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A primeira sonda privada a pousar na Lua é israelense

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22 de Fevereiro de 2019
A sonda Beresheet, de 180 kg, desenvolvida em Israel pela SpaceIL
Créditos: SpaceIL

Na madrugada de sexta-feira (22) em Israel, do outro lado do mundo, um foguete da SpaceX lançou ao espaço uma missão histórica para o país. Uma pequena multidão estava reunida em Yehud, no centro de controle da missão Beresheet, desenvolvida pela SpaceIL, para acompanhar a transmissão ao vivo do lançamento do Falcon 9. Todos ficaram extasiados e muito orgulhosos com a confirmação de que a primeira sonda privada da história destinada a pousar na superfície lunar havia sido lançada em segurança e com sucesso.

Apesar do horário, estavam presentes no evento o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, além do bilionário Morris Kahn, presidente e maior financiador da startup. Partindo do complexo 40 da Base da Força Aérea em Cabo Canaveral, na Flórida, a Beresheet se desprendeu do foguete 34 minutos após o lançamento. Pouco depois, foi a vez dos satélites S5 e Nusantara Saru. Indicações preliminares dos sistemas e da abertura das pernas de pouso mostram que a sonda sobreviveu ao lançamento e segue saudável rumo à Lua.

Se tudo correr conforme o planejado, após percorrer 6,5 milhões de quilômetros em uma série de órbitas ao redor da Terra, a pousadora será inserida na órbita lunar e, dez dias depois, deve fazer um pouso suave na superfície, em 11 de abril. Caso os procedimentos sejam bem-sucedidos, a Beresheet se tornará a primeira sonda desenvolvida inteiramente com recursos privados a pousar na Lua, e Israel entrará para o seleto clube de nações a terem conquistado o feito, que conta com países como Rússia (1966), EUA (1969) e China (2013).

Lançamento da Beresheet foi realizado em Cabo Canaveral, nos Estados Unidos (Foto: reprodução/twitter/SpaceX)

“Eu não poderia estar mais orgulhoso por dar esse presente ao povo de Israel e torná-lo parte do ethos israelense de tecnologia, ousadia e uma dose generosa de coragem”, disse em comunicado à imprensa Morris Kahn, que doou US$ 40 milhões dos US$ 100 milhões que financiaram a empreitada. Pode parecer muito dinheiro, mas é só uma fração do custo de missões semelhantes desenvolvidas por agências espaciais, que podem chegar a centenas de milhões de dólares de dinheiro público.

startup foi criada em 2011 para competir no Lunar XPRIZE, premiação patrocinada pelo Google que seria concedida à primeira empresa que pousasse uma sonda em solo lunar. Depois de muitos atrasos, a corrida terminou sem vencedores em março de 2018. Mas, ainda assim, várias das participantes prosseguiram com seus projetos. “Ver uma delas indo para a Lua mostra que aquele movimento consolidou empresas no que chamamos de economia cislunar”, diz o engenheiro e empreendedor espacial Lucas Fonseca.

Beresheet se desprendendo do foguete. Foto: divulgação

Fonseca é CEO da Airvantis e diretor da Missão Garatéa, que desenvolve uma série de programas de educação científica e pretende lançar uma sonda brasileira para orbitar a Lua nos próximos anos. “O que eu acho especialmente interessante é o fato de Israel não ser historicamente uma potência espacial, eles têm o próprio lançador, já lançaram alguns satélites, mas até então nada muito expressivo”, afirma, destacando o compromisso do país com o desenvolvimento tecnológico.

Mas a Beresheet também já virou um case para seus próprios projetos. “Isso para mim é muito interessante, principalmente porque posso usar como analogia para o que quero fazer com a Garatéa no Brasil”, diz Fonseca. A sonda foi desenvolvida em parceria com a IAI (Israel Aerospace Industries) entre 2015 e 2018 e despachada via avião para os Estados Unidos em janeiro, num contêiner especialmente adaptado para não danificar a estrutura. Com um metro e meio de altura, dois de largura e pesando só 600 quilos, será a sonda mais leve a pousar na Lua.

Assim que alunissar na parte norte da região chamada de Mare Serenitatis, a Beresheet vai tirar uma série de selfies ostentando a bandeira de Israel e fotos da superfície, para provar que chegou mesmo lá. Além da câmera, a sonda porta outros dois instrumentos científicos: um magnetômetro para medir o campo magnético da Lua, para uma pesquisa do Instituto de Ciência Weizmann; e espelhos retrorrefletores para orientar satélites na órbita lunar, desenvolvidos pela NASA em uma ponte feita pela agência espacial israelense.

Independente do resultado da missão, ela já reservou seu lugar nas páginas de história. O lançamento do primeiro pousador construído inteiramente com recursos privados, em um foguete também de uma empresa (que por sinal já havia voado e pousado duas vezes em 2018), é um divisor de águas para a indústria e a exploração do espaço como um todo. Talvez, daqui a alguns anos, seja considerado o marco inicial do momento em que a economia cislunar (e espacial) efetivamente deslanchou.

Fonte: SpaceX, SpaceIL, Galileu

Nos bastidores de Beresheet

Às quatro da manhã, foi lançado o foguete israelense Beresheet. Apenas os EUA, Rússia e China já executaram uma missão como essa. Não apenas o foguete está fazendo história, mas também o engenheiro que o acompanha em terra, Alex Friedman, um dos mais qualificados envolvidos no projeto. Friedman nasceu na União Soviética. Seu pai, um integrante (chassid) do movimento Chabad, foi preso pouco antes de seu nascimento, por suas atividades judaicas e ficou encarcerado por sete anos. O pequeno Alex viu seu pai pela primeira vez apenas após sua libertação, quando já estava no primeiro ano do ensino fundamental, e não o reconheceu. Seus familiares costumavam rezar em silêncio, para que os vizinhos não pudessem ouvi-los, e Friedman recebeu de seu médico um atestado, para que não pudesse frequentar as aulas no Shabat. Como judeu, ele não tinha a menor chance de ser aceito na Faculdade de Física, por conta do antissemitismo que lá havia. Por isso, ele escolheu cursar Matemática. Apenas após anos de luta, em 1970, sua família recebeu autorização para emigrar para Israel. Friedman se integrou à Força Aérea, IAF (Indústria Aeroespacial Israelense) e ao setor espacial em Israel. Nos últimos anos, ele tem investido dias e noites nesse projeto especial. “Esse é um evento inspirador”, disse ele recentemente. “E para mim, ele também é o fechamento de um ciclo pessoal e nacional: o garoto da Rússia, que não foi aceito como estudante de Física por seu judeu, é agora parte da equipe que envia para o espaço um foguete com a bandeira de Israel, com um disco contendo todo o Tanach (Bíblia judaica).

Fonte: O Trecho Diário / Sivan Rahav-Meir

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Fevereiro de 2019

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