
Em 13 de janeiro de 1996, o sul do Estado de Minas Gerais voltou a concentrar o rastreamento do espaço aéreo brasileiro. O país ainda não possuía o sistema de satélites que tem hoje e precisava contar com a confirmação cruzada de vários centros de radares para detectar UFOs na região. Os acontecimentos que se sucederiam durante quase toda a semana iniciada naquele dia fazem supor que o local pode ter sido alvo dessa concentração dos sistemas de defesa também noutras ocasiões. Sabe-se que, por razões jamais compreendidas, a não ser pelas superficiais conclusões tiradas por F. Lagarde e Aimé Michel, durante as décadas de 50 e 60, lugares assim são misteriosamente preferidos e apresentam um índice incomum de aparições de objetos voadores não identificados. E não identificados para todos, nos dizeres do saudoso astrofísico Joseph Allen Hynek, como resultado de menos de 10% dos registros, tidos como manifestação real de um fenômeno ainda desconhecido, após as devidas análises que concluam pela maioria de observações de ocorrências naturais e artificiais pouco familiares a observadores desavisados.
Vigias de empresas privadas, trabalhadores em turnos noturnos, viajantes e diversas outras pessoas observaram que entre Três Corações e Varginha, distantes entre si cerca de 30 km, uma movimentação incomum de viaturas do Exército ocorria pelas rodovias. Ora em caminhões de transporte de tropas, ora em jipes, grupos de soldados armados iam e vinham de Três Corações a Varginha, inclusive em duas ou três viagens num único dia. Soube-se posteriormente que no meio rural de cidades como Itajubá, Pouso Alegre e Lavras, também no sul de Minas Gerais, cidadãos teriam observado animais incomuns até à beira da estrada. Um político tradicional de Itajubá teria observado, com a esposa e filhas, uma espécie de macaco parado próximo a um abrigo e acelerou o automóvel, espantado, quando o veículo se aproximou do animal.
Essas observações não encontraram confirmação em testemunhos e ficaram isoladas nos depoimentos de seus únicos protagonistas, que podem ter sido influenciados pela grande comoção que a imprensa gerou em torno do Caso Varginha – mesmo que tais pessoas garantam que presenciaram essas supostas criaturas cerca de uma semana antes do dia 20 de janeiro de 1996, data que marcou o caso. Na mesma semana, um médico quase capotou seu automóvel quando algo parecido com “um objeto retangular, com bordas ovaladas” apareceu subitamente sobre o veículo, emitindo luz intensa e calor, ofuscando-o, na estrada asfaltada que liga Três Corações ao trevo da Rodovia Fernão Dias que dá acesso a Varginha.
Alteração e treino militar
Em 16 de janeiro daquele ano, uma terça-feira, os moradores do bairro de Três Corações onde se instala a Escola de Sargentos das Armas (ESA), um dos orgulhos do Exército brasileiro, ficaram sem entender por que, surpreendentemente, três holofotes de rastreamento aéreo funcionaram durante toda a noite, vasculhando os céus da cidade. Não seria a primeira vez que, a contragosto, a ESA estaria envolvida, involuntariamente, numa ocorrência de aspectos ufológicos, pelo menos supostamente. Em 16 de agosto de 1962, algo paralisara um soldado que tirava guarda à noite, dentro de suas próprias instalações, às margens do Rio Verde. Alguém que trabalhara na própria Escola, em setor burocrático e de informações, conseguiu acesso ao registro da época, dando conta de que, por cautela, a unidade teria transferido, na manhã seguinte, toda sua munição pesada para a circunscrição militar de Itajubá, por causa daquela “alteração”, na linguagem militar.
Também naquela peculiar semana encerrada em 20 de janeiro de 1996, alunos e oficiais que desenvolviam exercícios e manobras de combate no lugar denominado Atalaia, em Três Corações, sofreram a intrusão de um objeto brilhante que, em vôo rasante, provocou um dos maiores alvoroços de que se tem notícia durante um treinamento daquele tipo. O início da semana, porém, talvez tenha sido mais movimentado e espantoso do que se possa supor. É o que garante o piloto de ultraleve e empresário Carlos de Souza, que se reuniria em Três Corações com colegas para combinar uma exibição de vôo noutra cidade. Vindo de São Paulo pela Fernão Dias, avistou um artefato alongado, aparentemente avariado, passando a seguí-lo pela estrada até que desapareceu a baixa altitude, por detrás de morros, não retornando.
Imaginando tratar-se de um acidente aéreo, apanhou uma estrada vicinal e encontrou vários militares em operação de busca, coletando escombros de alguma coisa acidentada. Um pedaço maior do objeto era colocado por um guindaste sobre a carroceria de um caminhão do Exército e no local havia um fortíssimo cheiro de amoníaco, misturado com um “odor de água podre”, segundo Souza. Ali se encontravam também um helicóptero e uma ambulância. A testemunha apanhou um pequeno pedaço semelhante à folha de alumínio, que, após dobrada, retornou à forma original, lisa, como se fosse “muito polida”. Firmemente repreendido pelos militares, deixou apressado o local. Naqueles dias, a ESA teria recebido a visita de militares que desceram em seu pátio a bordo de um helicóptero do Exército. Mas, surpreendentemente, esses homens trajavam uniformes da Força Aérea Norte-Americana. Tudo transcorria estranhamente, até que, entre 20 e 22 de janeiro, ocorreram em Varginha fatos envolvendo o avistamento de um estranho ser por três garotas, a captura de uma criatura desconhecida pelo Corpo de Bombeiros e, posteriormente, de outra por dois policiais.
Similaridades com Roswell
Entrementes, passamos a receber relatos da condução de um dos seres ainda vivo para a ESA e a retirada do Hospital Humanitas, também em Varginha, do cadáver de outro. Estes são os fatos principais do enredo já tão conhecido. Mas ocorrências paralelas como as até aqui citadas foram e são pouco comentadas. Contribuem, no entanto, para toda a controvérsia que se firmou em torno do caso, desde a sua divulgação. Muitas delas representam contradições, outras podem demonstrar apenas a influência da força dos boatos. Em suma, mostram que casos desse tipo são ricos para qualquer tipo de análise, não apenas sob os interesses da Ufologia, mas notadamente da sociologia e da psicologia.
Por outro lado, complicam a história de tal forma que acabam por constituir um complexo enredo, em que é preciso isenção e o máximo de atenção. Ou representam até a objetividade de acontecimentos reais, disfarçados ou obscurecidos pelo comportamento precipitado do próprio pesquisador. Ou se age adotando como verdadeiro um depoimento desses, sem critério e imparcialidade, ou, ao contrário, se descarta o mesmo em virtude de um raciocínio popular, com o mes
mo extremo risco de equívoco. Sobre o depoimento do piloto de ultraleve, por exemplo, muitos pesquisadores preferiram classificá-lo como inverídico, pela sua semelhança com o “material que retomava a forma”, que tanto marcou o Caso Roswell, passado em julho de 1947, nos Estados Unidos. Ao se partir para um raciocínio tão superficial a contra argumentação poderia vir em mesmo nível de singeleza – se um suposto disco voador caíra em Roswell, naquele ano, e se compunha de um material com tal característica, que também faria parte de outro UFO acidentado em Três Corações, em 1996 –, seria óbvio que a testemunha observasse idêntica propriedade naquele material. Como poderia ser óbvio que estivesse copiando o caso norte-americano, apenas para ter o gosto de fazer parte do enredo do caso mineiro?
A pesquisa do Caso Varginha está bastante adiantada e é permeada de informações sólidas e consistentes, que nos garantem certeza sobre boa parte do que ocorreu. Mas ela está longe de acabar e, ao contrário, precisa ser continuada e ampliada, sempre com o uso de bom senso e muita metodologia
– Ubirajara Rodrigues
Estes comentários inspiram-se nos aspectos de comportamento que são, paralelamente, uma rica fonte também oferecida pelo Caso Varginha. Comportamento não apenas do público em geral, dos habitantes das cidades envolvidas, mas principalmente dos próprios ufólogos, essa classe de pioneiros que se dedica a um fenômeno fascinante, por vezes excessivamente fascinados. Das centenas de artigos, sites na Internet, comentários, críticas, dos dois livros que já foram publicados sobre o caso etc, pode-se desconfiar que a grande maioria dos ufólogos pouco aproveitou. Muitos, atentos exclusivamente a fatos isolados, veiculados pela imprensa, deixam de se aprofundar nas informações oferecidas pelas fontes diretas da investigação. E, então, adotam um dos extremos – ou aceitam sem espírito crítico, ou negam também sem critério e atenção.
Este artigo tem, pois, a breve finalidade de destacar algumas afirmações e fatos paralelos, apenas para ilustrar que, num estudo de caso, não se pode restringir à observação do que foobjeto de sensacionalismo, de destaque. É em virtude desse comportamento que muitos ainda acham que as afirmações dos pesquisadores diretos do caso são fundadas apenas no depoimento de três garotas, que teriam avistado uma criatura que lhes parecera estranha, por menos de 10 segundos, e saíram correndo apavoradas. Que toda uma história complexa possa ser resumida na “aparição de animais enviados por extraterrestres”, como a eles se referiu um importante ufólogo brasileiro, ou, antes, que tudo não passava de “aberrações genéticas de laboratório que escaparam”, segundo outro estudioso.
É indispensável que todas as nuances de um evento como este sejam consideradas, sem desprezar depoimentos não referendados por outros, ainda que aparentem somente a aventura de interesseiros e o delírio de fantasistas. Em Ufologia, e por vezes até entre os detratores dela, parece haver o pouco esforçado costume de se considerar como ciência apenas as disciplinas ditas naturais, as exatas, como as que exigem a comprovação material por dissecação ou análise em laboratório e por instrumentais. Como se a prova testemunhal não o fosse, mas se tratasse de algo inválido. Este equívoco pode ser atribuído à ignorância dos que não têm experiência ou conhecimento suficientes para uma calma e profunda análise de depoimentos, como se faz na técnica forense. Tal como, ao inverso, procedem os ignorantes em física, química e biologia, enfim, que não têm condições de valorizar a prova material. Complica-se mais o estudo quando entram em jogo, da mesma forma, a dicotomia e os extremos de teorias de explicação fácil.
Incidentes extraordinários
Por exemplo, enquanto qualquer tipo de fato possa significar apenas o efeito de boatos, gerados por espanto e superstição, não é garantido que todos os fatos que ocorrem sejam somente frutos de rumores. Aqui vem à tona a comentada mania de conspiração, que parece escolher os ufólogos nos últimos 20 anos, principalmente porque inspiram filmes e seriados de televisão e cinema. Só não se usa essa hipótese para explicar as constantes conspirações de que vive a política, o comércio, as guerras e até as ciências, que trabalham com sigilo e disfarce de suas intenções e projetos, até que se chegue aos efeitos almejados. Quando, entretanto, a Ufologia argumenta a existência do acobertamento militar e governamental de ocorrências, isto só pode ser um transtorno enfeitado por fantasias. Não se negue, por outro lado, que nem os ufólogos lograram demonstrar quais seriam as verdadeiras razões desse sigilo, da negação sistemática de fenômenos ufológicos por parte de forças armadas e governos.
Em O Caso Varginha, obra que publiquei pela Coleção Biblioteca Ufo, comentei que seguramente não se sabe de tudo o que se passou em Varginha naqueles dias de 1996. Nem de como as coisas aconteceram no interior dos hospitais para onde as criaturas foram levadas. Pelas dezenas de testemunhas oculares que temos arrolado, uma intensa operação tomou conta dos setores envolvidos em questão de 48 ou 72 horas, após as capturas. Posteriormente, o que surgisse mostraria que os incidentes foram muito mais complexos e extraordinários do que se poderia supor. Que tipo de autoridade teria interferido direta ou indiretamente num processo de abafamento quase totalmente eficaz, a ponto de conseguir o silêncio de um sem número de pessoas, profissionais e autoridades, mesmo que muitos resolvessem logo que o sigilo seria no mínimo injusto? Quais os subterfúgios, os meios utilizados para impor tal convencimento?
Possivelmente, razões de ordem estritamente subjetiva e pessoal tivessem sido evocadas para silenciar tais cidadãos ou argumentos do tipo “evitar-se um pânico geral e a revolução não gradativa de princípios religiosos e científicos”. Tudo unindo-se a uma espécie de incentivo dessas pessoas envolvidas. Por certo, essa tranqüilidade provocada tenha deixado em todos uma sensação de importância, que propiciou seu silêncio. E talvez uma suposição como esta seja mais aceitável do que acreditar que cidadãos tenham sido desrespeitosa e ilegalmente coagidos.
Eis o que se insinua até aqui. Casos ufológicos podem parecer extraordinariamente inaceitáveis em suas bases, ou seja, a ocorrência do próprio fenômeno como tal. Porém, não se deve buscar nos seus enredos, com pensamento pré-concebido, fatos isolados que possam ter a mera aparência de fantasiosos, quando se bem observados talvez representem, com coincidências curiosas, passagens verdadeiras que posteriormente inspiram a ficção. Não ao contrário, como alguns adeptos de explicações fáceis preferem. V
eja-se o exemplo do antigo mito dos Homens de Preto [Do inglês Men in Black ou MIB], que em suma seriam agentes de inteligência que perseguiriam testemunhas de casos ufológicos, hoje confundidos pelos mais jovens com personagens de comédias cinematográficas ricas em efeitos especiais, a ponto do mito ter sofrido transformação para figuras que perseguem extraterrestres. O Caso Varginha não escapou dessa lenda da Ufologia. Como se sabe, a mãe das três garotas (as testemunhas civis mais conhecidas), dona Luísa Helena, recebera a visita de homens que insistiam pela retratação pública delas. Não se divulgou tanto que, tempos depois, os tais MIBs teriam retornado. Propositalmente, em O Caso Varginha essa volta foi usada para destacar a possível naturalidade dessa visita, em vez de ser considerada tão enigmática ou fantasista.
Personagens misteriosos
18 de janeiro de 1997. Dona Luísa teve de permanecer até as duas da manhã no emprego, para que sua patroa cumprisse um compromisso social. Ao ir para casa, estava sem dinheiro para apanhar um táxi. Desceu a Avenida Rio Branco, no centro de Varginha, pretendendo percorrer todo o restante da praça central, passando pelo lado direito da Igreja Matriz, para apanhar o longo percurso que a levaria até seu bairro. Não havia ninguém na rua. Raramente passava um ou outro carro. Um automóvel de cor preta aproximou-se devagar, dirigido por um homem e trazendo um outro no banco de trás. Pararam e não ofereceram, mas disseram imperativamente que iriam lhe dar uma carona. Assustada, olhou para os lados para ver se algum fortuito transeunte poderia lhe servir de escudo contra aquela gentileza preocupante. Não houve alternativa. O motorista saiu do automóvel, abriu a porta e aguardou, com olhar frio, que ela entrasse. Com o coração disparado e começando a suar, dona Luísa reconheceu seu benfeitor: era o líder dos quatro visitantes de antes, que haviam comparecido à sua residência.
O automóvel tomou o rumo do Bairro da Vargem, saindo da cidade. Com menos de um quilômetro de estrada de terra, parou próximo a uns arbustos. Estava escuro e sem Lua. O motorista acionou uma luz lateral na parte interna da capota. “A senhora nos conhece, está lembrada de mim? A gente já esteve na sua casa. Jamais vamos fazer algum mal para a senhora”. O cidadão do banco de trás não pronunciou uma palavra. Ambos trajavam terno escuro, aparentemente de cor preta, e estavam engravatados. Estacionaram no pequeno mato logo após o término do asfalto. O local é fácil de ser identificado. “Fique calma, que a gente não vai fazer nada com a senhora. Queremos pedir segredo, mas daquela vez a senhora acabou conversando com os ufólogos, foi para a imprensa. Não sei porque, mas a senhora acabou falando, precipitou-se. Agora, a gente vai falar mais a sério com a senhora, pode ficar tranqüila e confiar na gente”.
É óbvio que o insistente MIB desejava, a todo custo, convencê-la a se sujeitar a um plano de reconsideração do que ela e as filhas tinham afirmando publicamente. E o fazia utilizando-se de uma mansidão destinada a convencer uma modesta cidadã. Eles pediam para que ela e as meninas dessem um depoimento renunciando a tudo que já haviam declarado, “que tudo não tinha passado de uma brincadeira que assumiu proporções muito grandes”. Para que dona Luísa ficasse mais tranqüila, prometeu aquele senhor que tal entrevista seria gravada na própria cidade de Varginha, num local discreto e previamente preparado. Para tanto, as três garotas afirmariam que haviam fantasiado o que viram, confundido, por exemplo, um amigo que se vestira estranhamente com a finalidade de assustá-las, algo assim.
Uma retratação impossível
Os homens garantiram que o dinheiro que elas receberiam valeria a pena. “E vocês dirão que foram os ufólogos que afirmaram que se tratava de um ser de outro planeta”. Excelente sugestão do MIB, caso fosse inteligente. Porque, ao que tudo indicava, não era muito afeto a uma boa tática usada por serviços de inteligência. Era público e notório que as garotas jamais afirmaram ter avistado um ET, um extraterrestre ou habitante de outro planeta. Os MIBs realmente trajavam preto, ou um terno bem escuro, como convém a tantas outras classes. O da frente acionou novamente a lâmpada do teto e apanhou duas fotografias no console de trás, no meio dos bancos. “Olhe isto, para a senhora confiar na gente”. As fotografias estavam copiadas em papéis de tamanho ofício, uma vertical e outra horizontal. Numa delas havia uma criatura deitada, aparentemente morta, com caroços grandes como pelotas na cabeça. A foto foi tirada de lado, com a lateral direita da criatura visível, de corpo inteiro. Ela possuía três dedos compridos, muito grandes, pernas muito finas e pés enormes. O braço estendia-se até bem abaixo do joelho. Estava sem roupas.
A outra foto mostrava uma criatura idêntica de pé, aparentemente viva, com olhos saltados e vermelhos, arregalados e de lábios muito finos, esticados anormalmente para os lados, como se a boca se estendesse. Parecia encostar-se numa parede de tijolinhos, sem reboco. Segundo o interlocutor, o ser deitado achava-se embalsamado. “Este, de pé, está vivo. Quero que a senhora olhe bem para ver”. Pediu mais uma vez que confiasse. Dona Luísa ainda suplicou: “Se eu resolver tomar a decisão de levar minhas filhas isso vai pegar mal para todos, porque o que viram é a pura verdade. Por que vocês não jogam limpo, se tudo isso é verdade, gente?” Seu interlocutor foi preciso na resposta: “Olhe, a senhora está fazendo muita pergunta. Quem faz perguntas aqui somos nós”.
Olhos saltados e vermelhos
Dona Luísa insistiu em saber sobre quem e de onde eram, por que insistiam em esconder os fatos etc. Não lhe responderam. Há, no entanto, um detalhe extremamente importante no diálogo mantido. Por várias vezes, afirma a mãe das garotas, ela teria implorado para que a deixassem ir. Em tais ocasiões utilizara a expressão “pelo amor de Deus!” Aí, sim, ocorreu uma reação de tom mais hostil, por parte daquele homem. “Pare de falar ‘pelo amor de Deus’ toda hora! Chega de falar pelo amor de Deus, confie em mim”, exigiu o interlocutor, o que demonstrava estranha, curiosa, inespera
da e visivelmente sintomática reação de um agente secreto. Após ter sido bastante incisivo em determinar que parasse com aquele tipo de súplica, continuou insistindo pela ida das meninas para “fazer uma entrevista conosco, só isto, não queremos prejudicar”. E que para tanto pagariam em dólares.
Certamente, aqueles homens mostravam as fotos para que ela percebesse que, se as criaturas chegassem a ser descobertas, isso viraria pânico. Dona Luísa, que pretendia livrar-se o mais rápido possível daquela situação, forneceu o telefone da residência onde trabalhava como doméstica e prometeu falar novamente com as filhas. Disse posteriormente que achava os visitantes muito chiques, vestindo-se bem. “É gente preparada, rica, pelo que se nota, de ótima posição”. Ao final da conversa, deixaram-na relativamente longe de casa, tendo ela que subir toda uma avenida a pé, após atravessar uma longa via asfaltada que lhe dava acesso. Já era por volta de cinco da manhã. Pelo visto, a insistência durara cerca de três horas. Posteriormente, foram exibidos por ufólogos vários desenhos e interpretações artísticas para que ela pudesse comparar com o que observara nas fotos mostradas pelo MIB preocupado com expressões de cunho religioso. Nada era parecido.
Agentes moralistas
A existência da foto horizontal mostrando uma criatura deitada é de suma importância. O muro de tijolinhos e sem reboco, da mesma forma. Durante a repercussão do caso, inúmeros desenhos, alguns tridimensionais e confeccionados por excelentes profissionais, correram o mundo, retratando sempre um ser à frente de um muro. Isso porque o avistamento das três garotas acusa a existência de um muro de tijolos a que se encostava a criatura. A possibilidade de terem sido mostrados desenhos àquela senhora é perfeitamente plausível. Homens de Preto? Agentes secretos? Militares? Agentes de instituições moralistas? Como instituições, e como moralistas, poderíamos encontrar muitas. Depende do sentido amplíssimo que se possa dar ao conceito de moralista.
Certo dia, voltando para casa tarde da noite, um automóvel de cor preta com dois homens aproximou-se de mim devagar. Disseram imperativamente que iriam me dar uma carona. Não houve alternativa. O motorista saiu do automóvel, abriu a porta e aguardou, com olhar frio, que eu entrasse. Tentaram me silenciar
– Luísa Helena da Silva
Mas aquela segunda abordagem, mais incisiva que a primeira, ainda não surtira o efeito desejado. O tal serviço de inteligência teria entrado em desespero e resolvera tentar uma última cartada, o que não parece ser método habitual de algum órgão desse tipo. O mesmo cidadão, o único que interpelou dona Luísa em ambas as ocasiões, de fato resolveu procurar sua patroa – e de dia! À época, sua empregadora era uma bacharela em direito, pessoa culta e de respeito, ainda hoje funcionária de importância no Fórum de Varginha. Duas semanas após a última abordagem de Luísa, tal cidadão procurou-a para que ajudasse a conversar com sua empregada e a levar suas filhas para “esclarecerem” tudo. E prometeu voltar, o que não fez até hoje.
Vários e importantes detalhes constam dessa aventura da mãe das garotas com aqueles desconhecidos – sinais de que não se tratavam nem de agentes secretos, militares ou de sinistros perseguidores de testemunhas ufológicas. Tais detalhes levaram inúmeros interessados e pesquisadores a indagar o autor desse artigo se em seu livro O Caso Varginha, onde havia a insinuação de que se tratavam de membros de algum tipo de instituição religiosa, se isso se confirmasse. Sim, esta foi claramente minha insinuação na obra, uma hipótese que conta agora com uma série de dados que a podem referendar. No entanto, esse é um assunto que merece melhor e mais minucioso detalhamento no futuro.