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Ceticismo: um instrumento necessário para combater pseudoverdades

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12 de Setembro de 2020
Como funciona o cérebro de um cético
Créditos: Gestão Educacional

Atualmente convivemos com tantas notícias falsas e mentiras fantasiadas de verdade que se torna praticamente impossível discernir o que, realmente, é fato e o que é invenção. O resultado disso é o crescimento do ceticismo sobre praticamente todos os assuntos.

 Nunca o ceticismo esteve tão em evidência como nos dias atuais, isso porque está cada dia mais difícil saber-se se alguma coisa é, realmente, um fato ou apenas uma invencionice.

A quantidade de notícias falsas, as famosas fake news é tão grande que supera a capacidade da pesquisa séria para se alcançar a verdade sobre o que quer que seja.

Essa necessidade de mentir em troca da fama ou de algum proveito escuso, ajuda a criar fundamentalistas que, em nome da fé no intangível, colocam a sociedade consciente em risco. Todas as áreas de pesquisa ficam prejudicadas e viram deboche, e a Ufologia não é exceção.

Na Ufologia, como em outros campos de estudo, existe uma turba de aproveitadores que vive de camuflar uma possível verdade ou inventar o que não existe para viver às custas da ignorância do “crédulo fácil”, que passa a ser um joguete para os exploradores de plantão. 

Por incontáveis vezes na história da humanidade, um rumor acabou por se transformar em seita ou culto. Um líder propaga suas concepções, geralmente infundadas, e os adeptos se incumbem de divulgar, arrebanhando os mais frágeis.

Acontece assim nas religiões e nos movimentos que lidam com o abstrato. Na Ufologia, por exemplo, é o caminho para o surgimento dos “ufólatras”. Muitas vezes, o resultado pode ser trágico.   

Um bom caminho para se evitar cair em contos do vigário e se deixar manipular pelos enganadores e fanáticos, é conservar consigo uma boa dose de ceticismo e autocritica. Quando empregado com racionalidade, o ceticismo pode se tornar um instrumento eficaz na luta contra as mentiras desenfreadas.

 

Mas o que é ceticismo?


Buscando a verdade. Crédito: Link Escolar

Ceticismo é uma corrente filosófica fundada pelo filósofo grego Pirro, por volta de 300 a.C., caracterizada, essencialmente, por duvidar de todos os fenômenos que rodeiam o ser humano.

Na Grécia antiga, dúvidas de todos os matizes eram colocadas em discussão por eruditos e filósofos eloquentes. Entretanto, foi no período renascentista que o ceticismo ganhou força, quando começou o cisma entre ciência e religião. 

Os céticos desse período tinham por objetivo questionar e colocar suas dúvidas sobre os princípios religiosos básicos, como a imortalidade, a providência, a revelação divina e a eternidade, dentre outras “verdades sagradas”, pregadas como verdades absolutas. 

Desse modo, o ceticismo se tornou um movimento antirreligioso, “em favor da evolução humana, através da ciência”.

Se empregado com equilíbrio, o ceticismo é um instrumento legítimo para ajudar derrubar mitos, explicar superstições, apagar crenças e desmistificar lendas.

Entretanto, como acontece em todas as áreas humanas, existem os radicais. Nesse caso, os céticos que não dão ouvidos à razão, simplesmente, prejudicam uma análise fria e neutra que o bem-intencionado adota, a fim de não cometer injustiça com pré-julgamentos inoportunos e que se assemelham à fé cega, exatamente o que querem combater.

Em outras palavras, o ceticismo legítimo é aquele exercido de forma racional e ponderada, procurando sempre uma avaliação isenta, independentemente do tipo de assunto. Esse é o mantra que deve seguir o cético consciente.

Analise antes de acreditar


Halo lunar fotografado na Groelândia, que foi confundido com UFO
Crédito: Tecmundo

Para ilustrar esse princípio, Arístocles, nome verdadeiro de Platão, criou um texto que foi reproduzido na obra Preparação Evangélica, de Eusébio de Cesareia, para sintetizar o pensamento cético-consciente: 

“Nossas sensações e nossos juízos não nos ensinam o verdadeiro nem o falso. Por conseguinte, não devemos nos fiar nos sentimentos nem na razão, mas permanecer sem opinião, sem nos inclinarmos para um lado ou para o outro, impassíveis”.

A seu turno, René Descartes, notável filósofo, físico e matemático francês que ficou famoso por seu estilo cético e pragmático, tinha por princípio, “analisar primeiro, para depois julgar ou concluir”, criou 4 regras básicas para serem utilizadas no processo de análise:  

Renuncie à crença que tenha por testemunho somente os sentidos, ofereça elementos empíricos que se contraponham ao fato divulgado, o conhecimento de fato só poderá ser alcançado por meio do método epistemológico ou pela reconstrução racional do conhecimento científico, evidenciando o ponto de vista lógico, linguístico, sociológico, interdisciplinar, político, filosófico e histórico.

E, por fim, o racionalismo da análise deve confiar em um modelo matemático, eliminando a informação meramente sensorial em detrimento das demonstrações calcadas na razão pura.

O cético comedido, portanto, é cartesiano em essência, e seu intuito fundamental não é criar polêmica, mas evitar que ela aconteça em intensidade maior. Ele só se interessa em desmascarar uma falácia, exibindo contra-argumentos empíricos e indiscutíveis.

O cético legítimo jamais duvida, se não estiver munido de contraprovas absolutas.

Marco Aurélio Gomes Veado é administrador de empresas e tradutor, além de  entrevistador e tradutor voluntário da Equipe UFO. É também escritor, membro da Academia Formiguense de Letras (Formiga, MInas Gerais). 

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