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Não será nada fácil detectar vida extraterrestre inteligente

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16 de Julho de 2019
Ilustração
Créditos: UFO

No Encontro Ciência 2019, que reuniu mais de 4000 pessoas e terminou nesta quarta-feira no Centro de Congressos de Lisboa, o físico Michael Garrett, diretor do Jodrell Bank Centre for Astrophysics, o famoso observatório astronômico da Universidade de Manchester (Reino Unido), participou numa sessão sobre o projeto SKA - Square Kilometer Array, um gigantesco radiotelescópio que vai ter milhares de antenas na África do Sul e na Austrália totalizando uma área recorde de 1 km2 (um milhão de metros quadrados).

A sede do SKA foi inaugurada esta semana no observatório da Universidade de Manchester. O SKA vai permitir, entre outras coisas, a descoberta de sinais de vida em planetas extrassolares. Mas em entrevista ao Jornal Expresso, Michael Garrett reconhece que, se existirem civilizações tecnológicas avançadas extraterrestres, “não parecem ter qualquer efeito nos dados astronômicos que foram recolhidos até agora por todos os telescópios existentes”.


Porque afirmou na sua intervenção, no Encontro Ciência 2019 em Lisboa, que “a evidência sugere que o sucesso da pesquisa de inteligência extraterrestre (SETI - Search for Extraterrestrial Intelligence) vai ser muito difícil”?
Há várias razões para eu dizer que vai ser muito difícil detectar vida extraterrestre inteligente. A principal é que uma civilização tecnológica levou muito tempo a emergir na Terra desde que surgiu a vida, é relativamente recente. A vida começou há cerca de 3,8 mil milhões de anos ou provavelmente há mais tempo e a civilização tecnológica no nosso planeta emergiu apenas há 200 anos. É possível que a vida na sua forma mais simples, a vida unicelular, seja muito comum no Universo, mas formas de vida mais complexas devem ser raras e uma civilização tecnológica exige que aconteçam uma série de coisas aleatórias para que se torne possível. O ser humano surgiu há cerca de um milhão de anos e só nos últimos 50 anos começámos a ter radiotelescópios capazes de comunicar a distâncias interestelares.

E as outras razões?
Não vemos evidências nos dados astronômicos que recolhemos até hoje, tanto dados de ondas de rádio como de todo o espectro eletromagnético (infravermelho, ultravioleta, Raios X, Raios Gama, micro-ondas, luz visível), que provem a existência de vida inteligente no Universo, isto é, nunca temos de invocar explicações não naturais para os dados que recebemos. Por outro lado, as civilizações realmente avançadas que podem ter emergido devem certamente produzir muita energia e, portanto, muito calor residual. Se for assim, devíamos detectar esse calor residual, a energia que produzem sob a forma de calor, através de telescópios terrestres como o ALMA (radiotelescópio com 66 antenas parabólicas do Observatório Europeu do Sul, no Chile), por exemplo, e de telescópios espaciais como o Spitzer (da NASA), mas isso não tem ocorrido até agora, não encontramos assinaturas de calor residual. Ou seja, as civilizações realmente avançadas não parecem ter qualquer efeito nos dados astronômicos que recolhemos.

Michael Garrett: “Não vemos evidências nos dados astronómicos que recolhemos até hoje que provem a existência de vida inteligente no Universo”

Michael Garrett: “Não vemos evidências nos dados astronómicos que recolhemos até hoje que provem a existência de vida inteligente no Universo”

 

Será possível descobrir indícios da visita de civilizações extraterrestres no Sistema Solar?
O Sistema Solar é basicamente intocado, as sondas enviadas da Terra para os seus planetas e luas não encontraram artefactos nem outros sinais de que tivessem sido visitados por uma civilização avançada com capacidade para fazer viagens interestelares, não há materiais deixados por visitantes. Na Lua, por exemplo, vemos as marcas no solo deixadas pelos astronautas e pelos rovers que conduziram, paraquedas, escudos térmicos largados pelas naves que alunaram, etc. É evidente que fico muito entusiasmado quando visitamos um novo planeta ou uma nova lua do Sistema Solar, porque encontramos sempre coisas inesperadas. Mas quando visitamos um novo cometa, por exemplo, tudo parece intocado, não apenas pelos humanos mas igualmente por qualquer outra civilização. Portanto, do meu ponto de vista como físico, não há nada que prove que civilizações avançadas viajem entre as estrelas ou mesmo que enviem os seus robôs. Talvez sejam tão pequenos que não os vemos...

Há cientistas que chamam de ausência de provas o “Grande Silêncio”.
É verdade. No fundo, parece que o Universo tem boas condições para a emergência de vida e de vida inteligente, há outros planetas além da Terra onde isso pode acontecer, mas ainda não vemos qualquer evidência dessa realidade. É o chamado Paradoxo de Fermi, a aparente contradição entre a elevada probabilidade de existência de civilizações extraterrestres e a falta de provas concretas sobre elas.

O físico italiano Enrico Fermi tinha razão em 1950?
Não sei. A verdade é que os projetos de SETI não foram até agora muito sistemáticos. Fazemos radioastronomia e outros tipos de astronomia há muito tempo e os instrumentos que usamos estão cada vez melhores. O facto de termos descoberto uma série de coisas novas, como pulsares (estrelas de neutrões), rajadas rápidas de rádio, planetas extrassolares, outras estrelas com planetas como o Sol, tudo isto faz sentido, eram descobertas que nos anos 60 do século XX esperávamos conseguir um dia.

Com a nova geração de telescópios que vai ser construída, como o SKA (com milhares de antenas na África do Sul e na Austrália), o E-ELT - European Extralarge Telescope (no Chile) ou o telescópio espacial James Webb da NASA, acha que as dificuldades atuais de deteção de vida extraterrestre inteligente poderão ser mitigadas?
Não sei. Talvez as civilizações tecnológicas sejam raras ou não durem muito tempo. O telescópio James Webb poderá conseguir detetar assinaturas muito simples de vida básica. Mas só poderemos observar em detalhe as estrelas mais próximas do Sistema Solar, e a hipótese é que exista vida nas suas formas mais simples em cerca de 100 dessas estrelas, não sou otimista, é apenas uma fração muito pequena da nossa galáxia, da Via Láctea. Mas em princípio algumas das estrelas observadas terão planetas a uma distância razoável, o que significa que não serão nem muito frios nem muito quentes, e se neles se desenvolveu a vida, a fotossíntese, iremos detetar sinais de oxigénio na atmosfera. O mesmo poderá acontecer em Marte.

E se descobrirmos formas de vida simples, microscópicas, em Marte, semelhantes às que existem na Terra?
Bom, há muitas trocas de materiais entre Marte e a Terra ao longo da sua história através da queda de meteoritos, por exemplo. E todo o conceito de Panspermia – a hipótese de que a vida existe em todo o Universo distribuída pela poeira espacial, meteoritos, asteroides, cometas, pequenos planetas (planetoides) e mesmo naves espaciais contaminadas por microrganismos – é hoje muito mais aceite pela comunidade científica do que há 20 anos atrás. De certa maneira isto é positivo, porque significa que, mesmo se a vida é rara, se ela se pode mover entre planetas, não tem de acontecer apenas uma vez, há muitas possibilidades de emergir. Claro que a vida tem de sobreviver nestas longas viagens, mas podemos pensar na Panspermia a operar a escalas locais, dentro de cada sistema estelar, e também entre vários sistemas estelares, espalhando a vida pelo Universo.

Em 1961 o astrónomo Frank Drake inventou uma equação, a Equação Drake, que estima o número de civilizações extraterrestres ativas na nossa galáxia com as quais teremos hipóteses de comunicação. A equação tem sete parâmetros e na altura era difícil encontrar valores para eles, mas hoje, com a descoberta de cada vez mais planetas na Via Láctea, isso é possível? 
Hoje conhecemos quase todos esses parâmetros astronómicos - a taxa de formação de estrelas na Via Láctea, a fração das que possuem planetas em órbita, o número médio de planetas por estrela que potencialmente permitem vida, etc. - e mesmo em 1961, quando Frank Drake criou a sua equação, a ideia de que a maior parte das estrelas teria provavelmente planetas já existia. Assim, as estimativas feitas nos anos 60 do século XX eram mais ou menos certas. Mas estamos a falar apenas das questões de natureza biológica, porque em termos sociais precisamos de saber outras coisas: Quanto tempo pode permanecer ativa uma civilização tecnológica? Como usa os recursos naturais e as fontes de energia do seu planeta rochoso? Que impacto tem no ambiente? Possui armas de destruição maciça? Tem um crescimento exponencial da tecnologia, incluindo coisas que não pode controlar, como a produção de CO2, de robôs, de Inteligência Artificial? Estará a gerar as sementes da sua própria destruição?

Entrevista publicada pelo Jornal português Expresso

 

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Junho de 2019

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