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Colapso do Observatório de Arecibo: entenda a importância e o tamanho da perda para a ciência

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04 de Dezembro de 2020
Observatório de Arecibo, quando ainda em funcionamento
Créditos: Instituto SETI

O Observatório de Arecibo, peça fundamental para a comunidade internacional de astrônomos, sofreu um duro golpe na manhã do dia 01 de dezembro, quando sua cúpula suspensa despencou de 110 m de altura sobre o prato refletor, destruindo boa parte da estrutura.

 

Muito se tem falado sobre a destruição do Observatório de Arecibo nas últimas semanas e para se entender melhor a importância desse radiotelescópio, é preciso lembrar de suas inúmeras contribuições em várias áreas de pesquisa científica.

Por muito tempo, ele foi o maior radiotelescópio do mundo, e se tornou icônico ao aparecer como cenário de alguns filmes, como 007 Contra GoldenEye [1995] e Contato [1997]. O prato refletor de 305 m é fixo, o que limitaria o campo de visão do telescópio a apenas 20º em relação ao zênite, o ponto no céu acima da nossa cabeça.

Por isso, o objeto que se move para acompanhar o movimento aparente dos objetos cósmicos é o feed, uma enorme bola suspensa que contém o receptor para a radiação do espaço.

A estrutura suspensa era mantida por torres com mais de 110 m de altura e diversos cabos. Infelizmente, dois deles acabaram se rompendo — o primeiro em agosto e o segundo em novembro. Os demais, também danificados, não suportaram peso de 999 toneladas, e a estrutura caiu sobre o prato refletor.

Entretanto, a preocupação com o telescópio já era antiga. A região de Porto Rico, onde fica a cidade de Arecibo, é alvo frequente de terremotos, tempestades e furacões, e desde 2010 discutia-se a falta de orçamento para a manutenção.

Ángel Vázquez, chefe de operações do telescópio e trabalhador de Arecibo por quatro décadas, contou em um vídeo no Twitter: "Ouvimos um som alto, um estrondo alto, fora da sala de controle. Começamos a ver a eventual queda do observatório".

 

A importância do Arecibo para a ciência


Imagem atual do telescópio, mosntrado os cabos caídos e o disco destruído
Crédito: Canal Tech

Projetado inicialmente para estudar a ionosfera terrestre, o observatório foi rapidamente aproveitado pelos astrônomos devido às suas incríveis capacidades de observação. Foi usado para projetos de detecção de ondas gravitacionais, na busca por planetas potencialmente habitáveis, e foi responsável pela detecção do primeiro pulsar binário.

Em 1974, cientistas enviaram uma mensagem em ondas eletromagnéticas para as estrelas do aglomerado globular M13, localizada a 25.000 anos-luz de distância, por meio do radiotelescópio.

Conhecida como Mensagem de Arecibo, ela foi enviada em 16 de novembro 1974, com informações sobre o planeta Terra e a civilização humana. A iniciativa foi do Instituto SETI e a mensagem em si era uma série de 1 e 0.

Decodificada, a mensagem forma uma imagem números de um a 10, átomos incluindo hidrogênio e carbono, algumas moléculas, o DNA humano, conceitos básicos sobre nosso Sistema Solar e conceitos básicos sobre o telescópio emissor.

Ainda nos últimos dias do telescópio, o SETI ainda utilizava o instrumento para buscar por sinais de vida alienígena. Mas o Arecibo fazia muito mais que isso.

Em algumas ocasiões na busca por exoplanetas e acabou ajudando os astrônomos a descobrirem os primeiros destes mundos, em 1992 — os planetas Draugr, Poltergeist e Phobetor, em torno da Lich Pulsar, uma estrela de nêutrons de rotação rápida que emite um feixe de radiação eletromagnética.

O primeiro pulsar binário, ou seja, um pulsar orbitando outra estrela, foi descoberto por Joseph Taylor e Russel Hulse em 1974, por meio do Arecibo, o que rendeu aos dois cientistas o Prêmio Nobel de Física. O objeto foi uma grande oportunidade para testar a Teoria Geral da Relatividade de Einstein, e comprovou que o físico alemão estava certo.

Atualmente, os pulsares estão sendo usados para pesquisar diretamente as ondas gravitacionais de baixa frequência, e o Arecibo era de grande importância para esse estudo.

Também os maiores emissores de energia do universo – os quasares – foram estudados via Arecibo. Para isso, ele se juntou ao Rádio Telescópio Espacial RadioAstron e obteve dados inesperados do quasar 3C273.

Mesmo os telescópios ópticos como o Hubble não conseguem ter a capacidade de ver a estrutura detalhada de um quasar. Para se ter uma ideia do quão impressionante foi esta coleta de dados, imagine que você consiga ver uma moeda na Lua.

Astrônomos também usaram o telescópio Arecibo para observar as linhas espectrais — uma espécie de “impressões” eletromagnéticas impressas nas moléculas através da interação entre matéria e luz,

E foi por meio do telescópio que os cientistas detectaram as primeiras rajadas rápidas de rádio repetitivas (FRBs), um mistério que se arrasta há mais de 10 anos. Os sinais parecem vir de magnetares, mas há todo tipo de hipótese para explicá-los, inclusive civilizações alienígenas.

O Observatório de Arecibo possui o sistema de radar planetário mais poderoso do mundo, com capacidade que só poderia ser superada com o sobrevoo de uma espaçonave. Com ele, os cientistas estudavam corpos do Sistema Solar, planetas rochosos e satélites naturais, incluindo a Lua, além de asteroides que se aproximam da Terra.

Ele fornecia medições precisas capazes de melhorar significativamente a precisão de uma previsão da órbita de um asteroide, por exemplo. Além disso, ele podia aumentar a janela de previsibilidade de órbita de anos para séculos, e eliminar os alarmes falsos de possíveis impactos com a melhoria das estimativas dos elementos orbitais de um objeto.

Também era único em estimar as propriedades detalhadas de um asteroide próximo do nosso planeta, o que é fundamental para determinar o tipo de potencial ameaça gira ao redor da Terra.

 

Tem conserto?

Essas capacidades sem precedentes fazem do Arecibo um instrumento insubstituível. Mas será que ainda há esperança de reparo?

A National Science Foundation, proprietária da instalação, anunciou o descomissionamento e a demolição controlada do radiotelescópio em19 de novembro, antes da queda do domo. Na ocasião, as avaliações concluíram que o reparo seria arriscado demais para os trabalhadores envolvidos na obra.

Contudo, com a queda do domo, o risco é menor, e o custo de um reparo, maior. A comunidade científica, em especial a equipe do Observatório Arecibo, ainda não desistiu, e pede ao Congresso dos Estados Unidos o financiamento necessário para salvar o sistema de radar planetário mais poderoso do mundo.

Ainda não houve nenhum posicionamento das autoridades sobre o assunto e, ao menos por enquanto, o observatório segue aposentado.

Fonte: Canal Tech

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Novembro de 2020

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