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Editor de UFO concede entrevista ao jornal O Liberal e fala sobre a Operação Prato

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06 de Junho de 2010
Brazil´s Roswell, o episódio sobre a Operação Prato do programa Arquivos Extraterrestres
Créditos: History Channel

As luzes misteriosas conhecidas no final dos anos 70 por "chupa-chupa", que aterrorizaram comunidades rurais do nordeste do Pará, principalmente em Vigia, Colares, Baía do Sol, Mosqueiro e Santo Antonio do Tauá, voltaram a despertar o interesse de ufólogos, pesquisadores de fenômenos inexplicáveis e jornalistas do Brasil e do exterior. Recentemente, o programa Linha Direta, da Rede Globo, dedicou uma edição inteira ao caso das luzes que presumivelmente paralisavam pessoas e lhes sugava o sangue, deixando marcas e queimaduras pelo corpo que desafiaram especialistas da medicina. No rastro da Globo, uma equipe de televisão do History Channel esteve na semana passada em Belém e foi a Colares entrevistar 28 anos depois as pessoas que se dizem vítimas das manifestações.

O programa dos americanos será exibido em rede mundial no final de dezembro. Por que, quase 3 décadas depois, o fenômeno que foi investigado pelos militares da Aeronáutica baseados no I Comando Aéreo Regional (I Comar) em Belém, ainda seduz pessoas capazes de se deslocar de regiões distantes do país e do exterior para tentar compreender o que realmente aconteceu naqueles estranhos dias e noites do segundo semestre de 1977 e primeiro quadrimestre de 1978? Há outras perguntas sem respostas: as pessoas realmente foram visitadas por seres extraterrenos, que disparavam possantes jatos de luz sobre elas a ponto de provocarem desmaios, tonturas, fraqueza no corpo durante dias e inexplicável anemia ou foram vítimas de alucinação coletiva, como tentaram fazer crer alguns militares da Operação Prato, criada justamente para investigar as ocorrências?

Aparições dos objetos luminosos. O ufólogo e jornalista Ademar José Gevaerd que edita a Revista UFO, uma das publicações mais respeitadas sobre o assunto em todo o mundo, também desembarcou em Belém na semana passada e logo rumou para Colares. Lá, esteve em locais como a Praia do Machadinho e Ponta do Cajueiro, onde ocorreram várias aparições dos objetos luminosos.Ainda mais intrigado com o que ouviu, Gevaerd diz que o interesse dos ufólogos sobre o caso sempre existiu, mas ele foi arrefecido nesse período todo por vários motivos. "De uns anos para cá, tem havido uma conscientização da comunidade ufológica brasileira para a importância do fenômeno chupa-chupa, porque não há registro na literatura ufológica de que em lugar algum do mundo e em algum dia da história conhecida tenha havido o que ocorreu aqui no Pará", diz em entrevista.

Para ele o que houve na região foi uma intensa atividade das luzes por meses e anos, atingindo pessoas de diversas origens econômica, social, intelectual e religiosa. Ele avalia que a maioria dos atingidos eram pessoas humildes que tiveram suas vidas mudadas, em maior ou menor grau, depois de passarem por experiências que define como "exógenas ao nosso planeta". Na definição do ufólogo o que aconteceu na região nordeste paraense estaria ligado a uma "ação de civilizações de origem não-terrestre". Isso, segundo entende, é da maior importância e do maior significado. Por ter acontecido em pleno território brasileiro, acredita que o caso não pode ser menosprezado de maneira alguma.

Investigação da Aeronáutica. Por que valorizar tanto a importância desse fenômeno ocorrido no Pará? Gevaerd responde: "Porque não podemos esquecer que houve o envolvimento direto da Força Aérea Brasileira (FAB). Com o envolvimento da FAB e do restante das Forças Armadas, o fenômeno passou a ter uma conotação inequivocamente oficial. Ou seja, conhecida e reconhecida”. Se autoridades militares brasileiras detêm essa informação há 28 anos, é absolutamente inadmissível, salienta, que ela permaneça trancada em quartéis, seja em Belém, seja em Brasília, seja onde for. O cidadão brasileiro, em especial o paraense, tem todo o direito de saber o que aconteceu. Leia a entrevista completa:

O Liberal — Com a compreensão que o senhor tem do fenômeno chupa-chupa, seja como ufólogo ou como jornalista editor da Revista UFO, qual a diferença desse caso para outros sobre o suposto aparecimento de discos voadores e de seres do espaço em outras partes do Brasil e do mundo? Gevaerd — O fato que mais me chama a atenção no caso chupa-chupa é que as luzes vindas do espaço se aproximavam demasiadamente das pessoas, das vilas onde essas pessoas moram, não respeitando nenhum tipo de limite. Se você estivesse dentro de sua casa, na rua ou no barco de pesca, não importava. As luzes vinham atrás de você. Nós observamos na casuística ufológica mundial que casos como esses são raríssimos e acontecem apenas pontualmente em alguns lugares do mundo. Na Austrália, Suécia ou África alguma vez aconteceu algo assim. Mas não de forma sistêmica, como aconteceu no Pará. Houve uma grande incidência das luzes sobre as pessoas durante todo o segundo semestre de 1977 e nos três primeiros meses de 1978. Isso não tem paralelo em lugar nenhum do mundo. Como não há paralelo no envolvimento de uma força militar, como ocorreu com a FAB.

O Liberal — A FAB batizou o caso com outro nome em suas investigações feitas pela A-2 da Aeronáutica em Belém: para os militares, era Operação Prato. Eles filmaram e fotografaram as naves, produziram relatórios, mas o resultado real das investigações nunca veio a público.Gevaerd — Eu tive o grande privilégio de entrevistar o camarada que foi o comandante da operação militar, que na época era o capitão Uyrangê Bolívar Soares Nogueira de Hollanda Lima, o conhecido capitão Hollanda. Ele se aposentou nos anos 90 e em 1997 me concedeu uma entrevista, quando já era militar reformado. Tal conversa foi publicada pela Revista UFO. Hollanda suicidou-se naquele mesmo ano, mas declarou com todas as letras fatos inacreditáveis, sobre o que aconteceu no Pará durante suas investigações sobre o chupa-chupa.

O Liberal — Qual o impacto dessas ocorrências sobre os ufólogos? Gevaerd — A Ufologia Brasileira sempre foi muito bem vista e respeitada no exterior. Isso se deve ao fato de o Brasil abrigar um celeiro de casos. Os melhores casos de pouso de naves, as abduções de pessoas da Ufologia Mundial saíram do Brasil. Inclusive o primeiro caso de experiência genética — uma relação sexual a bordo de uma nave extraterrestre —, que envolveu o brasileiro Antonio Vilas Boas, nos anos 50. O fato ocorreu em São Francisco de Sales, em Minas Gerais. Além de bons casos, sempre tivemos bons e diligentes investigadores. Em se tratando do "chupa-chupa", os ufólogos tiveram a oportunidade de investigar um fenômeno em andamento e que não era tão esporádico quanto em qualquer outro lugar do Brasil ou do mundo. Chegou a ser um fenômeno previsível, permitindo contatos até com jornalistas, como ocorreu com o repórter Biamir Siqueira e o fotógrafo José Ribamar dos Prazeres, do antigo jornal O Estado do Pará.

O Liberal — O fato de alguns jornalistas do Pará terem visto as luzes e outros não tem alguma importância para os ufólogos e pesquisadores? Gevaerd — Quero parabenizar a imprensa do Pará, especialmente o jornal O Liberal, pela cobertura do caso. A importância do trabalho jornalístico evitou que o fenômeno fosse abafado pela investigação militar da Aeronáutica. Não fosse a imprensa do Pará, o Brasil e o mundo, naqueles anos de repressão e censura, jamais teriam tomado conhecimento do que foi o chupa-chupa na sua diversidade, intensidade e na gravidade com que o fenômeno aconteceu.

O Liberal — Na oportunidade estive presente em Colares e na Baía do Sol, entrevistei dezenas de pessoas que se disseram vítimas das luzes e queimaduras que elas provocavam, mas não vi nada. Como ufólogo, qual a explicação para isso? Gevaerd — É realmente notável que esse fato tenha acontecido contigo. Os ufólogos e pesquisadores desses fenômenos não possuem muitos registros de pessoas que foram nas áreas atingidas para ver um fenômeno e nada viram. Eu até louvo o fato de você, mesmo dizendo nada ter visto, ter mantido a isenção jornalística ao ouvir e retratar fielmente aquilo que as vítimas das luzes dissera ter visto.

O Liberal — Quando o senhor entrevistou o coronel Hollanda e ele contou que os militares da Aeronáutica também viram as luzes em Colares e na Baía do Sol, chegando a observar naves com 100 metros de diâmetro, houve alguma dúvida sobre o que foi relatado? Gevaerd — Achei impressionante o relato que ele fez. E fiquei mais impressionado porque as afirmações partiam de um militar do serviço secreto, que poderia ter algo mais para esconder que a relatar. Mas na entrevista que ele a mim concedeu, ficaram algumas falhas.

O Liberal — Que falhas? Gevaerd — Falhas que estão agora, 28 anos depois, sendo preenchidas com novas informações, como a publicadas em março deste ano pelo jornal O Liberal. Uma delas foi a de que a Aeronáutica pressionou a médica da Sespa Wellaide Cecim para que ela mentisse sobre o atendimento que prestou às vítimas do chupa-chupa na unidade de saúde de Colares. Quiseram que ela escrevesse em seu diagnóstico que as pessoas foram vítimas de alucinações coletivas.

O Liberal — Os psicólogos e psiquiatras costumam dizer que as pessoas vêem aquilo que elas querem ver. E sobre aqueles que querem ver e nada vêem, qual a explicação? Gevaerd — Você é uma prova de que essa suposta assertiva psicológica não funciona. Eu também quero muito ver, mas não é por isso que saio por aí observando coisas. Todas as pessoas que eu conheço, que são meus colegas ufólogos, indivíduos batalhadores por essa disciplina nova, que querem muito ver, mas não vêem. Tal psicologia que muitas vezes é empunhada pelos céticos para tentar dar as pauladas que eles dão nos ufólogos, não funciona. Às vezes a vontade de ver algo é tamanha que você acaba não vendo nada. E aí ocorre o contrário: pessoas humildes, que estão no campo plantando, ou no rio pescando, andando de bicicleta ou namorando não estão pensando em nada de extraordinário e de repente testemunham fatos e foram levadas a uma intimidade com um fenômeno, seja na forma de uma visita inesperada ou até de uma agressão.

O Liberal — Por quê luzes estranhas como a do chupa-chupa ou mesmo supostas naves e seres extraterrestres aparecem mais para pessoas de pouca cultura que para outras, melhor informadas? Gevaerd — Isso é uma questão estatística. Se você for fazer uma amostragem da população rasileira, verá que de cada mil pessoas, talvez só 5% possui alguma instrução superior. Outros 5% sem instrução superior tem algum cargo de relevância na vida. A outra grande parcela, mais de 85%, é formada por pessoas muito humildes. Então, se esse é um fenômeno que atinge toda a sociedade, vai ter maior impacto naqueles mais humildes porque são mais numerosos do que os intelectualmente privilegiados. Da mesma forma, é mais comum que fenômenos dessa natureza sejam observados mais na área rural que na urbana. Nas cidades, ficamos dentro de casa, escritório, hotel, igreja ou numa redação de jornal. Se passar um objeto estranho no céu, não o veremos porque estamos em ambiente fechado. No campo, as pessoas vivem mais e trabalham a céu aberto. Lá, um objeto ou luz, por menor que seja, no meio do mato e mesmo nas suas costas, chama a atenção.

O Liberal — Qual o objetivo dessa visita na Ilha de Colares? Reconstituir o caso chupa-chupa e ouvir pessoas que foram atacadas pelas luzes? Gevaerd — Eu vim convidado pela equipe do canal de tevê americano History Channel, que está fazendo uma edição especial sobre o fenômeno, ouvindo pessoas e autoridades do Pará que testemunharam os fatos há 28 anos. Eu aproveito dizer que deveria ter vindo ao Pará muitos anos atrás. Quando tomei conhecimento do fenômeno e da Operação Prato estive aqui em 1988, depois nos anos 90. Mas não tinha ainda a dimensão que tenho hoje sobre o assunto. Na época, não fui aos locais que deveria ter ido. Agora, estou fazendo isso. Já estive lá logo ao chegar a Belém e pude sentir, conversando com as pessoas, que o fenômeno continua se manifestando. Já ouvi 6 testemunhas e elas me relataram fatos que continuam acontecendo na ilha. Um ufólogo precisa ir aos locais e fazer pesquisas onde os fenômenos acontecem. Não dá para ficar atrás de uma escrivaninha mandando coisas pela internet.

O Liberal — Em que a entrevista do coronel Hollanda contribuiu para ajudar a entender as coisas que aconteceram no Pará no final dos anos 70? Gevaerd — Ao falar sobre o que investigou e testemunhou pessoalmente, Hollanda deu uma contribuição como muito poucas vezes nós tivemos na ufologia brasileira. Pela sua experiência como militar e por ter vivido na pele fatos impressionantes que descreveu com clareza, objetividade e sem nenhuma vaidade. Ele foi uma peça que dividiu a Ufologia Brasileira em antes e depois dele. Hoje, nós estamos vendo que a Operação Prato é ainda maior do que o Hollanda.

O Liberal — Qual a sua opinião sobre o relatório da Operação Prato da Aeronáutica: ele é conclusivo sobre o chupa-chupa ou os militares continuam escondendo coisas que não pretendem revelar à opinião pública? Gevaerd — De tudo que sei sobre a expedição o relatório está muito longe de ser conclusivo. Ele é uma narração de fatos com alguns esquetes e desenhos, além de entrevistas com pessoas. O primeiro arquivo, do sargento Flávio, se aventura em alguns trechos numa tentativa de análise da situação. Mas ela, quase sempre, se refere ao aspecto social das pessoas envolvidas, se bebia ou não e se tinha credibilidade. Não há uma descrição sobre os tipos de objetos vistos, sua procedência e a presença eventual de seres e suas características. Isso não invalida a operação, porque ela tem grande valor pelo registro das ocorrências.

O Liberal — O coronel Hollanda escondeu fatos ou contou tudo? Gevaerd — Os relatórios conhecidos têm mais de 400 páginas, mas o Hollanda havia me dito que são mais de 3.000. Ele também falou que perto de 500 fotografias foram feitas, além de 15 horas de filmes de 8 mm e 16mm. Neles há imagens de objetos grandes sobre a região de Mosqueiro, Colares, Baía do Sol. Essas imagens seriam de curta distância.

O Liberal — O que ele achava de tudo que viu e ouviu? Gevaerd — Ele me disse que uma de suas maiores frustrações que teve com o fenômeno do chupa-chupa é que determinado tipo de objeto luminoso se aproximava mais da equipe da Aeronáutica que outros. E era o que ele tentava fotografar mais vezes. As imagens eram de todos os tipos, depois vinham para Belém para serem reveladas pelo I Comar, mas na hora da revelação não saía nada. Era uma frustração muito grande.

O Liberal — Qual era o problema com esses filmes? Gevaerd — Um grupo de militares americanos, ainda durante a Operação Prato, veio ao Brasil e em Belém cedeu ao pessoal da Aeronáutica comandado pelo Hollanda um filme específico de uso das forças armadas americanas. O comandante recebeu instruções sobre como usar e enrolar. Foi a partir daí que a equipe dele conseguiu fazer as melhores fotografias de objetos voadores não identificados. A maioria era esférico ou disco.

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