
Não há um único ufólogo no País que nunca tenha pensado na possibilidade de adentrar os quartéis de nossas Forças Armadas e conhecer o que elas têm sobre a razão de nossa obstinada busca: os objetos voadores não identificados. Todos, sem exceção, sonham em poder abrir aquelas portas hermeticamente fechadas e debruçar-se sobre prateleiras e armários cheios de registros de naves alienígenas e de seus tripulantes em ação na Terra. Todos sonham em ver fotos e filmes espetaculares, como é característica do trabalho de militares, tão cheios de recursos, de fantásticos artefatos discóides e resplandecentes provenientes de outros mundos. O ufólogo que não admite esses sonhos, não está sendo sincero, ou nem é ufólogo.
Em 1982, após a gigantesca repercussão que teve o Caso Vasp Vôo 169 – em que um Boeing 727 da extinta empresa paulista fora seguido por um UFO por mais de três horas –, poucos ufólogos ficaram sabendo que seus sonhos poderiam ser plenamente realizados. O comandante Gerson Maciel de Britto, piloto da aeronave, que o diga. Ele próprio um ufólogo, além de experiente aviador – que teve a coragem de tentar estabelecer contato telepático com o UFO que seguia seu aparelho, sendo observado por sua tripulação e mais de 100 passageiros que faziam o trajeto entre Fortaleza e São Paulo –, foi um dos primeiros civis brasileiros a debruçar-se sobre tais prateleiras e armários, a ver tais fotos e filmes espetaculares.
Incomodado por uma imprensa preconceituosa e atacado por céticos de pouquíssima visão, apenas por ter tido o brio de admitir sua experiência e de ter confirmado que não estamos sós neste vasto universo, o comandante Britto recebeu um “prêmio de consolação”. Numa de suas viagens a Belém (PA), após o sensacional vôo 169, ele foi convidado e compareceu a uma sala isolada do 1º Comando Aéreo da Aeronáutica (COMAR), naquela cidade, para, segundo seu anfitrião, “lavar a alma”. O referido Comando é aquele de onde partiram as diligências que culminaram com a Operação Prato, a primeira missão militar oficial de que se tem notícia, em todo o mundo, destinada a tentar estabelecer contato com seres extraterrestres. O anfitrião era ninguém menos do que o então capitão, e depois coronel, Uyrangê Hollanda, aquele que chefiou a referida operação e admitiu mais tarde, tão corajosamente como o comandante, ter tido contatos. E a sala isolada era o repositório de todas as fotos, filmes, negativos, relatórios, amostras e gravações da empreitada militar.
“Aquilo foi inesquecível. Hollanda me mostrou tudo o que eu jamais suspeitei que nossa Aeronáutica tivesse, mas que sabia existir”, declarou Britto anos após sua visita ao 1º COMAR, repetida por muito poucos civis até hoje. “Mostraram-me filmes belíssimos de naves de grandes proporções sobre os rios da Amazônia, das quais saíam objetos menores e iam fazer suas atividades”, completou. Sua visita àquela repartição militar não fora mantida em segredo por muito tempo, mas esse “detalhe” dos acontecimentos, sim. Em 1977, quando, junto ao co-editor de UFO Marco Petit, tive oportunidade de entrevistar Hollanda, que confirmou o estado de estupefação que o comandante demonstrou. “Eu me solidarizei com ele, pois, afinal, também tinha estado frente a frente com o fenômeno na Amazônia, exatamente como aconteceu com ele sobre o Sertão nordestino, em seu avião”, disse.
“Quando vi que a imprensa o maltratava, fiz questão de convidá-lo a vir a Belém e de levá-lo àquela sala, onde lhe falei: ‘Comandante, aqui o senhor está entre amigos. Eis a verdade sobre o que testemunhou’”, completou Hollanda. Os dois homens certamente ficaram marcados, além da amizade que brotou entre eles, por repartirem um segredo. E que segredo! Britto e Hollanda são dois personagens de nossa Ufologia que merecem ser reverenciados por sua coragem, firmeza, determinação e, sobretudo, por sua luta em revelar a verdade sobre os UFOs, cada qual à sua maneira. O comandante o fez através da imprensa, na época, e Hollanda através da Revista UFO, em 1997.
Não somente ambos revelaram a existência da referida sala reservada e seus tesouros, como incentivaram os ufólogos a tentarem também chegar até ela. Inúmeras foram as tentativas, isoladas ou conjuntas, de muitos pesquisadores brasileiros de flexibilizar a vigilância que nossas Forças Armadas têm sobre a questão ufológica e romper com sua determinação de manter seus tesouros ocultos. Ora, a existência de UFOs e sua atuação em Território Nacional é algo que diz respeito a todos os cidadãos brasileiros. É nosso direito ter acesso a tais itens, que não podem mais ficar ocultos. No entanto, até então, nenhuma das tentativas dos ufólogos logrou êxito e nossos militares continuaram inflexíveis à mera sugestão de que, um dia, o segredo viria à tona.
No entanto, isso em momento algum esmoreceu os pesquisadores – pelo menos aqueles que têm coragem de admitir que entre seus sonhos, além de uma volta em nave alienígena, está exatamente o de debruçar-se sobre prateleiras e armários, ver fotos e filmes espetaculares. Sua insistência e perseverança acabaram sendo coroadas de êxito em 20 de maio, exatos 14 meses após o lançamento em nosso País da maior, mais abrangente e organizada campanha popular já realizada na Ufologia Brasileira, que teve o propósito explícito e nada discreto de continuar tentando transformar o velho sonho em realidade. E ele foi transformado, pelo menos em parte, numa realidade que agora pode ser experimentada por todos. A campanha UFOs: Liberdade de Informação Já é esse movimento que reuniu amigos de jornada num trabalho obstinado e corajoso – o de pedir, com firmeza, mas respeito, que nossas Forças Armadas abram seus arquivos.
Os passos mais importantes da campanha que pede a liberação de documentos sigilosos já foram dados. Agora, militares e ufólogos civis aguardam a decisão das autoridades quanto aos procedimentos de investigação ufológica oficial
Foram 14 longos meses de publicação na Revista UFO e em seu site de dezenas de textos, centenas de manifestações e inúmeros comentários sobre a campanha, além da coleta ininterrupta de milhares de assinaturas de ufólogos e ufófilos que buscavam a mesma coisa. Sinal dos tempos modernos, evidente demonstração de que vivemos em épocas muito especiais, um exemplo de trabalho conjunto. Diga-se o que quiser, deu certo. Seis pessoas encabeçaram o movimento, os integrantes da chamada Comissão Brasileira de Ufólogos (CBU), representando diretamente mais de 150 integrantes da Equipe UFO, que produzem esta publicação – entre editor, co-editores, consultores, conselheiros, coordenadores de área, tradutores, correspondentes e colaboradores –, e ind
iretamente um contingente de grupos de pesquisas e ufólogos individuais que pode chegar a cinco vezes este montante.
Por mais longe que um dia pareceu estar a possibilidade de sermos bem sucedidos nesta luta, isso nunca representou problema para a realização da rotina diária de manter acesa a chama que buscava a realização de nosso sonho. Tanto que, em janeiro passado, 10 meses após o início da campanha, surgia no horizonte um sinal real de que as coisas estavam no caminho certo. Um e-mail, seguido de um telefonema de Brasília, davam forma, ainda que nebulosa, a princípio, ao que viria a seguir. Sucessivos outros e-mails e telefonemas que acabaram por estabelecer uma amizade entre os interlocutores, iam desfazendo o aspecto nebuloso, dando um formato sólido e cristalino à maneira como o sonho dos ufólogos viria a ser realizado.
Ambos os lados de tantas conversas eram unânimes em suas opiniões: o Fenômeno UFO é coisa séria, que deve ser investigado com determinação e rigor, e por quem tem essa vocação. De um lado estava este editor e escriba, um confesso sonhador. Do outro, o jornalista e piloto de caça de nossa Aeronáutica, o major Antonio Lorenzo. Em seu primeiro contato telefônico ele já deixara claro que oportunidades muito boas se abriam para o meio militar brasileiro e para nossa comunidade ufológica. “Por ordem do comandante da Aeronáutica, quero convidar os ufólogos brasileiros à frente da CBU para virem a Brasília e discutir conosco essa questão”, disparou Lorenzo. “Para nós será uma grande honra podermos ter esta oportunidade, e certamente nos esforçaremos para estarmos à altura da confiança em nós depositada”, retribui. O leitor pode ter uma idéia de como seriam os demais diálogos, a partir do momento em que o primeiro deles já era o estabelecimento de um excelente canal de comunicação.
Em meio a muitos e-mails e vários telefonemas, de ambas as partes, foi sendo estabelecida a data em que o contato entre as partes se consumaria. “Queremos que a vinda de vocês a Brasília seja um momento importante para todos. Por isso, vamos preparar uma recepção apropriada e completa”, enfatizou Lorenzo, dando-nos ciência de que buscava uma data em que vários comandos e militares da Aeronáutica estivessem na capital, de forma a tornar o encontro ainda mais proveitoso. Finalmente, no início de maio, a data foi marcada – para dia 20 daquele mesmo mês. Uma asfixiante contagem regressiva teve início, com preparativos de ambos os lados, principalmente dos ufólogos, convidados da ocasião. E assim foram eles a Brasília. Claudeir Covo, Marco Petit, Fernando Ramalho, Rafael Cury e eu. Reginaldo de Athayde, nosso co-editor nordestino e também integrante da Comissão Brasileira de Ufólogos (CBU), infelizmente enfermo, mas presente em espírito, foi substituído pelo igualmente valoroso pioneiro Roberto Affonso Beck.
Enfim, seis ufólogos de seis diferentes grupos do País, seis cabeças residentes em seis estados. Mas todos com um só objetivo: mostrar às nossas autoridades militares que a oportunidade oferecida seria agarrada com unhas e dentes, jamais desperdiçada. E que considerávamos aquele o momento certo para encerrarmos as desconfianças mútuas e naturais – eles, de que somos um bando de excêntricos caçadores de ETs, e nós, de que eles fossem arbitrários guardiões de informações que a todos pertencem –, hora definitiva de darmos um passo que seja reflexo tanto da maturidade da Comunidade Ufológica Brasileira quanto do espírito de abertura, civismo e democracia que está definitivamente estabelecido no seio de nossas Forças Armadas. De fato, a recepção dos ufólogos no poderosíssimo I Centro Integrado de Defesa Aérea e Controle de Tráfego Aéreo (Cindacta I) e no secretíssimo Comando de Defesa Aeroespacial Brasileiro (Comdabra) foi absolutamente impecável. Ao mesmo tempo em que observávamos que todas as medidas foram cuidadosamente tomadas tendo em vista o sucesso do encontro, ouvíamos expressões de satisfação de nossos anfitriões pela seriedade com que nos dedicamos aquele momento.
“Senhores ufólogos, desejamos que estejam se sentindo em casa nesta oportunidade. O comandante da Aeronáutica fez determinações expressas de que nós os atendêssemos e abríssemos todos os arquivos que queiram, todas as portas por que desejarem entrar”, declarou o brigadeiro-do-ar Antonio Guilherme Telles Ribeiro, chefe do Centro de Comunicação Social da Aeronáutica (Cecomsaer). “Brigadeiro, agradeço imensamente as boas-vindas, em meu nome e de minha equipe. Representando os ufólogos brasileiros, quero expressar minha satisfação em estarmos sendo recebidos. E quero assegurar-lhe que a intenção dos pesquisadores não é outra senão somar, contribuir e auxiliar no que for possível o trabalho de investigação do Fenômeno UFO em nosso País”, disse-lhe enquanto oferecia cópias de cartas com o Manifesto da Ufologia Brasileira ao comandante da Aeronáutica, ao ministro da Defesa e ao próprio presidente da República.
Este foi apenas o início de nossos entendimentos, quando, nas mais de quatro horas que se seguiram, íamos realizando pouco a pouco nosso sonho de ufólogos. Um sonho que agora, em parte realizado, nos investe de grande responsabilidade. Ele não se encerrou nem mesmo no almoço gentilmente oferecido pelos militares no refeitório do Ministério da Defesa. Mas terá sucessivos desdobramentos e um rico desenvolvimento, até que ambas até que ambas as partes vejam realizados seus objetivos. O dos uf&
oacute;logos, certamente, é o de ter todos os mais importantes documentos sobre a ação extraterrestre em nosso Território abertos à sociedade. Como chegaremos lá? Bem, com a mesma persistência e obstinação com que chegamos até aqui. E com o seu apoio, leitor, que acreditou em nossa campanha e deixou seu nome no abaixo-assinado. Por isso, nosso muito obrigado!
Globalização ufológica
O Brasil põe seu nome da curta lista de países que já admitiram a seriedade do Fenômeno UFO. Veja quais são os outros:
França – 1976
China – 1979
URSS – 1979
Uruguai – 1979
Bélgica – 1986
Itália – 1995
Vaticano – 1996
Chile – 1997
Peru – 1998
Espanha – 2001
México – 2004
Brasil – 2005
Mudanças na campanha
Uma nova fase do movimento UFOs: Liberdade de Informação Já tem início agora, enquanto se aguarda resposta das autoridades a quem foram endereçadas cópias do Manifesto da Ufologia Brasileira. E entre as mudanças na campanha está a saída do editor de UFO, A. J. Gevaerd, da Comissão Brasileira de Ufólogos (CBU). A decisão foi tomada por ele tendo em vista que, doravante, seu trabalho pela liberdade de informações deve ser o de imprensa, à frente da revista. “Agi até agora como ufólogo e fiz aquilo que meus instintos me pediam. Mas creio que minha missão na campanha está cumprida e que devo agora atuar de outra maneira, talvez mais produtiva”, informou o editor através do site de UFO. A publicação permanecerá inteiramente à disposição do movimento, dando-lhe voz e visibilidade. “Essa é sua função básica. UFO deve levar aos seus leitores as notícias ufológicas do meio, e não criá-las”, finalizou.