalecidos, anêmicos e aterrorizados.
Esse episódio não é folclore, tampouco delírio coletivo. Ele entrou para a história como o único caso ufológico no mundo investigado oficialmente, de forma sistemática e prolongada, pelas três Forças Armadas brasileiras — Aeronáutica, Exército e Marinha — resultando na célebre Operação Prato.
Houve relatórios, fotografias, desenhos técnicos, depoimentos médicos, prontuários hospitalares, interrogatórios formais e acompanhamento direto da população afetada. O então capitão Uyrangê Hollanda, da Aeronáutica, rompeu o silêncio décadas depois, concedendo entrevistas detalhadas, descrevendo perseguições aéreas, inteligências por trás dos objetos e o pânico real vivido pelas comunidades. Pouco depois dessas revelações, ele morreu — oficialmente por suicídio — num desfecho que só aumentou as suspeitas em torno do caso.
O paralelo com Varginha é inquietante. Assim como no episódio mineiro, a Operação Prato acumulou testemunhas qualificadas, documentação estatal e contradições jamais resolvidas. E, assim como agora, nada impede que a Globo, no futuro, resolva “revisitar” esse capítulo da história brasileira sob a mesma lógica: relativizar relatos, reinterpretar documentos, entrevistar militares sob anonimato para desdizer o que está registrado, sugerir histeria coletiva, erro de percepção, ignorância científica ou simples medo do desconhecido.
Se isso ocorrer, o estrago será ainda maior. Porque Varginha, por mais investigado que seja, ainda permite à grande mídia alegar lacunas, falhas ou controvérsias. A Operação Prato, não. Ela é um fato histórico incontornável: houve uma operação militar oficial, com nome, comando, orçamento e arquivos produzidos pelo próprio Estado brasileiro. Revisioná-la seria, na prática, colocar sob suspeita não apenas testemunhas civis, mas as próprias Forças Armadas — algo que a Globo, curiosamente, sempre evitou fazer quando o tema não lhe convinha.
É aí que o revisionismo ufológico se revela definitivamente como uma faca de dois gumes. Ao tentar desmoralizar casos consagrados, a emissora não se apresenta como cética ou rigorosa, mas como seletiva, escolhendo o que deve ser lembrado, esquecido ou reinterpretado conforme interesses editoriais, alinhamentos institucionais ou simples conveniência narrativa. O público percebe. Os arquivos permanecem. As entrevistas antigas existem. Os documentos vazam. A memória não se apaga com uma edição caprichada ou uma reportagem “definitiva”, com um analista no estúdio que se coloca como um juiz para afirmar que nada aconteceu, do alto de sua sacrossanta ignorância.
No fim das contas, a Globo corre o risco de repetir na ufologia o mesmo erro que cometeu na política: achar que controla o passado. Não controla. E quanto mais tenta reescrevê-lo, mais evidencia suas próprias contradições. Varginha e a Operação Prato não são apenas enigmas sobre objetos voadores não identificados; são testes de credibilidade para quem se propõe a contar a história. E, nesse teste, o revisionismo — seja político, seja ufológico — costuma reprovar quem o pratica.
Carlos Mendes é jornalista profissional e autor do livro “Luzes do Medo – Relatos de um Repórter na Operação Prato”. É também membro da Comissão Brasileira de Ufólogos (CBU).


