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A dura tarefa de caçar planetas contém hipóteses

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30 de Maio de 2007
Concepção artística de planeta fora do Sistema Solar
Créditos: Divulgação

A questão da vida inteligente, ou mesmo de uma civilização extraterrestre em qualquer ponto do Universo, está intimamente associada à existência de planetas extra-solares. Com efeito, não existindo muitos sistemas planetários, seria pouco provável que a vida tenha se desenvolvido. Aliás, a probabilidade de que o nosso Sistema Solar fosse um caso único no universo limitou, durante muito tempo, a discussão sobre as civilizações extraterrestres.

A descoberta de um sistema planetário em formação pela sonda IRAS (Satélite Astronômico Infravermelho, na sigla em inglês) em 1983 e de mais de 220 planetas extra-solares desde 1995, deixaram os defensores da idéia da pluralidade dos mundos muito ansiosos. Será que eles existem realmente?

Nos anos 1960, após quase meio século de pesquisas, o astrônomo Peter Van de Kamp anunciou, nos Estados Unidos, a descoberta de um sistema de dois planetas girando ao redor da estrela de Barnard. No entanto, a existência desses planetas parece hoje duvidosa.

Quase todas estas descobertas, ao chegarem às agências de notícias, foram anunciadas com manchetes que causaram sensação, como as últimas. Os cientistas sabem perfeitamente avaliar o peso e significado de determinadas comunicações publicadas nas mais conceituadas revistas científicas. Até mesmo os seus autores sabem os limites e as incertezas dos seus resultados. Por esse motivo, a cultura científica não pode se basear unicamente em resultados. É necessária uma informação complementar relativa aos métodos que foram usados para se chegar às conclusões anunciadas.

No caso específico dos planetas extra-solares é fundamental advertir o leitor das extremas dificuldades que envolvem a detecção de corpos de massa planetária gravitando ao redor de outros sóis e da natureza incerta dos resultados obtidos. Na realidade, a confirmação da existência desses astros depende do desenvolvimento de novas tecnologias observacionais.

A imprecisão nas medidas extremamente delicadas que envolvem a procura dos planetas extra-solares e a autenticidade de algumas hipóteses, sugeridas por essas observações, supõem a resolução de alguns problemas, quase todos associados às possíveis explicações dessas perturbações eivadas de erros. É, na realidade, difícil detectar as eventuais perturbações causadas por um planeta ao redor de uma estrela isolada, que só se traduzem por desvios periódicos.

Todas essas descobertas estão deixando ansiosos os astrônomos preocupados com a existência de vida no universo. Na impossibilidade de colocar em órbita um telescópio com um gigantesco espelho, os astrônomos pretendem simular os efeitos de um telescópio gigante colocando em órbita outros menores, bem separados entre si, mas associados eletronicamente no tratamento dos sinais recebidos.

Com um tal instrumento, será possível registrar um objeto do tamanho de Netuno ao redor das estrelas mais próximas. Outro projeto mais ousado, a ser lançado depois de 2010, é o Terrestrial Planet Finder (Descobridor de Planetas Terrestres, na sigla inglesa), interferômetro com cinco espelhos de 90 a 60 centímetros, situados além da órbita de Júpiter, ou seja, numa região na qual a poeira interplanetária é mais tênue. Com o TPF será possível localizar planetas semelhantes ao nosso e, provavelmente, detectar a presença de água liquida e analisar sua atmosfera em busca de sinais de vida, tais como oxigênio, dióxido de carbono e ozônio.

Não podemos nos esquecer de que a atual procura de planetas extra-solares é comparável à tarefa dos astrônomos que, há dois séculos, sem sucesso, tentaram determinar a paralaxe das estrelas, ou seja, a sua distância da Terra. Os astrônomos que atualmente se consagram à pesquisa dos planetas extra-solares são pioneiros que abrem caminhos, submetendo-se às vezes às incompreensões de seus colegas e do grande público.

Como no caso da distância das estrelas, o caminho que conduzirá à descoberta dos planetas fora do Sistema Solar é árduo, longo e cheio de obstáculos. Mas não há dúvida de que chegaremos até lá.

Astrônomo do Museu de Astronomia e Ciências Afins, no Rio, escreveu mais de 85 livros, entre outros, "Anuário de Astronomia e Astronáutica 2007", e edita o site www.ronaldomourao.com.