Edição 184
DESTAQUE

Seth Shostak, diretor do SETI, fala sobre o futuro encontro com ETs

Por
01 de Dec de 2011
Seth Shostak prefere ouvir as estrelas longínquas a aceitar os UFOs
Créditos: SETI

O Projeto SETI esteve com seus dias contados há poucos meses por falta de verba para a continuidade de suas pesquisas, mas ganhou uma sobrevida recentemente pela iniciativa de alguns de seus dirigentes e simpatizantes. Embora não com tanta generosidade quanto no passado, quando Steve Jobs e Bill Gates destinavam fortunas para suas atividades, alguns importantes nomes do meio empresarial e cinematográfico dos Estados Unidos socorreram o projeto, como a atriz Jodie Foster, que interpretou Ellie Arroway em Contato [1997], filme baseado no livro homônimo do saudoso Carl Sagan e no próprio programa. “O SETI pode transformar ficção científica em fato científico, mas somente se estiver ativamente vasculhando os céus”, disse.

Mas boa parte da resistência do SETI em fechar suas portas definitivamente, após décadas de atividades sem um único resultado significativo [Veja edição UFO 179, agora disponível na íntegra em ufo.com.br], é devida ao seu atual dirigente, o cientista sênior do projeto Seth Shostak, que recentemente ressaltou a incoerência de as sucessivas descobertas de exoplanetas não motivarem maior interesse pelo programa. “O SETI, apesar de não ter garantias de sucesso, motiva as pessoas a doarem seu dinheiro por interesse na questão da vida extraterrestre”, declarou quando comentou ser encorajador ver a sociedade apoiar a procura por inteligências fora da Terra.

Assumido cético quanto à existência de discos voadores e combatente de primeira hora dos ufólogos, Shostak é nome de referência mundial em astronomia e exobiologia. De sua sala na sede do SETI em Mountain View, Califórnia, concedeu essa rápida, mas interessante entrevista, na qual falou sobre quando acredita que encontraremos outras espécies cósmicas e por que acredita que, quando os conhecermos, seres extraterrestres inteligentes serão artificiais e não biológicos, entre outros temas. O leitor verá que Seth Shostak exercita nessa conversa seu costumeiro bom humor ao fazer comparações e afirmações, características pelas quais é conhecido. O cientista raramente se abre tanto com repórteres, como dessa vez, o que faz da entrevista obrigatória a qualquer interessado na questão.

Quando o senhor acredita que finalmente encontraremos vida extraterrestre? Já disse em entrevistas anteriores que estimo que isso ocorrerá nos próximos 20 anos, pois há três hipóteses a serem consideradas, todas com a mesma chance de serem bem sucedidas nessas próximas duas décadas. A primeira é a de que podemos encontrar vida extraterrestre dentro do nosso próprio Sistema Solar. Veja que há relatos sobre gás metano vazando de rochas na superfície de Marte, o que é muito estranho porque o gás é destruído pela luz solar em 300 ou 400 anos. Então, se ele existe hoje e está vazando de rochas lá, isso significa que está sendo produzido há pelo menos uns 200 anos — e todos sabemos que sua existência em algum planeta é forte indício de vida nele.

Mas essa não é uma posição unânime na comunidade acadêmica. Não. Algumas pessoas discordam dessas conclusões e outras dizem que a geologia explica isso e que não teria nada a ver com a existência de vida. Entretanto, há muitas razões para pensar que, se pudéssemos enviar um robô a Marte para perfurar uns 60 m de sua superfície, poderíamos encontrar ali um aquífero — outro forte indicativo de vida no planeta. Mas quando é que vamos fazer essa experiência? Bem, isso pode acontecer nos próximos 20 anos. Mas há outros lugares no Sistema Solar que podem abrigar água em estado líquido. Para encontrá-los, seria necessário organizar uma grande missão com foguetes e robôs, e a previsão para isso é 10, 20 ou 30 anos, dependendo das verbas disponíveis.

Qual é a segunda hipótese que deve ser considerada? É a de que o telescópio Buscador de Planetas Terrestres [Terrestrial Planet Finder, TPF], que irá procurar e analisar planetas extrassolares, ou exoplanetas, tenha sucesso em suas operações. Mas o projeto ficou sem verba recentemente, e por isso sua construção está paralisada no momento — acredita-se que será implantado nos próximos 20 anos. E antes que você pergunte, a terceira hipótese é de o SETI finalmente encontrar vida inteligente com suas antenas. Nos próximos 20 anos, a tecnologia que desenvolveremos vai permitir pesquisarmos um milhão de sistemas estelares — um número bem elevado, que tem alguma chance de resultar em sucesso. Com esses três diferentes caminhos, me parece provável que em duas décadas saibamos se existe ou não vida fora da Terra. Caso isso não ocorra, é porque não empregamos os recursos necessários ou então porque estamos mais sós no universo do que imaginamos.

Se por acaso encontrássemos animais extraterrestres, qual aparência o senhor acha que teriam? Isso ninguém sabe. Mas se você for a um zoológico, vai encontrar muitas formas diferentes de animais mesmo aqui na Terra. Sobre nós, humanos, veja que temos um formato físico que funciona. Nossos amigos chimpanzés têm uma forma parecida, apenas uma versão diferente de um mesmo modelo básico. Assim como os peixes não se parecem conosco, nem as girafas — ou se parecem em alguns aspectos, mas não muito. Os insetos definitivamente não se parecem conosco e, mesmo assim, são formas de vida viáveis.

O que faz com que seja possível haver vida em um exoplaneta? A vida tem que se adaptar ao seu meio ambiente. Nosso planeta é um exemplo. Ele tem temperatura média normalmente acima do ponto de congelamento e abaixo do ponto de fervura da água, o que é condição essencial à vida. Temos ainda uma atmosfera espessa e gravidade em quantidade certa. Todas as formas de vida daqui estão adaptadas a isso. Assim, se houver outro planeta parecido com a Terra, onde essas mesmas condições existam, poderemos imaginar que muitas formas de vida terão uma aparência familiar. Nossos peixes, por exemplo, parecem ter ótima hidrodinâmica, especialmente os que precisam caçar outros peixes, como a barracuda. Assim também são os mamíferos que vivem no mar, como os golfinhos — e como eles também têm que caçar para sobreviver, se parecem com um torpedo. Ou seja, a evolução resultou em animais em forma de torpedo por serem mais rápidos na água do que outros formatos seriam.

crédito: SETI

A que tamanho poderiam chegar os animais que encontrarmos? Isso também não sabemos. No passado, os animais terrestres já foram maiores, mas não muito — a baleia, por exemplo, é provavelmente do tamanho máximo a que poderia chegar. Há um limite para o tamanho de um animal, porque sua força é seu tamanho elevado ao quadrado, mas seu peso é seu tamanho ao cubo. Isso significa que animais muito grandes seriam incapazes de muita destreza e de certas habilidades, e não poderiam existir. Por exemplo, um animal do tamanho de 10 elefantes não seria viável, pois seus ossos não seriam fortes o bastante para sustentá-lo — ele não poderia se movimentar e simplesmente desabaria. O mesmo deve ocorrer em ambientes de exoplanetas onde vivam animais. O fato de que eles jamais foram muito maiores do que são hoje é uma questão básica de engenharia, e assim será em qualquer outro planeta.

O mesmo vale para o caso inverso, ou seja, bactérias extraterrestres seriam um milhão de vezes menores do que as nossas?
Bem, a resposta a essa pergunta é provavelmente não. Porque se fossem muito menores, não haveria espaço nelas para as transformações químicas que necessitam para sua vida — e simplesmente não haveria moléculas suficientes para mantê-la. Então, eu diria que há limites para os dois lados.

Cérebro próximo dos olhos

Quanto a animais de solo, quais seriam as características comuns possíveis em outro planeta? Teriam cabeças ou membros, por exemplo? Acredito que cabeças sim, pois acho que essa seria uma característica comum — é difícil imaginar uma espécie que não tenha cabeça, embora haja algumas. Aliás, ter cabeça é uma boa coisa, porque coloca órgãos sensoriais — como olhos, ouvidos e nariz — próximos da “CPU” do organismo, seu cérebro. Isso é funcional porque, para levarmos informação dos olhos para o cérebro, por exemplo, não haveria um longo trajeto a percorrer. Do contrário, uma reação poderia ser muito lenta e resultar em desastre. Então, é bom ter o cérebro próximo dos olhos, assim como no alto da cabeça, porque podemos ver melhor os predadores e as presas, dependendo do interesse do ser. Isso tudo leva à ideia de animais com uma cabeça onde estão localizados os órgãos sensoriais.

E membros, por que o senhor não acredita muito que outras espécies os tenham? Para nós, humanos, ter membros resulta do fato de vivermos em contato com a superfície de um planeta que não veio pavimentado. A Terra não surgiu com ruas e estradas, mas com uma topografia bruta, fazendo com que homens e animais desenvolvessem membros para locomoção. Se os animais tivessem membros em forma de rodas, por exemplo, teriam muito trabalho para caminhar nesse ambiente. Eles, no entanto, podem correr pelos campos ou subir em árvores. Além disso, falando simplisticamente, membros são ótimos para usar chaves de fenda ou aparelhos de soldar, ou seja, também são importantes para o desenvolvimento de tecnologia.

crédito: Carl Meier
“A que distância estamos de uma máquina que seja tão inteligente quanto nós? Uma máquina que possa fazer nosso trabalho?”
“A que distância estamos de uma máquina que seja tão inteligente quanto nós? Uma máquina que possa fazer nosso trabalho?”

O que explica nosso formato humanoide? Temos dois braços e duas pernas porque evoluímos de algum peixe de quarto membros tempos atrás. Mas e se fosse um peixe com seis membros? Aí poderíamos ter quatro braços em vez de dois! A maioria dos animais na Terra tem seis pernas e não quatro. São os insetos. Seis pernas também funcionam bem, mas quando tivermos 100 anos de idade, provavelmente não funcionarão tão bem, porque será preciso muito do cérebro para coordená-las. Muita coisa depende das circunstâncias da evolução.

Existiriam também plantas em algum outro planeta? As plantas da Terra são capazes de um truque muito interessante: elas utilizam os gases que encontram na atmosfera, a água que cai no solo de vez em quando e a luz solar para produzir sua própria comida. A esse truque chamamos fotossíntese, que é uma ótima maneira de converter o ambiente em alimento. Podemos acreditar que essa capacidade exista em qualquer planeta, pois, por ser tão vantajosa, fatalmente acabaria surgindo.

Sobre vida inteligente em outros mundos, qual seria sua forma? E por acaso nos interessa a aparência dos ETs? Não, o que interessa é que consigam criar sinais de rádio que possamos captar! O problema é que os imaginamos muito parecidos conosco, o que se deve aos filmes que sempre retratam alienígenas como semelhantes a humanos, uma espécie de variação antropomórfica de nós mesmos. Mas Hollywood não faz isso por inocência — isso acontece porque seus dirigentes sabem que a plateia precisa captar a intenção dos ETs. “Olha como ele parece estar com fome” ou “ah, esse parece bonzinho”, diria alguém que assiste a um filme com ETs. Isso porque sabemos ler expressões faciais de criaturas parecidas com os humanos. Em uma analogia, é possível ler as intenções dos chimpanzés no zoológico, mas não de insetos, mesmo olhando-os de perto, porque esses têm uma aparência muito diferente.

O senhor acredita que o formato humanoide seja um bom modelo para seres extraterrestres? Há pelo menos um cientista que acha que temos um bom design para sermos criaturas inteligentes, Simon Conway Morris [Professor da Universidade de Cambridge que deu enorme contribuição ao entendimento da evolução planetária com um trabalho sobre a chamada Explosão Cambriana]. Ele diz que, por isso, se houver seres inteligentes em outro lugar, devem se parecer conosco. Eu não acho o mesmo e não sei por que teríamos o melhor design. Isso soa como autoelogio. Do ponto de vista do SETI, o que é importante é que inventamos o rádio há 100 anos e em menos de um século idealizamos computadores que hoje estão por todos os cantos e são cada vez mais rápidos. Segundo a Lei de Moore, eles dobram de velocidade a cada 18 meses. Em 2020, a maioria deles terá o mesmo poder de processamento de um cérebro humano. Isso não significa que se tornem um cérebro, mas que funcionarão tão rápido quanto um. A pergunta é: a que distância estamos de uma máquina que seja tão inteligente quanto nós? Uma máquina que possa fazer nosso trabalho? Estamos falando aqui de inteligência artificial. Há quem diga que isso jamais acontecerá, mas eu não acredito nisso. Leve 20 ou 200 anos, fato é que inventamos o rádio há 100 anos e, alguns séculos depois, inventaremos uma máquina inteligente.

Como deve ser a forma de inteligência que encontraremos em exoplanetas? Acho que quase toda inteligência que vamos achar lá de fora deve ser artificial. Ainda procuramos criaturas como nós, vivendo em planetas como o nosso, quando, na verdade, a maioria das inteligências alienígenas não deve ser biológica. Esse seria meu ponto de partida: o tempo entre a tecnologia capaz de encontrar outros seres e a
inteligência artificial é muito curto.

Pequenos, moles ou cinzas?

Como o senhor define esse tipo de inteligência artificial? Para o SETI, consideramos algo inteligente se ele for capaz de produzir um sinal que possamos captar. Esses seres podem construir um transmissor de rádio? Podem produzir um grande aparelho que opera com laser? Se forem capazes disso, talvez sejamos capazes de encontrá-los. É claro que isso não significa que produzam arte ou música, que sejam pacíficos ou hostis, pequenos, moles ou cinzas etc. Devem, de qualquer forma, ser bilhões deles em seu planeta cuidando da própria vida. Ou talvez máquinas pensantes pairando pelo espaço em algum lugar especial da galáxia...

crédito: Cambridge university
Simon Morris, que, ao contrário de Shostak, crê que o design humano seja eficiente para outros seres
Simon Morris, que, ao contrário de Shostak, crê que o design humano seja eficiente para outros seres

Quando o senhor acha que encontraremos vida extraterrestre inteligente? Ou seremos encontrados antes? Sermos encontrados antes seria mais difícil. Afinal, como nos encontrariam? Poderiam captar nossos sinais de televisão, rádio ou radar, mas teriam que estar próximos o suficiente para que nossas emissões chegassem a eles em 70 anos-luz. E o número de estrelas em um raio de 70 anos-luz talvez seja de algumas dezenas de milhares, o que não é grande coisa. Também não sei se nos encontrariam até que estivéssemos transmitindo sinais por muito mais tempo. Já para encontrá-los, talvez não tivéssemos tanta dificuldade, pois, afinal, o universo tem o triplo da idade da Terra — tempo suficiente para outras inteligências estarem muito à frente da nossa. Talvez estejam transmitindo sinais há milhões ou bilhões de anos. Pode ser também que haja sinais atravessando nosso planeta o tempo todo, que ainda não captamos por não tentarmos do jeito certo.

Seria possível estimar quanto tempo mais levaremos até encontrarmos outras espécies? Estimo que levaremos uns 20 anos até captarmos um sinal de vida inteligente, e que em pouco mais de 10 anos seremos capazes de observar um milhão de sistemas estelares — até hoje observamos com cuidado cerca de mil sistemas. Essa é a base do meu raciocínio, mas a questão dos 20 anos não é o número em si. Quero dizer apenas que o SETI pode, sim, ter sucesso relativamente rápido em encontrar vida lá fora. Isso se daria em uma geração, não em um milênio. Não se esqueça de que houve 10 mil gerações de humanos antes de nós, 10 mil gerações de Homo sapiens antes de termos nascido. Acho que a sua é a primeira que vai saber se o que aconteceu na Terra foi um milagre ou simplesmente algo que também ocorreu muitas outras vezes.

E quantas seriam essas outras espécies? Há alguns anos, depois de contemplar a aceleração do projeto SETI, fiz algumas estimativas que achei aceitáveis sobre quantas civilizações estariam transmitindo no espaço exterior, e ela vai de 10 mil a um milhão. 10 mil é o que Frank Drake, o fundador do SETI, normalmente diz ser a quantidade de outras espécies cósmicas inteligentes, e um milhão é o que Carl Sagan dizia. Ambos são palpites, mas, se entre esses palpites estiver o número certo, poderemos combiná-lo com a velocidade de busca do SETI, que vai aumentar no futuro.

Nossa mais fantástica  e reveladora viagem

Já está no ar a Edição 184 da Revista UFO. Aproveite!

Dec de 2011

Fomos visitados