Disclosure Day, de Steven Spielberg, e a verdadeira abertura ufológica: quando a ficção antecipa a realidade

Diferentemente de suas obras anteriores, marcadas pela perspectiva do mistério e do encontro, Disclosure Day surge em um contexto no qual a pergunta central já não é mais “eles existem?”, mas sim “por que fomos mantidos no escuro por tanto tempo?"

Thiago Ticchetti
7 minutos de leitura

Ao anunciar Disclosure Day, Steven Spielberg não apenas retorna ao território que ajudou a moldar culturalmente desde Contatos Imediatos do Terceiro Grau (1977), como também dialoga com um momento histórico singular: a abertura gradual, tensa e ainda inconclusa do fenômeno por governos, forças armadas e instituições científicas ao redor do mundo.

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Emily Blunt no filme “Disclosure Day”.

Diferentemente de suas obras anteriores, marcadas pela perspectiva do mistério e do encontro, Disclosure Day surge em um contexto no qual a pergunta central já não é mais “eles existem?”, mas sim “por que fomos mantidos no escuro por tanto tempo?”. Nesse sentido, o filme parece menos interessado em extraterrestres e mais focado no próprio processo de revelação — suas consequências políticas, psicológicas e sociais.

A ficção como espelho do mundo real

Desde 2017, com a publicação dos vídeos do Pentágono pelo New York Times, o tema deixou definitivamente o campo da especulação marginal. Relatórios oficiais do Departamento de Defesa dos Estados Unidos, audiências no Congresso, a criação de escritórios como o AARO e declarações públicas de ex-oficiais de inteligência apontam para uma mudança estrutural: o fenômeno aéreo não identificado passou a ser tratado como questão de segurança nacional e científica, ainda que envolto em ambiguidades cuidadosamente calculadas.

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A pergunta não é se eles estão aqui, mas por que não nos contam a verdade…

É justamente esse ambiente que Disclosure Day dramatiza. Segundo informações preliminares, o filme não gira em torno de uma invasão ou de um contato clássico, mas de um evento global de revelação — um “dia D” da verdade — no qual governos são pressionados a admitir aquilo que sabem, mas nunca disseram por completo.

Na vida real, porém, esse “dia” não chega de forma abrupta. Ele se fragmenta em vazamentos, relatórios inconclusivos, depoimentos sob juramento e declarações cuidadosamente redigidas para informar sem revelar demais.

Spielberg e o tema da mediação da verdade

Spielberg sempre tratou os UFOs como um fenômeno humano antes de extraterrestre. Em Contatos Imediatos, o foco não é a nave, mas a obsessão, o colapso da vida cotidiana e o choque psicológico do encontro. Em Disclosure Day, essa lógica parece se aprofundar: o impacto não vem do céu, mas da revelação institucional.

Nesse ponto, o filme dialoga diretamente com a realidade atual. A verdadeira abertura ufológica não ocorre por meio de conferências dramáticas ou discursos televisionados, mas através de documentos técnicos, audiências burocráticas e linguagem ambígua. A revelação acontece sem espetáculo — e talvez por isso seja tão difícil de ser compreendida pelo grande público.

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Spielberg transforma esse processo árido em narrativa, algo que o mundo real ainda não conseguiu fazer de forma clara.

O “Disclosure” como processo, não como evento

Um dos maiores paralelos entre o filme e a realidade está na própria noção de disclosure. A cultura popular sempre imaginou a revelação como um evento único e definitivo. No entanto, o que se observa é um processo contínuo, marcado por avanços e recuos.

Na prática, governos admitem a existência de objetos com desempenho além da tecnologia conhecida, mas evitam qualquer afirmação sobre origem. Cientistas analisam dados, mas esbarram em sigilo militar. Militares reconhecem encontros, mas classificam informações cruciais. Tudo é revelado — exceto o essencial.

Disclosure Day parece condensar décadas desse processo em um único momento simbólico. A vida real, por sua vez, opera na lógica da erosão lenta do segredo.

A abertura ufológica e o controle da narrativa

Outro ponto central é o controle narrativo. Assim como no filme, a abertura real ocorre sob rígido gerenciamento institucional. Não se trata apenas de revelar dados, mas de controlar o impacto da revelação. Questões religiosas, econômicas, estratégicas e psicológicas estão no centro do debate.

Nesse aspecto, o cinema exerce um papel fundamental: ele prepara o imaginário coletivo. Spielberg, mais uma vez, atua como mediador cultural, oferecendo ao público uma linguagem emocional para lidar com algo que, na realidade, chega de forma fria e técnica.

Não é exagero dizer que Disclosure Day funciona como uma espécie de ensaio emocional para uma humanidade que já vive, ainda que não perceba plenamente, um processo de abertura em curso.

Ficção científica ou realismo político?

O grande mérito de Disclosure Day parece residir justamente em borrar essa fronteira. O filme não pergunta se estamos sozinhos no universo, mas se somos capazes de lidar com a verdade quando ela desafia estruturas de poder, crenças estabelecidas e a própria noção de soberania humana.

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A verdade deverá ser contada?

Essa é exatamente a questão central da ufologia contemporânea. A verdadeira abertura não é tecnológica, mas cultural e política. Não envolve apenas naves, mas arquivos, decisões de Estado e décadas de silêncio oficial.

Quando o cinema alcança a realidade

Spielberg sempre afirmou que a ficção científica é uma forma de falar sobre o presente. Em Disclosure Day, esse princípio atinge seu ponto mais direto: o filme não antecipa o futuro, mas dramatiza o agora.

Enquanto aguardamos o tão falado “dia da revelação”, o que temos é um processo em andamento, cheio de contradições, avanços tímidos e resistências institucionais. O cinema oferece clareza simbólica; a realidade, complexidade desconfortável.

Assista ao trailer legendado do filme “Disclosure Day“, de Steven Spielberg.

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