Poderíamos ter pego uma carona nos UFOs?

Equipe UFO
9 minutos de leitura

not 2589

Créditos:

Não é um tipo de discussão que você imagina ocorrer entre os figurões engravatados da Whitehall – analistas da defesa debatendo a existência de homenzinhos verdes e especulando se eles têm ou não visitado a Terra. Mas um grupo de documentos do Ministério de Defesa (MoD) recém lançados dá uma fascinante percepção acerca do interesse dos militares pelos UFOs. Eles contam a estória da decisão do MoD em investigar a ameaça que os UFOs poderiam constituir, e se a tecnologia militar alienígena poderia ser utilizada no campo da defesa. Eles também expõem as atitudes conflitantes dentro da Whitehall acerca do assunto e os esforços que os oficiais fizeram para manter o projeto em segredo.

Os documentos, muitos deles tarjados como “Segredos do Reino Unido”, exibem o raciocínio utilizado no Projeto Condign, que durou três anos e analisou mais de 10 mil possíveis avistamentos de UFOs – muitos destes por militares – coletados em várias décadas. A existência do relatório de 460 páginas foi revelada no ano passado, em conformidade com as solicitações feitas por David Clarke, professor de jornalismo da Universidade Sheffield Hallam, e por seu colega Gary Anthony, através do Ato de Liberdade de Informação (FOIA).

Os documentos mostram que os esforços internos para pressionar o estudo sobre os UFOs começaram em 1993. Em uma breve nota de uma agência do MoD sobre a investigação secreta dos UFOs – chamada DI55 – certo autor anônimo escreveu: “As implicações na segurança nacional são consideráveis. Nós temos muitos relatos de objetos estranhos nos céus e nunca os investigamos”.

“Eu também acredito que é importante observarmos que o que é considerado hoje como ‘fato\’ científico, pode não ser no futuro. Se são obtidos relatos da existência de dispositivos que não utilizam sistemas de propulsão convencionais e que atingem uma larga faixa de velocidades e são silenciosos, sugiro que poderíamos utilizar esta tecnologia, caso ela exista”. E especula: “Se os dispositivos avistados não são da Terra, então necessitamos urgentemente conhecer os propósitos deles. As possibilidades são: militares; científicas; turísticas”.

Conforme um analista aposentado do MoD – cujo nome não foi perguntado – o Ministério ficou paranóico em meados dos anos 80, com rumores de que a União Soviética teria desenvolvido tecnologia que estava além dos conhecimentos de física dos ocidentais. “Por muitos anos ficamos muito preocupados que em algumas áreas a Rússia lidasse com a física de forma que não éramos capazes. Nós simplesmente desconhecíamos sobre quais bases eles trabalhavam”, disse. “Encorajamos nossos cientistas a não pensarem que nós do ocidente conhecíamos tudo que havia para ser conhecido”.

O material que foi obtido da versão original do Projeto Condign, através do Ato de Liberdade, mas que foi publicado em outubro, após uma apelação, sugere que o MoD suspeitava que este conhecimento científico vinha dos estudos de UFOs – ou Fenômenos Aéreos não Identificados (UAPs), como eles preferiam chamá-lo. “Autoridades russas, das ex-repúblicas soviéticas e chinesas fizeram um esforço coordenado para entender o fenômeno. Diversas aeronaves foram destruídas e ao menos quatro pilotos morreram ‘caçando UFOs”.

Uma das conclusões do Projeto Condign era a de que os UAPs poderiam ser explicados através de fenômenos pouco conhecidos, chamados plasmas. O relatório diz que os militares russos estavam fazendo pesquisas utilizando os plasmas como antenas refletoras, redutores de atrito aerodinâmico, dispositivos de camuflagem e para a produção de objetos em forma de disco.

A solicitação inicial, em 1993, para uma pesquisa sobre os UFOs, feita pelo MoD foi arquivada, mas num memorando posterior, datado de 19 de junho de 1995 – após uma onda de avistamentos – um comandante do DI55 escreveu: “Até conduzirmos algumas análises dos arquivos, nós não teremos nenhuma idéia do que a maioria dos relatórios representam. Se em algum momento futuro for provada a existência dos UAPs, então haverá motivo para diversos embaraços”.

Clarke, cujo livro “Objetos Voadores: A História Social da Ufologia” será publicado em abril, diz: “Eles sabiam que devido ao fato de nenhum estudo detalhado acerca do assunto ter sido levado a cabo – e consequentemente não terem idéia do que os UFOs eram – eles não poderiam justificar o argumento de que estavam livres de qualquer ameaça”.

Nick Pope, que trabalhou no Ministério da Defesa até 1994, acrescenta: “Este sempre foi um assunto de grande debate. Como você poderia avaliar a questão para ver se havia algo significativo para a defesa sem ter de levar a cabo pesquisas e investigações? Penso que este é um daqueles temas com poucas probabilidades, mas com altas conseqüências”, adiciona. “Se desejássemos gastar um pouco mais de dinheiro, o potencial obtido, caso houvesse algo de importância para a defesa, seria justificável”.

Mas quanto dinheiro o MoD gastou? Um documento se refere ao custo estimado de 35.000 libras, enquanto outro de 1986, estimou 80.000 libras por um ano inteiro de estudos. O Projeto Condign, quando estava efetivamente começando, levou mais de três anos para ser concluído. Portanto, isso significa um custo de pelo menos 240.000 mil libras?

De acordo com o MoD, não. Embora ele não descarte esta possibilidade. “A hipótese da soma ser da casa das 80.000 mil libras por ano não tem fundamento e é imprecisa. Ela foi fundamentada a partir de um contrato existente de níveis orçamentários disponíveis”, acrescenta.

O projeto foi encomendado a terceiros de confiança do MoD e, embora seus detalhes não tenham sido revelados, os documentos sugerem que ele foi elaborado de forma a não expor o Projeto Condign. Nas correspondências do início de 1993, sobre o assunto, um memorando do DI55 se refere ao potencial de “embaraço político”, caso o projeto se tornasse conhecido. E continua: “Acredito que abrir um novo contrato especificamente para este estudo e se utilizar de licitações poderia potencialmente expô-lo a um grande público”. Mas Pope acredita que esta foi simplesmente uma medida prática. “Utilizar um contrato existente é sempre mais fácil do que contratar um novo. Não foi uma tentativa de evitar análise alguma. Foi uma solução rápida”.

Os memorandos internos e as breves notas são temperados com menções de considerável ceticismo por parte do comando do DI55. Nas instruções originais de 1993, ele escreve: “Eu estou bem ciente de qualquer um que fale sobre UFOs seja tratado com um certo grau de receio. Estou insistindo no tópico porque o DI55 tem responsabilidade com o assunto e não porque eu converso com homenzinhos verdes toda a noite&r
dquo;.

E em um documento posterior ele descreve: “Os cientistas e engenheiros presentes lidam seriamente com o tema enquanto os não cientistas – ou aqueles sem um embasamento da ciência da física – comumente fazem piadas sobre homenzinhos verdes e alucinações em massa”. Quando o Projeto Condign foi eventualmente concluído em 2000, ele chegou à conclusão de que não havia evidências de que os UAPs fossem de origem extraterrestre. Mas havia um limite no qual o autor poderia atuar, pois ele não era autorizado a entrevistar pessoas que tinham testemunhado eventos de UAPs ou a falar com especialistas.

“A natureza da classificação secreta significava que ele não estava autorizado a discutir o estudo com cientistas que estariam aptos a aconselhar-lo sobre a credibilidade das conclusões obtidas”, diz Clarke. Isto explica a frustrada conclusão do Projeto Condign – de que os UAPs são reais, mas causados por estranhos fenômenos de plasma que desafiam a compreensão científica. “Ele termina tentando explicar um mistério, mascaiu em outro”, diz Pope.

Compartilhe