ENTREVISTA

Um caso de abdução que desafia o tempo e todas as explicações

Por Carlos Casalicchio | Edição 222 | Abril de 2015

As abduções alienígenas, que muitos pesquisadores entendem ter começado em 1961 com o Caso Barney e Betty Hill, talvez sejam o aspecto mais sombrio e tortuoso dentro da Ufologia. Sombrio, porque envolvem trauma, dor e sofrimento, e tortuoso porque, muitas vezes, os investigadores têm dificuldades para discernir o que é fato do que é imaginação ou má interpretação no relato das testemunhas. Mesmo a hipnose regressiva, normalmente usada para acessar memórias ocultas e esclarecer as experiências vividas pelos abduzidos, não se mostra sempre confiável ou a melhor ferramenta investigativa. Há muitas variantes em uma sessão de hipnose e elas passam pela habilidade e prática do hipnólogo, pela personalidade da testemunha, pelas condições em que é feita. Enfim, o estudo das abduções não é fácil e requer muita dedicação e paciência de seus investigadores.

Nosso entrevistado nesta edição, protagonista do mais famoso caso de abdução ufológica da história, transformado em livro e posteriormente em filme, experimentou todas as etapas que acompanham aqueles que passaram pela mesma experiência: trauma, medo, desqualificação pela mídia, problemas nos relacionamentos pessoais, perseguição e ofensas por parte da sociedade. Estamos falando do norte-americano Travis Walton, que em 1975, aos 22 anos de idade, passou cinco dias nas mãos de alienígenas. O caso de Walton desafia todas as explicações e teses levantadas tanto à época quanto agora para explicá-lo ou para desqualificá-lo.

Natural da cidade de Phoenix, no estado do Arizona, Walton trabalhava com Mike Rogers, que durante nove anos fora contratado pelo Serviço Florestal dos Estados Unidos para diversas tarefas. Rogers e Walton eram muito amigos e o rapaz namorava a irmã de Rogers, Dana, com quem mais tarde se casaria. Os outros homens no grupo de trabalho eram Ken Peterson, John Goulette, Steve Pierce, Allen Dallis e Dwayne Smith. Todos viviam na pequena cidade deSnowflake. Em 05 de novembro de 1975, Walton e seus companheiros voltavam para casa, ao anoitecer, quando avistaram uma forte luz por entre as árvores. Curiosos, chegaram a pensar que poderia ser um acidente aéreo ou um incêndio na mata. Mike Rogers, que estava ao volante da caminhonete, acelerou até que, ao chegarem a uma clareira, parou repentinamente. Pairando sobre o local estava a fonte da luz que haviam visto — um UFO que brilhava em tons de amarelo.

Jogado ao chão por um raio

A nave planava a aproximadamente 5 m do chão. Tomado pela curiosidade, Walton saiu da caminhonete e seguiu caminhando rumo ao objeto. Desesperados, seus colegas gritavam palavrões e exigiam que ele voltasse para o carro. No entanto, o rapaz ignorou os chamados e foi se aproximando da nave. “Eu queria mostrar que era mais corajoso do que eles e, para falar a verdade, achei que quando eu me aproximasse do objeto, ele iria embora”, confessou, durante uma recente entrevista a uma emissora de rádio. Alguns momentos mais tarde, já começando a sentir apreensão por estar muito perto da nave, que então começava a se movimentar, o rapaz tomou impulso para correr de volta à caminhonete. Naquele momento, foi atingido por algum tipo de descarga elétrica, que o ergueu do solo e o lançou a alguns metros de distância, desacordado. Desesperados, seus colegas saíram correndo com a caminhonete, pois acharam que Walton estava morto e temiam que o mesmo acontecesse com eles.

Alguns quilômetros adiante, Rogers parou a caminhonete e eles decidiram voltar para resgatar o amigo — imaginando que talvez estivesse apenas ferido e precisasse de cuidados médicos. Ao chegarem à clareira, tanto Walton quanto o misterioso objeto haviam sumido. Nos cinco dias que se seguiram ao desaparecimento do rapaz, uma verdadeira convulsão tomou conta da pequena Snowflake, envolvendo a polícia local, o FBI, helicópteros, equipes de busca e cães farejadores. Embora a polícia tentasse manter em segredo “a história do disco voador”, a imprensa acabou descobrindo o que acontecia ao ouvir as mensagens de rádio trocadas pelos policiais e rumou para Snowflake, transformando a cidade em um circo. Conforme as notícias corriam o mundo, jornalistas de outros países e populares também rumavam para lá. Em meio à confusão instalada, a polícia passou a desconfiar que os amigos do rapaz o houvessem assassinado e escondido o corpo na mata.

Diante das suspeitas da polícia, os rapazes concordaram em passar pelo teste do polígrafo, que acabou por inocentá-los em relação ao assassinato e atestou que não mentiam quando falaram sobre terem visto um UFO. Em seu livro Fogo no Céu [Biblioteca UFO, 2014], um sucesso de vendas lançado durante o II Fórum Mundial de Contatados, que a Revista UFO realizou em maio de 2014 em Curitiba, Walton conta em detalhes tudo o que antecedeu o encontro com o objeto, assim como os acontecimentos durante os cinco dias em que esteve desaparecido, incluindo sua experiência dentro da nave, os seres que viu e seu retorno à Snowflake.

“Enxergar através de mim”

Ele também descreve seu desespero ao deparar-se com os olhos dos alienígenas, “que pareciam enxergar através de mim”, conforme conta. A obra relata sua tentativa frustrada de sair da nave e descreve a sala de controle do veículo, onde descobriu que não estava mais no planeta, pois conseguia enxergar as estrelas através de uma janela ou tela. Walton narra também como foi abordado por seres humanoides que o levaram para fora da nave e eventualmente de volta a uma pequena e deserta estrada do Arizona. Nosso entrevistado disse que a decisão de escrever o livro foi “uma tentativa de contar a minha história, aquilo que realmente aconteceu. Como passei muito tempo evitando a imprensa e qualquer tipo de contato público, as pessoas começaram a inventar coisas que jamais aconteceram e eu achei que era hora de falar a verdade e pôr um fim nas mentiras”.

Em 1993, a história foi contada no filme Fogo no Céu, o que tornou o caso conhecido mundialmente. Embora boa parte do longa-metragem respeite a verdade dos fatos, Walton adverte que “toda a sequência que mostra o ambiente e minha situação dentro da nave está errada. Não foi isso o que aconteceu, mas Hollywood talvez precise mudar as coisas para funcionarem na tela. De qualquer forma, sempre gosto de alertar as pessoas quanto a isso”. Até hoje, a história de Travis Walton continua a intrigar e impressionar pessoas no mundo inteiro e a ser investigada e estudada por ufólogos e especialistas. Ele também esteve no Brasil em dezembro de 2014, para desta vez participar do VI Fórum Mundial de Ufologia, realizado pela UFO em Foz do Iguaçu. Ele promoveu igualmente um workshop no qual respondeu às inúmeras perguntas da plateia e discutiu possíveis motivos para estarmos sendo visitados por seres de outros planetas. A seguir, conheceremos mais detalhes da impressionante história de Walton que, ao desafiar o tempo, desafia também todos aqueles que tentam desacreditá-lo.

Você poderia resumir sua experiência para nossos leitores?
Claro. Em 05 de novembro de 1975, após um dia normal de trabalho como lenhador no Arizona, já ao anoitecer, estávamos voltando para nossos lares quando vimos uma luz forte vindo por entre as árvores. Inicialmente pensamos que fosse um avião que tivesse caído e ficado preso entre as árvores. No entanto, conforme chegamos ao topo da montanha, nosso colega Allen gritou: “É um disco voador!” Fui o único curioso o suficiente para sair da caminhonete. Caminhei em direção ao UFO, que pairava a alguns metros do chão. Ao me aproximar, percebi um som parecido como o de vibração eletrostática. Então me agachei e, ao tentar correr de volta ao veículo, fui atingido pelo que meus colegas descreveram como “um feixe de luz”. Eles fugiram, desesperados, achando que eu havia morrido. Quando retornaram para me procurar, eu já não estava mais lá — fiquei desaparecido por cinco dias e meu desaparecimento se tornou motivo de investigação de homicídio. Daqueles cinco dias, lembro-me apenas dos poucos momentos nos quais interagi com vários seres que apareceram na nave, tanto grays [Cinzas] com roupas laranja quanto os ETs do tipo nórdicos que vieram me tirar de lá.

Seus colegas imaginaram que havia morrido e simplesmente o deixaram lá, sem socorrê-lo?
Eles me viram ser jogado para trás pelo tal raio, aproximadamente a 3 m de distância. Eu caí completamente imóvel e não me movi mais, e eles entraram em pânico. Mas, depois eles voltaram para tentar me resgatar, só que eu já não estava mais lá.

O problema foi a curiosidade

Aconteceu algo diferente durante aquele dia? Você notou algo?
Não. O dia havia sido como qualquer outro. Exceto por um incidente com o Allen, que cortou uma árvore que por pouco não me acertou, o dia foi bem típico. Allen era um sujeito provocador e genioso, então não diria que o incidente foi anormal.

O que fez você sair do veículo?
A curiosidade me levou a agir sem pensar, imaginando que assim que começasse a me aproximar o objeto fosse sumir em direção ao céu. Mas, conforme fui chegando perto, fui tomado pelo sentimento de que talvez não devesse ter saído da caminhonete. Estava totalmente maravilhado com o objeto, que pairava silenciosamente a uns 5 metros acima do chão. Era pura curiosidade. Puro assombro. Simplesmente pensei em me aproximar e olhar mais de perto antes que ele sumisse.

Enquanto estava embaixo da nave, como se sentia fisicamente?
Eu senti um arrepio atrás do pescoço, com meu cabelo levantando. Na hora pensei que fosse apreensão ou medo, mas quando conversei a respeito com os rapazes que estavam na caminhonete, eles me disseram que sentiram que algo estava para acontecer — pensando mais a respeito, poderia até ser algum tipo de carga elétrica que estava se acumulando. Eu me senti pesado depois de acordar, mas não sei se foi porque estava “pesado” dentro da nave, como se fosse algum tipo de gravidade diferente, ou se era pelo fato de eu estar tão fraco que mal podia me mexer.

Houve alguma forma de comunicação dos extraterrestres com você?
Não houve nenhum tipo de comunicação com qualquer dos seres. A única coisa que não sai da minha lembrança são os olhos fixos deles em mim, enquanto eu acordava. No tempo que passei na nave, tentando me libertar do local onde estava, os seres ficavam me olhando como se conseguissem ver através de mim.

Dentro da nave, você percebeu algum tipo de hierarquia ou ordem militarizada?
Com exceção dos seres do tipo nórdicos, que vieram me resgatar e que pareciam estar assumindo o controle da situação e me levando de volta à minha cidade, não percebi qualquer tipo de símbolo ou outra coisa que pudesse levar a crer que existia algum tipo de hierarquia entre eles.

Como você descreveria o ar dentro da nave? Você sentiu algum odor?
Eu diria que, provavelmente, a atmosfera não era correta para a respiração de seres humanos. Era pesada e eu respirava com alguma dificuldade. Mas não notei nenhum cheiro. As pessoas me perguntam muito sobre odores, mas eu acho que é possível que, pelo menos temporariamente, eu não tivesse nenhum senso de cheiro.

Como você se sentia fisicamente ao recobrar a consciência?
O tempo todo sentia dificuldades para respirar, como se o ar fosse rarefeito. Tive muita dificuldade para abrir os olhos, pois estavam ardendo bastante. E havia uma luz que estava bem acima de mim, o que me fez pensar que estava em um hospital. Também me sentia muito fraco, sem forças para mover meu corpo. Depois de vários momentos tentando ajustar minha visão, percebi um ser olhando diretamente em meus olhos. Ainda estava sobre a mesa, deitado, quando percebi que estava, na verdade, na nave que tinha testemunhado anteriormente — quando vi os seres, pulei da mesa e entrei em pânico, talvez pelo choque. Como comentei, tentei me defender com o primeiro objeto que encontrei. Sentia uma dor de cabeça horrível. Mas eu acho que assustei os alienígenas, que saíram correndo da sala.

O que aconteceu depois?
Na hora eu corri na direção oposta àquela em que eles foram. Estava procurando por alguma porta que me permitisse sair daquele lugar assustador. No corredor, percebi outro local, que poderia descrever como uma sala de controle, onde havia uma poltrona com vários botões e uma tela. Em meu livro há um desenho representando aquela poltrona. Sentei-me nela e comecei a apertar alguns botões, na tentativa de abrir alguma porta que me permitisse fugir — a única coisa que se moveu foram as linhas de estrelas projetadas na tela em frente à poltrona, mas nada que parecesse me levar a uma saída. Eu estava completamente em pânico até ver um homem loiro e alto, do tipo nórdico que à primeira vista me pareceu um humano normal que estava lá para me resgatar.

Depois que foi devolvido ainda sentia dores em algum lugar do corpo?
Quando voltei para o chão firme, a única coisa que sentia era uma leve dor de cabeça. É possível que tenham feito procedimentos na outra nave também. Provavelmente terminaram depois da “ressuscitação”. Eles colocaram uma máscara sobre o meu rosto e eu apaguei. Não tenho certeza se tudo aconteceu no começo, meio ou no final. Provavelmente no meio dos cinco dias. Eu ainda estava bem machucado, então talvez não tenham terminado os procedimentos aos quais fui submetido. Mas eu imagino que, se fui ferido muito seriamente, então provavelmente tenha estado em coma por um dia ou dois, antes que eu acordasse. Por esse motivo eu tive pequenos vislumbres de lembrança dos outros humanoides.

Algum tipo de holograma?

Lendo seu livro, tem-se a impressão de que, quando você acordou e começou a tentar se defender e escapar, os outros humanoides foram chamados para, talvez, ajudarem os cinzas e não você. Eles estavam tentando ressuscitá-lo, mas porque você ficou muito assustado, não conseguiram terminar seu trabalho e não conseguiam controlá-lo. Então, os humanoides foram chamados para pegá-lo e levá-lo a outro lugar.
Esse é um cenário em que muitos acreditam — que aqueles humanoides eram só algum tipo de holograma ou alguma coisa do gênero que os cinzas usaram como forma de me acalmar. Algumas pessoas pensam que foi uma intervenção forçada, outras que as pequenas criaturas estavam tentando me ajudar, mas quando precisaram de mais informações sobre minha fisiologia, chamaram os humanoides e eles assumiram a “ressuscitação”. Imagino que esses são todos os cenários que as pessoas conseguem idealizar.

O que você pensa de sua abdução? Foi um engano ou ela já estava programada?
Após tantos anos, depois de ter superado o choque do evento, penso que foi um acidente, não estava programada. Eu me aproximei da nave e sofri o raio de luz. Eles, então, me levaram para bordo e tentaram me trazer de volta à vida — não estavam fazendo testes de rotina. Enfim, a experiência não foi programada, mas acabou acontecendo, talvez por um engano deles.

Interessante. Sabemos que os abduzidos são seguidos e estudados antes e depois dos eventos. Há relatos de estranhos sonhos, visão de luzes no quarto ou na casa, sons e a sensação de estarem sendo vigiados frequentemente. Você se recorda de ter sentido algo parecido nos dias que antecederam ou posteriores à sua abdução?
Houve avistamentos entre os meus familiares, mesmo antes do evento, mas nada diretamente relacionado a mim. Não me recordo de nenhum acontecimento precedendo a abdução. Logo após o incidente tive algumas observações que se revelaram ser somente de balões meteorológicos. Mas não tive nenhum encontro posterior ou mesmo qualquer evento ou implante que possa relatar. No entanto, tive um avistamento singular durante uma viagem a Los Angeles para uma conferência no Close Encounters Research Organization [Organização de Pesquisa de Encontros Próximos, CERO] e para conversar com o roteirista Tracy Tormé, na sede local da Mutual UFO Network (MUFON). Após sair do evento, estava dirigindo pela rodovia Interestadual 5 em direção à Interestadual 10, rumando para o Arizona, com duas outras testemunhas no carro, quando vimos um triângulo preto enorme com uma luz em cada canto. Foi incrível. Ao verificar no site www.ufostalker.com, descobrimos uma dúzia de outros avistamentos na mesma hora da noite. Porém, não tenho certeza se aquela “coisa” não era uma nave militar secreta — tinha algum tipo de propulsão que não dependia de aerodinâmica.

Nas sessões de hipnose regressiva pelas quais passou, há algum relato que ainda não tenha contado ao mundo e que queira repartir com nossos leitores?
Durante uma das sessões a que me submeti, descobri que havia um bloqueio prevenindo a revelação do que aconteceu comigo durante todos os cinco dias. A ameaça de perigo mortal, caso o bloqueio fosse rompido, foi tida como sendo meu próprio medo subconsciente do impacto da lembrança, ou uma falsa ameaça ou blefe, colocado pelos seres. No entanto, há uma teoria desenvolvida mais recentemente que aponta o bloqueio como uma medida protetora.

Protetora como?
Uma barreira foi instalada a fim de evitar a possibilidade de eu ser regredido inadvertidamente ao ponto em que eu estava em parada cardíaca. A teoria é de que, se eu regredisse hipnoticamente até a parada cardíaca, poderia me colocar novamente em estado de morte clínica, do qual seria impossível sair por hipnose. Essa é uma possibilidade pouco atrativa e não importa o quanto eu gostaria de saber o que aconteceu, não vou arriscar minha vida nisso.

Comprovando os fatos

Você retornou com problemas de saúde, necessitando de assistência médica de emergência. Que testes foram feitos com você e quais foram os resultados?
Após meu retorno, passei por vários testes, inclusive por detector de mentiras, raios-x e eletroencefalogramas (EEG). Em nenhum momento houve dúvidas sobre a veracidade do meu testemunho. De qualquer forma, garanto que a tecnologia progrediu bastante nos últimos 38 anos e que o EEG será muito mais específico e detalhando se for refeito agora. Mas, mesmo no relatório antigo, um especialista teria que analisá-lo, pois o técnico que fez o teste não era a pessoa certa para interpretar os resultados — técnicos de radiologia são ótimos em fazer o exame, mas deixam a interpretação para o médico. É assim que funciona em todos os casos.

O eletroencefalograma foi usado alguma vez como evidência?
Não, isso nunca foi discutido. Eu só tenho cópias do exame e, para ser sincero, fiquei surpreso com o resultado. Vi que tinha algumas anotações sobre um padrão incomum. Eu tenho certeza que o doutor Howard Kandell viu o resultado, mas embora fosse médico, era pediatra. Não era sua especialidade. Ele anotou no relatório que havia uma corrente assíncrona e alternada viajando da frente para trás do meu cérebro, ou algo do tipo. Essa foi a linguagem que foi usada, e ele descreveu isso como algo incomum.

Você notou algum hábito, habilidade ou dificuldade em sua vida após seu retorno?
Sim, mas não quero entrar nesse assunto, que assusta as pessoas. Minha família começou a agir comigo como se eu fosse um monstro ou algo assim. Não quero falar disso... Não vou confirmar nem negar. Descobri que há alguns assuntos que é melhor deixar de lado — melhor para mim, para aqueles amigos próximos e para o público. Pelo menos por agora.

Eu gostaria de saber sobre os desenhos que foram feitos descrevendo o evento. Se tivesse que refazê-los, iria adicionar mais detalhes?
Os desenhos poderiam ser mais precisos e eu gostaria de refazer muitos deles, agora, passado todo este tempo. Na verdade, alguns já foram refeitos. Se houver uma nova edição do livro, ela vai conter todos os novos retratos.

Você disse que os seres cinzas estavam vestidos de laranja. Foi possível ver alguma costura nas roupas?
Sim, mas não acho que era muito justa. As roupas dos humanoides eram bem coladas ao corpo, seus uniformes pareciam bem justos. E, quem sabe, talvez estivessem se vestindo de um jeito naquele dia, e de outro jeito no seguinte. Talvez o uniforme tivesse um propósito específico...

E os seres nórdicos, pareciam estar com algum tipo de uniforme?
Todos estavam vestindo um tipo de uniforme azul que não tinha colarinho e pareciam bem colados ao corpo, exceto nos tornozelos. Mas não havia nenhum tipo de insígnias. Os homens tinham fisionomia e musculatura similares e a mulher parecia a epítome feminina — não tinha qualquer tipo de marca ou falha no rosto, nenhuma verruga, pinta, rugas ou marcas. Todos pareciam ser da mesma família, embora não fossem idênticos. Aparentavam ter mais ou menos 25 anos e tinham o mesmo tipo de cabelo loiro e olhos castanhos claros.

Alguém já tentou reabrir o caso?
Esporadicamente alguém tenta reabri-lo. Linda Moulton Howe, por exemplo, veio aqui e pegou algumas amostras do solo do local e outras pessoas da National Geographic tiraram amostras dos anéis das árvores. Essas amostras não foram analisadas ainda, então há muito a ser desenvolvido nesse assunto. Eu vou me submeter a um novo eletroencefalograma (EEG) e a um exame eletromagnético. Irei fazê-los neste ano. Ainda há muito que investigar, como os acobertamentos do governo. Alguns colegas vão aos arquivos do governo tentar descobrir nomes — através da Lei de Liberdade de Informação — e registros de ligações telefônicas que foram feitos, mas nunca os encontram nos documentos governamentais.

Sem tempo perdido

O senhor mencionou em uma entrevista que as roupas com que estava no dia da abdução foram “perdidas”. Elas foram analisadas antes de desaparecerem?
Minhas roupas foram cuidadosamente colocadas em uma sacola de plástico limpa para posterior análise forense. Por distração, pressão da mídia e guerra de investigações, a sacola acabou sendo esquecida em um porta-malas e nunca mais foi achada.

Houve, desde 1975, encontros ou eventos que sugerem que os extraterrestres o estejam monitorando, como implantes, horas perdidas, avistamentos etc?
Não e espero que eles não estejam... E os raios-x e buscas médicas feitas por tato não revelaram a presença de nenhum implante. Como também não me recordo de nenhum tempo perdido [Missing time].

O governo ou alguma agência oculta o contatou para questioná-lo sobre o evento?
Não fui interrogado por nenhuma agência do governo e nem por ninguém que se identificou como tal. Duvido que qualquer operação secreta carimbasse publicamente seu interesse e aceitação do evento, ao mostrar interesse oficial. Mas, certamente, se disfarçaram como jornalistas e me entrevistaram. Alguns repórteres pareciam exageradamente minuciosos ao fazerem a pesquisa para seus artigos e desapareceram sem que eles fossem publicados. Se tivesse que opinar, diria que eram bons candidatos a agentes fazendo uma investigação secreta para o governo — tenho certeza de que obtiveram as informações que buscavam. Na verdade, fiquei perplexo por terem me deixado livre de seu assédio.

Sabemos que você faz parte do documentário 701, que logo será lançado. O que pode nos falar sobre este projeto?
O título vem dos 701 casos que não foram explicados pelo Projeto Livro Azul, nos anos 70. O que os produtores de 701 estão fazendo é investigar casos ufológicos muito incomuns, mas nem eu sei muito a respeito do projeto. Sei que estão misturando com uma dramática combinação de personagens e investigadores [O editor A. J. Gevaerd participa do mesmo falando sobre a Operação Prato e o Caso Varginha]. Eu já fiz algumas entrevistas e eles querem agora fazer encenações, mas não vou permitir que façam, porque imagino que as cenas que nunca foram mostradas no filme original sejam a principal vantagem de negociação para tentar fazer uma nova versão de Fogo no Céu. Mas como o diretor do 701 é amigo do Johnny Depp, se o Johnny assinasse um acordo para estar envolvido no projeto de encenação e remake, então eu permitiria, pois seria quase como uma garantia de que sairia perfeito.

Como você se sente por ter passado pelo que passou?
Na maior parte dos últimos 38 anos eu senti muito arrependimento por ter decidido sair da caminhonete. Procurei encontrar as coisas pequenas e de natureza positiva que vieram como resultado disso, enquanto tentava aceitar o que aconteceu. Algumas vezes, eu tentei fugir, parar de falar em público a respeito, mas não ajudou em nada. Minha ausência somente liberou o palco para os críticos e suas distorções grosseiras. Então, acabei sendo arrastado para a cena — a “celebridade relutante”, era como me chamaram.

E como você lidou internamente com tudo o que lhe aconteceu?
Gradualmente me direcionei à aceitação. Tenho que encarar que isso nunca irá embora da minha vida. E junto com a aceitação do fardo tenho que reconhecer a grandiosidade da responsabilidade que ele demanda. Responsabilidade pela humanidade, ajudando-a a se preparar para o que inevitavelmente virá. É melhor preparar as pessoas para que possam confrontar e compreender a lista de outros problemas que todos temos a tendência a adiar e ignorar. A minha tarefa é trazer coisas boas através disso. No entanto, ainda tento manter o equilíbrio em minha vida, não deixar a discussão dominar as conversas nem encobrir meus outros propósitos. Mas ainda me sinto confortável falando e fazendo outras coisas.

Como a notoriedade que alcançou, mesmo sem querer, afetou sua vida? E ainda afeta?
Nos primeiros anos depois do incidente senti que o incidente trouxe consequências devastadoras à minha vida pessoal. Previamente, como um jovem de 22 anos, acreditei que o mundo estava aberto para mim, que o futuro era meu para criar, que eu me tornaria qualquer coisa que eu escolhesse. Mas de repente encarei a destruição da minha vida, a alteração brusca de muitos relacionamentos pessoais e a constatação de que a percepção que tinham de mim no mundo era incongruente com quem eu realmente era.

É possível a um abduzido viver uma vida normal?
Resolvi logo no início que não iria deixar que as interpretações ruins sobre mim me fizessem perder a visão de meus valores e aspirações de ser o homem que realmente queria ser. Eu estava igualmente preocupado sobre ser seduzido pelas noções dos outros sobre fama e celebridade e estava preocupado em não me render às ideias preconceituosas que diziam que eu era um mentiroso, um maluco ou ambos. Eu nunca quis esperar menos de mim mesmo, me resignar a aceitar um papel inferior em minha vida, somente porque era como os outros queriam me ver — gradualmente tive que aceitar o fato de que algumas avenidas de minha vida já não estavam mais abertas e de que algumas portas haviam se fechado. E encarei a realidade de que algumas reações negativas talvez jamais desaparecessem.

Realidade à nossa volta

Posso imaginar que não tenha sido nada fácil tal experiência...
Não foi. Mas simultaneamente comecei a perceber que me encontrava em uma posição única, com uma oportunidade de fazer algo bom resultar de tudo o que aconteceu. A quantidade de perdas em minha vida pessoal poderia fazer a diferença para trazer ao mundo um entendimento melhor da realidade que está à nossa volta. Ofertar um pouco de esclarecimento de alguma forma ao tirar os pontos cegos da humanidade. Essa se tornou minha meta atual. Vamos ver como vou me sair.

Em sua opinião, por que os extraterrestres estão aqui e por que abduzem os humanos?
Eu acredito que eles tenham algum tipo de programa a desempenhar e diria que a maioria deles é benevolente ou, pelo menos, não é tão malevolente como as pessoas comumente imaginam. Eu conversei bastante com Barbara Lamb, que já fez hipnose em várias pessoas, e ela é da opinião que muitos dos que vivenciam uma abdução, quando as relatam, pensam que as experiências são mais negativas do que realmente foram. Mas, com o passar do tempo, as pessoas veem os efeitos benéficos que somente notam mais tarde, como, por exemplo, alguns problemas médicos que desaparecem. Eu acho que por causa dos contatos com esses seres as pessoas pensam que eles são mais negativos do que realmente foram, como no meu caso — enquanto acontecia, eu estava com tanto medo, especialmente depois de retornar, que pensei ter sido extremamente negativo, mas hoje percebo quanto foi benéfico.

Você acha que voltará a ser abduzido? Acredita que venha sendo monitorado por seus abdutores ao longo de sua vida?
Não posso afirmar com certeza, mas tanto em minha própria vida quanto na vida de meus familiares a presença deles ainda se mostra aparente. No entanto, espero que não.


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