Três décadas após os acontecimentos que colocaram Varginha (MG) no centro da ufologia mundial, o Caso Varginha voltou ao debate público com a exibição de um documentário produzido pela Rede Globo. Embora a produção tenha reavivado o interesse popular pelo episódio ocorrido em janeiro de 1996, ela também provocou forte reação entre pesquisadores, testemunhas e integrantes históricos da investigação, que apontam omissões graves, distorções narrativas e a exclusão de evidências documentais fundamentais.
Foi diante desse cenário que a Revista UFO promoveu uma live especial reunindo seu editor, Thiago Luiz Ticchetti, o pesquisador Marco Antônio Petit, presidente da Comissão Brasileira de Ufólogos (CBU) — e o advogado Flori Tasca, representante jurídico da revista UFO, membro da CBU e presidente do Grupo Ufológico Pato Branco – PATOVNI. O objetivo foi claro: apresentar ao público aquilo que o documentário exibiu de forma incompleta ou simplesmente deixou de fora.

Um caso maior do que um único depoimento
Uma das principais críticas feitas à série televisiva é a redução do Caso Varginha a um número limitado de testemunhos, especialmente ao episódio envolvendo as três jovens que relataram o avistamento de uma criatura. Embora esse relato seja central, os pesquisadores lembram que o caso é composto por múltiplas camadas: movimentações militares atípicas, relatos de civis independentes, declarações de profissionais da saúde, avistamentos de objetos voadores e documentos oficiais posteriormente obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação.
Segundo os debatedores, o documentário ignorou deliberadamente testemunhas civis adicionais, como moradores que presenciaram capturas, trabalhadores que observaram movimentações incomuns e relatos colhidos por jornalistas à época, entre eles os documentados no livro Os ETs de Varginha, de Margarida Hallacoc. Essa exclusão compromete a compreensão do fenômeno como um evento complexo e multifatorial.

A controvérsia do “mudinho” e o Inquérito Policial Militar
Outro ponto central da crítica refere-se à explicação oficial adotada pelo Exército Brasileiro e reforçada pelo documentário: a hipótese de que as jovens teriam confundido a criatura com um morador local conhecido como “mudinho”. De acordo com Marco Petit, essa tese não se sustenta nem logicamente nem documentalmente.
O Inquérito Policial Militar (IPM) instaurado à época contém, segundo os pesquisadores, indícios claros de manipulação. Um dos aspectos mais graves revelados é a existência de pedidos formais para que fotografias do morador fossem alteradas, com o objetivo de aproximá-las da descrição do ser observado pelas testemunhas. Além disso, o IPM teria modificado o horário oficial do avistamento — deslocando-o da tarde ensolarada para o período noturno chuvoso — para adequar a narrativa a essa explicação alternativa.
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Esses elementos constam do próprio inquérito militar, mas não foram apresentados ou contextualizados no documentário, apesar de terem sido indicados aos produtores durante as entrevistas.
Acusações sem provas e o peso da edição
Talvez o ponto mais sensível abordado na live tenha sido a forma como o documentário tratou acusações contra o ufólogo Vitório Pacaccini, sugerindo que testemunhos teriam sido obtidos mediante promessa de pagamento. Os participantes destacaram que acusações dessa gravidade exigiriam provas materiais, investigação jornalística aprofundada e direito pleno ao contraditório — o que, segundo eles, não ocorreu.
Gravações históricas envolvendo militares, realizadas nos anos 1990 com o compromisso de sigilo para proteger as fontes, foram utilizadas de maneira fragmentada. Trechos essenciais, que contextualizam o medo real de represálias por parte das testemunhas e suas motivações para falar, ficaram de fora. A edição final, afirmam os pesquisadores, construiu uma narrativa que lança suspeita sobre décadas de trabalho investigativo sem apresentar evidências equivalentes ao impacto das acusações.
Ex-militar disse que temia pela vida
Ao relatar o momento em que o médico levantou a lona, o militar afirmou que, para ele, aquilo definitivamente não era humano. Disse que não havia como confundir o que viu com uma pessoa comum, descrevendo a aparência como extremamente feia e perturbadora. Além do aspecto visual, chamou atenção para o odor intenso que emanava do local, um cheiro muito forte, semelhante ao de amoníaco, que reforçava a sensação de estar diante de algo fora do comum.
Segundo seu relato, as suspeitas de que algo diferente havia ocorrido começaram a se intensificar quando ele e outros envolvidos passaram a ser isolados. O ambiente mudou completamente: cessaram as conversas informais, ninguém perguntava como estavam ou o que havia acontecido, e a orientação passou a ser clara e direta — ninguém sabia de nada, ninguém tinha visto nada. Essas instruções, segundo ele, vinham de todos os níveis da hierarquia, incluindo oficiais como o coronel Vanderlei, o tenente Tibério e o sargento Pedroso.
O isolamento tornou-se ainda mais evidente dentro da ESA, onde ele praticamente deixou de ter contato com outros militares que participaram da missão. A rotina passou a ser fragmentada, com escalas desencontradas e afastamentos deliberados, impedindo qualquer troca de informações entre os envolvidos. Para ele, esse procedimento reforçou a sensação de que havia algo sério sendo ocultado.

Com o passar do tempo, ao acompanhar reportagens na televisão e nos jornais, o militar começou a ligar os fatos. Reconheceu pessoas envolvidas nas investigações e percebeu que as notícias estavam diretamente relacionadas à missão da qual havia participado. Para ele, não restava dúvida de que os acontecimentos divulgados publicamente tinham ligação direta com o que ocorrera em Varginha.
Ele relatou que só esteve na cidade após os primeiros eventos, integrando um comboio que partiu em um sábado pela manhã. O deslocamento ocorreu de forma aparentemente normal, com viaturas e pelo menos um caminhão, além da presença de carros civis estacionados ao longo do trajeto. Apesar disso, afirmou que não recebeu explicações claras sobre o objetivo da missão, apenas ordens para interromper outras atividades e cumprir o deslocamento determinado.
O depoimento assume um tom ainda mais grave quando o militar admite temer por sua própria vida. Ele declarou acreditar que as informações que detém são extremamente sensíveis e que existe, sim, a possibilidade de sofrer algum tipo de retaliação.
Deixe-me te perguntar algo direto: você teme pela sua vida?
— Sim. Não apenas temo, como acredito que algo pode acontecer.
— Sim. Não apenas temo, como acredito que algo pode acontecer.
— Você está convicto disso? Acha possível que tentem te matar?
— É possível, sim.
— É possível, sim.
Embora não soubesse apontar quem executaria uma ação desse tipo, afirmou temer membros da alta hierarquia militar, responsabilizando diretamente seus superiores caso algo lhe acontecesse. Entre os nomes citados estão o coronel Vanderlei, o coronel Moura, subcomandante, e o general Lima, comandante da unidade à época.
Segundo ele, o medo não se restringe a uma pessoa específica, mas ao conjunto da estrutura de comando, que teria poder e influência suficientes para silenciar qualquer um que representasse uma ameaça à versão oficial dos fatos.
Jornalismo, ética e responsabilidade histórica
Os debatedores foram cuidadosos em diferenciar a instituição Rede Globo de decisões editoriais específicas tomadas na produção do documentário. Ainda assim, ressaltaram que o jornalismo investigativo tem como princípio básico a busca equilibrada da verdade, especialmente em casos históricos sensíveis, nos quais documentos oficiais, testemunhos e contextos precisam ser confrontados de forma transparente.
Ao omitir denúncias documentadas sobre possíveis irregularidades no IPM, ignorar depoimentos relevantes e privilegiar interpretações que descredibilizam pesquisadores sem o devido respaldo probatório, a produção — segundo a análise apresentada — deixou de cumprir plenamente esse papel.
Um caso longe de estar encerrado
Longe de “sepultar” o Caso Varginha, como alguns críticos sugeriram após a exibição da série, o documentário acabou reacendendo o debate e motivando novas iniciativas de esclarecimento. A Comissão Brasileira de Ufólogos e a Revista UFO reafirmaram, durante a live, seu compromisso com a investigação responsável, o uso da Lei de Acesso à Informação e a preservação da memória histórica do caso.
Trinta anos depois, o Caso Varginha permanece aberto — não apenas como um enigma ufológico, mas como um exemplo emblemático de como a verdade pode ser fragmentada quando interesses narrativos se sobrepõem à investigação completa dos fatos.


