Trinta anos depois de se tornar um dos episódios ufológicos mais marcados na história brasileira, o chamado “Caso ET de Varginha” voltou ao centro das discussões — desta vez com uma declaração inesperada de um dos pesquisadores que esteve envolvido na investigação original.

O incidente, ocorrido em janeiro de 1996 na cidade de Varginha (MG), começou com relatos de três jovens que disseram ter visto uma criatura estranha na rua durante uma tarde chuvosa. A história ganhou enorme repercussão nacional e internacional e, ao longo dos anos, foi alimentada por depoimentos, livros, documentários e teorias de conspiração envolvendo supostas capturas de seres não humanos e movimentação de militares.
Por décadas, o caso foi tratado por muitos como prova de um encontro extraterrestre no Brasil, com relatos de criaturas capturadas e segredos mantidos pelas Forças Armadas — apesar de versões oficiais sempre negarem que algo fora do normal tenha ocorrido.

No entanto, um dos ufólogos que, na época, esteve ligado à promoção e análise do episódio passou recentemente a questionar a própria validade da história. Em entrevista, ele afirmou que, analisando os dados disponíveis e refletindo sobre o conjunto de testemunhos, não existe evidência concreta de que o episódio tenha ocorrido como foi divulgado — chegando a dizer que a narrativa construída ao longo dos anos “não existiu de fato” e que atualmente não acredita mais na sua versão original do caso. (informações divulgadas em reportagem recente no portal G1).
No início das investigações, Ubirajara foi a primeira pessoa a dizer às jovens que o que elas relataram poderia ser um extraterrestre. Na época, a declaração ajudou a fortalecer a narrativa ufológica e deu repercussão nacional e internacional ao caso.
“Cometi o grande erro que os ufólogos cometem. Eu disse a elas que o que elas avistaram, a ufologia, que é um estudo assim, assim, assado, acredita que sejam seres de outros planetas“, disse Ubirajara.

Ubirajara Rodrigues afirma que sua mudança de posicionamento não ocorreu de forma repentina, mas foi resultado de um longo processo de reflexão que se estendeu por quase três décadas. Segundo ele, o contato contínuo com pesquisadores do meio acadêmico o levou a reavaliar erros e equívocos cometidos no passado, além de considerar críticas e sugestões sobre novos caminhos de investigação. “Não cheguei a essa conclusão de uma hora para outra. Foram praticamente 30 anos de reflexão, dialogando com pessoas da academia e confrontando meus próprios erros, buscando entender o que realmente deveria ser investigado”, afirmou.
Não há provas nem indícios
De acordo com o ufólogo, após anos de estudo e troca de informações com especialistas de diferentes áreas, ele concluiu que os relatos existentes não são suficientes para comprovar a presença de uma nave ou de uma criatura de origem extraterrestre em Varginha. Essa posição, segundo ele, já vinha sendo defendida publicamente há anos.
Em uma reportagem exibida pelo programa Fantástico, em 2010, Ubirajara Rodrigues já sustentava que o caso carecia de comprovação objetiva. Na ocasião, afirmou que os registros de supostos objetos voadores não identificados foram raros e que, apesar da existência de dezenas de depoimentos de pessoas de diferentes contextos socioculturais, esses relatos não constituem prova de que algo extraordinário tenha ocorrido na cidade. “Não há provas nem indícios de que Varginha tenha sido palco de um evento envolvendo uma nave espacial de outro planeta”, declarou.

Hoje, o ufólogo afirma que se arrepende de ter dito às jovens que o que elas viram poderia ser um extraterrestre. Segundo ele, esse tipo de afirmação pode influenciar profundamente testemunhas e levá-las a reconstruir a própria memória.
“Nossas crenças podem influenciar as testemunhas, que acabam reconstruindo aquela história e tornando-a crível para elas mesmas. Hoje, por exemplo, se um caso semelhante caísse em minhas mãos, eu jamais faria isso de novo. Jamais cometeria esse erro crasso“, disse Ubirajara.
Quanto aos militares, Ubirajara declarou que “Eu acho que foram depoimentos induzidos, que foram depoimentos fabricados, que foram artificialmente, segundo a crença da ufologia, levados a dizer o que dizem“.

Por outro lado, o ufólogo Vitório Pacaccini, que atuou ao lado de Ubirajara Rodrigues desde o início das investigações e foi responsável por entrevistar militares que, à época, confirmaram a narrativa do caso, afirmou ter se sentido profundamente decepcionado com a mudança de posicionamento do antigo colega.

Segundo Pacaccini, o impacto da declaração não se limitou ao meio ufológico. “Claro que foi uma grande decepção, não apenas para mim. Muitas pessoas da ufologia, e até mesmo aquelas que acompanham a pesquisa sem fazer parte do meio, também ficaram bastante decepcionadas”, afirmou.
Reação das testemunhas
A reavaliação feita por Ubirajara Rodrigues também teve reflexos diretos sobre as mulheres que afirmam ter presenciado a criatura em 1996. Uma delas, Liliane de Fátima Silva, disse ter se sentido abandonada diante da reviravolta.
Segundo ela, a mudança de discurso provocou revolta e frustração. “Na época, fiquei muito indignada. Eu me perguntava o que havia acontecido, como alguém poderia simplesmente destruir tudo. Nós nos sentimos abandonadas, porque ele iniciou a história dizendo que o que vimos era real, ajudando a esclarecer nossa cabeça. E, depois de 15 anos, levou todo esse tempo para dizer que não acreditava mais? Fazer o quê?”, desabafou.

Kátia Xavier afirmou que ouvir o pesquisador declarar publicamente que a história não era verdadeira foi um choque profundo, abalando sua dignidade e provocando forte sofrimento emocional. Segundo ela, a declaração teve um impacto devastador em sua vida naquele período.
“Isso nos deixou completamente sem chão. Foram dias, semanas, até meses sem dignidade. A sensação era de sermos as piores pessoas do mundo — pelo menos foi assim que eu me senti. Ouvir ele dizer que tudo aquilo era mentira foi extremamente doloroso”, relatou Kátia.
No documentário, o ufólogo afirmou que o que as jovens teriam visto, na verdade, era um morador da cidade com deficiência intelectual, conhecido pelo apelido de “mudinho”. Essa versão também foi a conclusão apresentada por um Inquérito Policial Militar (IPM) instaurado pelo Exército à época dos acontecimentos.
Para o editor da Revista UFO, Thiago Ticchetti, “a mudança de posicionamento de Ubirajara Rodrigues, embora apresentada como fruto de décadas de reflexão pessoal, contrasta de forma direta com o amplo conjunto de evidências, testemunhos e inconsistências oficiais que marcaram o Caso ET de Varginha desde 1996. Ao reduzir todo o episódio a um equívoco interpretativo ou a uma explicação simplista, sua nova leitura ignora depoimentos consistentes de testemunhas civis, profissionais de saúde, agentes públicos e, sobretudo, militares que, em diferentes momentos, confirmaram movimentações atípicas, ordens superiores incomuns e procedimentos incompatíveis com situações rotineiras.

Além disso, as explicações oficiais apresentadas ao longo dos anos — incluindo versões contraditórias envolvendo animais, cidadãos locais e operações sanitárias improvisadas — revelam um histórico de narrativas frágeis, mal documentadas e, em alguns casos, claramente fabricadas para encerrar o assunto sem esclarecimento real. O próprio Exército, ao tentar normalizar acontecimentos extraordinários, acabou reforçando dúvidas ao apresentar versões que não se sustentam tecnicamente nem cronologicamente quando confrontadas com os relatos independentes.
Desconsiderar esse conjunto de elementos não enfraquece apenas o Caso Varginha, mas compromete o próprio método de análise histórica e investigativa. A ciência avança pelo confronto crítico de dados, não pela negação seletiva de evidências incômodas. Ao abandonar completamente o caso, Ubirajara opta por uma interpretação que, longe de encerrar o debate, aprofundou ainda mais a divisão entre testemunhas, pesquisadores e a opinião pública, deixando feridas abertas em pessoas que jamais buscaram protagonismo, mas apenas relataram o que viveram.

Três décadas depois, o Caso ET de Varginha permanece sem uma explicação oficial coerente e verificável. Enquanto documentos permanecem sob sigilo, depoimentos seguem silenciados e contradições oficiais não são esclarecidas, qualquer tentativa de decretar o encerramento definitivo do episódio soa precipitada — e, para muitos, injusta. O caso não sobrevive por crença, mas pela ausência de respostas convincentes.
Ao longo de três episódios, a série documental “O Mistério de Varginha” revisita o caso que ganhou repercussão internacional há 30 anos no Sul de Minas, reunindo depoimentos inéditos, além de documentos, áudios, arquivos históricos e registros oficiais nunca exibidos. A investigação apresenta diferentes versões sobre o que teria acontecido na cidade e confronta relatos que marcaram o episódio. O terceiro e último episódio será exibido no dia 08 de janeiro, na TV Globo após “O Auto da Compadecida 2” ou no Globoplay.

