Edição 129
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Como se cria um mito apocalíptico: o cenário ideal e os requisitos perfeitos

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01 de Jan de 2007
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Antes de analisar a polêmica entrevista concedida por Rogério de Almeida Freitas – ou Jan Val Ellam – à Revista UFO, gostaria de deixar claro que tal análise se refere exclusivamente às afirmações e vaticínios do entrevistado na referida edição, e não a sua pessoa. Gosto muito de esoterismo e estudo o tema há bastante tempo, sendo inclusive membro da Ordem Rosacruz há mais de 35 anos. Portanto, sei bem as dificuldades que encontramos quando lidamos com assuntos psíquicos, e quão complexa é a tarefa de distinguir intuição de imaginação. Da mesma forma, como médico, atendo pacientes que também muitas vezes confundem suas percepções e passam a ter verdadeiros delírios, que invadem seu dia-a-dia e afetam sua atividade profissional e familiar.

Inúmeras previsões de cunho apocalíptico – parte das quais representada por um aludido contato oficial e definitivo com seres extraterrestres – são feitas diariamente por muitas pessoas, e não são poucas aquelas exploradas pela imprensa de maneira sensacionalista. Como se sabe, felizmente, a maioria de tais vaticínios não acontece. Ainda assim, vivendo em um mundo extremamente dinâmico, violento e com conflitos pontuais, estamos atentos a eles. Pessoas bem informadas e que se mantêm atualizadas com o rápido processo de evolução da humanidade podem até se dar ao luxo de brincar com a futurologia, fazendo previsões com grandes possibilidades de acertos. Em muitos casos, é só acrescentar um apelo místico a elas e se terá um cenário atrativo. Como quando o anunciador dos fatos alega que as tais previsões surgem em sua mente, independente de sua vontade, ou que vêm de uma aludida “consciência cósmica superior” que as impele a divulgá-las etc.

Geralmente, tais afirmações vêm seguidas da condição de que somente pessoas que tenham “vibrações positivas” e estejam “preparadas” poderão entender seu significado. Para aumentar a credibilidade dos fatos anunciados, o místico demonstra um quadro de humildade, calma e equilíbrio. Fala muito sobre o que prevê – e bem –, confundindo o raciocínio normal das pessoas. Em geral, usa um linguajar messiânico, com vasto emprego de palavras como “Jesus”, “consciência cósmica”, “hostes superiores” etc. E tudo aquilo que ele não sabe ou quando há algo que não quer responder, apela para o famoso refrão: “não tenho autorização para comentar tal fato”. Pronto. Com uma receita dessas se cria o ambiente propício para a emanação das previsões, e muitos que as ouvirem estarão se sentindo na obrigação de defender e entender as idéias expostas pelo místico anunciador.

Postura espiritual diferente — A entrevista de Jan Val Ellam à UFO 126, em seu conjunto, lembra muito uma situação semelhante ocorrida na década?de 80, quando o então suposto contatado Carlos Paz Wells [Depois submetido a uma cirurgia transexual e hoje rebatizado como Verônica Lane], falando do que chamava de “nossos irmãos maiores”, alegava que raças superiores do universo nos observam e temem que façamos uma grande besteira com o nosso planeta, alterando o?equilíbrio do universo. Coincidentemente, Ellam também nos fala de “nossos irmãos cósmicos”. Paz Wells ainda afirmava que devemos ter uma “postura espiritual diferente” quanto aos nossos semelhantes, e na época pregava que não deveríamos comer carne ou usar metais, e ainda deveríamos meditar para ter um contato com os tais irmãos maiores. Seu discurso era muito semelhante ao de Ellam. Para completar, Paz Wells ainda falava muito do esforço de alegadas hostes celestiais para nos proteger, garantindo que tinha tido contato físico com Ashtar Sheran em sua nave, além de constante contato telepático com ETs.

Como se vê, praticamente nada diferencia os anúncios passados de Paz Wells dos atuais de Jan Val Ellam – exceto por seu vaticínio quanto a uma tragédia no Oriente Médio, em 04 de outubro, que não se concretizou. Na mesma categoria de previsões podemos ainda mencionar aquelas supostamente originárias de Ashtar Sheran, como algumas mencionadas por integrantes do Centro de Estudos Exobiológicos Ashtar Sheran (CEEAS), sediado em Salvador (BA), e as de vários outros autores. Na referida entrevista de Ellam, não vi nada de novo, nada de inusitado, além da marcação específica de uma data, quando nada ocorreu. Por isso, em minha análise das alegações do entrevistado, vi ambigüidades quando ele afirma, por exemplo, que “...independente da devastação no Oriente Médio ocorrer ou não, persistiria o esforço dessas hostes [Celestes] em evitar tal estupidez”. Não deixa claro se vai ou não acontecer a referida catástrofe. Ao contrário, afirmações incluindo negativas dão margem à dupla interpretação, e nada acrescentam.

Da mesma forma que Jan Val Ellam menciona que Jesus é o comandante de uma frota galáctica em processo de aproximação da Terra, também vemos afirmações idênticas amplamente divulgadas em várias obras, entre as quais A Rebelião de Lúcifer, do espanhol J. J. Benítez [Editora Mercuryo, 1993], que apresenta Jesus Cristo como Michael, o regente de nossa galáxia. Mais uma vez, nada de novo. Benítez publicou seu livro há mais de uma década e a Fundação Urantia, uma conhecida entidade mística global, prega isso há bem mais tempo. Ellam inovou, ao contrário de muitos de seus antecessores, ao indicar que o suposto contato oficial e definitivo ocorreria em data muito próxima. Disse: “São cerca de 20 anos recebendo um fluxo de informações que impressiona a mim mesmo”, e completa que tais dados, “precisos e objetivos, apontam cirurgicamente para o período compreendido entre a segunda quinzena de novembro de 2006 e o?mês de abril de 2007” como data do grande encontro. Esta precisão cirúrgica mataria qualquer paciente que se dispusesse a esperar o contato, ainda mais tendo Ellam, recentemente, antecipado o aludido encontro cósmico para 18 de novembro passado, data em que ele simplesmente não se confirmou.

Atinando para a própria loucura — O mais estranho disso tudo é que, com toda essa certeza, quando refere-se a si mesmo, o autor diz que “resta ainda a hipótese de que seres de outras orbes, bem mais?evoluídos, estejam perdendo seu tempo para enlouquecer este pobre terrestre”. Ou seja, levanta a dúvida de estar errado quanto ao que anuncia. Em outra parte da entrevista, Ellam pergunta: “É possível perceber por mim mesmo que estou errado. Um bêbado reconhece a própria bebedeira? É possível um louco atinar para a própria loucura?” Ao questionar-se em sua entrevista, contradiz a si mesmo quando alude a uma suposta precisão cirúrgica por parte dos ETs que estariam chegando, que, segundo ele, já estariam contatando-o havia mais de 20 anos. Em outra parte da longa entrevista, diz Ellam que seus orientadores espirituais ou ufológicos lhe “forneceram exatamente o dia em que ocorrerá o cumprimento da promessa da parte do mestre de aqui retornar”. Mas é lacônico ao dizer que, contudo, não pode revelar tal data. “Pelo menos agora”. Mas ele mesmo se contradisse, em 15 de novembro, ao comunicar ao editor de UFO, A. J. Gevaerd, que a data fora antecipada para o dia 18 daquele mês, e assim poderia ser revelada. Só que, mesmo sendo conhecida a data, os ETs não vieram e nada aconteceu.

Como se vê, repete-se aqui a mesma velha história já vista em casos anteriores, quando o autor dos vaticínios alega que sabe das coisas, mas não pode revelá-las. Mas até Jan Val Ellam usaria este expediente? Vê-se que sim. Mais ambíguo ainda, em sua entrevista, é que a tal catástrofe que ocorreria no Oriente Médio, que não se confirmou, foi descrita como “a explosão de uma bomba química, biológica ou nuclear”. Ora, estas são armas bem distintas e de diferentes aplicações. Como alguém que afirma saber que uma devastação de tamanha proporção vai ocorrer em dado lugar da Terra, algo capaz de balançar todo o planeta, não consegue definir qual vai ser o elemento causador da tragédia? Uma explosão nuclear é bem diferente de uma arma química ou biológica, além do que, os conflitos na região existem há décadas e nem sabemos como uma tragédia como a anunciada ainda não tenha acontecido... De qualquer forma, é óbvio que nenhum ser alienígena, ninguém de fora da Terra precisaria nos alertar sobre tais riscos, tão evidentes e diariamente registrados pela imprensa.

Um contato fortuito e frustrante — Em outra parte da entrevista publicada em UFO 126, Ellam remete o leitor ao conceito de que estaríamos em uma espécie de “planeta prisão”, composto por seres aqui exilados por sua baixa espiritualidade, descritos por ele como “párias do universo”. Diz que não servimos para nada e nem sequer evoluímos, e por isso estamos aqui na Terra de castigo, esperando a redenção. Estes são conceitos abundantes na obra Exilados de Capela, de Edgar Armond [Editora Aliança, 1985], uma forte referência espírita largamente difundida e conhecida no meio, que defende a tese de que a raça humana é originaria da estrela Capela, a de maior grandeza da Constelação do Cocheiro. No entanto, em seguida, o entrevistado sugere que, de repente, a Terra virou o centro do universo, para onde virão naves de uma frota estrelar proveniente de vários lugares da galáxia, “numa espécie de força tarefa”, segundo o próprio. Seu objetivo seria nos salvar e dar-nos apoio, mesmo que, ao longo da entrevista, Ellam se contradiga novamente e mais uma vez se refira ao ser humano como “farinha do mesmo saco, já que?possuímos em algum grau o germe da incapacidade de amar o próximo e temos os mais diversos níveis de loucura”. Para ele, “não existem bonzinhos na Terra”.

Diante da afirmação do entrevistado de que nada somos, pergunto: para quê, então, todo esse esforço por parte de civilizações cósmicas avançadas em nos proteger ou salvar, ou mesmo para apenas mostrar sua existência a nós? Por que se dariam ao enorme trabalho de virem até este mundo de inúteis? E ainda que venham, por que, de acordo com Jan Val Ellam, “ao aqui chegarem, nada farão senão se mostrarem de forma inequívoca em todo o planeta, sem no entanto descerem ao solo?” Não nos ajudarão no day after, não nos ofertarão a cura de alguma doença, não nos ensinarão uma tecnologia nova, nada enfim trarão. A resposta para essa curiosa forma de contato oficial e definitivo, segundo ele, está no ser humano, que tem que evoluir sozinho e subir por si mesmo a escada do progresso enquanto espécie.

Um encontro tão fortuito quanto o anunciado poderia ter o condão de piorar ainda mais a situação planetária, com uma previsível guerra entre as religiões existentes, uma tentando ter a supremacia sobre a outra quanto ao que vai se caracterizar como o retorno do mestre, dividindo ainda mais a humanidade

Concluindo, a análise que faço é que as revelações de Ellam nada apresentam de bombástico, novo ou objetivo. E sendo sua única prova o aludido contato, que não ocorreu, ele entra na enorme fila dos que profetizam fatos de grande significado, mas que nunca acontecem. Por outro lado, é curioso examinar também o cenário terrestre caso efetivamente se efetivasse tal contato, nos moldes descritos pelo anunciador, frustrantes e insuficientes para saciar nossa curiosidade ou mesmo preencher nossa existência. Um encontro tão fortuito quanto o anunciado poderia ter o condão de piorar ainda mais a situação planetária, com uma previsível guerra entre as religiões existentes, uma tentando ter a supremacia sobre a outra quanto ao que vai se caracterizar como o retorno do mestre, dividindo ainda mais a humanidade. Enfim, disso tudo se conclui que nosso futuro apenas a nós pertence e dependemos exclusivamente de nós mesmos para construí-lo. Ninguém de fora pode neste momento nos ajudar, pois evoluímos vagarosamente na direção de conceitos mais aprimorados de direitos humanos, conservação do meio ambiente, respeito às minorias etc. Todos estes valores vêm sendo defendidos por um número cada vez maior de pessoas altruístas, que lentamente estão melhorando o nosso mundo.

Fanatismo ufológico ou fundamentalismo religioso?

Parece incrível, mas a publicação das profecias de Jan Val Ellam pela Revista UFO conseguiu complicar ainda mais o já confuso e desunido cenário ufológico. De um lado, aqueles que defendem uma postura científica não pouparam críticas a tudo: ao Ellam, às profecias e à própria revista. De outro, aqueles que defendem uma abordagem mística do fenômeno – nem todos, é verdade – apoiaram cegamente a posição do entrevistado e partiram para o ataque ao outro lado. Houve ainda aqueles que procuraram debater o teor das profecias e suas conseqüências de maneira isenta, mas foram vítimas da mesma postura fanatizada por parte daqueles que apóiam as palavras de profeta.

Fundindo religião com extraterrestres — Apesar de eu ser contra a publicação de material com tal conteúdo, acredito ser necessário salientar mais uma vez que a posição adotada pela UFO sequer deveria entrar em discussão, uma vez que a revista só fez publicar os fatos, sem tomar partido em nenhum dos lados e cumprindo seu papel de veículo de comunicação. Em minha opinião, lamentável mesmo é o conteúdo da referida entrevista. O tom messiânico e fundamentalista contido nas profecias de Ellam não traz nada de novo, e apenas reforça a cegueira contida na doutrina cristã – me impressiona a capacidade das religiões cristãs de ignorar a existência de outras crenças e se julgar superior a todas elas, como se sua verdade fosse única. Afinal, baseando-se nas afirmações de Ellam, como ficam as religiões anteriores ao próprio Cristianismo, que possuem cosmogonias absolutamente diferentes e independentes da cristã, como o Bramanismo? O que dá aos cristãos o direito de impor seu Deus aos demais, de julgar seu messias superior aos dos outros? O que determina esta diferença, além da subjetividade da crença e da fé? É curioso como são contraditórias as afirmações de Jan Val Ellam.

Afinal, ao mesmo tempo em que se alinham às crenças modernas, fundindo religião com extraterrestres, trazem em seu bojo esse ranço fundamentalista de caráter muito questionável – eu diria até perigoso. Qual seria, por exemplo, a opinião dos muçulmanos sobre tudo isto? Penso inclusive que tais vaticínios poderiam agravar ainda mais o já conturbado cenário no Oriente Médio, se amplamente divulgados, principalmente caso as profecias se concretizassem, apesar de já terem falhado, a princípio. E que fique claro que minhas críticas são ao conteúdo das mensagens, jamais ao seu portador, uma pessoa com histórico de integridade e que acredita de fato naquilo que transmite, ao contrário de outros supostos contatados brasileiros.

Rodrigo Branco, consultor da Revista UFO

E os ETs não vieram...

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Jan de 2007

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