ARTIGO

O que levou o policial Marco Eli Chereze à morte?

Por Ubirajara Franco Rodrigues | Edição 102 | 01 de Agosto de 2004

Dr. Cesário L. Furtado, cardiologista de Varginha que atendeu o policial militar falecido após a captura de um ser alienígena
Créditos: ubirajara rodrigues

O que levou o policial Marco Eli Chereze à morte?

Doutor Furtado, gostaria que o senhor narrasse como foi seu atendimento ao policial Chereze, morto em 1996, nos hospitais de Varginha. O policial Marco Eli Chereze foi atendido na Prontomed do Hospital Regional, pelo colega Armando Martins Pinto, no dia 12 de fevereiro de 1996. Deu entrada com uma dor na região lombar bastante intensa e o Armando achou melhor interná-lo, e assim encaminhá-lo ao Hospital Bom Pastor. Lá chegando, foi prontamente atendido pelo doutor René, que era o residente da cardiologia e pediu alguns exames. No dia seguinte, o avaliamos como preceptor clínico do Bom Pastor. Complementamos o pedido de exame, pois ele continuava com a dor na região lombar. Pedimos exame de urina, raios-X da coluna, lombo e sacro, além de uma avaliação do ortopedista, já que a dor era intensa e havia suspeita de uma hérnia de disco.

Isso ocorreu no Hospital Bom Pastor, ou seja, da primeira vez que o senhor o atendeu, o que se deu naquela instituição? Foi. O doutor Rogério Lemos avaliou a parte ortopédica do rapaz, disse que não havia nenhuma alteração e que o problema era outro. Disse também para que continuássemos a investigação da causa da dor e também da febre, que começou a aparecer concomitante à dor naquele dia. Os exames de sangue, que chegaram à tarde, mostraram um hemograma com leucocitose, desvio à esquerda e granulações tóxicas nos neutrófilos. Isso é sinal de uma infecção importante, com alta capacidade de provocar toxemia – tanto é que tinha granulações tóxicas. Nós então ministramos dois antibióticos – penicilina e gentamicina – porque achávamos que podia ser pneumonia, devido à localização da dor, ou ainda, infecção urinária. Ministramos então antibióticos que cobrissem as duas possibilidades. Mais tarde ele foi reavaliado, já no dia 13 de fevereiro, permanecendo no mesmo estado.

Ainda no Hospital Bom Pastor? Sim, no Hospital Bom Pastor. No dia seguinte, 14 de fevereiro, ele passou o dia com dor e febre, mas num estado razoável. Até que no dia 15, pela manhã, ele então acordou com quadro de cansaço, torpor e sinais de cianose, configurando assim uma bacteriemia com possível quadro de septicemia. Foi então imediatamente transferido para o CTI do Hospital Regional, onde foi atendido e medicado.

Quer dizer que, até a transferência para o CTI do Regional, ele havia passado por esse hospital apenas quando atendido na Prontomed? Sim. Olhe, a Prontomed é um pronto atendimento onde há médicos especializados em casos de urgência, de particulares e de convênios. Como ele possuía convênio da polícia, foi recebido lá.

O senhor mencionava o instante em que ele havia sido transferido para o CTI do Regional. Isso. Lá, um dos primeiros exames pedidos foi o de HIV, porque percebeu-se que ele possuía uma imunodeficiência e uma simples infecção urinária ou pneumonia – ou ambas – não levaria a pessoa a uma septicemia, tomando dois antibióticos. Isso é quase impossível e praticamente só ocorre nesses quadros de imunodeficiência – e a mais comum hoje em dia, principalmente em rapazes jovens e solteiros, seria a AIDS. Bem, o exame deu negativo. Marco não tinha AIDS. Aquela foi uma suspeita então que não se confirmou – mas tivemos que fazer o exame para saber. No CTI, ele morreu em poucas horas, piorando sempre, mesmo tomando os antibióticos nas primeiras seis horas de internação.

Fale mais sobe o quadro clínico dele. O quadro séptico foi piorando, mesmo tomando os antibióticos. Marco não teve nenhuma melhora com todo o recurso terapêutico que poderia ter sido feito no instante. Então esse quadro intrigou todo mundo e seu corpo foi levado à autópsia. Nela foi demonstrado que havia uma infecção urinária, causada por enterobacter. A cultura de urina, pedida no Bom Pastor, e que ainda não havia chegado, confirmou a infecção. Também havia uma infecção pulmonar, uma pequena pneumonia. A urinária, eu acho que foi a que causou a septicemia, pois a pulmonar era tão pequena que seria quase impossível causar o quadro.

Qual foi a reação dos familiares do policial, quando souberam de sua morte e logo após? Passados alguns dias, os familiares de Marco – principalmente a irmã – me procuraram dizendo que eles estavam proibidos de falar. Disseram que o rapaz, alguns dias antes, não sei quantos, naquele evento em que se diz terem sido vistos seres extraterrestres em Varginha, foi um dos militares que ajudou a capturá-los. Disseram também que esse trabalho rendeu-lhe um machucado na axila – se não me engano a esquerda, ou no antebraço pouco abaixo da axila –, o que gerara um abscesso. A drenagem do abscesso foi feita no Hospital Bom Pastor.

Já no CTI do Hospital Regional, Marco morreu em poucas horas, piorando sempre. Mesmo tomando os antibióticos, ele não teve nenhuma melhora. Esse quadro clínico intrigou todo mundo e seu corpo foi levado à autópsia

Qual a importância desse abscesso na morte de Marco Eli Chereze? Na época da internação esse abscesso já estava praticamente curado – não havia mais secreção e não estava mais aberto. Posteriormente, eles [Os familiares] até resolveram processar o médico que drenou o abscesso, dizendo que tinha sido mal feita a drenagem – ou com pouca prudência – o que teria causado as infecções. Mas isso não é verdade, porque a bactéria encontrada na axila, na época do processo, não foi a mesma encontrada no rim – que causou a infecção urinária –, nem no pulmão. Foram outras bactérias totalmente diferentes. A encontrada no braço foi estafilococo, que é comum na pele – qualquer cabelo inflamado, qualquer infecçãozinha de pele, qualquer espinha, enfim, causa. E a drenagem foi feita normalmente, sem nenhuma intercorrência. Mas eles [Os familiares] juntaram isso ao fato de os militares estarem escondendo a captura do tal ser, por ordem de superiores da própria polícia – e, segundo a irmã de Marco, também do Exército. Ela estava a fim de colocar isso em discussão e descobrir se eu sabia de alguma coisa. Eu disse que não sabia de absolutamente nada, mas Antônia dizia que havia ordem para não se comentar nada. No entanto, estava fazendo esse comentário comigo.

O que o senhor achou dessa atitude da irmã do Marco, na época? Eu achei só uma coisa: que o óbito desse rapaz – a causa mortis – não ficou esclarecido. Porque, como já disse, a infecção era relativamente simples, e dias antes o rapaz demonstrava uma saúde muito boa, de quem nunca teve histórico de difícil tratamento que pudesse justificar uma imunodeficiência mais antiga. Poderia ser uma imunodeficiência congênita, mas ele não a tinha. Senão, não teria chegado aos 23 anos saudável.

A hipótese de Marco Eli Chereze possuir uma imunodeficiência congênita e ainda assim ter chegado à tal idade, de forma tão saudável, seria pequena? Sim, a chance de ele ter morrido quando ainda era menino era muito maior. Qualquer doença pode matar alguém com imunodeficiência. Não é possível uma pessoa viver mais de 20 anos sem contato com nenhuma infecção, sem nada, com uma imunodeficiência assim. Todos nós podemos ter infecção, ou não. Depende da nossa resistência. O imunodeficiente não tem muita resistência. Então, com certeza, ele não tinha esse quadro, ou não estava com imunodeficiência no dia em que morreu. Por esse motivo, certamente, [A imunodeficiência] foi adquirida. Como ele a adquiriu, ninguém sabe. Digo que a causa mortis não foi descoberta, porque não foi a pneumonia, nem a infecção urinária, nem o abscesso que o matou. Agora, a causa, nós não sabemos.

O senhor disse que a família processou seu colega, que teria feito a drenagem do abscesso. E afirmou que essa drenagem teria sido feita dentro do Hospital Bom Pastor. Foi isso mesmo? O médico o atendeu dentro do hospital Bom Pastor para fazer a drenagem?Sim, dentro do Bom Pastor, com tudo documentado. E não sei porque também a drenagem foi feita usando-se o convênio do Marco com o SUS, já que poderia ter sido o convênio que ele tinha com a polícia. Mas optaram pelo SUS.

Acreditava-se que a drenagem tivesse sido feita numa clínica do quartel. O familiares, inicialmente, falaram que sim. Mas depois se comprovou que eles estavam equivocados. Não foi no quartel, pois nele não havia condições de fazer o procedimento. Lá tinha um ambulatório e ele pôde ter sido atendido numa consulta, ou seja, ter sido informando que possuía o abscesso e o médico dito que teria de drenar – mas num hospital. Certamente, ele foi recebido lá, mas para uma consulta, e não para tirar o abscesso. Marco foi encaminhado a um local apropriado para drená-lo. A família foi quem entendeu que isso tinha ocorrido no quartel, mas foi um equívoco.

Se ele só foi atendido pela primeira vez na Prontomed, mas não chegou a ser internado no Hospital Regional naquela ocasião. Não. Só foi atendido. Não sei porque ele foi levado para o Bom Pastor, ao invés de ficar no Regional. Talvez não houvesse vaga no Regional ou lá não havia o convênio dele. Mas isso eu não sei falar. Talvez ambas as coisas, pois não tinha outra razão [Risos].

Foram vários os médicos que atenderam o policial Marco Eli Chereze. Dentre eles o senhor. O senhor foi o primeiro?
Não. O primeiro foi o doutor Armando. Depois o doutor René e aí, então, fui eu. Após isso veio ainda o doutor Lemos, ortopedista.

O doutor Armando é cardiologista. O doutor René, cardiologista e médico, e era residente no Hospital Bom Pastor à época. O doutor Rogério, ortopedista. Mas e o senhor, por qual razão foi chamado? Por ser o preceptor da residência lá. Preceptor é uma espécie de coordenador. Eu era o preceptor da radiologia do Hospital Bom Pastor na época.

Vamos falar especificamente sobre o doutor Rogério Lemos. Por que o senhor acha que ele foi chamado para atender o policial? Porque ele estava com dor e ela era muito forte na região da coluna. René e eu achamos que deveria haver a avaliação de um ortopedista, para se descartar uma hérnia de disco ou algum evento ortopédico interessante. E ele descartou imediatamente – nem medicar ele medicou, pois não era um problema ortopédico.

O doutor Rogério atendeu Marco Eli Chereze lá no Bom Pastor mesmo? Sim, lá no Bom Pastor. No Hospital Regional o médico responsável foi o doutor Alberto Severo de Paiva, por estar de plantão.

No hemograma expedido pelo laboratório de análises clínicas do Bom Pastor há nas observações o seguinte: “Presença de vacúolos citoplasmáticos. Presença de granulações tóxicas finas em 8% nos neutrófilos. Discreta poiquilocitose”. Como é que, como médico, o senhor interpreta a presença dessas granulações tóxicas finas em 8% nos neutrófilos? Elas aparecem nos neutrófilos de uma pessoa que está sendo atacada por uma bactéria com alta virulência. Isso faz uma massa de combate, vamos chamar assim, que poderia chegar a 50 ou 60%. O laudo mostra 8% porque foi o primeiro exame de sangue. E já mostra a infecção, que foi o que fez com que ministrássemos dois antibióticos.

Então, doutor Furtado, essas granulações tóxicas alertam o médico para o fato de que há uma infecção grave. Elas estão sempre presentes em casos de infecção? Não sempre, não. Mas, entretanto, a presença delas depõe a favor de uma infecção importante e grave.

É mais comum a presença delas, ou não? Não. É pouco comum. Mas nas graves é muito freqüente. Em toda infecção mais grave você tem com freqüência a possibilidade de encontrá-las em números que variam de 5 a 50%, ou até mais.

Nos meios ufológicos, quando alguns estudiosos leram isso que consta nas observações do resultado do hemograma, interpretaram que esses 8% de granulações tóxicas fossem algo desconhecido, a presença de uma substância nova ou algo assim. Não, não tem nada disso, absolutamente. Como eu disse, em outras infecções não aparece, mas é freqüente nas graves.

Doutor Cesário, os leigos interpretam as peças do inquérito policial, os laudos médicos e de laboratórios etc, como se os médicos que trataram do policial Marco Eli Chereze estivessem indecisos nos diagnósticos. Parece que não sabiam o que de fato ele tinha, tratando de três ou quatro doenças diferentes.
Quando ele chegou ao hospital, possuía uma dor que não estava bem característica ou não era bem típica de uma infecção urinária, de uma pneumonia ou de uma hérnia de disco. Ao aparecer a febre e ao vermos o hemograma alterado, ficou definido que se tratava de uma infecção. Mas onde seria a tratava de uma infecção. Mas onde seria a infecção? Como a dor estava na região lombar, poderia ser dos rins ou do pulmão. Com 24 horas de internação, Marco estava sendo medicado para essas duas infecções. Na autópsia, o tipo de infecção foi confirmado. Até então, não se tinha uma definição, apenas hipóteses. No tratamento eliminou-se a parte ortopédica. Nesses procedimentos, quando o paciente chega, nem sempre o diagnóstico está claro. Vai-se por várias hipóteses.

Prevalecia então uma infecção urinária? Prevalecia uma infecção de fundo renal, em virtude da presença da bactéria enterobacter. Aliás, quando eu falo em imunodeficiência, é importante observar que, em menos de 20 dias, três bactérias atacaram o policial. Três! Isso é a coisa mais rara do mundo. Uma infecção urinária, de garganta ou da pele em um jovem de 23 anos é normal. Mas três bactérias? Uma estava no braço uns dias antes, mas sarou. Depois veio a infecção urinária com esse enterobacter, que chegou inclusive a matá-lo. E havia também uma infecção no pulmão, isto é, outra bactéria.

A bactéria do pulmão não era importante? O Marco já estava sem defesas. Assim, qualquer bactéria pode vir a tomar conta da pessoa. A bactéria presente na pústula da axila estava mesmo debelada e havia desaparecido. Na época em que ele foi internado, já não havia mais nada, só a cicatriz.

É possível esta bactéria tê-lo matado? Não. Porque a encontrada foi outra. A descoberta na axila foi uma e a da infecção urinária foi outra. A primeira foi encontrada só na pele, que é o ambiente normal dela.

Essa enterobacter pode ser adquirida pela pele, numa lesão qualquer? Não, não é comum. Enterobacteres são bactérias que vivem nos aparelhos digestivo e urinário, até na garganta ou faringe. Só que elas estão em equilíbrio, em situação de não causarem infecção. É só cair a defesa do organismo que elas se multiplicam e atuam.

Durante todo o tempo que o senhor atendeu o policial, notou no Hospital Bom Pastor ou no Regional a presença de algum médico de fora, desconhecido? Não notei. Também não vi os superiores do Marco Eli Chereze, sejam da polícia ou do Exército. Eles não me procuraram, nem para colher qualquer informação sobre o rapaz, durante os dois ou três dias.

É importante observar que, em menos de 20 dias, três bactérias atacaram o policial. Três! Isso é a coisa mais rara do mundo. Uma infecção urinária, de garganta ou da pele em um jovem de 23 anos é normal.
Mas três bactérias?

Nesses dias, quem acompanhou o policial? Não sei, porque durante a internação não me encontrei com ninguém da família. Como ele se achava em instalações próprias, não havia contatos nossos com terceiros. Nem com militares.

O senhor mencionou que alguém da família lhe afirmara que desejava saber do que se tratava a doença, já que o policial teria participado da captura de algo estranho. Isso lhe foi dito antes ou depois da morte dele? Alguns dias depois, quando a morte ainda era recente. Não me lembro exatamente como, mas a irmã estava muito chocada e veio conversar comigo.

A bactéria mencionada pelo senhor, que pode ser adquirida pela pele, chega a matar? Chega. Se alguém tiver uma pneumonia com estafilococo, ou mesmo uma infecção urinária com estafilococo, pode morrer. Se a pessoa estiver imunodeprimida, qualquer bactéria pode matá-la.

No inquérito que apurou a morte do Marco existe a informação de um dermatologista. Ele fala de uma infecção pelo sangue, onde os glóbulos vermelhos foram infectados e atacados pelos glóbulos brancos. Aqueles 8% do exame de sangue, diz o dermatologista, poderiam denotar sim um contágio pela pele da eventual substância tóxica que atacou os glóbulos vermelhos. O que o senhor acha disso? Nada a ver. Não há relacionamento entre essas coisas. O relato ainda diz que poderia demorar alguns dias para se concretizar o processo, mas quando ocorre é fulminante – e isso não é verdade. Muito pelo contrário. Se um contágio assim ocorresse pela pele, nós estaríamos fulminados todos os dias.

O senhor chegou a ver o corpo após a morte? Não, não cheguei. Com o falecimento, o corpo vai para a autópsia e aí não há outro procedimento a se fazer. Não é comum. Depois que a pessoa falece, você dá a notícia para a família – e nesse caso nem fui eu, porque quando o removi para o CTI, transferi a responsabilidade para o médico de lá.

No CTI, como era o aspecto dele? Depois do Hospital Bom Pastor, o Marco piorou com falta de ar, septicemia e cianose. Tinha também confusão mental e sua pressão começava a cair. Ele teve algum estado delirante. Mas não notei se durante tal estado ele falou algo notável ou diferente.

A família chegou a cogitar a exumação do corpo? Que eu saiba, não. Porque, em que pese a causa da imunodeficiência não ter sido evidenciada, não seria uma exumação que iria constatá-la. A causa mortis imediata foi precisa. Aquilo que causou a morte no instante dela. Agora, o que levou à tal é que não foi esclarecido. Com certeza, uma imunodeficiência. Ora, o ataque de três bactérias naquele espaço de tempo, em locais diferentes do organismo, é difícil [Enfático].

O médico que assina o atestado de óbito informa também aquilo que matou a pessoa, como causa imediata, ou não? Sim. Se o médico tem ciência ou conhecimento da causa básica, coloca no atestado de óbito, mas no caso de Marco não se possuía qualquer dado que garantisse. Então, a causa não foi colocada.

Na época dos acontecimentos, em qual dos dois hospitais o senhor trabalhava mais? Não havia uma maior freqüência num ou noutro. Nossa residência tinha estágios no Bom Pastor e no Regional, geralmente por um mês em um, um mês no outro. Freqüentava muito ambas as instituições.

O senhor comparecia a esses hospitais permanecendo neles algumas horas ou dias? No Bom Pastor, eu ia todas as manhãs. No Regional eu não trabalhei naquele mês, janeiro de 1996. Meu compromisso era com o Bom Pastor, e em tal mês eu comparecia ao Regional eventualmente. Já no Humanitas era de acordo com o médico ter ou não um paciente internado – e não me lembro se tinha algum. Fiz plantão no CTI do Humanitas, mas lá eles são um a cada dez dias. E não vi nada...

Sem querer extrapolar a finalidade desta entrevista, e só com relação a fatos, o senhor chegou a observar alguma movimentação diferente na época, em algum desses hospitais? Ouvi falar muita coisa, mas movimentação eu não vi. Porque os boatos giravam em torno da maternidade do Hospital Regional, e eu não trabalho lá por não ser obstetra. Ademais, a maternidade é um pouco separada, com porta de acesso e tudo mais separado. No Humanitas, onde também trabalhei na época, não percebi nada. Nem comentários entre médicos, enfermeiros ou funcionários.

Esta pergunta, é claro, não envolve qualquer responsabilidade sua. Mas o senhor poderia nos dizer se tivesse de ser guardado um “material” como o que envolve o Caso Varginha no Hospital Regional, onde isso seria feito, para que ninguém visse? Olhe, é difícil, porque em qualquer apartamento daqueles, quando trancado, ninguém entra. Há apartamentos e alas reservadas lá, como na maternidade.

A maternidade do Regional possui ala reservada? Como é que funciona lá? Sim, embaixo há um centro obstétrico e uma ala reservada. Serve para pacientes com infecção e contaminados, onde só entram seus responsáveis e enfermeiros. Normalmente, os familiares não entram, mas chegam a um lugar próximo em horários de visita. A entrada é a mesma do hospital. Em outras épocas, hospitais assim tinham isolamento – mas em 1996 não havia mais.

E no Hospital Humanitas? Na época, o Humanitas tinha pouco movimento e várias áreas desativadas, inclusive as áreas embaixo.

Doutor Cesário, todo grande hospital deve possuir uma área reservada, uma área de isolamento, ou algo assim? Em outras épocas, sim. Hoje, não mais, exceto nos hospitais de doenças infecto-contagiosas. No CTI do Hospital Regional, por exemplo, há um apartamento que é utilizado às vezes, em casos muito especiais.

O que mais o senhor acharia interessante relatar sobre esse episódio? Olhe, tem a história contada pela família [Nota do entrevistador: sobre a participação do policial na captura de um ser], que desconheço e nada soube a respeito. Se foi criada uma fantasia em torno desse fato, a gente não sabe. Mas se analisarmos bem a maneira com que as coisas aconteceram, não encontraremos uma explicação clara para a morte do rapaz. Será que ele teria adquirido, nesse contato ou num corte que teve na pele, alguma coisa que acabou com sua resistência de forma rápida? Porque foi uma coisa bem rápida, entendeu? Garanto ao senhor que nenhum abscesso causa uma imunodeficiência. Um abscesso pode até dar septicemia, mas não mata ninguém. E qualquer antibiótico também cura. Não foi o caso. Não foi a bactéria que entrou pelo braço que provocou a infecção.

A não ser que fosse uma bactéria totalmente desconhecida, o que é pouco provável? Sim. Bem, em se falando de algo desconhecido, seria evidentemente impossível arriscar probabilidades. Não há como responder. Agora, será que ali entrou alguma outra coisa, também desconhecida, que tirou a imunidade dele? Essa é outra pergunta sem resposta.

O senhor poderia dizer que tipo de coisa poderia vir a ocasionar isso, por exemplo?
Não sei. Pode ser desde um “veneno” injetável, uma infecção em pele machucada, ou no rosto ou pé. Poderia ser por ferimento com prego, que pode causar tétano etc. Mas o tétano a gente conhece. Uma infinidade de coisas, eu estou dizendo – e dizendo apenas para exemplificar que entrou alguma coisa ali que tirou a resistência desse rapaz. Pode ser – e estou dizendo pode.

O senhor está me dizendo que a morte de Marco Eli Chereze foi uma morte estranha? Uma morte estranha e sem explicação clara. Na minha vida profissional, já vi duas pessoas em torno de 25 anos morrerem de infecção assim, mas ambas tinham sabidamente imunodeficiência. E as duas, que me lembre, tiveram o baço extraído [Esplenectomia] por algum acidente no passado. Em certo prazo, isso causa imunodeficiência. A pessoa pode morrer rapidamente nessa situação, se contrai um quadro de septipneumonia. Mas, mais uma vez, não foi o caso.

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Sobre o Autor

Ubirajara Franco Rodrigues

Ubirajara Franco Rodrigues nasceu em Campanha (MG), onde desde muito cedo se interessou por Ufologia. Uma experiência protagonizada por seu falecido pai, José Júlio, despertou sua atenção para o tema, e uma publicação sobre seqüestros alienígenas o fez perceber que algo sério envolvia o assunto. Ainda adolescente iniciou sua carreira de ufólogo, chegando a ser um dos mais destacados do mundo, com sistemáticas investigações de ocorrências no sul de seu estado, onde há uma rica casuística. O resultado deste trabalho foi publicado no livro Na Pista dos UFOs, embora o ponto alto de sua trajetória seja o episódio que deu origem ao seu segundo livro, O Caso Varginha, ambos pela Biblioteca UFO. Ubirajara foi apresentado ao cenário ufológico nacional pela pioneira Irene Granchi, em 1979, e de lá para cá o ufólogo vem defendendo uma postura séria e objetiva na Ufologia. Ele contabiliza em seu currículo muitos casos pessoalmente examinados, sendo o mais importante deles justamente O Caso Varginha, ocorrido em janeiro de 1996. Os resultados de suas pesquisas, depois divididas com outros estudiosos, são surpreendentes revelações. Foi co-editor e consultor da Revista UFO, para a qual, após se desligar, concedeu entrevista que ficou notória na Ufologia Brasileira por ter o ufólogo admitido que, hoje, tem uma postura cética quanto à maioria das ocorrências ufológicas já pesquisadas por seus colegas e inclusive por ele mesmo.

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