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UFOs ou lixo espacial?

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07 de Setembro de 2003
Anualmente os detritos espaciais vão aumentando, sem nenhum controle até o momento
Créditos: ESA multimedia

O estágio do foguete russo que caiu na Bahia no início desse mês e o satélite italiano de experimentos com raio X, BeppoSax, que se desintegrou sobre o Pacífico, não são exceções. Eles são parte de uma rotina de três a 04 artefatos espaciais que mensalmente entram na atmosfera terrestre e atingem a superfície. No início da noite de 30 de abril, por exemplo, caiu também um estágio do foguete francês Ariadne 3, na zona equatorial, e até o fim do ano outros 20 devem se transformar em bolas de fogo e riscar os céus à semelhança dos meteoros.

Todos estes objetos integraram foguetes, satélites ou plataformas espaciais e, depois de se tornarem inativos, permaneceram em órbita, como lixo espacial. Eles se mantêm em órbita até perderem velocidade e serem atraídos pela gravidade da Terra. Quando entram na atmosfera, ficam incandescentes e, em geral, se desintegram, em razão do atrito com o ar.

Monitorados – Alguns objetos podem atingir 400 km/h durante a queda e chegar a 1.000 ºC. Estima-se que existam, atualmente, cerca de 200 mil fragmentos girando em torno da Terra, dos mais variados tamanhos: de luvas de astronautas ou chaves de fenda, perdidas durante consertos espaciais, a engradados de alimentos ou pedaços de aparelhos obsoletos colocados para fora da estação Mir, até a própria estrutura da Mir, que pesava 120 toneladas e entrou na atmosfera de forma controlada, em março de 2001, caindo no Atlântico Sul.

Os 10 mil objetos maiores são permanentemente monitorados e, quando estão na iminência de cair, têm sua trajetória estimada e às vezes corrigida, direcionada para os oceanos ou zonas pouco povoadas. O monitoramento é feito principalmente pelos militares norte-americanos e russos, responsáveis pela maior parte do lixo de grande porte circulando em órbita. Quando há chance de os continentes serem atingidos, as autoridades das possíveis zonas de impacto são alertadas.

Ônibus espaciais são alertados – O maior congestionamento está acima dos 600 quilômetros de altura, embora a faixa onde circulam os ônibus espaciais, entre 300 e 600 km, também precise ser observada sempre que há astronautas em órbita. Diversas vezes, os ônibus espaciais são instruídos a ganhar ou perder altura para desviar do lixo. Um pequeno fragmento em órbita pode estar viajando à velocidade impressionante, em torno de 28 mil km/h, sendo capaz de rasgar uma espaçonave ou satélite como papel.

Há vários casos de satélites atingidos que ficaram parcial ou totalmente inutilizados com a colisão. O excesso de lixo espacial chega a atrapalhar estudos astronômicos ao causar interferências em fotografias científicas de longa exposição, conforme relata o astrônomo Júlio Lobo, do Observatório de Capricórnio, em Campinas (SP). Quando caem, costumam ser confundidos com meteoros.

"Mas se há uma filmagem, como a do estágio do foguete russo, é fácil distinguir um objeto artificial de um meteoro", comenta. Segundo Lobo, os meteoros geralmente caem como um pedaço único com um rastro incandescente menor. Os objetos artificiais logo se fragmentam em várias partes, cada uma com um rastro, chegando à superfície como uma chuva de pequenos pedaços. Há casos, ainda, de objetos que ricocheteiam na atmosfera antes de serem irremediavelmente atraídos pela gravidade, aparecendo como bolas de fogo de estranhas trajetórias, erroneamente identificadas como UFOs.

A maioria dos grandes fragmentos que chegam à superfície sem se desintegrar não oferece risco maior do que o impacto da queda. Mas há uma minoria que merece atenção redobrada: os tanques de combustíveis. Costumam ser esferas de material muito resistente e atravessam a atmosfera intactos. Se levam o combustível mais comum dos foguetes – a hidrazina –, o risco de contaminação é baixo.

Conforme explica o engenheiro Carlos Santana, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), responsável pela montagem dos primeiros satélites brasileiros, "resta muito pouca hidrazina depois de o objeto atravessar a atmosfera, e os resíduos, embora tóxicos, são neutralizados com água". O problema é com o combustível de algumas dezenas de satélites espiões russos e norte-americanos que é nuclear (plutônio), assim como o de alguns estágios de propulsão de satélites ou sondas para as chamadas pesquisas de deep space, ou seja, naves com destinos longínquos, que precisam ser impulsionadas no meio do caminho.

Tanques de combustíveis nucleares já caíram em terra, como foi o caso de um satélite espião russo que atingiu o Canadá. "E há ainda o risco de contaminação de detritos de baterias, que contêm diversos tipos de ácidos", acrescenta Santana. Pedaços já caíram no Brasil – Carlos Santana, do INPE, lembra que há uma resolução das Nações Unidas recomendando que todos os satélites artificiais tenham uma reserva de combustível para alterações de trajetória, caso ameacem cair em zonas povoadas, assim como comandos que permitam desligar suas funções em caso de interferência com as comunicações.

"Mas são resoluções não-obrigatórias e nem todos as acatam", diz. Embora a probabilidade seja baixíssima, alguns pedaços acabam atingindo casas e pessoas. Um caso que desafia as estatísticas ocorreu em 1969, quando um fragmento de 30 centímetros do foguete norte-americano Saturno, usado no lançamento da Apolo 11, atingiu um barco alemão em alto-mar. Em 1997, pedaços do foguete Delta 2 se espalharam entre o Texas e Oklahoma, nos Estados Unidos, e um fragmento de isolante térmico atingiu uma mulher na cidade de Turley, sem causar ferimentos graves.

No ano passado, uma esfera de titânio do foguete francês Ariadne 3 caiu sobre uma casa em Kasambya, na Uganda. No Brasil, já caíram diversos desses pedaços grandes. Entre os mais famosos estão: uma esfera de combustível (hélio) de um foguete de Saturno, com 1 metro de diâmetro, que caiu na costa norte e foi recuperada por pescadores, e placas de metal de 10 a 12 cm, que atingiram o Rio Negro, no Amazonas, ambos em 1966. E os fragmentos de um satélite chinês recuperado em Itapira, interior de São Paulo, em 1995.

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