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A polêmica sobre as 36 civilizações da Via Láctea que poderiam fazer contato já começou

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18 de Junho de 2020
Radiotelescópios do Projeto SETI
Créditos: SETI

Quantos planetas têm civilizações inteligentes capazes de se comunicarem entre si há em nossa galáxia parece ter voltado a ser motivo de controvérsia. A questão tida gira em torno de se conseguimos superar o paradoxo e Fermi e aposentar a equação de Drake, dois pilares sempre presentes nesse assunto. Onde estão os extraterrestres?

 Um estudo recente, publicado esta semana no Astrophysical Journal, que nós noticiamos aqui, está gerando uma reação inesperada.

A pesquisa, que foi conduzida por Christopher Conselice, professor de astrofísica da Universidade de Nottingham e Tom Westby, da Escola de Física e Astronomia da mesma universidade, apontou que haveria ao menos 36 civilizações tecnologicamente desenvolvida em nossa galáxia, com condições de se comunicarem umas com as outras.

Conforme o estudo se tornou conhecido, surgiram diversas questões, e a mais importante entre elas está baseada em uma simples pergunta, feita há décadas, que demanda uma incrivelmente complexa resposta: onde estão todos? 

 

Fermi, mais uma vez


Quantas civilizações adiantadas existem? Crédito: NASA

Essa questão assombra caçadores de alienígenas desde que o físico vencedor do Nobel Enrico Fermi a colocou a alguns colegas durante o almoço, 70 anos atrás. 

Existem bilhões de estrelas semelhantes ao Sol em nossa galáxia, e agora sabemos que a maioria delas hospeda planetas. Mas após décadas de pesquisa, os astrônomos não encontraram nenhum que pareça hospedar a vida. 

Esse é o chamado paradoxo de Fermi: se nossa galáxia está repleta de civilizações alienígenas, onde estão todos?

A resposta vem sendo buscada por cientistas há décadas, e segundo alguns talvez a resposta mais certeira aponte que a vida inteligente seja apenas muito mais rara do que pensávamos.

 

Terra rara


Planeta Terra. Crédito: National Geographic

Mas quão rara ela é? Os cientistas também tentaram responder a essa notoriamente complicada pergunta. Com base em suas conclusões, pode existir entre zero e até 100 milhões de civilizações extraterrestres na Via Láctea. 

Como a variação é muito grande, os cientistas refizeram os cálculos e chegaram ao agora famoso número 36 que agora estampa manchetes do mundo todo.

De acordo com o artigo publicado por eles, isso significa que provavelmente teremos que passar centenas de anos procurando uma civilização extraterrestre antes de encontrar uma, e também sugere que nossos vizinhos mais próximos podem estar a até 17.000 anos-luz de distância. 

As tentativas de estimar a prevalência de vida inteligente na galáxia remontam ao início do SETI moderno. Em 1961, o astrônomo planetário Frank Drake convocou uma reunião dos principais cientistas americanos para discutir o futuro do SETI.

 

Equação de Drake


Frank Drake e sua famosa equação

Para organizar a reunião, Drake fez uma lista de perguntas que considerou pertinentes para determinar as chances de que a pesquisa fosse bem-sucedida. Nascia, então, a famosa equação de Drake.

Hoje, os astrônomos podem preencher com segurança alguns dos espaços em branco da equação de Drake, que à época não havia tecnologia suficiente para completar. Alguns exemplos sõa quantas estrelas possuem planetas e a taxa média de formação de estrelas na galáxia. 

E quando uma nova geração de telescópios caçadores de exoplanetas, como o Telescópio Espacial James Webb, estiver online, também teremos uma ideia melhor sobre quantos desses planetas estão localizados na zona habitável de sua estrela. 

Isso significa que a água líquida poderia existir nessas superfícies planetárias, o que, até onde sabemos, é um pré-requisito para a vida, inteligente ou não.

E o problema está exatamente na expressão "até onde sabemos". O número de civilizações alienígenas que se comunicam em nossa galáxia é uma estimativa estatística e, como todas as estimativas estatísticas, pode variar muito, dependendo das suposições usadas para fazê-las. 

Na equação de Drake, cerca de metade das incógnitas são sobre civilizações extraterrestres. Como não sabemos nada sobre os ET, os astrônomos precisam adivinhar. E em seu novo artigo sobre as 36 civilizações, Conselice e seu colega engenheiro da Universidade de Nottingham Tom Westby, fazem duas suposições muito grandes na reformulação da equação de Drake.

 

O modelo somos nós


Planetas parecidos com a Terra  Crédito: NASA

Primeiro, os pesquisadores analisaram o único planeta que sabemos de fato que produziu vida inteligente, a Terra, e a usaram como modelo para todos os outros planetas que poderiam hospedar inteligência extraterrestre. 

Os seres humanos surgiram e começaram a lançar ondas de rádio no cosmos cerca de 4,5 bilhões de anos após a formação da Terra, então Conselice e Westby assumiram que esse também seria o caso de outros planetas semelhantes à Terra. 

E eles foram ainda mais longe e assumiram que todos os planetas semelhantes à Terra, na zona habitável de sua estrela, inevitavelmente produzem vida inteligente após cerca de 5 bilhões de anos.

"Dizer que todos os planetas semelhantes à Terra produzirão vida inteligente é uma suposição enorme e tem alguns problemas sérios", diz Seth Shostak, astrônomo sênior do Instituto SETI.

“A zona habitável de nosso próprio Sistema Solar inclui Marte e, dependendo de a quem você pergunta, também Vênus. Mas eles não são mundos que têm vida inteligente, mesmo existindo há tanto tempo quanto a Terra”, completou Shostak.

 

O problema das estatísticas


Imagem de divulgação

Os estatísticos estimam coisas sobre uma população grande e desconhecida pegando uma amostra pequena e extrapolando para uma população maior. Isso é essencialmente o que Conselice e Westby fizeram em seu artigo. 

O problema é que eles extrapolaram a partir de uma amostra de um deles, que é um pouco como tentar prever uma eleição nacional pesquisando apenas a si mesmo. 

Amostras pequenas levam a uma maior variação de resultados, e é por isso que a equação de Drake produz com confiabilidade estimativas tão diferentes da prevalência de inteligência extraterrestre. De fato, isso foi demonstrado por Conselice e Westby em seu próprio artigo.

Os pesquisadores apresentaram duas hipóteses - uma forte e outra fraca. Na hipótese forte, os pesquisadores assumem que um planeta semelhante à Terra deve produzir uma espécie inteligente quando tiver entre 4,5 e 5,5 bilhões de anos. 

A hipótese fraca relaxa um pouco o prazo e assume que um planeta semelhante à Terra pode produzir vida a qualquer momento após 5 bilhões de anos. 

Dado que a idade média das estrelas na Via Láctea é de cerca de 10 bilhões de anos, isso cria um conjunto maior de sociedades extraterrestres que existiriam ainda hoje. 

A hipótese forte resulta em uma estimativa de pelo menos 36 civilizações extraterrestres na galáxia, mas com uma margem de erro muito grande. Os pesquisadores calculam que o limite inferior da forte hipótese poderia estar entre quatro e 211 civilizações extraterrestres na Via Láctea. 

 

O rádio e a bomba


Explosão atômica sobre grande cidade Crédito: Superinteressante

As coisas são mais esperançosas com a hipótese fraca, que estima que o menor número possível de sociedades extraterrestres está entre 100 e 3.000. Essa é uma expansão bastante grande, mas mesmo o limite mais otimista de 3.000 sociedades ainda é muito pequeno, considerando o tamanho da Via Láctea. 

Se a maioria das 250 bilhões de estrelas da galáxia hospeda planetas, e uma fração desses planetas é habitável, você ainda pode estimar a existência de milhões de civilizações por aí. Então, por que as hipóteses forte e fraca produzem estimativas tão pequenas? Tudo se resume a uma variável importante na equação de Drake: por quanto tempo vive uma civilização que emita transmissões em ondas de rádio.

"O tempo de vida de uma inteligência extraterrestre - por quanto tempo eles permanecem no ar - é o verdadeiro ponto crucial da discussão", diz Shostak. "Todos os outros termos da equação de Drake dizem quantas sociedades surgem, mas talvez elas não estejam no ar por muito tempo porque, assim que inventam o rádio, também inventam a bomba H e se autodestroem", completa ele.

Na opinião do conselheiro especial da UFO o médico Marco Aturélio de Seixas que se dedica ao estudo desse assunto "A pergunta que Fermi fez na década de 50 permanece sem resposta até os dias atuais. O paradoxo que opõe o tamanho do Universo e a falta de evidência de vida extraterrestre teve o mérito de impulsionar o nosso conhecimento científico".

Ainda segundo Seixas, "jamais perdemos a esperança de detectar algum sinal de vida, mesmo considerando sua baixa probabilidade. Sabemos, porém, que esperança e probabilidade raramente se encontram.Mesmo assim, entre erros e acertos, alegrias e frustrações, seguimos incansáveis na busca de companhia, pois afinal, as únicas falhas verdadeiras são aquelas com que não aprendemos nada”.


Fonte: Wired  

Assista, abaixo, um documentário sobre o assunto:

Já está no ar a Edição 266 da Revista UFO. Aproveite!

Março de 2019

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