Um ET em Varginha? Um ex-militar do Exército revelou, três décadas depois, que mentiu em um depoimento dado nos anos 1990 a um ufólogo sobre a suposta atuação das Forças Armadas no transporte de uma criatura extraterrestre em Varginha (MG). Segundo ele, que era soldado à época, o relato foi inventado após a promessa de pagamento no valor de R$ 5 mil feita pelo pesquisador.
A revelação foi exibida nesta quinta-feira (8), no último episódio da série documental O Mistério de Varginha. Além dessa confissão, o especial também apresentou o depoimento de outro ex-militar que manteve a versão original, afirmando ter presenciado a presença do suposto ET em um hospital da cidade sob monitoramento do Exército.

O episódio reforça ainda o testemunho das mulheres civis que, apesar dos impactos negativos sofridos ao longo da vida, sustentam até hoje, com sinceridade e riqueza de detalhes, que avistaram uma criatura não humana em um terreno baldio do município.
Testemunhas oculares do caso ET de Varginha
Ao longo dos anos, diferentes testemunhas foram associadas ao episódio. As três amigas que afirmaram ter visto a criatura em um terreno baldio mantêm a versão até hoje. Um médico declarou ter presenciado um atendimento médico prestado ao suposto ser e segue sustentando seu relato. Já entre os três militares que afirmaram ter participado da captura e transporte da criatura, dois recuaram e desmentiram suas versões iniciais, enquanto um segue confirmando o que disse no passado.
Contradições das testemunhas militares
Nos anos 1990, os depoimentos de bombeiros e militares do Exército ampliaram significativamente a repercussão do caso, que até então se limitava ao relato das três jovens que disseram ter visto uma criatura estranha em janeiro de 1996. À época, o ufólogo Vitório Pacaccini assegurava a legitimidade das informações.

“Todas as informações estão embasadas em depoimentos de testemunhas autênticas. Portanto, ninguém aqui está inventando nada”, afirmou ele naquele período.
Três militares prestaram depoimentos ao ufólogo responsável pelas primeiras investigações: um bombeiro que disse ter participado da captura da criatura, um cabo do Exército que afirmou ter visto o suposto ET em um hospital e um soldado que declarou ter atuado no transporte do ser de Varginha para Campinas.

O documentário ouviu novamente os dois militares do Exército e teve acesso a um áudio do bombeiro. Atualmente, tanto o bombeiro quanto o soldado afirmam que os relatos foram fabricados, enquanto o cabo mantém a versão apresentada originalmente.
Bombeiro voltou atrás em áudio de 2019
Uma das principais evidências divulgadas à época foi uma fita cassete com a voz de um militar do Corpo de Bombeiros afirmando que a criatura capturada “não era deste mundo”. Durante anos, essa gravação foi tratada como prova central da suposta captura.
“O Corpo de Bombeiros colocou dentro de uma caixa. Uma caixa de madeira coberta por um saco. Não é deste mundo. Não é”, dizia o áudio.
Em 2019, o autor da gravação foi localizado. Ele já estava na reserva, vivendo em Três Corações. O militar viria a falecer quatro anos depois, em 2023. Segundo investigado, bombeiro afirmou que o áudio fazia parte de um enredo fabricado e que havia sido persuadido a gravar o depoimento, arrepedendo-se logo após a gravação e sentido-se pressionado psicologicamente a participar da “farsa”.
Vitório Pacaccini declarou à equipe do documentário que chegou a orientar militares a negarem os relatos caso se sentissem inseguros. Segundo ele, a recomendação visava proteger os próprios depoentes e suas famílias.
Militar do hospital manteve versão, mas há suspeita de pagamento
Um segundo militar, que afirma ter visto a criatura em um hospital, manteve sua versão após 30 anos, sob condição de anonimato. Ele reafirmou ter participado da operação de retirada do suposto ser. No documentário, descreveu rapidamente o que teria visto, comparando a estrutura a uma espécie de mesa metálica e dizendo que, à primeira vista, acreditou se tratar de uma pessoa queimada.

Outras testemunhas, no entanto, alegam que ele teria recebido dinheiro para sustentar o relato. Para o ufólogo Ubirajara Rodrigues, o caso de Varginha acabou se tornando uma fonte de lucro para algumas pessoas.
Ricardo Melo, ex-motorista da Escola de Sargentos das Armas, também teve o nome associado ao episódio. Ele nega qualquer envolvimento e afirma que a história foi artificialmente construída. Segundo ele, um colega teria admitido ter gravado depoimentos após receber oferta financeira.
O militar ouvido pela equipe do documentário negou ter recebido qualquer pagamento, embora admita ter recebido propostas.
Terceiro militar relata promessa de pagamento e arrependimento
Após meses de negociação com a produção, um terceiro militar aceitou falar e apresentou a denúncia mais direta. Ele afirmou que o depoimento foi ensaiado e condicionado à promessa de pagamento. Segundo seu relato, a história foi criada por Vitório Pacaccini, que teria orientado detalhadamente o que deveria ser dito.

O militar contou que se sentiu pressionado e inseguro, e que o ufólogo chegou a mostrar gravações de outros militares como forma de convencimento. Disse ainda que foi prometida uma quantia que acredita ter sido de R$ 5 mil, valor significativo para sua realidade na época, mas que nunca chegou a receber o dinheiro.
Ele afirmou carregar arrependimento profundo e culpa por ter participado da farsa, dizendo que a história jamais aconteceu e que a cidade de Varginha acabou projetada internacionalmente por algo que, segundo ele, não existiu.
Ufólogos negam pagamentos e falam em tentativa de desmoralização
Vitório Pacaccini negou qualquer tipo de pagamento ou manipulação e afirmou que os depoimentos foram prestados de forma espontânea. Disse ainda que os militares demonstravam medo e que ele apenas buscou tranquilizá-los, garantindo proteção. Segundo Pacaccini, tentativas de desmoralização da pesquisa foram feitas ao longo dos anos por terceiros.

O ufólogo Marco Antônio Petit de Castro também rejeitou as acusações, afirmando nunca ter tido conhecimento de qualquer favorecimento financeiro e ressaltando a seriedade com que o grupo sempre tratou o caso.
Relatos das meninas são tratados como distintos
Apesar das suspeitas e controvérsias envolvendo depoimentos militares, parte dos ufólogos faz uma distinção clara em relação aos relatos das três mulheres que afirmam ter visto a criatura. Para alguns pesquisadores, esses testemunhos se mantiveram coerentes ao longo do tempo, diferentemente das versões que surgiram posteriormente.
Segundo Ubirajara Rodrigues, a dignidade e a consistência dessas testemunhas são fundamentais para avaliar a honestidade de seus relatos, mesmo diante das controvérsias que cercam o restante do caso.
Três décadas após os acontecimentos que projetaram Varginha para o centro da ufologia mundial, o que emerge não é uma narrativa simples, mas um emaranhado de versões conflitantes, interesses cruzados, recuos tardios e silêncios institucionais. As revelações exibidas na série O Mistério de Varginha não encerram o caso — ao contrário, escancaram suas fragilidades e aprofundam questionamentos que jamais foram devidamente respondidos pelas autoridades brasileiras.
“Os depoimentos contraditórios de militares, alguns negando o que afirmaram no passado e outros mantendo suas versões, fragilizam a narrativa construída ao longo dos anos, mas não a anulam por completo. Em especial, causam estranhamento as alegações de promessas financeiras, suposta manipulação psicológica e encenação de depoimentos, temas graves que exigiriam, por si só, apuração rigorosa e transparente. O simples fato de tais acusações jamais terem sido investigadas oficialmente já revela um problema estrutural: o caso Varginha nunca foi tratado com a seriedade institucional compatível com sua repercussão internacional”, disse Thiago Ticchetti, editor da Revista UFO.

“Ao mesmo tempo, chama atenção a permanência e coerência dos relatos das três testemunhas civis. Diferentemente de outros personagens, elas não lucraram com a história, não mudaram suas versões e, ao longo de quase 30 anos, enfrentaram estigmatização, ataques públicos e impactos pessoais profundos. Esse dado não pode ser descartado levianamente, pois na investigação ufológica a consistência testemunhal ao longo do tempo é um dos poucos elementos objetivos disponíveis quando documentos oficiais são escassos ou inexistentes”.
Também é impossível ignorar o papel das Forças Armadas brasileiras. Desde o início, o Exército adotou explicações consideradas frágeis, inconsistentes e, em alguns casos, contraditórias, o que contribuiu para alimentar suspeitas, especulações e desconfiança pública. A ausência de uma investigação independente, aliada ao histórico de sigilo e desinformação em casos ufológicos no Brasil e no exterior, impede qualquer encerramento definitivo do episódio.
Por fim, o caso Varginha revela mais sobre o funcionamento das estruturas de poder, da comunicação oficial e da fragilidade da memória institucional do que sobre a natureza exata do fenômeno observado em janeiro de 1996. Seja qual for a explicação final, o episódio permanece como um marco incontornável da ufologia brasileira — não apenas pelo que se afirma ter acontecido, mas pelo modo como versões foram construídas, contestadas, negadas e, por vezes, manipuladas ao longo do tempo.
Enquanto documentos permanecem sob sigilo, testemunhas seguem em silêncio ou se contradizem, e autoridades evitam respostas diretas, a verdade continua fragmentada. E, como ocorre em tantos outros casos ufológicos ao redor do mundo, Varginha segue aberta — não como lenda, mas como um símbolo da necessidade urgente de transparência, investigação séria e respeito à inteligência da sociedade.

