O Ceticismo Alemão na Era da Abertura Ufológica: Número de avistamentos bateu recorde em 2025

Centenas de avistamentos foram registrados em 2025 contrastam com o silêncio do governo alemão. Por que?

Thiago Ticchetti
9 minutos de leitura

Enquanto os Estados Unidos avançam rapidamente no debate público sobre os UFOs com audiências no Congresso, divulgação de vídeos militares e depoimentos de oficiais de alto escalão, a Alemanha parece seguir na direção oposta. Em pleno momento histórico da chamada “Era da Abertura Ufológica”, o país mantém uma postura marcada pelo ceticismo institucional e por uma resistência quase absoluta ao reconhecimento de fenômenos anômalos reais em seus céus.

Essa postura chama ainda mais atenção quando se observa que a Alemanha possui um histórico significativo de casos ufológicos bem documentados, muitos deles envolvendo múltiplas testemunhas, autoridades, militares e até registros em radar. Ainda assim, tais episódios raramente fazem parte do debate público contemporâneo no país.

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Uma Narrativa Controlada

A abordagem alemã em relação aos OVNIs é fortemente influenciada por uma única entidade civil: o CENAP (Central Research Network for Anomalous Phenomena). Fundado em 1973 por Werner Walter e Hans Jürgen Köhler, o grupo construiu sua reputação com base quase exclusiva na negação sistemática do fenômeno ufológico.

Após a morte de Walker, Köhler tornou-se o principal — e praticamente único — porta-voz dessa visão. Astrônomo amador autodidata, sem formação acadêmica formal, ele passou a ocupar espaço recorrente na grande mídia alemã, sendo frequentemente apresentado como “especialista” por emissoras como a ZDF. Sua presença constante ajudou a consolidar a ideia de que todos os casos relevantes já teriam sido explicados, mesmo quando evidências apontam o contrário.

Casos Clássicos Ignorados pela Narrativa Oficial

Apesar do discurso de que não há mistérios reais nos céus alemães, diversos casos contradizem essa visão.

Um dos mais emblemáticos ocorreu em 1989 e 1990, durante a chamada “Onda Belga”, que também afetou a Alemanha Ocidental. Na região da Renânia do Norte-Vestfália, múltiplas testemunhas relataram grandes objetos triangulares silenciosos, com luzes nas extremidades, voando a baixa altitude. Alguns desses avistamentos ocorreram próximos a bases da OTAN, levantando preocupações militares na época. Embora casos semelhantes na Bélgica tenham sido oficialmente investigados pela Força Aérea, os relatos alemães foram rapidamente descartados.

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Outro episódio marcante ocorreu em Greifswald, em 1990, quando centenas de pessoas observaram fenômenos luminosos incomuns no céu noturno da antiga Alemanha Oriental. Objetos brilhantes permaneceram visíveis por longos períodos, realizando movimentos erráticos. A explicação oficial apontou testes de foguetes soviéticos, mas essa hipótese foi contestada por pesquisadores independentes, que destacaram inconsistências temporais e comportamentais nos relatos.

O Incidente de Ramstein

Talvez o caso mais sensível envolvendo território alemão seja o ocorrido nas proximidades da Base Aérea de Ramstein, uma das mais importantes instalações militares dos Estados Unidos na Europa. Ao longo das décadas de 1970 e 1980, diversos relatos de objetos não identificados sobrevoando a região foram feitos por civis e militares.

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Embora nunca oficialmente reconhecidos, esses episódios ganharam relevância por envolverem uma área altamente sensível do ponto de vista estratégico. Para críticos do ceticismo institucional, o silêncio em torno de Ramstein não reflete ausência de fenômeno, mas sim restrições políticas e militares.

Pilotos, Radares e o Caso de Bremen

Em 2014, um caso moderno chamou atenção internacional: controladores de tráfego aéreo do aeroporto de Bremen relataram objetos não identificados detectados por radar, enquanto pilotos confirmavam visualmente luzes estranhas no espaço aéreo. As autoridades chegaram a suspender pousos temporariamente por razões de segurança.

Embora o evento tenha sido confirmado oficialmente, a explicação final foi vaga, atribuindo o ocorrido a drones ou falhas técnicas — sem que provas conclusivas fossem apresentadas. Para ufólogos, o episódio demonstra que o fenômeno não pertence apenas ao passado e continua se manifestando mesmo em um dos espaços aéreos mais monitorados da Europa.

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Uma Alternativa Científica Marginalizada

Curiosamente, a Alemanha possui outra organização civil dedicada ao estudo dos OVNIs: a GEP (Gesellschaft zur Erforschung des UFO-Phänomens), fundada em 1972. Oficialmente registrada, com centenas de membros e participação de cientistas e engenheiros, a GEP adota uma postura equilibrada: reconhece explicações convencionais quando cabíveis, mas admite a existência de casos genuinamente inexplicados.

Apesar disso, desde 2011, a GEP perdeu espaço na mídia alemã. Seu trabalho raramente é citado, enquanto a narrativa cética permanece dominante. O resultado é um ambiente em que o fenômeno é tratado como inexistente, mesmo diante de registros históricos sólidos.

O Papel da Mídia e o Efeito Silêncio

A imprensa alemã tem papel central nesse processo. Ao recorrer quase exclusivamente a fontes céticas e evitar comparações com investigações internacionais — como as conduzidas nos EUA, França ou Japão — os grandes veículos contribuem para um isolamento informacional.

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Esse cenário desencoraja testemunhas a relatar avistamentos, gera descrédito automático e cria um efeito de autocensura coletiva. Pilotos, controladores de voo e cidadãos comuns preferem o silêncio ao risco da ridicularização.

Aumento de relatos em 2025

O Centro Alemão de Pesquisa para Fenômenos Aéreos Incomuns (CENAP), com sede no oeste da Alemanha, registrou em 2025 o maior número de relatos de objetos voadores não identificados desde o início de suas atividades. Segundo o diretor da instituição, Hansjürgen Köhler, foram contabilizados 1.348 relatos feitos por cidadãos da Alemanha, Áustria e Suíça, além de alguns registros vindos de outros países. O centro atua como um ponto de referência para o público que busca explicações científicas para observações incomuns no céu, e utiliza o termo OVNI no sentido estrito de “objeto voador não identificado”.

De acordo com Köhler, o volume de relatos vem aumentando de forma constante desde 2019, embora até o momento não haja qualquer confirmação da presença de naves de origem extraterrestre. A maioria dos casos analisados acabou sendo explicada por fenômenos astronômicos conhecidos, especialmente a confusão entre planetas e estrelas brilhantes — como Vênus, Júpiter e Sirius — que frequentemente são interpretados como objetos misteriosos. Meteoros particularmente luminosos também surpreenderam muitos observadores e motivaram diversos registros.

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Outro fator relevante para o crescimento das notificações foi o aumento de observações do sistema de satélites Starlink. Mais de 120 relatos foram associados a essas formações de satélites, incluindo avistamentos feitos por pilotos durante voos noturnos. Além disso, parte dos registros foi atribuída a estágios de foguetes, satélites e detritos espaciais que se tornam visíveis ao reentrar na atmosfera terrestre. O centro também destacou o crescimento contínuo de relatos envolvendo drones, tanto de uso privado quanto industrial e policial, fenômeno que vem se intensificando nos últimos cinco anos e contribuindo para a percepção de atividade incomum nos céus europeus.

A Alemanha Está Ficando para Trás?

A contradição é evidente: um país com casos históricos relevantes, infraestrutura científica avançada e localização estratégica opta por se afastar de um dos debates mais importantes do século XXI. O estudo dos UFOs deixou de ser folclore e passou a integrar discussões científicas, políticas e de segurança nacional.

Ignorar esse movimento não elimina o fenômeno — apenas reduz a capacidade de compreendê-lo. Em um momento em que a ciência reconhece seus próprios limites, o ceticismo absoluto pode ser tão prejudicial quanto a crença acrítica.

Na era da divulgação global dos UFOs, o silêncio alemão talvez diga mais do que qualquer explicação oficial.

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