
Nos anos 50, estranhas manifestações de objetos voadores não identificados passaram a ser registradas no Uruguai, chamando a atenção das autoridades. Na ocasião, os casos eram tantos que foram surgindo grupos de investigadores civis para tentar determinar a natureza daqueles fenômenos — já dados como certo serem veículos pilotados por seres procedentes de outros planetas. Buscava-se também entender suas intenções e especulava-se que tais inteligências tinham interesse nos recursos naturais do Uruguai. Durante a década de 70 os casos se acumularam e dezenas de novos relatos de UFOs foram feitos pela população do país, em diferentes localidades, aumentando gradativamente a ideia de que o fenômeno requeria uma pesquisa oficial.
O crescente número de ocorrências despertou o interesse de autoridades da Força Aérea Uruguaia (FAU), que ainda não sabiam se os avistamentos poderiam ou não ser uma ameaça à soberania nacional e à segurança aeronáutica. Assim, para investigar a fundo a natureza das manifestações, a FAU criou, em 07 de agosto de 1979, a Comissión Receptora e Investigadora de Denúncias de Objetos Voadores Não Identificados (Cridovni). Sua principal finalidade era complementar as tarefas desempenhadas pelo centro uruguaio de controle de tráfego aéreo, e a difícil tarefa de dar início à primeira entidade oficial do continente a pesquisar UFOs esteve a cargo do coronel da FAU Eduardo Aguirre. Desde então, mais de duas mil denúncias — relatos, em espanhol — de observações foram recebidas pela Comissão.
Desde seu primeiro ano de atividades, se integraram à Cridovni grupos civis de investigação ufológica de várias partes do Uruguai, que tinham experiência e arquivos valiosos sobre o tema, resultantes de anos de trabalho com a fenomenologia no país. Ainda atualmente está mantida essa integração entre os militares da Comissão e os ufólogos civis, e hoje há investigadores trabalhando em diferentes áreas, tais como meteorologia, astronomia, geobiologia — e até aviadores civis. A entidade também estabeleceu laços de cooperação com grupos não governamentais criados mais recentemente, como o Centro Regional Investigador de Fenómenos Aeroespaciais e Terrestres (Crifat), e entidades similares de outros países, permitindo intercambiar informações que levem à melhoria dos trabalhos.
Comprovação dos fatos
Em sua diretoria, a Cridovni conta com um presidente que coordena a Comissão e um secretário, além de um Departamento Operativo, um Departamento Técnico e um Departamento de Arquivo e Estatística. O primeiro executa o levantamento de provas e entrevistas com testemunhas de manifestações ufológicas, cuidando também das operações necessárias a uma investigação. O segundo tem como finalidade proporcionar apoio logístico, materiais e equipamentos necessários para tais operações. E o Departamento de Arquivo e Estatística é o que recebe toda a informação produzida e a processa para produzir conclusões baseadas na comprovação científica dos fatos.
A Cridovni tem como objetivo formal receber, estudar e avaliar todos os relatos de avistamentos de UFOs ocorridos no espaço aéreo uruguaio, como parte da competência da Força Aérea, de acordo com a Lei número 14.747, que dá apoio às atividades de controle do espaço aéreo e da segurança aeronáutica no país. A FAU tem a responsabilidade de exercer o controle da movimentação aérea e executar medidas de policiamento aeronáutico da nação. A Cridovni compila e classifica os registros ufológicos, mantendo um banco de dados digital e estabelecendo programas de estudo e cooperação técnico-científica em nível nacional e internacional com órgãos congêneres. Entre suas atividades, procura determinar as características dos objetos avistados e estabelecer pautas de comportamento dos mesmos, quando mantêm um padrão de voo não convencional.
Procedimentos investigativos
A Comissão estabeleceu sua própria metodologia de estudo, investigação e análise de cada registro de avistamento ufológico que recebe. Assim que uma ocorrência é comunicada à entidade, são feitos cinco questionamentos básicos como ponto de partida dos trabalhos: 1) que possibilidade de fraude há por parte das testemunhas; 2) que possibilidade de fraude há por parte de terceiros; 3) que possibilidade existe de se tratar de um fenômeno convencional; 4) que possibilidade esse fenômeno tem de ser uma ilusão de ótica ou um distúrbio psicológico; e 5) que possibilidade existe de se tratar de uma manifestação de algo não convencional.
A entidade, no entanto, não tem um orçamento próprio e seus integrantes não são remunerados. Por isso, os materiais, equipamentos, infraestrutura e transporte necessários para cumprir suas missões investigativas são proporcionados pela Força Aérea Uruguaia (FAU). Somente isso permitiria à Comissão realizar o seu trabalho. Seus membros também têm acesso a toda informação necessária referente ao tráfego aéreo e autorizações de voo sobre o país — assim como informações de radares [Foto acima], que ocasionalmente registram objetos que passam despercebidos. A Cridovni também tem à sua disposição informações meteorológicas atualizadas de hora em hora em todo o território nacional, o que em certas ocasiões é fundamental.
Outra ferramenta importante que a entidade usa é a análise de imagens fotográficas em laboratório, realizadas com o apoio do Serviço de Sensores Remotos Aeroespaciais da FAU. Muitas vezes a entidade recorre ao banco de dados de informações astronômicas do país, que é complementada por integrantes civis que constantemente acompanham eventos astronômicos, tais como chuvas de meteoritos, eclipses, fenômenos irregulares, atividades da Estação Internacional Aeroespacial etc, e têm dados de satélites e lixo espacial em órbita.
É parte da metodologia utilizada pela Cridovni dar valor a cada item de um caso ufológico analisado. Assim, entre outras questões, leva-se em conta desde a quantidade de testemunhas que presenciam o fenômeno até seu tempo de manifestação, passando, naturalmente, pela existência de fotografias, filmagens, restos sólidos e evidências físicas dos eventos. A Comissão também realiza uma avaliação psicológica das testemunhas para determinar seu estado e a veracidade dos fatos narrados. Esses itens proporcionam valores individuais que depois são colocados em uma equação, oferecendo uma análise concreta de a possibilidade de certo fenômeno relatado ser algo convencional ou não, ou mesmo uma fraude. A entidade não desc
arta qualquer hipótese de trabalho, como também não despreza a possibilidade de estarmos sendo visitados por extraterrestres. O que ela faz é tentar chegar a uma conclusão baseada em estudos científicos.
Dados estatísticos
Em cerca de três décadas de existência, a Cridovni já investigou mais de dois mil casos ufológicos, dos quais 27% foram descartados por não terem dados suficientes para uma análise mais apurada — ou eram relatos muito pobres para suscitar uma investigação. Dos 73% restantes, comprovou-se que 70% correspondem a fenômenos convencionais que vão desde o avistamento de aeronaves em manobras pouco comuns até fenômenos astronômicos e meteorológicos, passando por insetos ou aves próximos das lentes de câmeras fotográficas, até o registro acidental de partículas e manchas (nos casos do gênero). Cerca de 3% dos casos não puderam ser resolvidos, sendo classificados pela Comissão como “não convencionais”. Essas ocorrências são mantidas arquivadas e sua investigação é retomada quando há novos elementos que possam esclarecê-las — o que nem sempre ocorre. Embora essa não seja uma porcentagem exata e não se saiba o que são os artefatos tidos como “não convencionais”, todas as hipóteses para explicá-los são válidas e não se descarta qualquer possibilidade — incluindo a de serem aparelhos provenientes do espaço exterior, ou seja, tecnologia extraterrestre.
Alguns resultados das estatísticas da Cridovni são bem interessantes. Por exemplo, a maioria das testemunhas está na faixa dos 30 a 40 anos e, em 48% dos casos ufológicos registrados, apenas uma testemunha presencia o fenômeno — em 2% deles, sete ou mais pessoas observam a mesma manifestação. Com o passar dos anos, constatou-se uma notável diminuição na quantidade de novos relatos recebidos, mas, em contrapartida, houve uma melhoria na qualidade da informação que eles contêm. “Hoje, graças aos avanços tecnológicos, há um grande número de fotografias ou filmagens que retratam fatos nos céus uruguaios”, declarou o atual presidente da Comissión Receptora e Investigadora de Denúncias de Objetos Voadores Não Identificados (Cridovni), o coronel Ariel Sánchez. “A entidade se mantém aberta às inquietudes da sociedade quanto ao assunto e não oculta informação de nenhuma das ocorrências que pesquisa”, completou.