
O primeiro contato com visitantes de uma civilização extraterrestre, um dos eventos mais aguardados e sem dúvida algo que será o fato mais importante da história, já foi retratado incontáveis vezes nas produções de Ficção Científica. Tal contato em várias obras é apresentado como hostil, uma ameaça a toda nossa espécie. Em outras, pelo contrário, o contato acontece de forma amistosa. Aqui iremos falar de três diferentes produções, cada uma com abordagens distintas para essa situação, que em nossa realidade, alguns crêem como bem próxima.
O Dia em que a Terra Parou — Na década de 1950, enquanto se viviam os primeiros anos da Guerra Fria entre Estados Unidos e União Soviética, eram comuns produções de Ficção Científica de baixo orçamento, exibindo alienígenas horrendos sempre as voltas com planos de conquistar a Terra e destruir a humanidade. É praticamente consenso que tais extraterrestres eram uma paródia do “perigo vermelho” representado pelo comunismo. Esse período é famoso pela caça a supostos comunistas, empreendida pelo senador norte-americano Joseph McCarthy, no momento que ficou conhecido como macartismo. Vários artistas e produtores de Hollywood foram convocados ao Congresso norte-americano para explicar suas convicções ideológicas. Bastava apenas uma suspeita pouco fundamentada ou recusa em cooperar, para a pessoa ser acusada como subversiva ou comunista. Muitos perderam seus empregos e viram suas vidas destruídas dessa forma. E foi precisamente nessa época, em 1951, que foi produzido o filme O Dia em que a Terra Parou, de Robert Wise. O diretor, anos mais tarde, realizaria também a primeira incursão de Jornada nas Estrelas ao cinema. A história começa com um objeto desconhecido, circundando a Terra a velocidade e altitude impossíveis para os jatos de então. Um clima de medo pairava no ar, enquanto a trajetória do UFO é acompanhada por todo mundo. Finalmente, com efeitos especiais impressionantes para a época, é mostrado o pouso da nave, um clássico disco voador com cúpula, em Washington. Os militares rapidamente cercam o artefato, e uma multidão se reúne para observar. O clima tenso é reforçado pelo narrador de rádio que descreve todos os acontecimentos.
Um ET e seu robô — Finalmente, uma porta se abre e surge o alienígena Klaatu. Entretanto, alarmado com um objeto estranho em suas mãos, um soldado se apavora e atira nele. É nesse momento que entra em cena aquele que talvez seja o maior símbolo do filme, o enorme robô Gort. Ele emite raios destruidores, desintegrando as armas dos militares e um tanque, antes de parar ante uma ordem do ET. Podemos ver aqui um perigo real? Suposições sempre são imprecisas, mas se pensarmos em uma nave extraterrestre realmente descendo em local público e bem conhecido de nosso mundo, é bem possível que seja de fato realizado um cerco militar, se evidentemente, lembrando o estado de paranóia atual, o UFO não for abatido antes! Será que os soldados escolhidos para a tarefa teriam os nervos de aço exigidos pela situação?
E se apenas um tivesse, vamos supor, uma formação religiosa mais rígida ou dogmática? Como reagiria, vendo os visitantes descendo da nave? Voltando a esse extraordinário filme, Klaatu é levado a um hospital e tem uma frustrante reunião com o secretário do presidente. O alien diz que viajou para trazer uma mensagem a toda a Terra, mas são infrutíferas as tentativas de conseguir que os líderes se reúnam. Nitidamente desapontado com o primitivismo dos terrenos, Klaatu foge. Boatos disseminam o medo na população.
Adotando o nome Carpenter, ele se hospeda em uma pensão, e passa a se integrar a rotina do lugar. O noticiário diz que o ET está a solta, e correm os mais absurdos boatos. Um casal ali hospedado comenta que “sabe muito bem de onde a nave veio, de um lugar da Terra mesmo”, obviamente referindo-se a União Soviética. O clima de paranóia, parodiando o medo real da Guerra Fria e do comunismo, vai se acumulando com o desenrolar da história. Klaatu faz amizade com Bobby, o filho de Helen Benson, dona da pensão. O rapaz serve de cicerone para o alienígena, e até visitam o local de pouso da nave, onde os cientistas do governo trabalhavam. O disco e Gort são feitos de um material inexpugnável, e as ferramentas terrenas nada podem fazer.
Após o insucesso em contatar os fazedores de política, Klaatu decide seguir a sugestão de Bobby, encontrando-se com o professor Barnhardt. O extraterrestre ajuda o cientista a solucionar um problema no qual trabalhava, e o mesmo lhe pede que faça uma demonstração, a fim de convencer mais rapidamente seus colegas de profissão. Klaatu vai disfarçadamente ao local onde esta a nave, programando Gort para interromper a energia elétrica em toda a Terra por uma hora. São poupados apenas aviões em vôo e hospitais. É desse momento que o filme tira seu nome. Helen fica presa num elevador com Klaatu, que lhe revela seu segredo. A partir daí, passa a ajudá-lo. Quando o alienígena é baleado pelos militares que o caçam, é ela quem vai até a espaçonave, dizer a Gort, em uma cena carregada por suspense e tensão, a famosa e misteriosa frase que marcou a produção: “Klaatu borada nikto”. O robô recolhe o corpo de alien na instalação militar para onde foi levado, e a bordo da nave o ressuscita a tempo dele se dirigir aos cientistas reunidos por Barnhardt.
Klaatu fala que o progresso da Terra e seu avanço rumo ao espaço estão sendo acompanhados por uma união de muitos mundos, que também conhecem as guerras e a agressividade das nações terrenas. O alienígena afirma que vários dos planetas anteriormente se comportavam da mesma forma, até que foi construída uma raça de robôs, da qual Gort é um representante, a fim de policiar essa confederação de mundos, inibindo qualquer agressão. O ET deixa muito claro que um expansionismo da Terra em direção ao espaço, movido de forma belicosa e agressiva, não será tolerado. “A escolha é de vocês”, encerra antes de despedir-se de Helen e Barnhardt com um gesto e embarcar com Gort na nave. O disco decola e se lança rumo ao espaço, enquanto surgem os créditos finais do filme. A grande interrogação é deixada sem resposta. Qual será nossa escolha?
Tecnologia da exploração espacial — Sem dúvida, a primeira impressão que temos ao conhecer essa impressionante história é o quanto ela se mantém atual. Por mais piegas que seja é, com certeza, necessário que nos perguntemos se a corrida espacial e o progresso tecnológico estão de fato tornand
o a vida no mundo melhor. É inegável que são ingênuas as reclamações de que os recursos investidos para lançar foguetes, satélites, naves e sondas espaciais seriam mais bem utilizados se aplicados aqui na Terra. Só podem afirmar isso aqueles indivíduos facilmente manipuláveis, que desconhecem que o que é investido hoje na exploração espacial é uma ínfima parte do que se gasta em defesa e armamentos. São inegáveis os benefícios da conquista do espaço, em termos de novas tecnologias e conhecimento. Lançamentos de artefatos cada vez mais sofisticados têm que continuar, basta lembrar das mais recentes informações obtidas pelas sondas que atualmente investigam os planetas Marte e Saturno.
É muito fácil lembrar também o imenso incentivo à educação e auto-aperfeiçoamento dado a nossos jovens e esperamos o anúncio do vôo espacial de nosso astronauta, major Marcos Pontes. Vendo que, com estudo e trabalho sério, um brasileiro conseguiu chegar à elite do programa espacial, quantos talentos promissores não se sentirão incentivados a iniciar a mesma caminhada? Quanto nosso país irá se beneficiar do conhecimento que tais pessoas irão produzir? Finalmente, voltando a essa produção clássica, sua mensagem pacifista, dentro do conceito do primeiro contato com uma civilização extraterrestre, permanece válida neste começo de século XXI. As últimas descobertas da ciência comprovam que a vida na Terra nada tem de especial, nos permitindo apoiar a conclusão de que ela é apenas uma conseqüência da evolução da matéria, uma vez que condições adequadas sejam encontradas.
Ainda estamos no começo de nossas explorações, mesmo no terreno da Ufologia. Descobrir, seja por essa via ou pela da ciência, que nossas suspeitas correspondem à realidade e que vida e inteligência extraterrestre existem, será certamente um evento cujo impacto irá superar o que O Dia em que a Terra Parou mostrou, há mais de 50 anos. A escolha permanece sendo nossa.
Contatos Imediatos — O ano de 1977 foi mesmo especial para os fãs da Ficção Científica. Star Wars explodiu nas telas de todo o mundo, inaugurando a saga que mudou não apenas o gênero, mas a própria maneira de se fazer cinema. E um outro filme que estreou nesse ano tornou-se também um marco definitivo na Ficção Científica, e também para a Ufologia. Ainda não era a época dos Estados Unidos se reconciliarem com a Guerra do Vietnã e a Guerra Fria estava no auge. Foi quando um jovem diretor chamado Steven Spielberg teve a idéia de contar uma história sobre encontros com extraterrestres, que não fosse apenas uma paródia do medo do clima político de então. Sua extraordinária imaginação o levou a criar o personagem de Roy Neary, um homem comum com esposa e três filhos, que em meio a um blecaute se vê transformado em participante de fenômenos extraordinários.
Perdido em uma estradinha rural no interior dos Estados Unidos, tentando realizar seu trabalho de eletrotécnico e ajudar a restabelecer a energia, Neary tem um contato com objetos estranhos, que disparam luzes coloridas. A cena em que ele pára sua caminhonete na estrada, e manda passar o veículo que estacionou atrás, tornou-se um clássico dentro de um clássico. Quando o “carro” começa a subir, vemos que algo muito especial está para acontecer. Neary persegue os UFOs, responsáveis pelo blecaute em sua cidade, até que estes desaparecem na direção do céu. Torna-se obcecado por sua experiência, desejando revivê-la e até envolvendo sua família na busca por respostas. A ordem dentro de casa é completamente subvertida, enquanto ele mostra os já clássicos sintomas da síndrome do contatado.
Ele acaba se envolvendo com Jillian Guiler, mãe de Barry, que também esta sendo afetada pela onda ufológica. No segundo encontro, o técnico reconhece a forma que o menino cria em barro, afirmando que a mesma persiste em sua mente, mas ninguém sabe o que significa. Em uma das cenas mais tensas da produção, Jillian vê as luzes se aproximarem de sua casa e tenta se proteger e a Barry, em vão. O garoto é finalmente levado pelos alienígenas. Enquanto isso, os problemas de Neary só aumentam. Em outro momento clássico, ele esculpe um monte de purê de batata na forma que vê em sua mente, um mistério que cresce com o desenrolar da história.
Sinais no espaço mostram a direção — O filme aos poucos vai revelando que a onda ufológica tem alcance mundial. O início acontece no Deserto de Sonora, no México, quando uma equipe encontra cinco aviões do modelo Avenger em perfeito estado de conservação. Conferindo o número dos motores, descobre-se que é a famosa Esquadrilha 19, que desapareceu em 1945 no Triângulo das Bermudas. Um navio desaparecido na mesma área surge inexplicavelmente, em pleno Deserto de Gobi, na Mongólia. Na Índia, o mesmo grupo depara-se com religiosos entoando um cântico, um conjunto de cinco notas que se repete ao longo da história, e cuja importância se revelará fundamental. A equipe é chefiada por um cientista francês, Claude Lacombe, brilhantemente interpretado pelo ator e diretor François Truffaut. Na altamente recomendável versão em DVD de Contatos Imediatos [1977], o diretor Spielberg comenta sua surpresa quando o francês aceitou participar do projeto, entusiasmado com a hist&oac
ute;ria e o personagem.
Em outra cena, estamos em uma sala de controle de vôo, e os controladores testemunham a quase colisão de dois aviões comerciais com um objeto não identificado. As tripulações recusam-se a reportar o UFO, e todos confessam não saber o que escrever em seus relatórios. Certamente, uma ocasião que traz aspectos bem conhecidos aos pesquisadores da casuística ufológica. Neary e Jillian encontram-se novamente em uma audiência que ocorre em um prédio governamental, quando a Força Aérea Norte-Americana dá seu parecer sobre o assunto. Entre o desespero de uma mãe atrás do filho, mais as infelizmente já tradicionais mistificações, os representantes do Governo tentam esvaziar as alegações das testemunhas, mais uma vez sendo mostrada uma situação bem conhecida pela Ufologia.
Finalmente, sinais vindos do espaço, em forma de seqüências numéricas, se revelam como coordenadas graças ao conhecimento do cartógrafo David Laughlin, que também é o intérprete de Lacombe. Uma gigantesca operação militar é mobilizada para evacuar centenas de quilômetros quadrados no Estado de Wyoming. A amplitude dos fatos e a intensidade da história começam a preparar o clímax desse clássico. Em casa, Neary foi abandonado por sua família, e enquanto o noticiário fala a respeito de um acidente com um trem que transportava um perigoso gás para os militares, ele observa por um instante a tela da televisão, reconhecendo finalmente a Devil’s Tower, idêntica a forma que esculpiu na sala de sua casa. Ao mesmo tempo, Jillian reconhece a montanha, mundialmente famosa devido ao filme, nos inúmeros desenhos que fez.
Sou impaciente com vossa ignorância. Meu povo já aprendeu a viver sem ela. Sua teimosia pode representar o seu fim
— Klaatu, o alienígena de O Dia em que a Terra Parou, falando às autoridades que o receberam com descaso
Os dois finalmente se encontram na localidade de Moorcroft, que está sendo evacuada. Logo após verem a montanha, uma das cenas mais mágicas do filme, são detidos por soldados. Ele é interrogado por Laughlin e Lacombe, e por fim colocado em um helicóptero junto com Jillian e outras pessoas, vindas de vários estados. Lacombe expõe os fatos ao major Walsh, o comandante da operação, dizendo que pessoas que não se conhecem, vindas dos mais diferentes locais, foram para um local que sabiam ser perigoso, por todos terem passado pela mesma experiência extraordinária. Laughlin argumenta que tais indivíduos foram convidados, sem convencer o militar.
Jillian e Neary escapam, e depois de despistarem os militares nas encostas da Devil’s Tower, finalmente podem testemunhar o aparecimento dos discos voadores, em uma imensa arena montada atrás da montanha. Descobrimos que os cinco tons (as notas ré, mi, dó, dó, sol), um dos maiores clássicos da Ficção Científica, são uma forma de comunicação com os alienígenas. O diálogo musical com a colossal nave-mãe, uma verdadeira sinfonia que mantém, décadas depois, o mesmo poder de emocionar a quem assiste, finalmente tem seu ponto alto quando a rampa da nave é descida, e surgem os abduzidos ao longo dos anos.
Escolhido pelos alienígenas — Os primeiros são os tripulantes do já citado Vôo 19, e vale destacar um momento muito especial. Logo que os aviadores surgem, um senhor vestindo terno azul e com cavanhaque abre caminho entre a multidão de técnicos, observa a cena com uma expressão mista de êxtase e perplexidade, e dá uma tragada em seu cachimbo. Ele é ninguém menos que o grande e saudoso pioneiro J. Allen Hynek, que serviu como consultor do diretor Spielberg durante as filmagens. Enquanto Barry é abraçado pela mãe Jillian, Neary é recebido por Lacombe, que o incorpora ao grupo de pessoas selecionadas para irem com os extraterrestres. E, sem surpresas, o eletrotécnico é escolhido pelos alienígenas e com eles embarca na nave.
O ser que conversa com Lacombe ao final do filme, utilizando linguagem de sinais, é na realidade um dos primeiros bonecos animatrônicos, uma tecnologia que anos depois foi utilizada em ET. A expressividade do extraterrestre no momento do close em seu rosto é ao mesmo tempo tocante e surpreendente, quando nos lembramos da tecnologia de efeitos especiais disponíveis na época. Finalmente o UFO decola, ao som dos cinco tons já transformados em um tema sinfônico, e assim termina um dos maiores clássicos da Ficção Científica em todos os tempos. É importante observar quando Barry diz adeus, a última pessoa a aparecer no filme, seu rosto apresenta uma extraordinária semelhança com o do alienígena. Mais uma mensagem subliminar de Spielberg, do tipo que ainda leva muitas pessoas a erroneamente considerá-lo um eleito ou contatado.
O cineasta já afirmou que não pretende realizar uma seqüência de ET, o Extraterrestre [1982], e nem de Contatos Imediatos [1977], que explicaria o que houve com Neary durante seu tempo de convivência com a civilização alienígena. Apesar da natural curiosidade que nós, como fãs do filme e do diretor, sentimos quanto ao destino desse personagem inesquecível, talvez seja mesmo preferível deixar essa resposta para a imaginação de cada um, e não arriscar macular um clássico. E, mais uma vez, a Ficção Científica cumpre sua tarefa primordial, estimular a busca por respostas de cada um de nós. E, sem dúvida, diante dessa produção inigualável, que mantém tantos anos depois o mesmo brilho e encanto, que em plena Guerra Fria bradava alto a mensagem do pacifismo e da cooperação, podemos tranqüilamente dizer que o diretor Steven Spielberg realizou o filme ufológico definitivo.
Contato — Aqui, cabe uma pequena advertência. O que lerão a seguir será baseado tanto no filme Contato [1997], estrelado pela atriz Jodie Foster, quanto na obra que lhe deu origem, também de autoria do saudoso astrônomo Carl Sagan. Se alguém não desejar conhecer qualquer detalhe do livro, é preferível que passe aos demais artigos desta edição. Tanto o filme como o livro, começam com uma narração sobre a vida de Ellie Arroway, a personagem principal da história. Algumas interpretações dizem que Ellie foi inspirada na cientista Jill Tarter que, junto a Seth Shostak, são as mais conhecidas figuras do Projeto SETI [Search for Extraterrestrial Intelligence].
O livro, evidentemente, faz uma narrativa muito mais completa, mostrando a infância e adolescência de Ellie com algumas diferenças para com o longa-metragem. Vale destacar que a obra mostra a garota como muito independente e que nã
;o aceita facilmente os dogmas e lugares comuns, tanto na cultura geral quanto na religião. O próprio Sagan desafiou esses aspectos limitadores do desenvolvimento do pensamento humano enquanto viveu. As histórias do livro e filme seguem paralelas, e em linhas gerais, mostra o confronto da cientista após se interessar pela busca pelos extraterrestres, as discussões com os colegas mais céticos, a captação do sinal alienígena e sua decifração, a discussão a respeito envolvendo inclusive autoridades religiosas, culminando com a construção da máquina descrita na mensagem alienígena e a viagem até o contato que dá título ao livro.
No filme, houve um bem sucedido esforço por mostrar as diferenças entre saber e acreditar, conhecimento e fé. Lendo a obra, porém, percebe-se que os produtores do filme procuraram retirar da história toda polêmica e aspectos que poderiam provocar de alguma forma alguns espectadores mais suscetíveis. E, para manter uma duração aceitável, apenas Ellie faz a viagem. No livro, pelo contrário, a tripulação da máquina é composta por cinco pessoas. Como estamos em uma época em que refilmagens têm se tornado comuns, talvez possamos sonhar com uma adaptação mais fiel, por exemplo, aproveitando que a publicação divide-se em três partes, A Mensagem, A Máquina e A Galáxia. Uma trilogia que, se adaptada com cuidado e dedicação, poderia render uma das histórias mais belas de todos os tempos. Assunto, quem sabe, para os anos futuros.
Para o final da obra, pode-se dizer apenas que Ellie e seus companheiros conhecem uma raça intitulada zeladores, que em um empreendimento conjunto de várias galáxias, executa um projeto cujas primeiras evidências os radiotelescópios terráqueos já captaram, uma potente fonte de rádio a mais de 600 milhões de anos-luz de distância. O anfitrião da cientista afirma que no período atual estão bem mais adiantados. Ou seja, o projeto é realizado desde a época em que nossos mais remotos antepassados apenas começavam a explorar as praias da Terra primitiva. É algo em uma escala que escapa da imaginação mais fértil. Na volta a Terra, seguindo as indicações de seu anfitrião, Ellie, mesmo diante da censura imposta a ela e aos demais, elabora um projeto para obter evidências sólidas de sua experiência. E finalmente, no estudo do número Pi, que tanto a fascinou quando criança, surgem pistas não apenas disso, mas de algo muito mais profundo e transcendental.
Mensagem do espaço — É interessante ver como Carl Sagan, um cético assumido ao longo da vida, revela-se mais confortável neste ponto com a idéia de fé. A leitura é altamente recomendada. Porém, o mais interessante para ser analisado, aqui, é o ambiente mundial que ele cria em sua obra, quando da captação do sinal alienígena. No livro, ficamos sabendo que Ellie foi introduzida na fascinante questão de busca por nossos vizinhos pelo professor Peter Valerian. Já David Drumlin, outro professor de Ellie na universidade e personagem também do filme, é arrogante e egocêntrico, considerando-a uma rival em potencial.
Eventualmente, ela torna-se uma das principais cientistas do Projeto Argus, um arranjo de radiotelescópios construído no Novo México especificamente para o SETI, que é invejado pelos cientistas não envolvidos com o programa. Finalmente, num dia como outro qualquer, soam os alarmes nos computadores do projeto. Evidentemente, os fones que Jodie Foster usa no filme são apenas recursos dramáticos, nenhum ser humano conseguiria distinguir, de ouvido, uma fonte de rádio artificial de uma natural. Feitas as necessárias averiguações, descobrem que a transmissão é composta de números primos, todos os divisíveis apenas por si próprios e por um. Mais cálculos e chamadas telefônicas determinam, afinal, que a mensagem não vem da Terra.
Vega, estrela localizada a 26 anos-luz de nós, muito famosa por seu sistema solar em formação, descoberto pelo satélite IRAS [Infrared Astronomical Satellite] em 1983, é identificada como a fonte da transmissão. Como nosso planeta gira, e os astrônomos perderiam a visada da estrela quando Vega se pusesse atrás do horizonte, têm início dúzias de chamadas internacionais, a fim de que outros radiotelescópios sejam utilizados e a mensagem não se perca. Como o Protocolo SETI dita em nossa realidade, tentaram manter em segredo o assunto, afinal ainda existia a possibilidade de fraude ou engano. Mas depressa a notícia saiu do controle, e a imprensa, além de autoridades civis e militares, chegam ao Argus. Ellie finalmente tem que lidar com isso, especialmente com Michael Kitz, secretário de defesa. Ele está aborrecido por Ellie haver contatado equipes de radioastrônomos de outros países, como China, Índia e União Soviética. Lembremos que o livro foi registrado em 1985, mais uma comprovação de que a “teimosa” realidade, freqüentemente, supera a “implausível” ficção.
Kitz levanta o velho assunto dos interesses nacionais, afirmando que se houver algo mais substancial, Ellie deve chamá-los em primeiro lugar. Evidentemente, a cientista explica didaticamente e de uma forma tanto irônica diz que ninguém pode esperar manter em segredo números primos, além de afirmar que o assunto destina-se não a um país, muito menos sequer a Terra, mas sim ao Sistema Solar. E quando se percebe que de fato existe algo mais na mensagem, a participação de toda a humanidade torna-se não apenas necessária, mas essencial, pois o problema é descomunal demais para somente uma nação.
Embaixador da humanidade no espaço — Então, a primeira descoberta é a transmissão de TV na primeira camada da mensagem, contendo imagens de Hitler declarando abertos os Jogos Olímpicos de 1936, a primeira exibição potente o suficiente para ser irradiada para o espaço. Ellie explica que isso nada tem a ver com uma plausível inclinação nazista dos alienígenas, mas sim seria muito mais um “alô, ouvimos vocês” de nossos vizinhos, que captaram e gravaram nosso sinal, e o retransmitiram amplificado a nós. Muito interessante a discussão entre Ken Der Heer, o assessor de ciê
ncias da presidente dos Estados Unidos – sim, no livro, é uma mulher –, acerca do fato de que toda e qualquer transmissão, de rádio ou TV, feita aqui na Terra, acaba vazando para o espaço. Ela mostra sua indignação diante do fato de que um megalomaníaco como Hitler se torne nosso primeiro embaixador para outra civilização. Aqui vale um comentário, com certeza, foi intenção de Sagan ironizar a “qualidade” da programação que enviamos ao espaço.
A presidente se mostra alarmada quando seu assistente explica que tudo que se transmite aqui como programas de rádio, televisão, radar e outros usos de emissão eletromagnética, vai para o espaço. Sem dúvida, motivo suficiente para avaliarmos a qualidade do que é produzido e transmitido aqui. Seria muito desapontador se descobríssemos que a primeira notícia da Terra ouvida por outra civilização fosse, por exemplo, alguns dos programas menos recomendáveis da TV brasileira atual como reality shows, programas de auditório, ou até mesmo um e outro intitulado “guru”. A presidente termina afirmando que os programas acabam sendo nossos representantes, e quando se escolhe um embaixador, procura-se o melhor possível, e por décadas quase só se enviou porcarias para o espaço.
Não causa surpresa que Sagan cite os UFOs em sua obra, de fato de forma não muito positiva. Cabe dizer que boa parte da culpa desce sobre os ombros da própria comunidade ufológica, que mostra pouca organização e ação conjunta, e onde ainda, é forçoso lembrar, lamentavelmente ocorrem disputas motivadas por ego. É interessante ressaltar um dos motes de Contato, a diferença entre saber e acreditar. Apenas com uma postura séria, de cooperação e análise minuciosa e criteriosa de toda ocorrência, poderemos esperar que a comunidade ufológica e o próprio fenômeno sejam respeitados. E é no sentido de esclarecer os fatos que nós ufólogos temos que centrar nossas ações.
A história descreve de forma complexa e fascinante as reações ao redor do mundo provocadas pelas notícias acerca do assunto. Infelizmente, um renovado interesse por Hitler surge, incluindo loucos afirmando que os nazistas haviam desenvolvido discos voadores, criando uma cultura “desmestiçada” em Vega, que logo viria “endireitar” as coisas na Terra. Alguns fanáticos afirmavam que a mensagem vinha de Deus, outros que era proveniente do diabo. Diante da data em que o livro foi escrito, Sagan também mostra a reação de grupos milenaristas, afirmando que o final dos tempos está próximo. Outros, infinitamente mais sensatos, argumentavam que a simples existência da mensagem, mesmo que jamais fosse decifrada, exercia uma influência altamente positiva na humanidade, abrandando as diferenças e criando uma atmosfera de irmandade e cidadania planetária.
Religiosos interpretam a mensagem — Cada religião, evidentemente, reage a seu modo na história. Alguns religiosos debatem com ponderação, mas infelizmente surgem sinais de seitas apocalípticas, além de gurus como bem conhecemos na comunidade ufológica. Um homem acaba se destacando, o pregador Palmer Joss, que apesar de seu fervor se torna um personagem cuja importância cresce ao longo da história. Quando Ellie assiste a uma de suas aparições na TV, sente-se incomodada e tocada por suas palavras, quando Joss critica os pesquisadores, que freqüentemente não dizem toda a verdade para o povo. Sagan anteriormente já fizera um mea culpa, afirmando que havia problemas para a maioria dos cientistas, quando chegava a hora de divulgar suas descobertas.
Sagan, em seu livro, não hesita em lançar ironias e colocar o dedo na ferida, criticando vários dos aspectos, crendices e dogmas que ainda hoje, infelizmente, representam um atraso no conhecimento da civilização terrena, e ressaltando sua inabalável crença na ciência e na busca por respostas. Finalmente, a grande obra, como tantas outras, busca uma narração que bem pode se tornar um espelho do que, é nossa torcida e esperança, aconteça no futuro próximo, acaba como em tantos outros livros, filmes e seriados, sendo um testemunho edificante do colossal potencial da humanidade, do que pode ser conseguido se deixarmos as diferenças de lado. Sagan mostra com incrível realismo a extraordinária situação que seria estar em contato com uma civilização extraterrestre, inimaginavelmente mais adiantada que a nossa. A simples existência da mensagem, mesmo que não decifrada, contribui na história para unir a humanidade como nunca antes. As diferenças entre os habitantes da Terra comprovam-se insignificantes, diante das diferenças entre nós e nossos vizinhos, e mais ainda pelo fato da mensagem saudar a todos indistintamente.
Contato mostra as discussões sobre o tema e a construção final da máquina, a viagem através de “túneis” na estrutura do espaço-tempo, e o encontro final com os alienígenas de forma extraordinária e marcante. Os zeladores são, além de qualquer de nossas concepções, velhos e poderosos, sábios e tolerantes, e quando afirmam que somos capazes de pesadelos terríveis e de sonhos tão belos, querem dizer que essa utopia de união está, em nosso mundo real, ao nosso alcance. Um sentimento de comunhão, humanidade e de sermos parte do Cosmos, torna-se inevitável tanto diante da leitura dessa grande obra, quanto do estudo ufológico. Quiçá esta edição consiga incutir em seus leitores o mesmo sentimento de união, que se torna inevitável especialmente quando vemos já os primeiros resultados da campanha UFOs: Liberdade de Informação Já, lançada pela Comissão Brasileira de Ufólogos (CBU) através da Revista UFO. Inevitavelmente, quem discordar dessa atitude perderá o bonde da história.
Um tributo a imaginação — Voltando a ficção, mais que exibir as maravilhas do universo e de civilizações alienígenas, Contato firma-se como um importante arquivo da Ficção Científica, um testemunho completo como muito poucos de tudo que nos faz, afinal, humanos, apontando os vários erros e problemas de nossa civilização, mas também suas extraordinárias virtudes, esperanças e sonhos. E como um tributo a imaginação e ao espírito humano, que nos permite tantas descobertas extraordinárias, segue fielmente a tradição da ficção, provocando uma profunda reflexão sobre quem somos e qual é nosso lugar no universo, reflexões que deveriam servir também a Ufologia. Um contato com uma civilização incomparavelmente mais adiantada que nós, como mostrado em Contato, pode ser apenas questão de poucos anos. Sabendo como a Ficção Científica, em inúmeras de suas manifestações, estabeleceu parâmetros que mais tarde seriam não apenas alcançados, mas também superados pelo avanço de nosso conhecimento, podemos mais uma vez ter esperanças.
O grande divulgador da ciên
cia e do conhecimento, Carl Sagan, cuja obra deveria ser referência obrigatória para o estudo da Ufologia, mostrou várias vezes estar certo em suas afirmações sobre a natureza universal da vida e os planetas extrassolares. Quem sabe, tenha acertado mais uma vez em Contato. Talvez, em breve, tenhamos a resposta!