ENTREVISTA

Uma análise da Ufologia pela ótica acadêmica revela onde ela pode melhorar

Por Fábio Gomes | Edição 198 | Março de 2013

Desde que a nossa espécie começou a se organizar em sociedade, é constante sua necessidade de buscar conhecimento para entender o que a cerca. Desenvolvemos várias maneiras de tentar estudar e explicar o meio ambiente ao redor, seja através da religião, da magia e de formas racionais de pensamento como, nos últimos quatro séculos, o método científico. Mas o que deve ser apreendido é que a realidade objetiva das coisas está acima de qualquer processo de explicação — simplesmente, nenhuma fórmula criada para sistematizar o mundo e o universo consegue elucidar tudo. Se fosse assim, já teríamos as respostas para todos os enigmas que nos envolvem. Como o universo foi criado? O que é a chamada matéria escura? Existiu realmente o Big Bang? Há seres em outros planetas? Essas são perguntas que, aparentemente, ainda estão longe de uma resposta satisfatória.


Evidentemente, desde seu surgimento como disciplina, nos anos 40, a Ufologia também foi acomodada no hall dos enigmas ainda sem solução para a humanidade. O que são os discos voadores? Quem os construiu e com qual tecnologia? Por que vêm à Terra e não se apresentam amplamente? Estas também são perguntas que carecem de respostas. Em Ufologia, sobram relatos e evidências físicas, até mesmo as que tratam do padrão de ação dos seres alienígenas, porém a ciência ainda não conseguiu enquadrá-la de forma direta. Afinal, para os cientistas, é necessária uma prova contundente — no caso, a presença das máquinas voadoras e dos seres que as tripulam em laboratórios acadêmicos, prontos para dissecação. Como isso ainda não é possível de forma oficial, resta-nos buscar provas por outros métodos.

Ufologia e Psicologia

Considerando sua vocação interdisciplinar, a Ufologia pode tentar trilhar caminhos que levem a uma comprovação plausível da presença alienígena na Terra de diversas formas e usando distintas ciências. Uma delas, sem dúvida muito importante, é a Psicologia. É nesse sentido que vemos uma contribuição significativa vinda de onde menos se poderia supor, o Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), especificamente seu Laboratório de Psicologia Anomalística e Processos Psicossociais. É ali que trabalha o psicólogo pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e doutorando em Psicologia pela USP Leonardo Martins, que em janeiro de 2012 defendeu sua dissertação de mestrado sobre o tema. Seu trabalho — absolutamente revolucionário no meio — partiu da hipótese de que supostos contatados e abduzidos podem ser pessoas normais, ao contrário do que alegam os críticos e céticos.

Considerando sua vocação interdisciplinar, a Ufologia pode tentar trilhar caminhos que levem a uma comprovação plausível da presença alienígena na Terra de diversas formas e usando distintas ciências. Uma delas, sem dúvida muito importante, é a Psicologia. É nesse sentido que vemos uma contribuição significativa vinda de onde menos se poderia supor, o Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), especificamente seu Laboratório de Psicologia Anomalística e Processos Psicossociais. É ali que trabalha o psicólogo pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e doutorando em Psicologia pela USP Leonardo Martins, que em janeiro de 2012 defendeu sua dissertação de mestrado sobre o tema. Seu trabalho — absolutamente revolucionário no meio — partiu da hipótese de que supostos contatados e abduzidos podem ser pessoas normais, ao contrário do que alegam os críticos e céticos.

crédito: ARQUIVO UFO
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Foi a pesquisa do Fenômeno UFO quando criança que fez o entrevistado levá-lo para o ambiente acadêmico

Tecnicamente, Martins tentou — e conseguiu — provar que estas pessoas não têm problemas mentais em incidência maior do que o resto da população que alega não ter tal tipo de experiência. Por exemplo, supostos contatados e abduzidos não têm alterações de personalidade, como desejo de chamar a atenção e tendência a fantasiar. Sua conclusão, positiva para a Ufologia, é de que não há diferenças negativas entre esses indivíduos e o restante da população. Ele sabe o que diz, pois tem trabalhos realizados em uma grande gama de áreas, como experiências anômalas, saúde mental, Psicologia social e Psicologia da religião. Martins também tem experiência em psicoterapia e hipnose e publicou artigos científicos em revistas acadêmicas no Brasil e no exterior, abordando casos ufológicos, técnicas de pesquisa e temas relacionados. Isso além de fazer palestras em congressos científicos.

Obviamente, a realidade objetiva das abduções e contatos com ETs ainda não pode ser deduzida de forma direta e não foi o tema de sua dissertação, mas uma coisa importante já pode ser dita: a alegação desse tipo de experiência não é necessariamente obra de psicóticos, mas de pessoas normais. Com isso, quebra-se um mito defendido há muito por pseudocéticos que tentam atacar a Ufologia e suas características mais contundentes, os contatos com seres extraterrestres. Ou seja, se você, leitor da Revista UFO, teve uma experiência de contato ou abdução por alienígenas, saiba que a ciência já demonstrou que isso não indica, por si só, que você seja diferente do resto das pessoas.

Fórum de Contatados

Nesta entrevista, além de seu interessantíssimo trabalho, Martins também discute como acredita que a Ufologia — e principalmente seus interlocutores, os ufólogos — pode contribuir para tornar a área cada vez mais próxima de ser uma ciência. Suas sugestões podem tirar muita gente de sua zona de conforto, mas, sem dúvida, esse é um processo necessário. E que todos encarem suas indicações de forma produtiva, pois elas buscam melhorar cada vez mais nossos processos investigativos do Fenômeno UFO.

“É costume se dizer que o meio acadêmico está de portas fechadas para a Ufologia, mas tal colocação não é tão exata quanto se pensa. Embora resistências diversas ainda existam, várias pesquisas sobre contatos com extraterrestres e temas afins têm sido realizadas em universidades de todo o mundo, incluindo do Brasil”, afirma o entrevistado. Ele esclarece que são teses de doutorado, dissertações de mestrado, artigos científicos publicados em periódicos acadêmicos e trabalhos de conclusão de curso com resultados interessantes, mas que parecem passar despercebidos para a grande maioria dos interessados por Ufologia — e até para muitos céticos e para a maioria dos cientistas.

É costume se dizer que o meio acadêmico está de portas fechadas para a Ufologia, mas a colocação não é tão exata quanto se pensa. Embora resistências ainda existam, várias pesquisas sobre contatos com ETs têm sido realizadas em universidades

Martins vê que, além desses trabalhos, que tanto contribuem para o entendimento da questão, as pesquisas acadêmicas do Fenômeno UFO têm aberto portas para o assunto no ambiente universitário — e combatido preconceitos. Seu trabalho despertou tanto o interesse da Comunidade Ufológica Brasileira que ele acabou convidado para fazer uma palestra no próximo evento da Revista UFO, o I Fórum Mundial de Contatados, a se realizar de 14 a 16 de junho em Florianópolis [Veja informações nesta edição e no site www.contatados.com.br]. Sua apresentação abordará as pesquisas que menciona sobre contatos diretos com seres extraterrestres e suas implicações para a questão ufológica, além de discutir o que a ciência tradicional pode aprender com a Ufologia e também contribuir com ela. Vamos à entrevista.

O que o influenciou a buscar uma relação entre a Psicologia e a Ufologia? Isso surgiu durante e sua graduação universitária?
Não, a semente foi plantada bem antes da graduação. Na verdade, desde criança sou muito curioso em relação a vários temas, entre eles a mente humana e as histórias extraordinárias contadas por moradores de Pedro Leopoldo (MG), minha cidade natal. Você já ouviu o conselho “trabalhe com o que você ama e não terá que trabalhar um único dia na vida”? Pois é, tentando levar essa ideia a sério, eu acabei me graduando em Psicologia e trazendo esses assuntos que me cativam para a minha formação. Mas antes, na adolescência, eu cheguei a criar, junto com amigos mais velhos, um grupo ufológico na cidade, pelo qual realizávamos entrevistas com testemunhas, fazíamos vigílias e tudo mais. Ainda criança, já “torturava” com perguntas todas as testemunhas que eu casualmente encontrava e lia todo o material ufológico que pudesse encontrar.

crédito: Jon Chase
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O entrevistado teve como referência, entre outros estudiosos, a psicóloga carioca Gilda Moura

Que tipo de casos vocês investigavam nesse grupo? Eram avistamentos ou havia acontecimentos envolvendo contatos mais próximos com naves e seres?
A maioria das investigações era de avistamentos simples mesmo, de alegados objetos metálicos ou luzes distantes no céu — uma parcela menor mencionava objetos discoides, esféricos e cilíndricos que estariam pertos o suficiente para a observação de detalhes. E havia também algumas narrativas de experiências próximas e impactantes, como aquelas perseguições em estradas isoladas tão comuns em áreas rurais, visões de alienígenas de diversas conformações e mesmo uma ou outra alegação de abdução e contato amistoso com tripulantes. Mas o que chamamos aqui de “investigar” se resumia apenas a entrevistar os protagonistas das experiências e outras pessoas do local, improvisar reconstituições dos episódios, fotografar, filmar e recolher algum material potencialmente interessante. Naturalmente, era tudo muito intuitivo, sem rigor científico.

Quais episódios vocês investigaram na região de Pedro Leopoldo que chamou mais a sua atenção?
Houve alguns episódios mais interessantes, cada qual por diferentes razões. Pelo lado mais humano, eu me lembro de um senhor que alegou ter sido perseguido bem de perto, enquanto voltava para casa em uma área rural mais afastada, por um silencioso “farol” vindo do céu. O aspecto especial nesse caso é que ele teria ficado tão assustado que, pelos anos seguintes, se privou de sair de casa à noite, inclusive para ir aos eventos religiosos de que ele tanto gostava. Entre os que me marcaram por detalhes das experiências está aquele em que vários protagonistas descreveram uma grande “panela voadora” de forte luz azulada que teria pairado muito baixo e por longos minutos sobre alguns caminhões que descarregavam brita à noite. Um desses caminhoneiros, até onde pude vislumbrar na época, pareceu desenvolver um sério quadro de ansiedade depois do episódio. Houve também a narrativa de um casal que teria visto duas vezes na mesma noite uma “bacia voadora” pouco maior do que um Fusca, que, ao bambolear no ar, permitia ver em seu interior três criaturas muito semelhantes aos famosos grays [Cinzas]. A mulher estava grávida de sete meses e teria ficado bastante temerosa de que a criança sofresse efeitos de alguma radiação. Mas hoje parece estar tudo bem com a família.

Falando sobre o seu trabalho, como surgiu a ideia de fazer uma dissertação de mestrado com tema Ufologia? Foi uma iniciativa sua ou do seu orientador?
Foi iniciativa minha. Como meu orientador trabalha com experiências extraordinárias, como mediunidade, percepção extrassensorial etc, e já que eu queria fazer isso em relação à Ufologia, expliquei com detalhes o que eu desejava e ele se interessou. Ele é o professor Wellington Zangari e tem amplo conhecimento e muitas informações sobre fatos ufológicos, e pôde me ajudar em diversos aspectos. Ser orientado por ele foi e continua sendo um grande aprendizado e uma experiência muito rica [Veja mais sobre sua dissertação de mestrado no box].

Qualquer um que queira compreender as experiências ufológicas tem uma dívida com os ufólogos que garimpam casos exaustivamente, levantam documentos, conseguem entrevistas com figuras importantes, tudo com recursos próprios e sacrifício
Sua tese de doutorado, que você está fazendo atualmente, é uma continuação da sua dissertação de mestrado ou você abordará algum outro tema da questão ufológica? Como será ela?
É o mesmo tema, mas por outros caminhos. Isso porque, embora novos estudos sejam necessários para confirmar ou rebater aqueles resultados a que cheguei, o mestrado reuniu evidências para enfraquecer algumas hipóteses, ou seja, dizer o que provavelmente a maioria das experiências ufológicas não é. Ou seja, são “explicações negativas”. Uma vez estabelecido esse alicerce e enquanto aguardo e tento a replicação daqueles resultados, é possível paralelamente dar o passo seguinte. Assim, um dos objetivos no doutorado, com outros referenciais teóricos e métodos, é reunir evidências sobre o que a maioria dessas experiências pode ser. Ou seja, buscar “explicações positivas”. Evidenciar que os episódios são reais ao menos para os protagonistas já é flertar com isso — mas minha curiosidade vai muito além.

Sendo assim, dentre as “explicações positivas” você pode acabar referendando efetivamente as abduções alienígenas, ou seja, confirmando casos de contato com seres alienígenas? Ou essa hipótese ainda está longe de ser verificada metodologicamente?
Dentro de certos limites, pretendo verificar a hipótese da “experiência efetiva”, permanecendo longas temporadas em alguns famosos hot spots de UFOs. E a ajuda dos ufólogos será muito importante em cada local. Entre outras coisas, a ideia é estar lá na hora certa para o que der e vier, apresentando no final da pesquisa as entrevistas, vídeos, fotos, indícios de quaisquer tipos de eventos testemunhados por mim da forma mais completa possível, exaustivamente analisados com todos os recursos que compõem o estudo. Mas, como em toda pesquisa em qualquer área, existem limites para até onde essa verificação pode ocorrer, pois, dependendo dos acontecimentos, seriam necessários conhecimentos em outras áreas além dos referenciais utilizados. Por essas e outras razões, a construção do conhecimento é um empreendimento coletivo e sempre em movimento, em que as respostas encontradas conduzem a novas perguntas e convidam à participação de outros pesquisadores.

crédito: New england Medical Journal
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A hipnose regressiva, amplamente usada na pesquisa ufológica, não seria uma terapia tão eficaz quanto se pensa, conforme o entrevistado

Perfeito. Por favor, conte com os membros da Equipe UFO em seu trabalho de doutorado. E sobre sua dissertação de mestrado, gostaria de saber se algum profissional da área da saúde mental foi referência para você durante sua elaboração?
Sim, vários. No exterior, há muitos pesquisadores em Psicologia, Psiquiatria e em áreas afins que estudaram o assunto. Independentemente das polêmicas sobre seus trabalhos, podemos exemplificar com os doutores Christopher French, Susan Clancy, Richard McNally e o saudoso John Mack. Utilizei também outros que, embora não tivessem estudado o tema, contribuíram com minha pesquisa ao firmarem alicerces importantes dentro da Psicologia e de áreas relacionadas — o mesmo ocorrendo com pesquisadores do Brasil. Considerando os brasileiros que estudaram experiências ufológicas, um exemplo é a nossa tão familiar Gilda Moura, psicóloga e ufóloga carioca consultora da Revista UFO.

O psicólogo Ataíde Ferreira, que também é consultor da UFO, em matéria para a edição 120 da publicação disse que os ufólogos precisam se aproximar dos profissionais de saúde mental para aprimorar seu trabalho. Todavia, também não é importante ocorrer o contrário, ou seja, os profissionais da saúde mental se aproximarem dos pesquisadores e das pessoas que vivem traumas ufológicos?
Certamente essa é uma via de mão dupla e cheia de cruzamentos — e parcerias são fundamentais. Qualquer um que queira compreender essas experiências tem uma dívida com aqueles ufólogos honestos que garimparam e ainda garimpam casos exaustivamente, levantam documentos, conseguem entrevistas com figuras históricas importantes, tudo normalmente com recursos próprios e à custa de sacrifícios pessoais diversos. Além disso, muitas questões psicológicas relacionadas às experiências ufológicas e outras de aparência extraordinária são bastante particulares e requerem conhecimentos que os profissionais de saúde tipicamente não adquirem na faculdade. Parte da intenção dos meus trabalhos é ajudar um pouco a sensibilizar profissionais e pesquisadores acadêmicos para essas questões.

A regressão hipnótica é uma técnica controversa por diversas razões. É verdade que ela melhora a capacidade de recordar, mas também estimula fantasias novas e resgata fantasias de modo involuntário

Em sua opinião, qual seria o papel do psicólogo diante de um abduzido?
Resumindo, podemos pensar aqui no psicólogo enquanto terapeuta e enquanto pesquisador. No primeiro caso, a psicoterapia terá que partir das queixas do suposto abduzido. Supondo, por exemplo, um quadro do tipo tão descrito na literatura ufológica, a terapia poderá usar técnicas tradicionais para tentar contornar as ansiedades, sintomas depressivos, pesadelos recorrentes etc — mas com o diferencial de não rotular o abduzido como portador de um transtorno mental simplesmente porque ele conta uma experiência que parece inacreditável para a maioria das pessoas e mesmo eventualmente para o profissional. E essa demanda terapêutica existe não apenas entre abduzidos, mas para pessoas que alegam outros tipos de experiências ufológicas e que também evidenciam dificuldades para digerir o que aconteceu. O terapeuta não precisa acreditar ou duvidar da experiência. Seu ponto de partida é a “vivência subjetiva” do paciente. No segundo caso, como pesquisador, sua postura dependerá da questão que norteia o estudo. Ele poderá tanto estudar o que a experiência representa para o protagonista quanto investigar aspectos simbólicos das mesmas, buscando explicações psicológicas alternativas, relações entre as experiências e características pessoais dos abduzidos etc. No primeiro caso, a Psicologia busca aliviar o sofrimento psíquico e, no segundo, construir conhecimento.

A hipnose regressiva na Ufologia é um tema delicado e polêmico. Para você, quando a credibilidade de um trabalho de regressão hipnótica deixa de ter validade para a ciência?

A regressão hipnótica é uma técnica imensamente controversa por diversas razões. É verdade que ela melhora a capacidade de recordar, mas também estimula fantasias novas e resgata fantasias antigas de modo involuntário. Então, o hipnotizado poderá facilmente, e de modo sincero, experimentá-las como se fossem memórias autênticas, relatá-las de modo altamente convicto e apresentar sinais físicos e psicológicos como sudorese, taquicardia, ansiedade, choro etc. Por essas e outras razões eu uso a expressão “experiência ufológica” em vez de “fato ufológico” ou algo do gênero, pois a experiência é algo subjetivo, que pode ou não corresponder, em variadas medidas, a uma realidade externa. Os relatos não são o ponto final, mas um ponto de partida para se iniciar uma longa e coletiva empreitada de pesquisas. Assim, a hipnose deixa de ter validade para a ciência quando os relatos que dela emergem são considerados, com base em critérios falhos altamente reincidentes na Ufologia, como verdades objetivas e quando sua utilização para tentar aliviar o sofrimento psicológico não respeita certas diretrizes científicas para que uma técnica terapêutica seja considerada eficaz.

Você recebeu críticas por sua ousadia em tratar da Ufologia no meio acadêmico?
Eu já sofri algum preconceito, mas foi bem menor do que eu esperava e ocorreu mais no começo, antes do mestrado. Meu orientador costumava me dizer: “Faça seu trabalho bem feito, com todo o rigor, e as portas da Academia estarão abertas para você”. Apesar da minha desconfiança inicial, por estar acostumado a esperar preconceito, esses anos de mestrado e doutorado me mostraram que ele está certo. Em Ufologia, é comum se pensar que o meio acadêmico está fechado ao assunto. Embora seja certo que vieses psicológicos possam afastar cientistas antes mesmo de examinarem minimamente a questão, também é verdade que, se a Ufologia se familiarizar com certos rigores, o diálogo com o meio acadêmico será muito mais fácil e produtivo para ambos.

Falemos sobre a Ufologia como protociência, quais rigores metodológicos ela deve seguir para sair dessa condição e chegar a ser considerada ciência?
Qualquer área do conhecimento que obteve o status de ciência percorreu um caminho bem longo, o qual a Ufologia também precisará seguir. Esse caminho começa com certos princípios, como estudar os episódios sem precisar compartilhar as crenças envolvidas, padronizar nomenclatura e procedimentos e não considerar uma teoria boa só porque ela faz sentido. E não só isso, mas também separar as experiências das interpretações que vêm misturadas nos relatos, incentivar o debate e a crítica dos colegas e adversários, não levar as críticas para o lado pessoal, não considerar algo como verdadeiro simplesmente porque foi dito por alguém importante ou capacitado. Enfim, é preciso buscar exaustivamente as explicações mais simples para os episódios, entender que os fatos não falam por si mesmos, compartilhar os casos do modo mais aberto possível, entender que o ônus da prova cabe a quem faz alegações extraordinárias e não a quem duvida delas.

crédito: Paulo Baraky Werner
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Reformulada em alguns de seus conceitos, a Ufologia pode prosperar e proporcionar entendimento da natureza do ser humano

Parece um longo caminho a percorrer...
Sim, e as alegações da Ufologia também não devem cometer falácias lógicas na argumentação, mas revisar de forma corajosamente abnegada todos os casos importantes e as convicções construídas pela Ufologia desde os anos 40, buscar embasamento sólido em áreas úteis, como Antropologia, Sociologia, Psicologia, Física, Química, Filosofia, entre outros princípios. É claro que mesmo a ciência tem dificuldades cotidianas para implementar tudo isso — mas aí entram certos mecanismos de autocorreção que ela possui e que a Ufologia também precisaria estabelecer. Podemos conversar sobre cada tópico desses em detalhe, pois há importantes dificuldades em todos.

Até para ajudar os ufólogos nesse sentido, vamos entrar em detalhes sobre alguns desses tópicos. Em que ponto uma teoria que faz sentido pode não ser considerada boa o suficiente para ser referência? O que deve ser feito para que não incorramos em erros metodológicos neste caso?
Existem alguns quesitos em ciência para que uma teoria seja considerada boa — e fazer sentido é somente um deles, mas não suficiente. Sim, porque o reconhecimento de sentido em uma teoria pode ocorrer pelo simples bom senso, que não é um critério forte porque todo mundo acha que tem bom senso para julgar, desde os céticos mais inflexíveis aos ufófilos mais deslumbrados. Por exemplo, a Ufologia é repleta de teorias conspiratórias que fazem muito sentido quando você junta as peças do quebra-cabeça de determinado jeito. Mas basta outro crivo interpretativo, outra forma de bom senso, para essa mesma teoria soar paranoica e forçada. Aí entra a importância dos séculos de discussão em
ciência e filosofia sobre os quesitos de uma boa teoria.

Você poderia ser específico?
Começando, uma teoria precisa ser testável, de modo que qualquer pessoa, inclusive um cético, possa verificar se é verdadeira ou falsa com base em critérios coletivamente reconhecidos — e muitas teorias na Ufologia não são testáveis. Então, se ela estiver parcial ou totalmente errada, não será possível saber isso e descartá-la. A teoria precisa também ser parcimoniosa, ou seja, organizar os dados da forma mais simples possível, só recorrendo a explicações mais complexas ou extraordinárias quando as simples forem exaustivamente investigadas e esgotadas, o que muitas vezes não é o caso.

A Navalha de Occam é um princípio pelo qual, se duas ou mais explicações são eficazes diante de um enigma, deve-se começar pela mais simples. Quando alguém relata um contato, temos de considerar primeiro a possibilidade de farsa ou erro de interpretação

É o princípio da Navalha de Occam, que afirma que a explicação para qualquer fenômeno deve assumir apenas as premissas estritamente necessárias ao entendimento do mesmo e eliminar todas as que não causariam qualquer diferença aparente nas predições da hipótese ou teoria...
Exatamente. Conhecida também como princípio da economia das hipóteses e parcimônia, a Navalha de Occam é um princípio pelo qual, se duas ou mais explicações são igualmente eficazes diante de um enigma, deve-se começar pela mais simples. Assim, quando alguém relata um contato imediato, temos de considerar primeiro a possibilidade de a narrativa se dever à farsa ou erro de interpretação de fenômenos cientificamente conhecidos. É uma versão sofisticada do mesmo princípio que usamos no dia a dia quando, por exemplo, uma criança diz à professora que o cachorro comeu a tarefa de casa que ela mandou fazer. Logo imaginamos a explicação mais simples, que é de que a criança apenas não fez a tarefa e deu uma desculpa — e provavelmente estaremos certos.

E para se chegar às explicações mais simples é necessário ter conhecimento de várias disciplinas científicas.
Sim, a investigação ufológica precisa se valer em profundidade de diferentes áreas do conhecimento. Caso o ufólogo saiba pouco a respeito delas, a investigação será amadora e incompleta. Como ninguém domina tantas áreas de conhecimento, ressalta-se de novo a importância do trabalho coletivo, das parcerias e do aprendizado constante dos ufólogos. Mas aqui também há um erro importante cometido por muitos céticos — a parcimônia é um critério pragmático sobre a ordem de investigação das hipóteses, mas não uma regra última sobre como a realidade funciona. A realidade não tem obrigação de ser simples como concebemos, de modo que as explicações precisam ser investigadas antes de serem sentenciadas. A hipótese mais simples é apenas o ponto de partida, não de chegada. Naquela ocasião em particular, por exemplo, o cachorro pode mesmo ter comido a tarefa de casa e a criança ser castigada injustamente...

O fato de não se cometer falácias lógicas na argumentação de um caso ufológico está diretamente ligado ao de não se interpretar seus detalhes precipitadamente?
Não apenas isso. Existe uma série de erros clássicos de argumentação conhecidos como falácias lógicas, que são erros que independem do teor do argumento e devem ser evitados. São erros na forma como os argumentos são construídos, na sua lógica interna. Essas falácias são organizadas por categorias, muitas vezes conhecidas por nomes em latim, embora o importante não seja decorar os nomes e sim entendê-las. É tremendamente interessante não apenas para os ufólogos e céticos, mas para qualquer pessoa, dominar esses conceitos para serem capazes de argumentar coerentemente. Aliás, as falácias deveriam ser tratadas na educação formal.

Como se construir uma boa teoria em ciência e como este conceito de boa teoria poderia ser empregado na pesquisa ufológica?
A princípio, uma boa teoria deve ser generalizável, aplicável em situações além dos dados imediatos em cima dos quais ela foi construída. Deve ser coerente com o que se sabe cientificamente em áreas próximas, encaixando-se em uma espécie de teia de conhecimento sem gerar contradições desnecessárias. Por exemplo, muitas teorias sobre deuses astronautas têm nesse quesito um de seus principais problemas. A boa teoria também deve ter potencial para gerar novas teorias, perguntas e estudos em graus crescentes de complexidade, em vez de pretender esgotar o assunto por si mesma.

crédito: UBIRAJARA F. RODRIGUES
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O entrevistado tem sua versão para o Caso Varginha e a mudança de posição de seu principal pesquisador

Em que ponto deste processo as interpretações dos relatos ufológicos devem ser feitas? É após todo o procedimento de coleta de informações ou ainda deve ser feito algum outro tipo de tratamento antes de se iniciar sua interpretação?
Isso depende do ângulo pelo qual os relatos são estudados. Cada pesquisa terá objetivos, bases teóricas, métodos e cuidados específicos. Mas eu me referi a separar experiências e interpretações no sentido de que é comum que se aceite irrefletidamente as interpretações das testemunhas juntamente com seus relatos. E é importante separar, ao menos didaticamente, uma coisa da outra. Por exemplo, são comuns relatos em que grays são vistos ao lado da cama e o protagonista é abduzido, logo a seguir levitando através da janela. Caso não se atente para a importância de se separar experiência e interpretação, tanto ufólogos quanto céticos correm riscos de, respectivamente, aceitar precipitadamente a abdução ou rejeitar a experiência só porque não acredita que isso aconteça.

Qual é o problema que você vê no exemplo dado acima?
Quando os relatos falam em grays, em abdução, em levitação etc, os protagonistas já estão interpretando sua experiência. O protagonista também poderia ter feito uma análise cética do fato, como a de que teve apenas um sonho bastante realista, ou dizer que foi uma viagem fora do corpo etc. Em qualquer desses casos, é perfeitamente possível que uma experiência de algum tipo tenha ocorrido e que apenas a interpretação esteja em parte ou totalmente equivocada — não separar experiência e interpretação fará com que o pesquisador embarque nesse possível equívoco, aceitando tudo ou, ao contrário, como dizemos em Minas, “jogando o bebê fora com a água do banho”.

crédito: ALEXANDRE JUBRAN
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Um dos principais casos ufológicos brasileiros, Varginha precisa ser revisto em alguns aspectos, sugere o entrevistado

Mas como fazer esta distinção entre experiência e interpretação?
Uma forma de separar momentaneamente experiência e interpretação é buscar, por meio de um interrogatório que admito ser tedioso, o relato mais despido possível de convicções e rótulos, priorizando descrições mais elementares e exaustivas em lugar de termos já restritivos, como nave alienígena, ser extraterrestre etc. Por exemplo, o que exatamente a testemunha está chamando de nave? Quais são, em detalhes, suas sensações e percepções na parte do relato em que disse ter levitado? Tudo isso poderá dar subsídio para conhecer as experiências em detalhes e, ao mesmo tempo, questionar as interpretações.

Um dos problemas da Ufologia está nas críticas que os ufólogos fazem aos seus colegas e aos seus trabalhos, quase sempre carregados de questões pessoais. Isso certamente resulta em perda de qualidade da pesquisa ufológica e deteriora sua qualidade. O que você diz sobre isso?
Claro que levar os fatos para o lado pessoal é uma postura que cada um deveria se esforçar individualmente para evitar. Mas nossas reações individuais são também muito influenciadas pela atitude dos demais, de modo que, se a Ufologia valorizasse mais o debate, as críticas acabariam se tornando algo costumeiro e muito menos difícil de aceitar. Da mesma forma, céticos deveriam ser mais abertos a parcerias amistosas com ufólogos e o meio acadêmico ser mais sensível a esses temas — as críticas fazem parte daquele mecanismo de autocorreção da ciência e tornam a construção de conhecimento uma empreitada coletiva. Enquanto isso, sabemos o quanto certos ufólogos infelizmente são ciumentos em relação aos “seus casos” e resistem em compartilhar informação, além de considerarem as críticas ao seu trabalho como pessoais. Então, seriam imensamente interessantes para a Ufologia debates formais frequentes e publicações conjuntas entre partidários de diferentes perspectivas, inclusive céticos, mas com ambiente amigável e de respeito mútuo, sem ataques pessoais e desconfianças quanto a intenções obscuras do debatedor apenas porque ele “não consegue ver aquilo que é tão óbvio”, frase logo lançada como arma contra qualquer adversário.

Podemos dizer que a Ufologia, ao buscar embasamento em ciências como Antropologia, Sociologia, Física, Química, Filosofia, etc, está exercitando uma vocação interdisciplinar? Qual delas pode mais auxiliar a Ufologia?
A Ufologia tem potencial intrínseco para ser interdisciplinar! Isso porque seu objeto de interesse pode ser examinado sob diversos ângulos, cada qual tratável por uma das disciplinas citadas, que podem se auxiliar mutuamente. O peso de cada contribuição depende do ângulo com que se pretende estudar a questão. As chamadas hard sciences [Ciências naturais e físicas] podem contribuir diretamente na importante ou mesmo decisiva análise de indícios físicos, químicos etc. Mas o que temos em mãos na ampla maioria das vezes é o fator humano — as testemunhas e as pessoas de seu meio social. Assim, a filosofia e as ciências humanas e da saúde poderiam contribuir de forma decisiva e com mais frequência.

A Ufologia tem potencial intrínseco para ser interdisciplinar! Isso porque seu objeto de interesse pode ser examinado sob diversos ângulos, cada qual tratável por uma das disciplinas citadas, que podem se auxiliar mutuamente

Certamente, ao pesquisar o Fenômeno UFO, você teve algum contato com a literatura característica do tema. Qual é sua opinião sobre alguns dos casos mais importantes da Ufologia, como o Caso Varginha, por exemplo?
Como me interesso pelo tema desde criança, sempre tive muito contato com a literatura ufológica. Ainda guardo comigo todas as edições da Revista UFO em papel, incluindo suas antecessoras, como a nostálgica Ufologia Nacional & Internacional, e os casos clássicos da Ufologia estão entre os pilares da minha paixão pelo tema até hoje. Contudo, a familiaridade com esses acontecimentos e com o quanto tendem a ser convincentes não pode impedir um princípio básico do rigor que é o questionamento profundo. Pode parecer um paradoxo, mas quanto mais convencidos estamos sobre um caso, mais rigor devemos ter para questioná-lo. Especificamente sobre Varginha, há diversos aspectos intrigantes, sem dúvida. Mas o caso também exemplifica algumas questões delicadas que a Ufologia precisa repensar. Por exemplo, quase todo o episódio está amparado em relatos, que são considerados como espelhos da verdade objetiva basicamente porque soaram convincentes e vieram de pessoas responsáveis, incluindo militares — que não teriam nada a ganhar com isso. Mas, cientificamente falando, os relatos precisam ser submetidos a uma série de rigores de análise.

Como isso se aplica ao Caso Varginha?
A “verdade objetiva” dos relatos, mesmo quando coincidem, é algo imensamente difícil de se estabelecer na Psicologia ou em qualquer outra ciência por razões em parte aqui comentadas, pois há vieses diversos em qualquer narrativa, boa parte inconsciente e feita sem qualquer má intenção. Isso sem contar a pouca consideração quanto a explicações parcimoniosas, entre elas algumas notáveis coincidências e a possibilidade de contaminação cultural em ao menos parte dos relatos. Pois já no dia 20 de janeiro de 1996, dia do Caso Varginha, antes mesmo das entrevistas serem feitas pelos ufólogos, parte da cidade já ouvira algo sobre “três meninas que viram um monstrinho ali no Jardim Andere”, conforme alegações que eu mesmo também apurei nas muitas vezes em que estive na cidade. Além disso, a forma como esses diferentes relatos são encaixados para formar o quadro total ocorre basicamente a partir do bom senso de cada investigador, critério esse que abordamos aqui na entrevista como insuficiente.

Qual seriam os efeitos desse processo a que você se refere?
Um deles, apenas para exemplificar, é que há ufólogos que defendem terem sido capturadas duas, quatro e até sete criaturas. Outro exemplo: enquanto o casal Eurico e Oralina relata a passagem de uma possível nave defeituosa na madrugada daquele 20 de janeiro, outro relato sugeriu a queda por volta de uma semana antes. Então, se houve uma queda, quando ocorreu afinal? Ou, por mais estranho que isso pareça, teria havido mais de um acidente? Pensando ainda nos relatos sobre as quedas, o que dizer das opiniões também difundidas nos círculos ufológicos de que os seres pretensamente capturados seriam produtos de experimentos feitos por humanos e que escaparam de um suposto cativeiro? E assim as imprecisões vão se avolumando e tornando o Caso Varginha mais complicado do que parece...

Compreendo. Mesmo assim, qual é sua consideração final sobre o caso?
Bem, um dos elementos cruciais aqui é ver que a validade de algumas partes da história não pode servir para validar toda ela. Contudo, e isso vale para incontáveis casos ufológicos, essas “generalizações da confiabilidade” de algumas partes para o todo acontecem muito. Em resumo, tanto por aspectos enigmáticos do episódio quanto por diversas imprecisões e falhas de rigor em seu exame, que foi bem intencionado, o mais próximo de estarmos certos seria dizer que não há como ter certeza do que aconteceu em Varginha. Isso abre margem tanto para novas investigações quanto também para que se baixe a guarda diante das críticas ao caso, como as notórias reações no meio ufológico contra a “mudança de postura” do ex-ufólogo e advogado Ubirajara Franco Rodrigues [Veja entrevista com ele nas edições UFO 153 e 154].

No Caso Varginha há aspectos intrigantes, mas ele exemplifica algumas questões delicadas que a Ufologia precisa repensar. Por exemplo, quase todo o episódio está amparado em relatos, que são considerados como espelhos da verdade objetiva

O que você pensa da mudança de postura dele, que de maior propagador do Caso Varginha, tendo inclusive escrito um livro detalhado e metodologicamente perfeito sobre ele, passou a insinuar que suas próprias descobertas estavam equivocadas?
Embora eu prefira dizer que ele apenas passou a ser mais cuidadoso ao falar sobre o acontecimento, uma mudança radical de opinião não é demérito algum em uma área que se pretende científica, pois ela não pode se permitir tabus. A autocrítica e a mudança de postura são elementos cruciais na ciência — são seus mecanismos de autocorreção. E a Ufologia deve buscar semelhante desprendimento para questionar radicalmente as próprias verdades,
mesmo as ditas inquestionáveis.

E em relação ao famoso e polêmico Caso Roswell, o que você pensa?
Roswell permite ressalvas bastante semelhantes àquelas feitas sobre Varginha, com o agravante de que os eventos centrais se deram há mais de 65 anos. Somado a isso, mesmo as primeiras investigações mais sistemáticas sobre o caso datam dos anos 70, ou seja, décadas depois do ocorrido. É muito tempo para potencializar todas as ressalvas aqui feitas sobre testemunhos, contaminação cultural, múltiplos locais de queda e versões, encaixe dos relatos a partir do bom senso etc. Tal como em Varginha, é possível a convicção razoável de que algo — extraordinário ou não — aconteceu em Roswell e de que é interessante investigá-lo sob diversos ângulos. Mas também houve falhas de rigor e conclusões apressadas. Imagino estar claro até aqui que não sugiro se jogar fora todo o exaustivo e pioneiro trabalho dos ufólogos — ao contrário, devemos partir também dele, em todos os casos investigados, para fazermos os refinamentos necessários.

crédito: Linha Direta
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Os incidentes do chupa-chupa investigados pela Operação Prato podem ser analisados sob novos pontos de vista

E como você se posiciona em relação ao fenômeno chupa-chupa e à missão militar criada pela Aeronáutica para investigá-lo, a Operação Prato?
Considere aqui também, e sobre qualquer caso evocado a seguir, as mesmas ressalvas sobre a objetividade dos testemunhos e as demais mencionadas, que tornam os alegados ataques do chupa-chupa e os desdobramentos da Operação Prato dignos da mesma revisão por métodos qualitativamente distintos dos até agora empregados. Isso posto, a Operação e os eventos relacionados são fascinantes, embora aterradores quanto aos dramas pessoais envolvidos. Além do que a pesquisa daqueles fatos pode nos ensinar, eles também destacam de forma radical um motivo a mais para as ciências — especialmente as humanas e de saúde — se envolverem. Muitos de meus colegas não parecem interessados na busca de explicações para essas experiências extraordinárias, o que é direito deles. Contudo, muitos também estão interessados em temas que têm impactos sociais e clínicos. Aí ocorre uma brecha para a aproximação desses profissionais, porque o estudo de experiências anômalas no geral, e das experiências ufológicas em particular, tem também relevância clínica e social, pois, independentemente de sua causa, elas podem afetar a vida das pessoas e grupos de modo intenso, podendo até ocasionar transtornos psicológicos e físicos. Os eventos ao redor da Operação Prato exemplificam isso de forma superlativa. Tratar a questão também por esse ângulo tem sido útil quando discuto situações ufológicas nos congressos de Psicologia, pois mais profissionais e pesquisadores parecem se interessar e então conversam comigo a respeito.

O Caso Betty e Barney Hill, uma abdução ocorrida nos Estados Unidos no início dos anos 60, é considerado emblemático para a Ufologia Mundial. Qual sua opinião sobre ele?
O caso é mesmo emblemático, pois recebeu ampla divulgação e contribuiu fortemente para a noção mundialmente disseminada sobre como seriam as abduções e o papel da hipnose regressiva na recuperação das supostas memórias reprimidas. Assim, independente da origem da experiência dos Hill, o caso pode ser estudado também acerca de seu impacto no imaginário coletivo contemporâneo — pois mesmo muitas pessoas que nunca se interessaram por Ufologia ou nunca ouviram falar dos Hill têm noção genérica sobre as abduções que, direta ou indiretamente, derivou daquele episódio, da forma como foi investigado pelo psiquiatra Benjamin Simon e de como foi difundido pela mídia.

Você acha positivo para a Ufologia o resultado da divulgação do Caso Betty e Barney Hill, levando as pessoas a saberem que há algo como as abduções por aliens?
Isso tem tanto aspectos potencialmente positivos, como dar visibilidade a incontáveis e importantes experiências pessoas ocultas por aí sob o véu da vergonha, do medo e da censura por familiares e amigos, quanto aqueles potencialmente negativos, como possibilitar um contágio social em escala global que difunde noções questionáveis sobre a fidedignidade das memórias afloradas através da hipnose, interpretações misturadas com o núcleo das experiências, uma certa formatação sobre como deveria ser uma abdução etc. Esses casos mais famosos, além de suscetíveis a críticas como as discutidas aqui, agregam o complicador adicional de terem grande poder de espalhar sua vulnerabilidade, pois influenciam os demais casos e seus processos de investigação.

Perfeito, obrigado! Qual seria sua última mensagem para os leitores da UFO?
Eu cresci vendo céticos e ufólogos se digladiando, cada qual tentando sustentar a bandeira da razão. Isso ainda acontece atualmente e imagino que eu não seja o único a estar cansado dessa situação. A despeito de críticas que se possa fazer contra algumas outras coisas que ele disse, Carl Sagan começa um de seus livros mais famosos com um princípio que vale para todos nós. Ele disse que o verdadeiro cientista — e aí também entra o ufólogo que se pretende rigoroso e mesmo cada um de nós no dia a dia — deve ser capaz de manter duas grandes qualidades, a de ser capaz de admirar-se e abrir-se profundamente para o novo e o misterioso, além de estar apto a exercer o ceticismo mais rigoroso e obstinado quando examina tudo isso. Vale lembrar que o verdadeiro ceticismo não é a negação das coisas, mas apenas a cautela, a dúvida, o cuidado antes de ventilar certezas. Assim, perde o sentido aquela clássica dicotomia que define se você é ufólogo ou é cético, de modo que pessoas acabam cristalizadas, enrijecidas, como representantes de um lado ou de outro. Quando eu faço críticas e sugestões para ufólogos ou para céticos, não é raro que me perguntem se eu pertenço ao lado contrário ao deles. Respondo que não pertenço a nenhum. Ceticismo e abertura não são identidades mutuamente excludentes, não são algo para se ser, mas sim qualidades para se ter equilibradamente, em prol do estudo sistemático das experiências ufológicas. Então, em vez de esperar a mudança dos partidários do outro lado para somente aí estabelecer um diálogo com eles, é muito mais produtivo começar a mudança internamente, através do cultivo sincero e abnegado das duas qualidades. Entre ser cético ou ser ufólogo, escolha ambos!


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