A. J. Gevaerd
Entrevista
A. J. Gevaerd

No mundo da Ufologia há poucos personagens tão completos quanto o entrevistado desta edição da Revista UFO. Marco Antonio Petit não é um ufólogo comum e de atividades rotineiras. Pelo contrário, é alguém que detém uma intimidade poucas vezes observada com o Fenômeno UFO. O início de sua carreira na área se deu de forma clássica, com um interesse incontido pelos mistérios do universo e, conseqüentemente, pela possibilidade de vida além dos contornos do planeta. “Adotado” pela grande matriarca da Ufologia Brasileira, Irene Granchi, desde sua adolescência, Petit começou cedo naquela que é a base da pesquisa ufológica: a análise da casuística. Mas o fez de forma aprofundada, realizando milhares de horas de vigílias e centenas de investigações de campo.

Enquanto construía um rico patrimônio intelectual na área, solidamente estruturado em cima da pesquisa e do estudo e comparação de dados, o ufólogo viu cair sobre seu colo alguns fantásticos casos de contatos diretos com ETs, vividos por pessoas de seu conhecimento e por outras que encontrou na farta literatura ufológica, e pôde alçar vôos mais altos. De alguns destes episódios, tidos como os mais graves no vasto repertório da Ufologia, extraiu conteúdo para formular as teses que consagraram o início de sua brilhante trajetória. Foi assim que, baseado nas histórias de pessoas que mantiveram contatos e receberam informações sobre o passado da Terra diretamente de alienígenas, somadas a uma sólida formação em arqueologia e antropologia, Petit lançou sua primeira obra pela coleção Biblioteca UFO. Terra: Laboratório Biológico Extraterrestre [Código LIV-002 da Biblioteca UFO. Edição esgotada em fase de republicação] mostrava, em 1998, ineditamente, como outras espécies cósmicas prepararam nosso planeta para receber uma forma humanóide de vida, que um dia viria a ser o homem moderno.

Não é novidade para ninguém a existência de uma política mundial de acobertamento de informações, que os militares fometam para não revelarem à população a presença alienígena em nosso planeta. Mas poucos sabem que esta política está presente também no Brasil

Preparação gradual do homem

Continuando sua busca neste sentido, sempre aperfeiçoando sua aguçada interpretação da realidade ufológica, em 2003 publicou, também pela Biblioteca UFO, Contato Final: O Dia do Reencontro [Código LIV-013 da coleção Biblioteca UFO. Veja seção Shopping UFO desta edição ou o Portal UFO: ufo.com.br], em que apresenta o desenrolar de sua tese anterior e defende que as espécies que introduziram o homem neste seu novo habitat também o preparam, gradualmente, para voltarem a se relacionar com eles – o que, no entanto, não se dará de forma simples, mas através de um processo altamente complexo. Em dado momento de sua carreira, com cabedal ufológico cada vez mais consolidado, Petit cedeu às impressões que sempre alimentou sobre a presença alienígena na Terra, que mantinha reservadas a pequeno grupo de amigos e colegas. Foi quando vislumbrou a necessidade de expor os aspectos transcendentais do Fenômeno UFO, a natureza multidimensional de nossos visitantes e de explorar suas intenções com outra ótica. Desta inquietação surgiu UFOs, Espiritualidade e Reencarnação, em 2004, pela Editora do Conhecimento, causando grandes surpresas na Ufologia Brasileira. “É impossível dissociar a parte espiritual, transcendental da fenomenologia ufológica”, declarou na época.

Esta é uma síntese tímida de toda a obra deste notável ufólogo, que também se aventurou em várias outras áreas da Ufologia, ora revelando segredos sobre a Lua e Marte escondidos pelas agências espaciais, ora discursando sobre a necessidade de compreendermos a abundância de vida no universo rompendo os paradigmas da ciência tradicional. E assim chegou ao seu trabalho mais recente, a obra UFOs: Arquivo Confidencial – Um Mergulho na Ufologia Militar Brasileira, sem paralelo até então [Código LIV-019 da coleção Biblioteca UFO. Veja seção Shopping UFO desta edição ou o Portal UFO: ufo.com.br]. O livro expõe, ineditamente, casos ufológicos de grande gravidade ocorridos no Brasil, muitos dos quais permanecem até hoje sob forte sigilo, que têm em comum o fato de contarem com o envolvimento de militares de nossas Forças Armadas. UFOs: Arquivo Confidencial apresenta detalhes até então desconhecidos de como nossos oficiais conduziram investigações secretas de incidentes com naves alienígenas em Território Nacional, entre eles as impressionantes operações da Aeronáutica durante a Operação Prato, na Amazônia, para apurar o fenômeno chupa-chupa e seus ataques aos moradores do Pará.

“Não é novidade para ninguém a existência de uma política mundial de acobertamento de informações na área, que os militares fomentam para não revelarem à população a crescente presença alienígena em nosso planeta”, declara Petit. Mas ele sustenta que o que pouco se sabe é que esta política está presente também em nosso país. Sua inquietação com este renitente sigilo o fez lançar, junto deste editor, em março de 2004, a campanha UFOs: Liberdade de Informação Já, responsável direto pela abertura ufológica que se vê no país hoje. Membro da Comissão Brasileira de Ufólogos (CBU), mantenedora do movimento, e co-editor da Revista UFO desde sua fundação, Petit é um dos mais requisitados ufólogos do país. Suas cuidadosas palestras são apreciadas e admiradas em qualquer evento em que se apresente, dentro e fora do país, como seus artigos são pontos-altos desta publicação.

Convidado por este editor para formar o grupo que, no começo do ano, entrevistou o advogado Ubirajara Franco Rodrigues, ex-co-editor da Revista UFO que hoje é um ferrenho crítico da Ufologia Brasileira, Petit inicialmente rejeitou a idéia. Mas, persuadido, acabou aceitando para apenas lamentar o resultado do trabalho [Os demais participantes foram Fernando Ramalho, Gener Silva, Luciano Stancka, Rafael Cury, Ricardo Varela e Wallacy Albino, todos coordenados pelo editor A. J. Gevaerd]. “Não me surpreendi com todas as negativas de Rodrigues, cujo posicionamento já vinha observando. Mas não pensei que chegasse a ponto de menosprezar a importância do Caso Varginha, ícone da Ufologia Brasileira e Mundial, cujos impressionantes detalhes, ao seu lado, ajudei a levantar”, declarou.

Qual é a verdade sobre Varginha

Nesta entrevista, o estudioso discorre pouco sobre sua visão espiritualista do Fenômeno UFO, o que faz, segundo ele, “sem abrir mão, em momento algum, de uma postura analítica da realidade”. E também não se detém no objeto de sua obra mais recente, a denúncia do acobertamento ufológico no país. Desta vez Petit trata quase exclusivamente do Caso Varginha, especialmente os pontos abordados por Rodrigues em sua entrevista nas edições UFO 153 e 154. O ufólogo não apenas analisa suas argumentações céticas contra a importância e o significado da captura de ETs no sul de Minas, como faz novas revelações sobre o episódio e traça um perfil da Ufologia sem o ranço da rejeição sistemática e absurda à idéia da presença alienígena na Terra. Após mais de 30 anos de Ufologia, seis livros lançados, dezenas de artigos publicados e centenas de palestras proferidas, o autor está ajudando, agora com esta entrevista, a estancar a fase de ceticismo em que mergulhou certos segmentos da Ufologia Brasileira.

crédito: Arquivo UFO
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A Serra da Beleza, no Rio de Janeiro, onde o entrevistado concentrou boa parte de suas atividades ufológicas e flagrou naves

Petit, estamos num momento especial para todos nós, em que documentos oficiais antes secretos começam a ser escancarados pelo Governo. Sendo você um dos idealizadores da campanha UFOs: Liberdade de Informação Já, que fez com que isso viesse a ocorrer, como vê o que se passa hoje na Ufologia Brasileira e Mundial? Estou muito satisfeito, pois este é um momento muito bom para todos. Há algumas décadas, nos primórdios da Ufologia, quem falava de discos voadores ou mesmo da possibilidade de vida inteligente fora da Terra? Praticamente ninguém, e aqueles que se aventuravam a afirmar que tinham visto um UFO, e pior ainda, contatado seus tripulantes, estavam longe de ser considerados merecedores de atenção e de credibilidade, pelo menos por grande parte da humanidade. Contudo, foi a luta de nossos pioneiros, tanto os investigadores da presença alienígena na Terra como as testemunhas do fenômeno, que não se intimidaram e resolveram revelar suas experiências, que permitiu que fossem dados os primeiros passos rumo à percepção que estávamos diante de algo realmente sério. Aliás, algo de implicações que apenas hoje, mais de 60 anos do início da Ufologia, começamos a perceber em sua plenitude. Esta luta de início inglório, travada contra o processo de acobertamento instituído em escala mundial, confere a estes pioneiros uma posição de clara relevância na busca de nosso verdadeiro lugar no cosmos.

O que você pontua como sendo os mais importantes momentos deste processo de abertura ufológica que agora vemos? Qualquer pessoa razoavelmente informada tem consciência de que, até poucos anos atrás, salvo alguns episódios que se tornaram clássicos da história da Ufologia Mundial, as autoridades apenas ofereciam negativas quanto à existência e a materialidade dos discos voadores. Isso foi sendo mudado aos poucos pela persistência dos ufólogos. Imagine que em suas declarações e pronunciamentos, repetidos inúmeras vezes, estas autoridades, nas principais nações do globo, afirmavam que os UFOs não eram objeto do interesse, de reconhecimento e nem de pesquisa, seja de organismos governamentais ou militares. E mais, diziam ainda que não existiam arquivos secretos ou sigilosos sobre o assunto, e que eles não passavam de devaneio dos ufólogos. Apesar de todas as tentativas de se minimizar a importância do que acontece não só no Brasil, no momento, mas em todo o mundo, com a liberação gradativa de materiais comprobatórios da existência e origem extraterrestre dos discos voadores, vê-se claramente que vencemos uma batalha, que demos um passo firme em nossa caminhada para o estabelecimento definitivo da realidade sobre a presença de naves e seres não terrestres em nosso meio. Hoje a existência de vida inteligente em outros mundos é inquestionável.

O que alegam os céticos é que UFOs podem até existir e significariam qualquer coisa, mas associar sua natureza a uma origem extraterrestre é pura alucinação, apesar da existência do fenômeno estar cada vez mais documentada. Como você entende este posicionamento? Essa questão precisaria de muito mais espaço para ser tratada do que o que temos nesta entrevista. Na verdade, já escrevi e publiquei um artigo sobre esse tema, que acabou se transformando, posteriormente, num dos capítulos de meu segundo livro, Terra: Laboratório Biológico Extraterrestre. Nele eu não me refiro exclusivamente à resistência dos céticos, mas à questão da origem dos UFOs. Porém, em relação àqueles que rejeitam esta idéia, temos primeiro que definir quem são e quais são suas motivações. Realmente, existem pessoas de formação científica que, por estarem presas q uma visão limitada das possibilidades do vôo interestelar, questionam a teoria extraterrestre como origem para os UFOs. Como há outros que, longe de conhecerem o básico desta questão, diga-se de passagem, se revestem de um falso cientificismo para menosprezar ou tentar atingir o resultado do trabalho dos ufólogos, como, por exemplo, a campanha UFOs: Liberdade de Informação Já. Seus motivos não devem sequer merecer nossa atenção, porque eles apenas demonstram, em atitude desesperada, que finalmente perceberam que estão na contramão da história, e suas críticas refletem este desespero.

Foi a luta de nossos pioneiros, tanto os investigadores da presença alienígena na Terra como as testemunhas do fenômeno, que não se intimidaram e resolveram revelar sua experiências, que progressivamente permitiu que fossem dados os primeiros passos rumo à percepção que estávamos diante de algo realmente sério


Você já teve inúmeros debates com céticos de todas as matizes, alguns dos quais, vimos depois, deram-se por vencidos e acabaram abraçando a hipótese da origem extraterrestre para UFOs. Sim, já participei de discussões acaloradas sobre o tema com eminentes cientistas brasileiros, sejam astrônomos ou físicos, tanto em auditórios como em programas de rádio e de TV. De todos os debates, eu destacaria meus encontros com o reconhecido astrônomo Ronaldo Rogério de Freitas Mourão [Veja entrevista com ele nas edições UFO 130 e 131], o mais ferrenho. Mas, se por um lado existe uma resistência por parte de vários cientistas quanto à teoria extraterrestre, em razão das enormes distâncias interestelares – o que considero uma visão no mínimo limitada das possibilidades do universo –, este mesmo argumento também foi usado ao longo da história da Ufologia por motivos que em nada se aproximam de um verdadeiro debate sobre o tema. Estes procedimentos nem de longe levam em conta o desenvolvimento de modelos teóricos de viagem interestelar, desenvolvidos por cientistas cujas qualificações não podem ser questionadas. Eles já projetam agora as naves que usaremos no futuro, com tecnologias e conceitos ainda em fase de testes, que se aproximarão muito do que os UFOs estão realizando hoje na Terra. Tais estudos não são tão recentes e destacaria, de muitos, os realizados por H. D. Froning Junior, da companhia norte-americana McDonnell Douglas, e por H. C. Holt, do Centro Espacial Johnson, da NASA.

crédito: Smithsonian
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O astrônomo brasileiro Ronaldo Mourão [E] e o cientista norte-americano Carl Sagan, já falecido: céticos ferrenhos da realidade ufológica

Por que você acha que é tão grande esta rejeição à origem extraterrestre dos UFOs, uma vez que mesmo cientistas de renomadas instituições, apesar de não crerem em discos voadores, hoje aceitam como certa a existência de vida, inclusive inteligente, no universo? Este artifício, ou seja, a negação da hipótese da origem extraterrestre, foi amplamente utilizado pelas autoridades no passado para tentar minimizar o interesse do público em geral pelo assunto, inclusive dentro da própria Assembléia Geral da ONU, quando houve aquela famosa reunião para discutir o Fenômeno UFO convocada por interesse e atuação direta do primeiro-ministro de Granada, Eric Gairy, em 1978. Na época, coube ao astrofísico J. Allen Hynek, um dos participantes do encontro, ser o representante de tal política de negação [Veja entrevista com ele na edição UFO 121]. Não é preciso dizer que a reunião estava longe de ser do interesse dos Estados Unidos, que gastavam uma fortuna por ano para manter a questão ufológica acobertada, e Gairy acabou não ficando muito tempo no poder, sendo deposto em seguida em seu país. Mera coincidência?


Onde você quer chegar com estas colocações? Você acha que governos teriam o poder de vetar debates sobre UFOs até mesmo na todo-poderosa ONU? Isso significa que a questão ufológica é tão preocupante para eles? Sim, certamente. Veja, quando se apresenta o Fenômeno UFO como algo obscuro e de natureza desconhecida ou indefinida, qual é o resultado? As pessoas o rejeitam, porque vêem que os governos não o reconhecem. Logo, não é coisa séria. Isso é claramente uma política de acobertamento ufológico, uma manobra habilmente desenvolvida dentro de gabinetes governamentais que nos Estados Unidos, por exemplo, teve a participação direta de vários astrônomos de renome, como o citado Hynek e, Carl Sagan, ambos falecidos. Sim, de Sagan também, embora pouca gente saiba disso. Tal política de acobertamento tinha uma trajetória que pode ser identificada. De início, a postura dos EUA, expressa em pronunciamentos de várias autoridades militares, era de total negação ao assunto, ou seja, UFOs simplesmente não existiam e ponto final. As testemunhas do fenômeno estariam apenas confundindo planetas e estrelas mais brilhantes, balões meteorológicos e outros objetos conhecidos com naves míticas e supostamente alienígenas. Isto quando não estavam apenas criando histórias fictícias por causa de distúrbios psicológicos, ou ainda fraudando e mentindo deliberadamente. Isso é o que diziam as autoridades, mas como os UFOs não tomaram conhecimento de tais “explicações”, insistindo em aparecerem dia e noite sem dar tréguas, os burocratas no poder e os militares em seus quartéis viram que precisavam criar uma alternativa, e rapidamente.

crédito: Wikimedia
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A Assembléia Geral da ONU já foi palco de discussões sobre UFOs, propostas pelo primeiro-ministro Gairy, de Granada

Foi aí quando teve início esta nova forma de negar a existência dos UFOs, minimizando esta possibilidade e até ridicularizando quem a defendia? Sim. E ao contrário do que algumas pessoas da Comunidade Ufológica Brasileira ou Mundial imaginam ou fingem acreditar, em suas tentativas de se posicionarem como missionários ou guardiões do racionalismo e de uma postura científica frente o Fenômeno UFO, a inspiração para a refutação da teoria extraterrestre, em essência, nunca foi a suposta impossibilidade das jornadas interestelares, mas estudos na área da psicologia e do comportamento das massas, da população. Se fossem um pouco mais atentos, por exemplo, ao conteúdo de certos documentos liberados nos Estados Unidos, por força da Lei de Liberdade de Informações, tais pseudocéticos veriam o ridículo de suas afirmações. Tais arquivos falam abertamente de discos voadores que se acidentaram, de naves sobrevoando inclusive instalações militares e do desenvolvimento de políticas na área da psicologia para testar estratégias com a intenção de resguardar a tranqüilidade que a suposta inexistência de outras espécies cósmicas traria à população, evitando-se o pânico.

Então não haveria legitimidade na alegação de que as distâncias interestelares proibiriam uma viagem de outras espécies mais avançadas até a Terra, na sua opinião? E se for assim, está demolido o principal argumento cético contra os UFOs? Exato, isso não tem cabimento. Ora, será que alguém pode realmente levar a sério, na atualidade, um argumento científico contra a tese extraterrestre baseado no fato de que as distâncias interestelares são muito grandes e que o valor da velocidade da luz representa um obstáculo. De que ciência estas pessoas estão falando? Veja bem, não estamos aqui refutando a descrição do universo fornecida pelas leis de Newton, e muito menos as sugeridas pela Relatividade Geral, que nos foi legada pela genialidade de Einstein. Mas, como se sabe, e está mais do que documentado cientificamente, tais conceitos não conseguem descrever o que observamos no universo hoje, com nossa compreensão dele tão ampliada pelas últimas descobertas – e isto principalmente no que diz respeito à sua base material, ou melhor, à sua estruturação em física.

Mas há outra forma de vermos o universo, se não a física? Sim, através da física quântica, que surgiu mais do que por necessidade de explicar aquilo que aparentemente era incompreensível, mas como resultado da observação atenta de experimentos científicos, que, apesar de apresentarem uma visão do universo totalmente apartada do que se acreditava ser a realidade, não pode ser negada, onde a consciência precede a matéria, e na verdade parece ser a responsável por sua própria materialização. Podemos falar também da Teoria das Cordas, uma tentativa não tão recente de se estabelecer um modelo geral que abranja e unifique as forças gravitacional, eletromagnética e atômicas fracas e fortes. Ela nos revela um universo multidimensional, uma idéia que fará com que todas as dificuldades imaginadas e usadas no passado para negar a possibilidade de estarmos recebendo visitas extraterrestres caiam por terra. Com o emprego dessas novas noções sobre o universo e outros desenvolvimentos científicos, veremos como vetores de avançadas civilizações podem, de fato, viajar entre os planetas. Todo este avanço de percepção da realidade ainda mostrará como era infantil e ingênua a idéia defendida até por luminares de nossa ciência, que, no passado, com o mesmo espírito de pretensão e arrogância que infelizmente ainda está presente em algumas mentes de hoje, nos informaram que quase tudo que fazemos ou realizamos atualmente era impossibilidade científica.

Estes são temas fascinantes, aos quais voltaremos no futuro. Atualmente, no entanto, há uma forte polêmica na Comunidade Ufológica Brasileira sobre a recente entrevista concedida à UFO por seu ex-co-editor Ubirajara Franco Rodrigues, que negou muito do que se tem por certo na Ufologia, especialmente detalhes do Caso Varginha [Veja edições UFO 153 e 154]. Você, como participou das investigações do episódio e se tornou um dos defensores de sua realidade, é a pessoa mais indicada no momento para falar da polêmica. Vamos fazer um breve retrospecto do caso e peço que nos diga como e quando tomou conhecimento dele. No início de 1996, quando ocorreu o incidente em Varginha, eu residia na região serrana do Rio de Janeiro, e no mês de fevereiro fui surpreendido, como boa parte da população, por uma matéria do programa Fantástico, da Rede Globo, que destacava os depoimentos de três meninas que teriam avistado, na tarde do dia 20 de janeiro, uma estranha criatura em um terreno baldio do Jardim Andere, na área urbana daquela cidade. O programa apresentava ainda as primeiras considerações do advogado e ufólogo Ubirajara Franco Rodrigues, que já falava de sinais de um imediato processo de acobertamento dos fatos, que parecia envolver nossas autoridades. Já haviam naquele momento, inclusive, referências a uma sucessão de boatos que tomavam conta da cidade, pertinentes à suposta captura daquele ser por forças militares. Apesar da conotação de realidade que o programa apresentava, sinceramente não fiquei muito impressionado com a história, e nem com a interpretação ufológica que já era apresentada para o incidente.

crédito: Manchete
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A partir da esquerda, Kátia, Valquíria e Liliane, testemunhas iniciais do Caso Varginha que avistaram a segunda criatura em um terreno baldio

Você não se impressionou com o fato de ter havido a suposta captura de um ET em nosso país? E o que aconteceu em seguida para justificar sua mudança de posicionamento em relação à história? Eu já conhecia Ubirajara Rodrigues e sabia de sua seriedade, como também não tinha dúvidas quanto à honestidade dos depoentes iniciais, entre eles as irmãs Liliane e Valquíria Silva, assim como a amiga Kátia Xavier, que são as testemunhas iniciais do caso, as que viram o ser naquele terreno baldio. Evidente, havia uma forte carga emocional tomando conta do episódio, principalmente no caso de Liliane, fruto do impacto que sofreu ao ver a tal criatura. Alguma coisa importante parecia realmente ter envolvido cada uma das moças. Ou seja, eu não questionava o fato em si, mas sua interpretação ufológica. Mas quando liguei para Rodrigues, minha resistência começou a desaparecer. Apesar de nossa amizade, já haviam se passado alguns anos desde nosso último contato. Ele tinha se afastado da Ufologia, mas acabou retornando justamente para se dedicar ao caso que ocorrera, ironicamente, a poucas centenas de metros de sua residência. Prontamente, Rodrigues me informou que estava mais do que convencido da existência de um forte processo de acobertamento do incidente. Isso foi confirmado poucos dias antes pelo pesquisador Victório Pacaccini, que residia em Belo Horizonte e deslocou-se para Varginha para também se dedicar ao caso, já desde o princípio. Ele procurou Rodrigues para se colocar à disposição para ajudar nas investigações e já trazia em mãos uma gravação que obteve, em tempo recorde, contendo o depoimento de um dos militares que teriam participado da captura de uma criatura exatamente com o padrão morfológico daquela avistada pelas meninas.

Há supostos ufólogos que se revestem de um falso cientificismo para menosprezar ou tentar atingir o resultado do trabalho dos ufólogos, como, por exemplo, a campanha UFOs: Liberdade de Informação Já. Seus motivos não devem sequer merecer nossa atenção, porque eles apenas demonstram, em atitude desesperada

Quer dizer que desde os primeiros momentos da investigação do Caso Varginha já havia uma testemunha militar confirmando as operações de captura? Sim, e Rodrigues ficou visivelmente emocionado ao telefone, quando me narrou os primeiros fatos sobre o episódio. Ele relatou de maneira aprofundada o que já havia apurado, resumindo o conteúdo da explosiva gravação de Pacaccini. Segundo a fita, a tal criatura teria sido localizada e recolhida por forças militares na manhã do dia 20 de janeiro, ou seja, várias horas antes de Liliane, Valquíria e a amiga Kátia Xavier terem seu avistamento no terreno baldio. À esta altura, portanto, já havia forte indicação de que dois seres distintos haviam sido registrados em Varginha, e a história ganhava novos elementos. O relato do militar dava conta de que, apesar de a criatura ter sido capturada por elementos do Corpo de Bombeiros da cidade, após seu recolhimento ela teria sido transportada no interior de uma caixa de madeira por uma viatura do Exército, levada do local com destino à Escola de Sargento das Armas (ESA), na cidade vizinha de Três Corações, onde está instalada.

E quais foram suas providências após este primeiro contato telefônico com Rodrigues? O que ocorreu a seguir? Depois desta ligação, tanto ele como Pacaccini, que já haviam se transformado nos principais investigadores do caso, estiveram comigo no Rio de Janeiro, onde me repassaram mais detalhes de todo o episódio. Poucos dias depois fui a Varginha pela primeira vez, atendendo a um convite formulado por ambos para ingressar nas investigações. Também desejava participar de uma reunião com outros ufólogos naquela cidade, marcada para aquele período, que decidiria os rumos a serem tomados na pesquisa, quais informações seriam passadas para a imprensa e o que, enfim, já podíamos concluir sobre o caso. Era a primeira grande reunião dos ufólogos com a mídia nacional e internacional, que acabou acontecendo no dia 04 de maio. Foi naquele dia – na verdade, poucos minutos antes do encontro, ocorrido no salão de reuniões que havia na residência de Rodrigues – que tive a missão de gravar o primeiro depoimento em vídeo com um militar do Exército, na forma de uma entrevista a Pacaccini.

Como a entrevista transcorreu? Foi um momento de grande significado para minha vida de ufólogo. E se eu ainda tivesse naquele momento qualquer dúvida da legitimidade do Caso Varginha e de sua interpretação ufológica, ela teria desaparecido naquele instante, diante das coisas que ouvi e gravei daquele militar. Simplesmente, a testemunha afirmou ter sido informada por seus próprios superiores da natureza extraterrestre das criaturas capturadas, e justamente devido a isso o sigilo em torno do assunto deveria ser total. Tomamos um choque, mas, já com a gravação em mãos, eu e Pacaccini voltamos para a reunião, que já ocorria com a presença maciça de ufólogos e repórteres dos mais variados veículos da imprensa brasileira. É importante que se diga que este encontro foi fundamental para que se revelasse, pela primeira vez, para a mídia nacional e internacional ali presente, os nomes dos primeiros militares envolvidos com o caso, que já tínhamos por certo.

Você falou há pouco que, apesar de não ter dúvida quanto à sinceridade das primeiras testemunhas do caso, ainda não estava convencido de que sua interpretação tinha ligação com Ufologia. Falando mais objetivamente, a que tipo de informações você passou a ter acesso quando foi a Varginha? Foi seu primeiro contato com aquela testemunha militar, cujo depoimento você gravou, que o fez mudar de posicionamento? Bem, o primeiro ponto que posso e devo ressaltar, que parece esquecido hoje por aqueles que pretendem diminuir a importância do Caso Varginha ou questionar sua interpretação ufológica, é a quantidade de relatos e depoimentos que obtivemos, na época dos fatos, referentes à observação de objetos voadores diurnos e noturnos não só no sul de Minas Gerais, em termos gerais, mas principalmente em Três Corações e Varginha. Tal fato não apenas foi destacado pelos investigadores mineiros Rodrigues e Pacaccini durante a apresentação do histórico do caso, na citada reunião, como foram objeto de reportagens jornalísticas. Uma das testemunhas daqueles avistamentos prestou depoimento exclusivo ao jornalista Luiz Petry, logo após a reunião, quando ele já preparava uma segunda matéria para o programa Fantástico. E não eram apenas civis que deram informações relevantes sobre casos ufológicos naquela época. Poucos meses depois, o pesquisador Victório Pacaccini teve acesso à uma outra fonte militar da Força Aérea Brasileira (FAB), que garantiu que a extraordinária incidência de UFOs no sul de Minas já vinha crescendo e sendo acompanhada nas telas dos radares do Centro Integrado de Defesa Aérea e Controle de Tráfego Aéreo (Cindacta) desde o final de agosto do ano anterior, 1995. Segundo o informante, a tremenda casuística ufológica mineira teria explodido e chegado a seu ápice justamente na época do Caso Varginha. Todas estas informações foram devidamente gravadas por Pacaccini, e eu também tenho cópia das mesmas em meus arquivos.

crédito: Márcio Teixeira
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Alguns moradores da área rural de Varginha relataram ter visto um objeto em queda na noite anterior ao caso

Você procurou contato com a testemunha? Teve sucesso? Sim, acabei encontrando aquele militar no Rio, e ele, como que para confirmar as informações prestadas a Pacaccini, permitiu-me fazer cópia de um documento relacionado àquela alta incidência ufológica em Minas. Mas me alertou para o fato de que eu não poderia publicar o mesmo, pois seria fácil para os órgãos de inteligência identificarem os possíveis responsáveis pelo vazamento do material. Por isso, mantenho tal informação em meus arquivos para uso futuro.


Diante do que você está falando, é possível concluir que na época da referida reunião, em 04 de maio de 1996, os dois principais investigadores do caso, Rodrigues e Pacaccini, estavam já cientes da provável natureza extraterrestre das criaturas vistas, e de que os acontecimentos no sul de Minas tinham mesmo interpretação ufológica? Com toda certeza. Inclusive, existe um documento lavrado e assinado por todos nós, presentes naquela reunião, que foi lido e apresentado para a imprensa pelo ufólogo Claudeir Covo, co-editor da Revista UFO, que documenta isto de maneira objetiva. A própria UFO já o publicou no passado [Veja edição UFO Especial 034]. Nele afirmamos a seriedade das investigações que haviam sido conduzidas até aquela data e confirmamos o envolvimento de militares na captura do que chamamos de “criaturas biologicamente não classificadas, paracientificamente conhecidas como entidades biológicas extraterrestres” naquele pronunciamento, uma expressão esta endossada por Rodrigues, que hoje vê na mesma um absurdo. Também indicamos, na ocasião, que as pesquisas prosseguiriam, apesar de todo o acobertamento que já era visível. Ora, se um documento deste tipo não é uma admissão completa da interpretação ufológica do incidente de Varginha, então não sei o que seria! Aquele texto foi assinado não só por Rodrigues e Pacaccini, os principais investigadores na época, mas também como pelos líderes de cada um dos grupos ufológicos presentes na reunião.


Petit, desde o início das investigações você esteve em uma posição privilegiada, não só acompanhando cada passo das pesquisas, como participando diretamente delas em vários momentos. Como você definiria a atuação de Rodrigues e Pacaccini em todo aquele processo, ou seja, sua seriedade e a credibilidade de suas ações e afirmações? Para resumir, eu diria que, se existe um caso que pode servir de lição ao país de como uma investigação ufológica deve ser conduzida, este caso certamente é Varginha. Não houve uma única informação de importância que não tenha passado por uma rigorosa mensuração de sua credibilidade e seriedade. E mais: cada tentativa de explicar de forma convencional ou corriqueira os aspectos mais contundentes da história, por parte das autoridades militares, em suas tentativas de acobertamento dos fatos, foi detidamente checada pelos dois ufólogos mineiros – inclusive aquelas que colocavam em cheque nossas interpretações ufológicas do episódio. Quanto mais nos aprofundávamos nas pesquisas, mais o acobertamento se evidenciava, assim como eram literalmente desmoralizadas as “explicações” dadas para certos detalhes do caso pelas autoridades envolvidas, geralmente militares.


Depois de anos de investigação do caso, com tudo o que foi descoberto, checado, confirmado e dado como legítimo, incluindo o cruzamento de depoimentos de civis e militares, e ainda mais sob o olhar atento da imprensa, como você explica esta inesperada e profunda reavaliação do episódio pelo advogado Ubirajara Rodrigues, apresentado de forma surpreendente em sua entrevista à Revista UFO? Você leva a sério o que está acontecendo? Em primeiro lugar, gostaria de dizer que, mesmo sendo um dos ufólogos da UFO que tomou parte da entrevista, de forma alguma fui surpreendido pelo que acabou acontecendo e pela posição agora assumida por Rodrigues. Quando convidado para participar deste trabalho, eu disse que não pretendia fazê-lo, mas acabei aceitando devido à sua insistência [Do editor A. J. Gevaerd]. Mesmo assim, formulei apenas duas questões para ele responder, ambas referentes ao inquérito policial militar (IPM) que foi instaurado dentro da Escola de Sargentos das Armas, que teve como depoentes Rodrigues e Pacaccini. Eu não tinha muita esperança de que o nobre advogado fosse ser claro em suas respostas sobre o IPM, pois, afinal, ele nunca se pronunciou publicamente sobre tal acontecimento, apesar de sua evidente importância e implicações. Mas também não imaginava que ele fosse ser tão evasivo em suas respostas sobre o assunto. Na verdade, pela primeira vez ele foi obrigado a se manifestar sobre o tema, assumindo a existência do tal IPM. Em minha visão, a longa entrevista serviu pelo menos para isto: para Rodrigues admitir que houve o inquérito policial militar e que ele e Pacaccini foram ouvidos.

Ao contrário do que algumas pessoas do meio ufológico fingem acreditar, em suas tentativas de se posicionarem como guardiões de uma postura científica frente aos UFOs, a inspiração para a refutação da teoria extraterrestre nunca foi a impossibilidade das jornadas interestelares, mas estudos na área da psicologia das massas


Não ter tratado do inquérito policial militar antes é realmente algo estranho. Pelo que se sabe, nunca houve uma situação como esta na Ufologia Brasileira, e tendo ocorrido justo em meio ao caso mais importante de nossa casuística ufológica, não se compreende como Rodrigues sempre evitou abordar o assunto. De qualquer forma, como você vê sua nova posição? Bem, ao contrário do que as pessoas imaginam, este processo de suposta reavaliação da importância e da interpretação ufológica do Caso Varginha, agora assumido por Rodrigues, não é coisa nova. Assim como o exame cético que ele faz hoje de todas as conquistas da Ufologia, incluindo a validade das pesquisas anteriores que ele próprio conduziu e levou ao conhecimento da Ufologia Brasileira. Não há nada de novo nisso, e nos últimos anos eu já vinha percebendo que isso ocorreria. No entanto, estimo que sua nova posição se deva a causas ainda mais recuadas, que, gostaria de frisar, podem não ter qualquer conotação ou relacionamento com uma possível reavaliação das evidências. Basta reparar nas respostas de Rodrigues referentes a Varginha, em sua entrevista para a UFO. Qual evidência do episódio ele questionou de forma objetiva?

Por favor, elabore mais a respeito. O que o faz pensar que sua alegada reavaliação tenha outras razões, que não as que ele apresentou na entrevista? Cito um exemplo. Anos atrás, em uma palestra que proferi em Curitiba, diante de um público de mais de 300 pessoas, cheguei até a aventar que, no futuro, o principal investigador do Caso Varginha poderia negá-lo, como ocorre hoje. Mas disse também que, se isto acontecesse, não teria tanta repercussão e muito menos representaria o fim da credibilidade do incidente. Na oportunidade, ressaltei que depois de tudo que já havia sido rigorosamente estudado e investigado sobre a captura de seres naquela cidade mineira, não seria fácil desmentir tantas evidências e testemunhas – como de fato não é.


Você acha que mesmo o principal investigador do Caso Varginha vindo a público para menosprezar sua importância, da forma como Rodrigues fez, não põe em cheque a credibilidade do principal caso ufológico brasileiro? E a de Rodrigues, como fica? O doutor Ubirajara Franco Rodrigues movimentou toda a Ufologia Brasileira quando o caso irrompeu, solicitando inclusive apoio de nossa grande matriarca, a professora Irene Granchi, para poder chegar mais facilmente a certos setores da mídia nacional, como o citado programa Fantástico. Ele foi o grande responsável por criar as condições logísticas e práticas que permitiram a continuidade não só das pesquisas mas também para a produção de inúmeros programas de TV e mesmo documentários internacionais sobre os fatos ocorridos no sul de Minas. E durante principalmente os dois primeiros anos da investigação do caso, Rodrigues abdicou tanto de parcela considerável de sua vida familiar como de suas atividades profissionais, com inegáveis prejuízos à sua carreira de advogado e professor universitário, segundo minha percepção. Isto tudo para não falar que foi através de Pacaccini e dele, por sua reconhecida seriedade no tratamento da Ufologia no passado, que várias testemunhas resolveram se expor publicamente, fazendo espantosas revelações. Ou seja, para levar a sério as atuais declarações de Rodrigues teríamos que considerar que ele foi o mais irresponsável dos investigadores, não só da Ufologia Brasileira mas também da Mundial, e sei que isto não foi uma realidade! Para fazer uma analogia, não estamos diante de alguém que descobriu que um determinado filme ufológico, analisado e apresentado como autêntica evidência no passado, é agora confirmado como fraude. Não é nada disso, a coisa é muito mais séria do que parece.

crédito: Ubirajara Rodrigues
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A ufóloga Irene Granchi, chamada por Ubirajara Rodrigues para auxiliar nas investigações, e o bombeiro Alvarenga, que participou dos procedimentos

Suas atitudes para levantar o caso e denunciar o acobertamento ufológico dos fatos por parte das autoridades foram realmente sérias. Sim, seríssimas. Inclusive, junto com Pacaccini e na minha presença, Ubirajara Rodrigues chegou até mesmo a levar a mãe de Liliane e Valquíria, a dona Luisa Helena Silva, a fazer uma denúncia pública quanto à tentativa de suborno que as três sofreram para desmentirem o avistamento de uma das criaturas. Isso é amplamente conhecido e foi também denunciado pela Revista UFO [Veja edição UFO 102]. E como sabemos, suborno é crime previsto no Código Penal. Será que Rodrigues seria tão irresponsável assim, a ponto de conduzir pessoas ingênuas e simples, mas de honradez indiscutível, a se pronunciarem publicamente, com todas as possíveis implicações jurídicas que seriam advindas deste ato, sobre algo que ele hoje considera questionável ou de importância discutível, como descreveu o que pensa do Caso Varginha na entrevista?


Outra situação que chama muito a atenção é o fato de que Rodrigues sempre se referiu aos detalhes do caso com muita veemência, fazendo defesa de tudo o que havia apurado, mesmo que isso representasse prejuízo à sua carreira. Ele não se omitia e nem se furtava de narrar os acontecimentos, inclusive em momentos em que demonstrava profunda emoção, justificável ante os fatos. Sim. Veja que na referida reunião de 04 de maio de 1996, depois da denúncia de suborno e dos comunicados de Covo e Pacaccini à imprensa, Rodrigues fez um pronunciamento visivelmente emocionado, chamando a atenção de todos para o fato de que “não estávamos brincando de fazer Ufologia. Que a coisa era séria”. Ele usou estas mesmas palavras, igualmente emocionando muitos dos presentes. Vejam que contradição com o que ele hoje afirma. Seu pronunciamento foi um desabafo inspirado no recuo de alguns ufólogos que, não só para surpresa minha, mas também a de Rodrigues, haviam se negado momentos antes a passar para imprensa algumas de suas descobertas do Caso Varginha, visivelmente receosos de serem penalizados e envolvidos com a história, em termos públicos, após Pacaccini ter citado pela primeira vez os nomes dos militares que participaram de vários dos episódios do caso. Pouca gente sabe, mas houve aqueles que temeram ter seus nomes associados a tudo aquilo. De qualquer forma, nem é preciso dizer que tais informações e declarações estão devidamente preservadas em meus arquivos, e poderão servir para uma profunda reavaliação do momento que estamos vivendo.

crédito: Arquivo UFO
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O co-editor da UFO Claudeir Covo em pronunciamento na histórica reunião com a imprensa, em 04 de maio de 1996

Hoje sabemos que boa parte de todas as informações sobre o Caso Varginha foram obtidas nos primeiros dois anos da pesquisa. Existe alguma justificativa para isto? Provavelmente, sim. Não tenho a menor dúvida de que, no início dos fatos, o comando da ESA, a instituição militar que conduziu os procedimentos que envolveram o caso, subestimou a capacidade dos principais investigadores envolvidos. Quando os oficiais à frente dela perceberam isto, já era tarde e os ufólogos já estavam revelando detalhes surpreendentes de tudo o que se passou, desde a detecção de objetos não identificados no sul de Minas até a captura de criaturas em Varginha e seu transporte para outras localidades – inclusive os nomes dos militares envolvidos foram descobertos e apresentados à Nação, o que certamente deixou o comando da ESA enfurecido. Mas a sucessão de equívocos dos militares e a má administração de várias situações, principalmente a forma como a imprensa foi tratada, além das desastrosas tentativas de explicar determinados aspectos do caso de maneira absurda, foram causas decisivas para que outras testemunhas se apresentassem e se manifestassem, aumentando assim o número de evidências sobre o episódio. Na verdade, este jogo de enganos só teve fim com a mudança do comando da instituição, embora, antes disso e de ser transferido, o general Sérgio Pedro Coelho de Lima abriu o já mencionado inquérito policial militar, que somente agora é discutido plenamente. Foi a partir deste momento que as coisas foram ficando cada vez mais difíceis, e progressivamente a influência do IPM passou a ser sentida pelos ufólogos.

De que maneira o inquérito afetou os rumos do Caso Varginha? De forma drástica, e o que vou revelar agora, pela primeira vez, dará novo sentido a muita coisa ainda obscura dentro do Caso Varginha, algo cujos desdobramentos nos atingem até hoje. Veja, com a instauração do referido IPM pelo general Coelho de Lima, antes de sua transferência da ESA, a inteligência do Exército estava diante de mais uma grave situação. Se a imprensa tomasse conhecimento da existência deste procedimento – e mais do que isto, se soubesse que os principais investigadores do caso seriam depoentes no processo –, teria a confirmação definitiva da seriedade e da credibilidade do que havia sido divulgado até aquele momento pelos ufólogos. Naquela fase das investigações, a imprensa já estava afastada e esquecendo o episódio, e seria novamente despertada para tudo aquilo que o Exército necessitava encobrir de maneira definitiva. Já era hora da inteligência do órgão tentar assumir de fato o controle e transformar aquela situação, potencialmente explosiva, em algo ao seu favor. Se alguém ainda acha que Varginha foi um “passeio no parque” para os principais investigadores, está na hora de reformular esta percepção.


Como você analisa a influência do inquérito sobre as atividades dos pesquisadores Rodrigues e Pacaccini? Eles foram de alguma maneira coagidos ou pressionados a participar do procedimento? Nestes últimos anos, meus contatos com oficiais, principalmente da Marinha e da Aeronáutica – alguns inclusive ligados à área da inteligência –, me ensinaram a perceber como as coisas acontecem e porque acontecem no meio militar. Mais do que isto, entendi como os dois principais investigadores do Caso Varginha foram alvo de uma profunda análise, inclusive em termos psicológicos. O principal objetivo de todo esse processo foi a mensuração dos possíveis cenários que poderiam ser gerados pelo comportamento de ambos frente ao IPM e tudo que envolveria o contato entre eles e os militares que conduziram o processo e os que comandavam a ESA. O primeiro convocado para depor foi justamente Rodrigues, o que não aconteceu por acaso. Como advogado, ele poderia avaliar a gravidade daquele momento – e esta era a intenção do Exército. Se alguém imagina que ele foi intimidado ou pressionado ao depor no IPM, ressalto que isso não é verdade. Pelo contrário, como o próprio Rodrigues disse após seu depoimento, em uma ligação telefônica a mim, “nunca fui tão bem tratado pelos militares”. Isso apesar de lhes ter afirmado, ainda segundo me informou, que ele e o demais ufólogos continuariam a divulgar tudo aquilo que consideravam real no Caso Varginha.

Qualquer dúvida da legitmidade do Caso Varginha e de sua interpretação ufológica desaparece diante das coisas que um militar me revelou. Ele afirmou ter sido informado por seus próprios superiores da natureza extraterrestre das criaturas capturadas, e por isso o sigilo em torno do assunto deveria ser total

Algum outro ufólogo, além de Rodrigues e Pacaccini, foi chamado a depor? Que eu saiba, não. Mas, na oportunidade, Rodrigues, que foi acompanhado de um advogado de seu escritório, transmitiu aos responsáveis pelo IPM a informação que tanto eu como Claudeir Covo estávamos prontos para comparecer à ESA, nas datas e condições que se fizessem necessárias, caso fôssemos convidados. Porém, isto não seria necessário, segundo informaram os militares, porque o que importava para eles era envolver o menor número possível de pessoas. E mais do que isto, encerrar o quanto antes o referido processo, antes que a imprensa tomasse conhecimento dele. Rodrigues ainda voltou à ESA quando Pacaccini, em data posterior, foi prestar seu depoimento, atuando como seu advogado. Segundo ainda fui informado, o depoimento de Pacaccini passou longe dos interesses daqueles militares. Falando claramente, mesmo diante da gravidade daquele momento, o ufólogo de Belo Horizonte não fez qualquer concessão, mantendo a mesma postura contundente de seus pronunciamentos públicos.

crédito: Documentos Marco Petit
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O documento que deu origem à sindicância que levou ao inquérito dentro da ESA [E] e um dos termos de inquirição das testemunhas ouvidas

Mas o que existiria por trás da aparente boa vontade dos militares envolvidos no inquérito para tratarem tão bem Rodrigues e Pacaccini? Não tenho a menor dúvida de que, se tivessem sofrido qualquer forma de intimidação ou pressão, eles seriam os primeiros a denunciar publicamente tal fato e ainda a existência do IPM à imprensa, mas não foi isto o que aconteceu. Os militares não estavam lá por acaso, e provavelmente apostavam na concretização de um outro cenário para o futuro. Dentro daquele IPM seria plantada uma semente que não só poderia desmoralizar o caso mais adiante, como manteria toda a história e os próprios investigadores principais sobre certo controle militar. Mais do que isto, criaria uma situação que poderia levar à própria desmoralização do grupo que permanecia à frente das investigações perante a Comunidade Ufológica Brasileira.

Como assim? Que semente é essa de que você fala? Veja, os militares à frente do IPM fizeram apenas um único pedido a Rodrigues: que ele mantivesse sigilo em relação ao procedimento e não divulgasse de forma alguma sua existência para a imprensa. Não é preciso dizer que este pedido não se restringia à figura do advogado mineiro apenas, que atuava com o líder do grupo maior de investigadores, e assim foi tratado pelos militares. Portanto, esta situação atingia também Pacaccini, Covo e a minha pessoa. Falando mais uma vez de forma clara, Rodrigues recebeu um convite explícito para participar do acobertamento de um dos aspectos mais relevantes do Caso Varginha. Ou alguém pode achar que um inquérito policial militar sobre o acontecimento mais polêmico da Ufologia Brasileira, envolvendo depoimentos de seus principais ufólogos, é algo para ser esquecido? Por mais que este assunto passasse longe de nossas conversas e avaliações do fato, posteriormente, é desnecessário ressaltar o impacto que esta história teve sobre cada um de nós.


O que aconteceu em seguida? O grupo decidiu aceitar o pedido dos militares e manter silêncio sobre o IPM, participando do acobertamento do assunto na forma da semente plantada? A bem da verdade, e faço questão de destacar, fui informado por Rodrigues de todos os detalhes que suponho que envolveram este IPM, incluindo o pedido de sigilo de sua parte, mas hoje não sei se fui informado de tudo. Também não recebi de Rodrigues