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Marcos Pontes volta esta semana para Bauru

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06 de Junho de 2010
Astronauta brasileiro se recupera da viagem ao espaço e em breve virá ao Brasil
Créditos: Arquivo

O astronauta e consultor da Revista UFO Marcos Pontes voltará na próxima sexta-feira para sua cidade-natal, Bauru, no interior de São Paulo. A previsão é que ele chegue às 09h00 no Aeroclube e desfile pela cidade em carro aberto. O astronauta será recebido por um coral e por crianças que participam do projeto educacional do Jornal da Cidade. Pontes vai batizar um avião com seu nome e inaugurar a exposição de um aeroplano criado em 1907 por Santos Dumont, o Demoiselle. Readaptação de Pontes deve durar 10 dias. O primeiro cosmonauta brasileiro e consultor da Revista UFO, Marcos Pontes, o russo Valeri Tokarev e o americano Williams McArthur estão em boas condições de saúde após sua permanência na Estação Espacial Internacional (ISS), informaram hoje fontes médicas russas. "Todos os astronautas, inclusive Pontes, estão bem, após seu retorno da ISS", disse Yuri Vorontsov, subdiretor do Instituto de Assuntos Médicos e Biológicos adjunto ao programa espacial russo. Os três cosmonautas foram submetidos a exames médicos e os resultados foram satisfatórios, informou o funcionário à agência "Interfax". Vorontsov acrescentou que os três astronautas estão em condições de participar da entrevista coletiva convocada para esta terça-feira na Cidade das Estrelas, nos arredores de Moscou. Será o primeiro encontro de Pontes com a imprensa, após encerrar neste domingo com sucesso o primeiro vôo espacial de um astronauta brasileiro como parte da missão "Centenário". Pontes, de 43 anos, viajou para o espaço a bordo da nave Soyuz TMA-8 e permaneceu oito dias nos módulos da ISS desenvolvendo um programa de experimentos científicos. Tokarev e McArthur, integrantes da 12º expedição permanente (ISS-12), trabalharam no espaço durante quase seis meses e serão submetidos a um curso de readaptação maior devido a sua prolongada permanência no espaço, explicou Vorontsov. “Precisamos retomar as conversas. Mas do nosso ponto de vista, o novo nível de financiamento para o projeto muito provavelmente não inclui uma oportunidade de vôo para um astronauta brasileiro”, afirmou Ahlf em entrevista à BBC Brasil.

A permanência do Brasil no consórcio vai depender do volume de recurso que o país estiver disposto a desembolsar, na avaliação do responsável pela América Latina no Escritório de Relações Externas da NASA, Michael Moore. Isso quer dizer que, ao não cumprir com o acordo firmado em 1997 que previa a entrega de seis equipamentos para a Estação Espacial Internacional, o Brasil perdeu o direito de enviar um astronauta para o espaço, no convênio com a NASA. Regresso a Houston. Em entrevistas, Pontes disse que pretendia voltar para Houston e que poderia participar dos vôos da NASA a partir de 2009. Segundo Ahlf, o treinamento recebido pelo brasileiro em Houston foi útil para que ele se qualificasse para o vôo a bordo da nave russa. “Estamos felizes que Pontes tenha tido a oportunidade de voar neste acordo comercial com a agência russa. Achamos que é uma coisa positiva tanto para a agência brasileira quanto para a cooperação geral no espaço”, afirmou Ahlf. A redução da participação brasileira na Estação Espacial Internacional começou a ser negociada no início do governo Lula, mas as conversas ficaram paradas a partir de fevereiro de 2003 – período em que se deu o acidente do ônibus espacial Columbia, que colocou em compasso de espera todo o programa de vôos para a estação, ainda em construção. O Brasil ainda é considerado pela NASA como integrante do projeto, segundo Ahlf. Mas ele ressalta que apesar de ter investido no desenvolvimento inicial dos equipamentos que deveria fornecer, o Brasil não chegou a fornecer nenhum equipamento para a estação.

O acordo foi firmado em 1997, pelos ex-presidentes Bill Clinton e Fernando Henrique Cardoso. Naquela época, o Brasil se comprometeu a fornecer uma série de equipamentos para a Estação Espacial Internacional. Em troca, o Brasil ganharia o direito de treinar um astronauta no Centro Johnson, que depois iria para o espaço em um ônibus espacial americano. Pelo acordo, o Brasil poderia ainda fazer uso da estação para pesquisa. Os equipamentos foram orçados na época pelo governo brasileiro em US$ 120 milhões [R$ 256 milhões]. Das seis peças previstas no acordo, as duas mais importantes, de acordo com Peter Ahlf, são o palete expresso para experimentos na estação espacial, um equipamento que seria utilizado dentro e fora da estação, e o contêiner despressurizado para logística.Os equipamentos nunca chegaram a ser entregues. “Trabalhamos com o governo brasileiro por alguns anos e sei que eles investiram recursos no desenho dessas peças, mas chegamos a um ponto em agosto de 2002 que parecia que eles não iriam conseguir entregar o equipamento”, afirmou Ahlf. No início do governo Lula, em 2003, as duas agências começaram a conversar sobre a redução da participação brasileira, para acomodar o corte de orçamento da Agência Espacial Brasileira. “Começamos a conversar sobre um acordo diferente, reduzido, mas não completamos nada”. Depois do acidente com o ônibus espacial Columbia, em fevereiro de 2003, o foco da NASA mudou. “Francamente, isso não é uma prioridade para nós. Por esse motivo, não completamos um novo acordo. E também nós não tivemos muita pressão do governo brasileiro para retomar essas discussões”, afirmou Ahlf. Segundo ele, a prioridade da NASA passou a ser os procedimentos que pudessem garantir que os ônibus voassem com segurança e a manutenção da Estação Espacial Internacional em órbita mesmo sem os vôos. Enquanto isso, as viagens ficaram paradas, e só foram retomadas no ano passado. Ahlf diz que a NASA continua interessada nos equipamentos brasileiros, mas que se a Agência Espacial Brasileira não for capaz de fornecê-los, a agência americana vai buscar outras alternativas. “Se retomarmos as conversas com o governo, tenho certeza que vamos encontrar uma maneira para que eles sejam úteis”, afirmou. O diretor da NASA lembra que as agências americana e brasileira têm outros acordos de cooperação, que continuam em andamento, como um para a análise do clima na Amazônia.

Editorial: Vale a pena a missão de nosso astronauta ao custo de US$ 10 milhões? Marcos Pontes sonhou em ser astronauta e está realizando seu sonho. O Brasil contribuiu com US$ 10 milhões para isso, e ele, nosso astronauta (e também consultor da Revista UFO), entrou com seu sonho. Muita gente da comunidade científica brasileira está criticando o fato e até mesmo ícones como o astrônomo Ronaldo Mourão lamentaram publicamente a ida de Pontes ao espaço. O cientista, entre outros, alegam que o astronauta “apenas pegou uma carona com os russos”, que seus experimentos são “desimportantes” e que tudo não passa de uma “manobra política do governo Lula para desviar a atenção de nossos reais problemas”. Nenhuma das alegações se sustenta. Aliás, para falar francamente, temos que nos preocupar se os experimentos científicos são importantes ou não? E daí que Pontes tenha tomado uma carona com os russos? Além disso, é claro, a afirmação de que sua ida ao espaço tem a finalidade política de afastar a atenção dos brasileiros das acusações de corrupção da equipe do presidente Lula não tem fundamento. Afinal, Pontes está no espaço seguindo um cronograma, e não uma agenda definida por nossos governantes, que não podiam interferir na data de lançamento. Todas essas alegações são pífias. A verdade é que estes foram provavelmente os mais bem empregados US$ 10 milhões do governo Lula. Em meio a tantas sujeiras que as CPIs têm levantado nos últimos meses, em que se constatou que o Valérioduto drenou R$ 1,4 bilhão, ou cerca de US$ 650 milhões, para pagar propinas a deputados e senadores da base aliada, os US$ 10 milhões gastos com a viagem de Pontes é uma verdadeira pechincha. Ainda mais – e principalmente – se comparada aos resultados que tal investimento representa para o Brasil e para os brasileiros. Ora, qual é o brasileiro que não ficou orgulhoso do feito de Pontes, que acabou se tornando uma conquista de todos nós? Muito adulto chorou na frente da TV ao ver o lançamento da Soyuz (paz em russo) e um homem honesto vencer na vida ao realizar seu sonho. Este autor, inclusive.

E muita gente se emocionou ao ver o Pontes, espremido por dois dias e duas horas dentro da nave minúscula, até chegar na ISS, apontar para a bandeira do Brasil no macacão e, depois, para cima. E vê-lo finalmente entrando na ISS portando a mesma bandeira, agora maior, foi simplesmente arrebatador. Uma emoção sem igual. Lembrou Airton Senna e alguns outros brasileiros que também admiramos, ontem e hoje. Havia muito tempo que não víamos um patriota como nosso astronauta. Fazia tempo que não víamos um bom exemplo de cidadão honesto e trabalhador, lutador ao extremo, que subiu um a um todos os intermináveis degraus que separam os mortais dos astronautas. E com isso, Marcos subiu também todos os degraus que o conduziram à realização de seu sonho, mostrando a cada um de nós – e ele não cansa de dizer isso em suas coletivas com a Terra – que sonhos são para ser realizados. Pontes concretizou o dele não às custas dos US$ 10 milhões, mas às custas de sua tenacidade, de sua persistência, de sua honestidade para com os próprios princípios. Se não fossem esses valores, nem US$ 10 bilhões o levariam ao espaço. O que importa se o governo tentar levar vantagem com isso?

O que interessa saber é que milhões de jovens brasileiros – e gente não tão jovem, mais ainda assim sonhadora – teve no feito de Pontes um estímulo, um incentivo, um empurrão. Ver meninos e meninas de escolas do Brasil inteiro agora sonhando em ser astronautas, seguindo o exemplo de Pontes, custa bem mais que US$ 10 milhões. Aliás, não tem preço. O que o astronauta brasileiro está fazendo à Nação é de tal relevância e terá um impacto tão positivo nas próximas gerações, que o preço pago é mesmo uma pechincha. O esforço pessoal de Marcos para vencer as dificuldades, ultrapassar obstáculos e chegar lá também custa muitíssimo mais do que o valor pago pelo governo Lula. Em um país onde deputados se corrompem abertamente e negam com a maior desfaçatez, em que a Justiça distribui imunidade para corruptos se defenderem deles mesmo em CPIs, em que se comemora a impunidade com dança e com jantares suntuosos, em que o próprio presidente da República e suas família estão envolvidos em escândalos, ter uma quebra de rotina como a ida de um de nossos conterrâneos ao espaço até que é muito bem-vinda. Precisávamos nos sentir bem e capazes, no meio de tanta sujeira. Precisávamos ter exemplos renovados, ter patriotas de quem nos orgulhar e lembrar que ainda há entre as celebridades pessoas de caráter, como o Marcos Pontes. A. J. Gevaerd, Editor da Revista UFO (ufo.com.br); [email protected].

Leia mais. Mancos Pontes: Um brasileiro no espaço. Depois de mais de dois dias de viagem, o astronauta e consultor da Revista UFO Marcos Pontes chegou ao seu destino: a Estação Espacial Internacional (ISS). Acompanhado de outros dois tripulantes da nave russa Soyuz TMA-8, Pontes entrou na ISS por volta das 3h00 da manhã do último sábado (dia 1). A tripulação da nave teve de esperar cerca de uma hora e meia para a checagem dos sistemas e para a pressão interna da nave se equiparar com a da estação. Além de renovar a tripulação, a missão levou à ISS uma grande provisão de mantimentos, equipamentos e experimentos científicos. Para chegar à estação, a Soyuz teve de girar em torno da Terra cerca de 30 vezes, ganhando altitude a cada volta, até chegar ao seu destino. A volta, que dispensa esse percurso em espiral, é mais rápida: leva pouco mais de três horas e deve trazer o brasileiro ao solo terrestre às 21h46 do dia 8 de abril (horário de Brasília).

Para o brasileiro, a missão vai durar 10 dias – oito deles dentro da ISS – onde ele vai realizar oito experimentos científicos. Já o russo Pavel Vinogradov e o norte-americano Jeffrey Williams, que também participam da "Missão Centenário", ficarão na ISS por pelo menos seis meses. Clique aqui e assista ao lançamento da Soyuz.

Leia a matéria e a entrevista do cosmonauta brasileiro publicadas na Revista UFO 102. O tenente-coronel aviador Marcos César Pontes é o primeiro brasileiro a ir ao espaço num programa da Agência Espacial Norte-Americana (NASA). Ele foi selecionado em junho de 1998, após um rigoroso processo que incluiu exames físicos e intelectuais. Nascido em Bauru (SP), em 11 de março de 1963, filho de um servente do Instituto Brasileiro do Café e de uma escriturária da Rede Ferroviária Federal, Pontes realizou seu sonho de infância em dezembro de 2000, ao ser oficialmente declarado astronauta pela NASA. Marcos Pontes e equipe “Sempre devemos ter um sonho lá na frente para podermos traçar como objetivo atingi-lo”, diz. Sua origem humilde é prova de que obstinação e perseverança dão resultado. Pontes conseguiu concretizar grande parte de seus sonhos. Na Força Aérea Brasileira (FAB), por exemplo, pilotou todos os aviões que por ali passaram, e hoje se prepara para ser o primeiro brasileiro a deixar a Terra em uma missão espacial.

O astronauta recebeu o enviado da REVISTA UFO, o ufólogo e jornalista Wendell Stein, para uma longa entrevista – a primeira que ele cedeu a uma publicação ufológica. Stein relata que Pontes foi muito atencioso e simpático, respondendo todas as perguntas com confiança e segurança – até aquelas mais polêmicas e que envolvem o Fenômeno UFO. Ele afirmou que acredita na existência de vida extraterrestre, entre outras coisas surpreendentes. “Há muitas coisas no universo que não conhecemos. Seria muita ignorância afirmar, pelo fato de nunca termos visto nada aqui, que não exista vida lá fora”. Até hoje, são raros os astronautas que aceitaram ser entrevistados por uma publicação ufológica. Para Pontes, a participação do Brasil na exploração espacial é de grande importância, levando-se em consideração tudo aquilo que é gerado para que ela se realize e o que produzirá em termos de informações científicas. Além do desenvolvimento de métodos e técnicas novas, o programa espacial permite o treinamento de profissionais em novas áreas, o que gera emprego e progresso para o país. “O Brasil foi escolhido por sua capacidade e competência técnica. Em qualquer acordo de cooperação internacional, ter o nome de nosso país envolvido significa um peso muito grande”, declarou a Stein, garantindo que nossa educação também será favorecida com a participação de um brasileiro na exploração espacial.

Apesar do atraso no calendário da NASA por questões técnicas – principalmente a explosão do ônibus espacial Columbia, em fevereiro de 2003 –, Pontes não desanima. “Devemos produzir as peças que faltam para nossa ida ao espaço. Caso contrário, o descrédito do Brasil perante os outros países aumentará. Não podemos mais voltar atrás, pois já estamos há sete anos nesse acordo”. O astronauta acredita que uma campanha como a UFOs: Liberdade de Informação Já, se desencadeada em escala nacional, pode trazer muitos resultados. Para ele, uma iniciativa semelhante poderia ser aplicada também para incentivar a participação do Brasil no programa espacial. O astronauta está bastante ansioso para o grande dia de sua ida ao espaço. “O Governo brasileiro ainda deve o primeiro vôo espacial profissional à Nação”.

UFO — Tenente, desde criança o senhor queria ser piloto. Naquela época, quais eram seus sonhos e aspirações? PONTES — Minha maior vontade era trabalhar ou entrar na área da aviação. Meu desejo era esse. Sou da opinião de que sempre devemos ter um sonho lá na frente para poder criar algo e traçar um objetivo para alcançá-lo. Naquela época, meu sonho era pertencer à Esquadrilha da Fumaça, da qual nunca fiz parte, ou entrar na Força Aérea Brasileira (FAB) e ser um piloto de jatos. Eu sempre tive muitas fotos de aviões pregadas nas paredes do meu quarto. Hoje, quando alguma criança me escreve pedindo fotos de ônibus espaciais ou da estação internacional, fico imaginando o quarto dela e como deve ser parecido com o meu quarto, na minha infância...

UFO — Em qual momento o senhor sentiu que teria chances de se tornar um astronauta? PONTES — Isso aconteceu mais tarde, quando eu já estava nos esquadrões de caça da FAB. Eu sentia a possibilidade, mesmo não tendo um caminho traçado. Tinha a impressão, através de uma espécie de sexto sentido, que se eu direcionasse minha carreira para aquilo, quem sabe um dia pudesse ser possível. Fui então para o setor de engenharia aeronáutica do Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA), e depois atuei como piloto de testes – que era um requisito básico que a maioria dos bons astronautas norte-americanos tem. Isso aconteceu quando eu estava no 3° para o 10° Grupo de Aviação.

UFO — Qual foi a sensação de sua primeira visita à NASA? PONTES — Foi pura expectativa. Eu já tinha visto aquilo em meus sonhos durante muito tempo, por muitas vezes. A primeira vez que fui ao Johnson Space Center, em Houston, Texas, vi o foguete Saturno 5 no pátio. Quando cheguei ali, entrando de carro com o funcionário da seleção de astronautas, meu coração bateu forte. E quando ele fez uma curva para a direita, avistei o prédio da administração, no qual estão hasteadas as bandeiras norte-americana, texana e a da NASA. Foi muita emoção. Tudo aquilo é muito interessante e você começa a comparar com os seus sonhos.

UFO — A data de lançamento do ônibus espacial de cuja tripulação o senhor faz parte já foi adiada por várias vezes. Por quê? PONTES — Vários, todos ligados a problemas técnico-administrativos. A gente sempre enfrenta o problema de orçamento na NASA. Quando fui trabalhar lá, em 1998, esperava-se que eu voasse em 2001, com o Express Pallet, que conteria o primeiro objeto fabricado pelo Brasil para uso no programa espacial. Mas não foi possível a entrega dessa peça, que foi então prometida para 2003. Meu vôo, com isso, também acabou sendo atrasado. Em 2003 também não deu certo, pois o Brasil não conseguiu estabelecer um acordo viável com a Embraer, empresa que fabricaria o instrumento – o preço cobrado para a produção de uma única peça seria maior do que o orçamento que havíamos previsto para seis unidades. Por causa disso, não pudemos fabricar o Express Pallet, o que causou um certo problema. A agência dependia dessa peça e já tinha contratos firmados com algumas companhias e instituições para a realização de experimentos. Tudo teve que ser cancelado e a NASA teve que procurar outro fornecedor que fabricasse o objeto. Com isso o Brasil começou uma renegociação com a agência, mas nossa prioridade foi baixada significativamente.

UFO — O que o Governo poderia fazer para ajudar, ou o problema é somente financeiro? PONTES — Sim, o problema é simplesmente financeiro. Um ponto interessante dessa questão é que o programa de construção da Estação Espacial Internacional, durante a renegociação que foi feita, tomou rumos muito favoráveis para o Brasil. Dessa fase eu tenho participado bastante, e minha experiência em contratos internacionais, como o do Japão com a NASA, está ajudando. A primeira providência que vamos tomar é não usar dinheiro do Brasil. Não devemos pagar para que um outro país fabrique uma peça, pois estaríamos tirando recursos da Nação para gerar empregos em outros países. Também precisamos de trabalho aqui, onde os investimentos devem ser feitos. Estamos falando de algo em torno de 80 milhões de dólares, que é o que o Programa Espacial Brasileiro vai aplicar em nossa indústria.

UFO — O que representa a participação do Brasil na exploração espacial? PONTES — Significa bastante coisa, pois quando se fala em desenvolvimento espacial, temos que pensar em tudo o que vai ser gerado com a pesquisa que esse processo origina. Veja um exemplo: para colocar uma simples xícara no espaço, temos antes que desenvolver materiais adequados que suportem sua reentrada na Terra. Com isso, vão aparecer indústrias especializadas em fabricar tal material – e se ele for resistente o suficiente para suportar a reentrada, poderá servir para fabricar outras coisas também, como pinos para implantes em ossos. Ou seja, esse material poderá ser empregado para várias outras utilidades, além do uso no programa espacial. A esse processo dá-se o nome de spin-offs. Quando você desenvolve técnicas e métodos diferentes, aprimora também profissionais com novas capacitações – e tudo isso vai gerar empregos e progresso. Para se ter uma idéia, para sua construção, o Brasil faz intercâmbio com 15 países ao mesmo tempo. E para sua implementação terão que ser formados novos mestres e doutores já direcionados para a pesquisa espacial ou trabalhando em atividades relacionadas a materiais, medicina, farmácia etc. Uma infinidade de campos.

UFO — O país tem capacidade para desenvolver sua própria estrutura espacial nos próximos 30 anos? PONTES — Sim. Aliás, essa é a proposta que temos – e antes até desse prazo. Mas para isso é necessário que tenhamos centros de pesquisas em nosso país. Temos universidades muito boas no Brasil – federais e particulares –, que são geradoras de idéias. Precisamos criar núcleos de estudos em várias áreas nesses locais, como por exemplo em microgravidade, que já está em andamento na Universidade de Pernambuco. Temos que fomentar também o envolvimento de empresas como a Petrobrás, a Embrapa e outras estatais ou privadas, para a pesquisa em microgravidade, com a possibilidade de desenvolverem novos materiais e produtos. A idéia é criar também uma associação central que coordene tudo isso. Ela talvez até pudesse ser coordenada pela Agência Espacial Brasileira, pois no país há gente muito capacitada para isso. É só dar oportunidade a essas pessoas. O que a gente precisa agora é atingir uma maior consciência quanto ao programa espacial no Brasil, principalmente entre os jovens. São eles que irão aproveitar os caminhos que estão sendo abertos agora, e não podem deixar escapar essa chance – independente de desejos e interesses políticos. É fundamental mantermos a participação do Brasil no projeto da Estação Espacial Internacional para segurarmos essas e outras oportunidades.

UFO — Recentemente, através da REVISTA UFO, a ufóloga Irene Granchi sintetizou uma proposta já vislumbrada por muitos pesquisadores, a idéia de que chegou a hora de nosso planeta ter uma bandeira própria, que estamparia os vôos espaciais, em vez de bandeiras dos países onde se originam. O que o senhor pensa a respeito? PONTES — Eu acho uma excelente idéia. O grupo que participa da Estação Espacial Internacional é composto por 16 países, incluindo o Brasil. Às vezes existem problemas de ideologias entre seus enviados, mas a gente sempre tenta vencer essas barreiras. Estamos buscando colocar um grupo de nações de diferentes culturas, ideologias e religiões trabalhando juntos – e é impressionante como as coisas podem funcionar bem. Eu tenho minhas idéias, minha maneira de trabalhar em certos problemas, assim como um astronauta japonês tem sua maneira de trabalhar e encarar os mesmos problemas. Muitas vezes eu vejo uma solução que ele não vê, e vice-versa. O aproveitamento dessas características que possuímos é muito importante no trabalho em equipe. Uma estação com pessoas de várias nacionalidades operando juntas e sobrevoando a Terra é uma maneira de mostrar para o mundo que, quando paramos de olhar para nós mesmos, é possível viver em paz.

UFO — O senhor aprecia ficção científica ?PONTES — Sempre gostei, desde filmes como Perdidos no Espaço, Guerras nas Estrelas e Jornada nas Estrelas. Se você analisar livros como os de Júlio Verne, as coisas que ele escreveu acabaram por acontecer. Esse cara tinha uma bola de cristal ou veio do futuro [Risos]. Ele colocou em suas obras idéias que cientistas, mais tarde, olharam e acreditaram que poderiam dar certo. Essa é a função da ficção científica ou da “literatura de colocação de idéias”, como prefiro chamá-la. No momento em que você cria idéias, as pessoas começam a trabalhar naquela direção. Ficção científica é uma maneira muito eficiente de incentivar o poder criativo.

UFO — O senhor acredita na existência de vida fora da Terra? PONTES — Vou responder a essa pergunta com um exemplo. Imagine que estamos numa sala e que você conhece o ambiente e as coisas à sua volta, mas precisa saber se existe no local um certo tipo de inseto, digamos, uma formiga especial. Talvez ela exista e vamos procurá-la com os equipamentos que dispomos. A partir desse experimento, podemos ou não achar a tal formiga. Se não a acharmos, isso significará que ela não existe ou que não acreditamos em sua existência? O certo seria admitir que, pelo que sabemos e de acordo com os sensores que possuímos, nesse ambiente não há formiga alguma. Mas podemos contestar tal informação com o argumento de que não devemos ter certeza se há ou não formiga lá simplesmente porque não conseguimos olhar o ambiente por completo: paredes, teto e piso. Daí eu amplio a questão perguntando se não existiria tal formiga em parte alguma da Terra? Oras, como poderemos descobrir isso se não conhecemos o restante do planeta, apenas aquela sala – que, apesar de pequena, não fomos capazes de examinar com exatidão em todos os seus detalhes na busca do inseto? O resultado é que será preciso conhecer mais nosso planeta e sair procurando a formiga em todos os pontos, incansavelmente. Mas como fazê-lo se nem sabemos, hipoteticamente, qual é o tamanho exato da Terra? Oras, a parte do universo que conhecemos hoje é muito pequena – e mesmo dentro da nossa pequena sala tivemos problemas em achar o que queríamos!

UFO — O senhor então acredita que existam outras formas de vida no universo? PONTES — Há muitas coisas no universo que ainda não conhecemos e seria muita ignorância afirmar que, pelo fato de nunca ter visto algo incomum aqui, isso não exista. Para prosseguirmos com as pesquisas, há a necessidade básica e científica de acreditarmos que existe alguma coisa, e eu acredito que há vida fora da Terra.

UFO — No Brasil tivemos dois casos ufológicos que envolveram a Força Aérea Brasileira (FAB): a Operação Prato, que aconteceu na Amazônia em 1977, e a Noite Oficial dos UFOs, que ocorreu no dia 19 de maio de 1986. No primeiro caso, a Aeronáutica pesquisou manifestações alienígenas em áreas ribeirinhas da Amazônia e obteve informações sobre a natureza dos aparelhos vistos pela população. No segundo, a Aeronáutica acompanhou de perto a onda ocorrida sobre o Rio e São Paulo, na qual 21 objetos voadores não identificados foram perseguidos por caças a jato. Esses casos foram divulgados em revistas e na tevê, mas as autoridades não os admitem publicamente. O que o senhor pensa disso? PONTES — Sobre o primeiro caso, de 1977, eu não sabia, mas sobre o incidente de 1986, sim. Se não me engano, decolaram alguns caças F-5E da Base Aérea de Santa Cruz, no Rio de Janeiro, que voaram do litoral para o mar, atrás dos objetos. Um dos pilotos era o [capitão Márcio Brizolla] Jordão e eu o conheço. Enfim, o fato de 1986 ocorreu e está registrado, mas não acredito que a FAB esconderia algo sobre isso. Tudo o que conheço dela me faz chegar à conclusão de que não teria motivo para omitir qualquer coisa.

UFO — A REVISTA UFO iniciou em abril o mais significativo movimento já feito no Brasil para pedir ao Governo que abra seus arquivos. É a campanha UFOs: Liberdade de Informação Já, que está recolhendo milhares de assinaturas da população e pleiteando de nossas autoridades o reconhecimento do Fenômeno UFO e a liberação de informações. O que o senhor pensa sobre essa iniciativa? PONTES — Olha, eu penso em pegar uma carona [Risos]. Gostaria de saber qual será o resultado dessa campanha em dois aspectos. Primeiro, ver o efeito que ela tem. Depois, analisar a demonstração da força e o alcance da revista. Isso provavelmente trará muitas assinaturas. Pensando sobre o programa da Estação Espacial Internacional, seria interessante se pudéssemos ter uma iniciativa como essa no país, para difundir o projeto. Precisamos de apoio público para mostrar aos políticos que é isso que a gente quer – e a política tem que acompanhar o que o povo deseja.

UFO — O senhor conhece pessoalmente o astronauta Edgar Mitchell, que afirmou à essa revista que pelo menos um UFO já se acidentou na Terra e foi resgatado por militares norte-americanos, que o desmontaram para conhecer seu funcionamento? PONTES — Não o conheço. Esse caso não foi aquele de Roswell? Não sei...

UFO — Há realmente um tipo de censura por parte da NASA para que os astronautas não falem sobre UFOs? Algum deles já comentou com o senhor um avistamento ufológico? PONTES — Eu não acredito que exista uma política assim na agência, algo organizado a ponto de proibir os astronautas de falarem sobre o assunto. É muito difícil segurar uma informação como essa, pois quando a pessoa sai do sistema, passa a ter uma vida independente e não vai haver nenhum agente secreto perseguindo-a. Mas eu creio que exista um consenso se você ver alguma coisa estranha. A primeira providência que eu tomaria, se visse um objeto voador não identificado, seria entrar em contato com a base onde está o controle de missão na Terra, para informar o que está acontecendo. Eu não contaria o fato por conta própria, porque não tenho uma visão completa do impacto disso junto à população. Imagina, isso poderia assustar ou causar algum efeito inesperado. Eu passaria a informação para as autoridades e ali a discutiria. A princípio, acho que essas coisas têm que ser do conhecimento de todos.

UFO — Existe um boato dentro da Comunidade Ufológica Brasileira de que o convite a um astronauta de nosso país para um vôo no ônibus espacial foi conseguido graças à entrega ao Governo dos Estados Unidos das criaturas capturadas em Varginha (MG). Qual sua opinião sobre isso? PONTES — Se alguém fez isso, esse alguém ainda está devendo o vôo [Risos]. Eu não tenho conhecimento disso. A única coisa que sei é que estamos devendo algumas peças, que iremos entregar para a Estação Espacial Internacional, para darmos prosseguimento à nossa participação no programa.

UFO — Quais são os critérios que levaram a NASA a incluir um astronauta brasileiro em seus vôos, já que o Brasil não é um parceiro forte dos Estados Unidos nem na área militar, nem na espacial? PONTES — Simples. Primeiro, essa participação não é definida apenas pelos Estados Unidos – foram 15 países que definiram a inclusão do Brasil na Estação Espacial Internacional. Os EUA não são os donos da Estação, mas sim quem está colocando mais dinheiro no projeto. Além disso, o Brasil não é um país qualquer – somos uma grande Nação, temos uma numerosa população, possuímos uma das maiores economias do mundo e um mercado muito amplo e em crescimento. Temos recursos naturais invejáveis para o resto do globo. O país é uma nova potência, e por ocupar uma grande extensão do continente, é líder em toda a América Latina. Os critérios para a participação do Brasil na Estação foram sua capacidade e competência técnica. Por isso devemos produzir as peças as quais me referi.

UFO — Quais as vantagens para o Brasil em participar da Estação Espacial Internacional? PONTES — São várias. A Estação é um projeto científico conjunto de 16 nações. A participação brasileira envolve a exportação de partes dela, construídas pela indústria nacional. Dentro dos projetos do Programa Espacial Brasileiro essa participação tem características únicas e extremamente vantajosas ao Brasil. Primeiro, nenhum investimento será feito no exterior. Isso é, 100% dos recursos do projeto são investidos no desenvolvimento das indústrias locais e na geração de inúmeros empregos para os brasileiros. Em segundo lugar está a homologação e qualificação de empresas nacionais para exportação de alta tecnologia no mercado espacial, e simultaneamente para 15 países. Além disso, deve-se levar em conta o intercâmbio de cientistas, pesquisadores e estudantes entre várias nações e a realização de experimentos em microgravidade de interesse nacional e a custos extremamente baixos. Some-se a isso a abertura de postos de trabalho no Brasil e exterior, o reconhecimento internacional da tecnologia brasileira, a motivação de jovens estudantes e profissionais e, claro, o grande incentivo público que isso representa ao civismo e orgulho nacionais.

UFO — Ser um astronauta é algo que desperta um forte orgulho nas pessoas, principalmente nas crianças, antes só visto no esporte. O que o senhor acha disso? PONTES — É uma coisa nova para o Brasil. Existe um impacto da figura do astronauta, e isso é importante para a política e para o fortalecimento do país como um todo. Ora, temos hoje a Seleção Brasileira de Futebol, para a qual todo mundo torce e comemora seu título de pentacampeã. Tivemos também Ayrton Senna na Fórmula 1. Todo mundo tem essa vontade de representar a capacidade do brasileiro. Se não sou bom em futebol, nem corrida de automóvel, faço minha parte estudando, tendo habilidades técnicas e pilotando avião. É bom para uma criança crescer vendo e tendo outras perspectivas, que não seja apenas o futebol. Imagine se o Governo brasileiro não tivesse mais condições orçamentárias para manter a Seleção. O que aconteceria com o público não teria conseqüências apenas econômicas e científicas, mas implicações em seu civismo. Na Estação Espacial Internacional você tem empregos, desenvolvimento tecnológico, educação e também o civismo. A Copa do Mundo, por exemplo, é disputada a cada quatro anos. Na Estação a chance é única. Devemos ter orgulho de nosso herói Santos Dumont, o pai da aviação. Ele inventou o relógio de pulso que todo mundo usa, é um orgulho nacional e estamos completando 100 anos do nosso primeiro vôo. Imagine um vôo espacial com um brasileiro a bordo, um século depois. Isso levanta o civismo e não pode ser jogado fora.

UFO — O que o senhor espera que aconteça com a humanidade no futuro? PONTES — Estamos em uma época crítica. Temos muita força, um canhão pronto para atirar, mas não sabemos para onde apontar. Se errarmos, será um grande estrago. Se apontarmos para o lado certo, poderemos abrir novos caminhos. As instabilidades do mundo são grandes e os países que mais interferem na economia e nos destinos da humanidade têm uma política um tanto complicada. Existe uma certa tensão e formação de blocos, um certo separatismo em nosso planeta, quando deveria ser exatamente o contrário. Eu acho que tudo depende das pessoas que estão comandando o jogo. Acredito que vai aparecer alguém – ou “alguéns” – que junte a humanidade. De repente, pode ser alguém até relacionado com o Fenômeno UFO. Pense na hipótese de um desses objetos voadores não identificados pousar em São Paulo, daqui a cinco anos. Um fato desse terá um impacto tão grande que pode despertar tal consciência no ser humano. Sempre tomemos o exemplo da Estação Espacial Internacional, em que se usa o conhecimento de culturas diferentes para uma finalidade comum. Isso poderá funcionar conosco, é só não sermos gananciosos.

Marcos Pontes volta ao Brasil no fim deste mês. O astronauta brasileiro Marcos Pontes deixa o centro de recuperação de cosmonautas, na Rússia, no dia 19 e, no fim do mês, retorna ao Brasil para se encontrar com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, informou a Agência Espacial Brasileira (AEB). “Quanto a meus planos, farei o máximo para novos astronautas brasileiros aparecerem no futuro”, afirmou ele na Cidade das Estrelas, na Rússia, após voltar de sua jornada ao espaço e estada na Estação Espacial Internacional (ISS). “A gente tem muito para fazer com o programa espacial, a gente tem muito para fazer com a educação no Brasil”. De acordo com a agência de notícias russa Interfax, o brasileiro pretende também passar férias na Rússia para conhecer melhor o país. Quanto à sua experiência espacial, ele afirmou que “na realidade, tudo foi muito melhor do que eu imaginava”. O astronauta fez uma analogia com a cor dos olhos de sua mãe para explicar a sensação que teve ao ver a Terra do espaço. “A primeira coisa que eu lembrei quando estava na Soyuz (nave russa que o levou ao espaço)- e eu nunca tinha pensado nisto antes - é que minha mãe tinha olhos azuis, e eu consegui ver pela janela da nave a Terra azul, e lembrei da minha mãe”, disse. Pontes não terá lugar garantido ao voltar, diz NASA. O astronauta brasileiro Marcos Pontes não tem lugar garantido no Centro Espacial Johnson, da NASA, em Houston, quando voltar da missão à Estação Espacial Internacional. “Ainda não está decidido se ele volta para o centro. Para falar a verdade, praticamente não discutimos isso desde 2004”, afirmou à BBC Brasil o diretor da Divisão de Ciência do Escritório de Relações Externas da NASA em Washington, Peter Ahlf. Ele diz que a cooperação entre a NASA e a Agência Espacial Brasileira (AEB) está parada praticamente desde 2004.