ENTREVISTA

O problema da Ufologia é que sobram casos e faltam analistas do fenômeno

Por Wander Alcaraz | Edição 169 | Setembro de 2010

O entrevistado desta edição é um dos maiores expoentes da Ufologia Espanhola e seguramente o nome mais respeitado de sua geração. O autor, pesquisador e conferencista Manuel Carballal é muito mais do que um ufólogo ativo e produtivo. Ele também tem, entre suas qualificações, títulos na área da criminologia e teologia, além de ser um explorador arqueológico nato. Definindo-se como apaixonado pela investigação de fenômenos que desafiam o raciocínio, Carballal não se cansa de buscar respostas para saciar sua sede de conhecimento sobre o mundo em que vivemos. Como ufólogo, especializou-se na investigação de campo e é hoje considerado um dos maiores exemplos na área, tendo realizado expedições de pesquisas ufológicas nas Américas, África, Ásia e Europa. Seu interesse pelo desconhecido se estende desde os temas espirituais até o campo das religiões, como o vodu, no Haiti.

Dono de polêmicas opiniões sobre a origem e natureza do Fenômeno UFO, o entrevistado considera incompatível a possibilidade de que seres extraterrestres, que teriam uma tecnologia tão avançada que os permitiria cruzar distâncias inimagináveis universo afora, possam deixar provas tão triviais de sua presença em nosso meio, como marcas de pouso e detecção nos radares terrestres. É seu lado criminólogo analisando a questão. Carballal, no entanto, acredita que seres especiais estariam vivendo na Terra — que ele prefere chamar “terrestres extras”. Por isso, defende que necessitamos de mais pensadores na Ufologia.

Um olho crítico e atento

“Não precisamos apenas de pesquisadores, mas de pessoas que possam considerar as provas existentes e fazer uma análise mais ampla dos fatos, mantendo coerência nas conclusões”, diz o entrevistado. Por ter se aprofundado no estudo das religiões, suas opiniões sobre áreas que interseccionam Ufologia e religiosidade são muito bem embasadas e respeitadas. Por exemplo, Carballal vê como egoísmo a tese que sustenta que Jesus Cristo tenha tido origem extraterrestre, defendida por muitos pesquisadores igualmente notáveis. Para ele, como os cristãos são minoria no mundo, se houvesse uma “verdade extraterrestre” por trás da presença de Jesus Cristo na Terra, ela deveria ser compartilhada por todas as religiões no planeta, e não apenas pelo Cristianismo. Além disso, o entrevistado considera que apenas a Ufologia Científica deve ser utilizada para confirmação da presença de emissários de outras espécies cósmicas ao nosso mundo, “pois tudo o que é referente a experiências pessoais pode sofrer influência na hora de se declarar um julgamento, como no caso de testemunhos ufológicos”.

Anulando a própria identidade

Manuel Carballal tem ativa participação em inúmeras revistas sobre Ufologia e paraciências, com artigos regulares na publicação espanhola Más Allá de la Ciencia, e mantém blogs em que aprofunda suas teses com um enorme universo de leitores. Um deles, o El Ojo Crítico [Endereço: http://ojo-critico.blogspot.com], contém um estudo geral de anomalias e paraciências, e outro trata de sua profissão, a criminologia, El Archivo del Crimen [Endereço: http://manuelcarballal.blogspot.com]. Além disso, é autor de mais de dez livros sobre diferentes temas associados ao desconhecido, entre eles, na área da Ufologia, Los Expedientes Secretos [Os Documentos Secretos, Editorial Planeta, 2001]. No Brasil, sua mais recente contribuição foi para a Revista UFO, em cuja edição 164 publicou o artigo Perigo no Ar, no qual trata de ocorrências ufológicas envolvendo aeronaves civis e militares.

Nascido na Galícia, terra conhecida por produzir grandes pensadores, Manuel Carballal atua diretamente no estudo das crenças e sua influência social, assim como em áreas que considera correlatas, como a criminalidade, a violência sexual e o crescimento dos vícios. Foi assim que resolveu, anos atrás, anular temporariamente sua identidade e viver um período de meses infiltrado em movimentos skinhead da Espanha, para entender e decifrar o comportamento do grupo. E repetiu a façanha infiltrando-se também em áreas de prostíbulos, onde coletou informações sobre a atividade e seus consumidores, movido por sua compulsão em compreender a natureza humana. Como membro do Centro de Investigação e Análise da Criminalidade Sexual e Violenta (CIAC), não dispensa o convívio com as pessoas cujo ambiente e comportamento pretende conhecer. “Para entender estas pessoas, tem que se viver como elas”.

Carballal se diz um defensor do que chama de “filosofia da Ufologia” e acha fundamental que as pessoas que se dedicam à sua investigação jamais aceitem os fatos sem procurar conhecê-los antes. “É da investigação que surgem as respostas”. Ele também defende que os governos abram seus arquivos para que a sociedade tenha acesso à informações fundamentais sobre a presença alienígena na Terra. Mas, para ele, ainda que a Espanha tenha iniciado a liberação de seus documentos secretos no início dos anos 90, a busca não se encerra com a abertura ufológica.

Prospecção e seleção de casos

Por isso, Carballal continua sua luta para que novos casos ufológicos e documentos ainda não liberados venham à tona. Em cada nova edição de seu blog El Ojo Crítico, o entrevistado inclui algum novo documento obtido através de suas fontes dentro das forças armadas espanholas, “algo que só se consegue com dedicação e mantendo muita seriedade na pesquisa”.

crédito: British Heritage
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Carballal rodou o mundo atrás de respostas para suas inquietações, e o Egito é um de seus lugares preferidos para pesquisar

O aspecto da Ufologia que relaciona a interação de naves alienígenas com pessoal e instalações militares é o tema da casuística ufológica que mais lhe interessa e o fez produzir o maior número de artigos. Sua contribuição neste campo é reconhecida por ufólogos de todo o planeta. Enfim, Manuel Carballal é um dos poucos pesquisadores que combina características tão diversas e importantes para compor um verdadeiro “operário da Ufologia”, realizando um trabalho que vai desde a prospecção e seleção de casos, sua investigação e confirmação, até o contato com fontes militares envolvidas diretamente com a fenomenologia ufológica na Espanha, através das quais dá ainda mais sustentação aos resultados que obtém. Por tudo isso, as opiniões do entrevistado sobre os diversos aspectos da Ufologia têm um peso significativo para a Comunidade Ufológica Mundial, como se verá a seguir nesta entrevista exclusiva.

Em seu currículo há uma lista de credenciais que vão de teólogo a criminalista, e até ufólogo e investigador do desconhecido. O que veio primeiro e o que o levou a se interessar pela pesquisa dos discos voadores? Desde quando era muito criança eu já sentia curiosidade pelo transcendental. E na Espanha, onde cresci, antes da chegada da democracia, a Igreja Católica tinha quase todo o monopólio dos assuntos espirituais, o que gerou em mim uma vocação pelo sacerdócio. Mas não há nada melhor do que estudar a Igreja e o Cristianismo por dentro para perder a fé neles. Além disso, ao começar a viajar pela África, América, Ásia etc, conheci o Hinduísmo, o Xamanismo, o Budismo e outras formas de entender Deus muito diferentes daquelas que eu conhecia. Isso é algo que obriga qualquer um a abrir muito sua mente e a questionar o monopólio da verdade. João Paulo II disse em uma ocasião que “nós, católicos, somos minoria”. Se juntamos todos os cristãos — católicos, protestantes, ortodoxos, maronitas etc —, eles somariam pouco mais de um bilhão, enquanto no planeta somos quase sete bilhões de pessoas. Portanto, mais de 80% da humanidade não sabem nem sequer quem foi Jesus. Isso me levou a pensar que seria um absurdo que Deus revelasse a verdade apenas a uma minoria.

Você é teólogo, o que é raro ver em um ufólogo. Que papel tem a religião em sua vida e como vê a espiritualidade? Desde o início dos tempos o homem se pergunta quem é, de onde vem e para onde vai. Eu ainda faço as mesmas perguntas. Por pura coincidência nasci em um país europeu de natureza cristã judaica. Mas agora, depois de ter dado a volta ao mundo, sou consciente de que, se houvesse nascido em um país taoísta, muçulmano ou animista, minha forma de entender e sentir a realidade seria diferente. Todos nós, seres humanos, classificamos as coisas entre boas e más, morais ou imorais, em função de nossas crenças, e normalmente elas só dependem do lugar em que nascemos. Portanto, se você procurar a verdade que está por cima dessa coincidência a respeito do lugar em que nasce, deve se despir de todos os preconceitos sociais e culturais e começar do zero.

Como você vê a teoria que alega que a raça humana teria origem extraterrestre, assim como a de que Jesus Cristo teria sido um alien? Crê que os anunnakis de Zecharia Sitchin sejam possíveis [Veja box na página 18]? Estas são questões muito sérias, distintas e complexas. Quando você viaja tanto pelo mundo, como eu, se dá conta de que as coisas precisam ser entendidas sob variados ângulos. Por exemplo, como eu disse antes, todos os cristãos da Terra somam pouco mais de um bilhão, enquanto há mais de um bilhão e seiscentos milhões de chineses, um bilhão e quatrocentos milhões de hindus, um bilhão e meio de muçulmanos etc, e sendo assim, se Jesus tivesse origem extraterrestre, não seria justo supor o mesmo de Lao Tsé, Abraão e Maomé, apenas para citar alguns ícones da religiosidade de vários povos? Temo que quando falamos de ETs tomando como referência a Bíblia, pecamos por um pouco de provincianismo. Estou seguro de que um ser que viesse de outro mundo não seria tão racista para se limitar a uma parte tão pequena da humanidade, menosprezando o resto. Por isso, penso que devemos ser mais profundos e termos um foco mais amplo quando tratamos desse assunto. Sobre a chamada Hipótese Extraterrestre (HET) para origem dos UFOs, acredito que, se pensarmos um pouco sobre ela, fazendo uma reflexão lógica sobre as supostas evidências que a sustentam, veremos que elas sugerem justamente o contrário.

Como estudante das religiões e após ter andado meio mundo buscando explicações para a crença das pessoas, acha que existe algum grupo de religiosos que esteja mais perto da verdade? Eu não acredito que um cristão, um judeu ou um sikh esteja mais próximo da verdade do que um muçulmano, um budista ou um agnóstico. Não seria justo com o resto da humanidade. Além disso, se você estuda a história das religiões, verá que Deus não nos fez à sua imagem e semelhança, como pregam muitas das religiões. Na verdade, são os humanos das mais variadas épocas e culturas que tentam fazer Deus à sua imagem e semelhança — é por isso que já se matou tanto em nome dele. Esse assunto, para mim, é muito importante, como tem sido para a maioria dos seres humanos durante toda a história. Nada condicionou tanto a cultura, a ciência, as guerras, o direito, a economia etc como a religião.

Como assim, você diz que as evidências para a hipótese extraterrestre, defendidas pelos estudiosos, são justamente o que a invalida? Veja, nenhum astrônomo sério nega que possa existir vida em outros planetas, pois é claro que existe. Mas o problema aqui é outro, é de natureza astronáutica, não exobiológica. Talvez seja possível superar a velocidade da luz e cruzar as imensas distâncias interestelares, mas isso não se pode conseguir com um veículo metálico como aquele que teria caído em Roswell, por exemplo, ou com um que tenha vazamento radioativo, que use motor a combustão — a julgar pela vegetação chamuscada nas aterrissagens —, ou que apareça nos radares terrestres. Aliás, esta questão da detecção por radares é a mais emblemática, pois nós, atrasados humanos, já temos tecnologia Stealth há quase 50 anos, ou seja, já temos aeronaves que não são detectadas há meio século. Então, como podem ser detectados avançados discos voadores?! Não creio que estejamos exercendo o que chamo de “filosofia da Ufologia”, que nos obriga a desaprender tudo o que sabemos sobre o Fenômeno UFO para vê-lo a partir de um ponto de vista radicalmente diferente. Para uma discussão mais apurada sobre isso, sugiro o artigo A Hipótese Extraterrestre, Uma Reflexão Lógica [Disponível no endereço: www.clavesiete.com]

Em suas aventuras e expedições pelo mundo afora, pôde ver algo que comprova a interação do ser humano com extraterrestres no passado, como sustentam vários autores? Em meu livro El Secreto de Los Dioses [O Segredo dos Deuses, Martínez Roca, 2005], descrevo minhas investigações de campo no Egito, África, Peru, Mongólia, Índia e Haiti, entre outros países. Nestas viagens, tive a sorte de poder investigar desde as pirâmides e a esfinge de Gizé, no Egito, aos sítios arqueológicos de Machu Picchu e Nazca, no Peru, e de Palenque, no México. Estive em templos erguidos em homenagem às vimanas, os discos voadores dos hindus, e em cidades perdidas de várias civilizações — e não superficialmente, mas convivendo com xamãs, com médicos tribais, herdeiros das tradições. Pude conhecer os extraordinários conhecimentos científicos e tecnológicos de nossos antigos, que tinham duas coisas que o homem moderno perdeu: tempo para observar a natureza e o poder da fé.

E o que isso o influenciou em sua busca por respostas? O que você descobriu? Isso me levou a elaborar minha “teoria aerostática”, que sugere que enigmas arqueológicos, como as rodas que descobri na Mongólia, as linhas de Nazca peruanas ou os vimanas hindus, são indícios razoáveis de que os antigos ancestrais terrestres podiam voar muito antes de que o padre Bartolomeu inventasse seu primeiro balão. Mas isso não aponta necessariamente para extraterrestres, e sim para quem chamo de “terrestres extras”, gênios como Leonardo da Vinci, o egípcio Imhotep ou Heron de Alexandria, que realmente pareciam inteligências fora de seu tempo. E olhe que ainda existem pessoas assim entre nós.

Para você, então, não servem de evidência da origem extraterrestre do Fenômeno UFO nada do que ufólogos do mundo inteiro consideram como tal? Exato. Passo a vida dizendo que nos sobra casuística e nos faltam pensadores, os tais filósofos da Ufologia, pessoas que retirem conclusões sobre o que já documentamos. Sei que assim agindo eu acabo por me colocar em oposição a todos meus colegas ufólogos, mas peço aos leitores que esqueçam seus preconceitos por um segundo e simplesmente utilizem seu bom senso quanto aos fatos que nos são apresentados. Se fizerem isso, como eu fiz, se darão conta de que tudo aquilo que ufólogos do mundo inteiro consideram como prova da origem extraterrestre dos UFOs é justamente o contrário. O problema é básico: é bem provável que existam milhares de mundos habitados no universo, mas as distâncias interestelares são tão grandes que se necessitaria de uma tecnologia um milhão de vezes mais sofisticada do que a nossa para vencê-las, e sem nenhuma relação com nossos sistemas de propulsão atual.

crédito: Rafael Amorim
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O entrevistado acredita que casos envolvendo UFOs e pilotos civis e militares são os de maior importância para a Ufologia

Mas e o que dizer de evidências tão marcantes da ação de discos voadores em nossos céus, fotografados e filmados à exaustão? E as observações de UFOs feitas à curta distância? Bem, vamos analisar tais provas de contatos com UFOs. Eu mesmo recolhi amostras em locais de supostas aterrissagens de UFOs, onde encontrei aumento de radioatividade, vegetação atingida, marcas de trem de pouso etc, mas há coisas que não se encaixam nestes cenários. Por exemplo, uma nave que disponha de uma forma de tecnologia que parece mágica funcionaria com trens de pouso hidráulicos, alavancas e escadas, como relatados por testemunhas? Isso é um absurdo! Tão absurdo quanto supor que seus tripulantes desconheçam a anestesia, como também nos descrevem os traumatizados abduzidos, que alegadamente passam maus momentos em suas mãos. Ou, pior ainda, supor que avançados seres extraterrestres provenientes de mundos super desenvolvidos necessitem de amostras de vegetais terrestres, como se fossem meros exploradores científicos. Enfim, estas são incoerências tecnológicas tão absurdas como imaginar a Apollo 11 chegando à Lua com um motor a vela e Neil Armstrong descendo do módulo lunar num carro puxado por cavalos. Portanto, minha conclusão é de que os UFOs, se são naves, não são extraterrestres. Pois, se forem extraterrestres, teriam que ser muito mais do que naves.

Suas conclusões nos fazem pensar na existência de outras formas de vida avançada interagindo conosco, como possíveis intraterrestres, responsáveis por uma tecnologia que se poderia confundir com ET. Você chegou a encontrar indícios da existência de intraterrestres? Em uma ocasião, Zahi Hawass, o responsável pelas pesquisas arqueológicas das pirâmides de Gizé, me confessou que somente se descobriu, até agora, uns 30% do passado arqueológico do Egito, e que 70% dele ainda estão debaixo das areias do deserto. Imagina? É como tentar montar um quebra-cabeças tendo só um terço das peças! E creio que esta porcentagem é similar, ou menor, no resto do mundo. Com isso quero dizer que ainda temos muito para documentar arqueologicamente a respeito de nosso passado. O que temos em abundância são lendas — recolhi em minhas viagens uma infinidade de indícios, relatos e testemunhos de que outras humanidades teriam convivido conosco ou ainda habitariam nosso planeta. Mas isso tudo não tem comprovação. Está cada vez mais demonstrado que alguns Homens de Neanderthal co-existiram com os Homo sapiens, e eles estão em diferentes estágios evolutivos. Seguramente, se alguém nos descrevesse os pequenos Homo floresiensis antes de seu descobrimento arqueológico, pensaríamos que são os lendários hobbits ou membros de alguma civilização intraterrestre. Porque, de fato, muitas culturas primitivas viveram ou vivem em grutas profundas debaixo da superfície terrestre.

Então, para você, a existência de intraterrestres é uma hipótese sem sustentação? Exato. Acredito que tais alegadas civilizações têm sua origem em mitos baseados em fatos reais. O jornalista e escritor Andreas Faber-Kaiser — na minha opinião o investigador mais audaz desses assuntos que já existiu na Espanha, infelizmente falecido em 1994 — adentrou na Selva Amazônica, sozinho, para ter contato com uma dessas supostas civilizações, e assegurava ter conseguido. Eu acredito nele.

Mas, além da Selva Amazônica, segundo Faber-Kaiser, onde estariam vivendo essas civilizações? Nas profundezas de oceanos, em mundos subterrâneos? Há muitas opções possíveis para a localização de tais civilizações. Nosso maravilhoso planeta, por sorte, ainda guarda muitos segredos. Vejo isso na condição, também, de apaixonado por exploração submarina e depois de ter participado de expedições na Mongólia e Mauritânia, onde se constata a riqueza deste mundo. Apesar de o Google Earth e outros sistemas cartográficos aparentemente nos permitirem explorar todos os rincões da Terra a partir da tela de um computador, não é verdade que este seja um planeta inteiramente conhecido. Restam ainda muitos recantos ocultos nas selvas da América Latina, nas cavernas subterrâneas da Ásia e nas profundezas marinhas. Ora, se Osama Bin Laden tem conseguido se esconder de todos os serviços secretos do mundo por anos a fio, uma civilização teoricamente mais inteligente do que a nossa também poderia encontrar muitos lugares para se manter longe de olhos indiscretos.

Falando francamente sobre os extraterrestres, o que você esperaria de uma eventual visita deles à Terra? Coerência. Antes de grandes efeitos especiais, luzes coloridas ou de pasto chamuscado, esperaria coerência. O contato com uma inteligência não humana seria o maior acontecimento da história e o início de uma aventura extraordinária que nos obrigaria a repensar tudo o que cremos a respeito de nós mesmos e de nosso passado. Teríamos que reescrever nossas leis, nossas religiões, nossos preceitos físicos, econômicos e científicos. Portanto, somente espero que quando isso ocorrer — e creio que ocorrerá um dia — os visitantes sejam coerentes e não uma arcaica paródia do que cremos que deveriam ser os seres extraterrestres. E isso nos levaria a uma discussão mais profunda e complexa.

Tendo em consideração a improbabilidade, em sua opinião, de que ETs estejam vindo até a Terra, qual seria a melhor maneira de contatar essas civilizações? Você acredita que o Projeto SETI [O programa de busca por vida extraterrestre inteligente] seja o método mais efetivo? Sua pergunta me fez lembrar de uma viagem que fiz ao Malaui, no centro da África, há muitos anos, na qual os nativos me explicaram que durante gerações eles se consideravam os únicos habitantes do mundo porque, quando tocavam com toda a força os seus tambores no meio da selva, não escutavam ninguém respondendo ao seu chamado. Isso me faz pensar no SETI. É possível que simplesmente ninguém escute nossos “tambores”, ou seja, nossos radiotelescópios, ou que os escutem, mas não saibam interpretá-los. Ou ainda, pior, que os escutem e simplesmente não queiram responder! Mas ainda assim acho que é necessário continuarmos tentando, porque enquanto exploramos o cosmos, buscando outras formas de vida, estamos aprendendo muitíssimo sobre o universo e sobre nossa própria origem.

Há pouco tempo, o físico e matemático inglês Stephen Hawking fez afirmações polêmicas, entre as quais a de que um possível encontro de uma civilização extraterrestre com a espécie humana seria como uma entre Colombo e os indígenas da América Central, em 1492. Você está de acordo? Pensa que isso seria algo devastador para a humanidade? Santo Agostinho dizia que o bem é necessariamente inteligente e o mal, necessariamente estúpido. Porque se você faz o bem e as pessoas que o rodeiam se tornam felizes com isso, esse bem-estar também resultará em seu benefício, enquanto que se você fizer o mal e causar a infelicidade das pessoas que o rodeiam, cedo ou tarde você também será afetado por esta maldade. Por isso, sempre pensei que, se uma civilização extraterrestre conseguiu sobreviver à sua própria evolução tecnológica, pelo menos o suficiente para conseguir algo tão complicado quanto uma viagem interestrelar, ela necessariamente teria que ter evoluído ética e moralmente em paralelo. Do contrário, como exemplifica o maltrato que causamos ao nosso planeta na medida em que aumenta nosso estágio de evolução tecnológica, uma civilização avançada acabaria por se autodestruir antes de conseguir esse salto gigantesco, que terá que ser algo que supere a velocidade da luz.

Então, Stephen Hawking está mesmo certo? Bem, Hawking tem conhecimento astronáutico muito superior ao meu, e por isso suas declarações me preocuparam. É evidente que o contato com uma civilização extraterrestre colapsaria nossa cultura, obrigando-nos a reescrever todos os nossos livros de história, física, direito, sociologia, religião etc. Mas, ainda como diz Hawking, se somarmos o fato de que a intenção dos ETs em tal contato é negativa, então obviamente o resultado seria catastrófico para a humanidade.

Retornando aos seus conceitos de pesquisa ufológica, como você vê as correntes da Ufologia atual que adotam uma postura esotérica ou espiritualista? Você considera válida uma análise holística do assunto, ou somente a vertente científica está certa? Eu creio que há dois caminhos para se buscar a verdade ou o conhecimento, chame-o como quiser: o caminho do coração e o da razão. No primeiro caso, não é tão importante saber qual é a verdade, mas sim como você a sente e a percebe. Há muitos casos de contatados, médiuns e místicos que vivem uma vida espiritual feliz e plena, e sabemos que suas experiências têm explicação científica. O que importa se mostrarmos algo vermelho a um daltônico e lhe dissermos que é verde? Poderíamos submetê-lo a um detector de mentiras, à narcohipnose ou a outros métodos, e tudo demonstraria que ele não está mentindo. Aquela é a sua verdade. Eu, no fundo, invejo quem tem esta verdade, porque durante muitos anos, quando estudava teologia, sentia que tinha todas as respostas. Lamentavelmente, ao começar a perscrutar os mistérios e a conhecer outras religiões e culturas, me dei conta de que Deus tem que ser algo muito maior do que qualquer religião o descreve. Por isso prefiro o caminho da razão, das provas, da ciência, que é o segundo a que me referi. Uma experiência espiritual é pessoal e intrasferível, mas as evidências e provas empíricas podem ser compartilhadas.

De todos os casos ufológicos que você investigou pessoalmente e descobriu serem fraudes, qual mais o decepcionou? Minha maldição é que imensa maioria dos casos que investiguei a fundo resultaram ser explicáveis em termos ordinários. E chegar à essa conclusão logicamente nos afeta mais quando a investigação se prolonga durante anos e você, sem querer, se envolve emocionalmente com as testemunhas. Não é agradável descobrir que uma pessoa mentiu para você durante tanto tempo, ou que falsificou fotos, vídeos, documentos etc para enganar outros ufólogos. Nesse sentido, me decepcionaram de forma mais marcante o auto alegado contatado peruano Sixto Paz [Veja edição UFO Especial 021], os integrantes do chamado Comando Ashtar e Ismael Rodriguez, protagonista do Caso Daro — que, se não tivéssemos conseguido desmascarar a tempo, teria se convertido em um novo Eduard “Billy” Meier.

Você se referiu à falta de pensadores ufológicos, que definiu como “filósofos da Ufologia”, ou seja, que levem à reflexão para além da crença geral. Mas como fazer isso em um mundo em que a internet colabora para a dispersão de rumores e o aumento da atitude do “eu quero acreditar”?
É fácil. Basta colocar a internet no seu devido lugar em nossas vidas, onde estão o rádio, a televisão e a imprensa escrita, veículos que com freqüência também são utilizados por todos os tipos de interesse para gerarem opiniões formatadas — ainda que no caso da internet a desinformação seja disseminada muito mais rapidamente e de forma bem mais extensa. De fato, a rede mundial é o meio preferido dos publicitários para difundirem campanhas de marketing viral, que é o pior inimigo dos investigadores depois da falta de pensadores. De forma geral, acho que a maior parte das informações sobre Ufologia que circulam na internet é falsa. Portanto, é inviável fazer a filosofia da Ufologia que propus se você basear suas reflexões somente no que lê na rede mundial. Mas acredito que a maioria dos investigadores tem suficiente experiência de investigação de campo, reunindo testemunhos e processando informações, para que não tenhamos que nos basear no que nos chega pela internet.

Vamos falar um pouco de Ufologia Espanhola. De todas as ocorrências ufológicas registradas em seu país, e são tantas, qual é a que você considera mais interessante e por quê?
Veja, eu sou da opinião de que a Ufologia é um dos campos de estudo mais enriquecedores para o homem atual, porque nos obriga a nos informarmos sobre várias outras áreas, tais como a astronomia, física, antropologia, sociologia etc. Portanto, dependendo do ângulo pelo qual você vê o Fenômeno UFO, há muitos casos extraordinários a serem considerados. Do ponto de vista da física e da aeronáutica, por exemplo, a maioria dos acontecimentos protagonizados por profissionais de aviação são interessantíssimos, sobretudo os de detecção por radar vividos por pilotos de combate. Se tivesse que escolher um, seria o caso dos capitães Luis Carvalho Olivares e Juan Saéz-Benito [Veja edição UFO 164]. A aeronave Sabre de Olivares tentou inutilmente identificar um “ovo metálico com janelas”, como ele descreveu o UFO que sobrevoou uma base militar de Zaragoza enquanto aparecia em duas telas de radares militares. E Saéz-Benito protagonizou um extraordinário incidente em 04 de novembro de 1970. Ele continuou sua carreira como piloto no Exército espanhol e Olivares é hoje piloto da Air Europa.

E do ponto de vista de sua especialidade profissional, a criminologia, qual caso ufológico você considera o mais sério? Se tivesse que destacar um incidente do ponto de vista criminológico, mencionaria o ocorrido em 27 janeiro de 1976 na província sevilhana de Benacazón, onde, em uma noite, o agricultor Miguel Fernandez foi abordado por um objeto esférico e luminoso flutuando no ar enquanto caminhava para casa. Tinha cerca de dois metros de diâmetro e começou a atormentá-lo. O homem correu para a cidade, horrorizado. Algum tempo depois e em circunstâncias idênticas, apareceu outro objeto que emitiu um zumbido que o deixou paralisado, incapaz de se mover. Fernandez viu meio corpo fora do aparelho, um ser semelhante a um homem normal com vestes de mergulhador. A criatura lançou uma substância no ar que queimou mais de 40% da pele do agricultor, que foi encontrado mais tarde, semiconsciente, e levado para o Hospital San Lazaro, em Sevilha, onde foi atendido pelo médico de emergência, doutor Monsalve Cano. É um caso muito interessante. E se eu tivesse que destacar um caso ufológico sob perspectiva sociológica, sem dúvida seria o Caso Ummo [Veja box na página 22].

crédito: Nature e El Ojo Crítico
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O egípcio Hawass [E], responsável pelas pesquisas arqueológicas das pirâmides, e o jornalista espanhol Faber-Kaiser

O que há de tão especial sobre o Caso Benacazón, tão pouco conhecido dos brasileiros? Bem, apesar de muitos ufólogos acreditarem que se trate de uma fraude, do ponto de vista criminológico — que é o que me interessa — este é um caso único. Quando Fernandez deu entrada no setor de urgências do hospital, tinha feridas muito graves e garantia ter sido agredido por um UFO. Na Espanha, por lei, todas as internações por agressão devem ser notificadas à polícia, e assim foi feito. Por essa razão, pela primeira vez um juiz ordenou diligências sobre um caso em que havia alegada agressão extraterrestre. O inquérito, no entanto, foi fechado e arquivado, e com o passar dos anos se perdeu entre milhões de documentos nos porões dos tribunais de Sevilha. Não posso dar detalhes de como os consegui e publiquei, mas lhe asseguro que foi muito difícil recuperar tais papéis entre tantos outros. Este foi o único episódio de diligências judiciais conduzidas na Europa por um ataque por discos voadores, e o esforço valeu à pena.

O Caso Ummo, que você citou há pouco, também é bastante interessante. Mas como é possível que uma história como esta, tão fantástica, seja tão pobre em provas e tenha alcançado tamanha penetração? Para compreendermos esta extraordinária ocorrência, devemos contextualizar sua origem: onde, quando e sob quais circunstâncias nasceu o Caso Ummo. Era a Espanha da época da ditadura, em plena efervescência do movimento contatista, quando um grupo de pessoas predispostas a aceitarem como verdade absoluta estarem recebendo mensagens extraterrestres se reuniu em torno do assunto. As mensagens não tinham muito a ver com as supostamente recebidas por George Adamski, nos Estados Unidos, ou por Eugenio Siragusa, na Itália, entre outras que estavam sendo propagadas na época. Depois de investigar o tema durante muitos anos, estou convencido de que se tratou de uma fraude idealizada pelo psicólogo chamado José Luis Jordán Peña, com um motivo absolutamente infame, que posteriormente foi usado por outras pessoas e agências de inteligência: manipular pessoas. É muito difícil resumir meio século de fraudes. O Caso Ummo, para sintetizar, foi um monstro que escapou ao controle de seu criador. Um autêntico Frankenstein da Ufologia e uma história triste e cruel.

Você acredita que agências de inteligência estiveram envolvidas no Caso Ummo, como se alega, ainda que não o tenham originado? Não é relevante o que eu acredito ou não acredito, porque não podemos compartilhar crenças, mas provas. E eu provei em meu livro Los Expedientes Secretos [Os Documentos Secretos, Editorial Planeta, 2001] que houve envolvimento dos serviços secretos espanhóis em muitos casos de experiências paranormais, como ocorre em todos os países do mundo. Porque o paranormal apresenta possibilidades extraordinárias para as chamadas “operações psicológicas”, atividades geralmente secretas conduzidas por militares. No Caso Ummo, consegui testemunhos de personagens fundamentais confirmando a espionagem dos serviços secretos espanhóis, como o coronel Juan Alberto Perote, uma espécie de James Bond em meu país. Ele foi o chefe de operações do Centro Superior de Informação de Defesa (CESID) até sua expulsão do serviço secreto por levar documentos para fora da instituição. E em um deles, que reproduzo em meu livro, aparece o nome de Jose Luis Jordán Peña como um dos especialistas consultados pelo CESID quando o órgão buscava colaboradores para um caso concreto de seqüestro pelo grupo terrorista e separatista ETA. Mas a história é muito mais complexa e difícil de resumir num espaço tão curto como uma entrevista.

Como você vê o atual cenário da Ufologia na Espanha e o que podemos esperar da nova geração de ufólogos que está surgindo? Na Espanha tivemos uma geração de audazes pioneiros, como Oscar Rey Brea, Antonio Ribera e Manuel Osuna, que abriram o caminho partindo do zero. Depois chegaram personagens como J. J. Benítez [Veja edição UFO 047], Fernando Jimenez del Oso e Vicente-Juan Ballester Olmos [Consultor da Revista UFO], entre outros, a quem minha geração tanto deve. Depois deles viemos nós, a minha geração de ufólogos, que a princípio era apenas um grupo de jovens começando suas atividades lá pelos anos 80 e 90. Por sorte, já contávamos tanto com a experiência de nossos predecessores quanto de seus arquivos ufológicos, e talvez por isso atuamos em uma linha um pouco mais crítica ou desconfiada dos fatos do que nossos pioneiros. Agora há uma geração ainda mais nova, que tem acesso a muito mais informação do que todas as anteriores. Hoje existe mais bibliografia, mais casuística, mais arquivos — e há também a internet, que nenhuma geração anterior teve. Em tese, isso deveria nos dar mais ferramentas para o trabalho, mas o problema é que também temos bem mais desinformação. E temo que muitos jovens investigadores limitem sua percepção do fenômeno ao que encontram no Google, o que é perigoso. Porém, esta não é uma característica da Ufologia Espanhola, e sim um problema universal.

Em seu excelente artigo Perigo no Ar, da edição UFO 164, você apresentou casos de pilotos militares e civis. Foi muito complicado romper a barreira de silêncio que isola esses profissionais dos demais cidadãos, para produzir o texto?
Sim. Na Espanha — e suponho que em outros países também —, os pilotos são uma categoria profissional muito elitista e pouco acessível. E no caso de pilotos militares de caças, ainda mais difícil. Assim, foi muito complicado conseguir casos inéditos para publicar. Visitei muitos aeroportos, bases aéreas e aeroclubes. Inclusive, sempre que viajo, aproveito o vôo para pedir a uma comissária de bordo para entregar meu cartão ao piloto, para ver se me permite visitar a cabine e falar com ele por alguns minutos. Lamentavelmente, desde o 11 de Setembro, tornou-se impossível fazer isso.

Sobre a abertura dos arquivos ufológicos iniciada pioneiramente na Espanha, ainda nos anos 90, o que de mais significativo se descobriu? Você acredita que o seu governo esconde mais do que já admitiu até agora? Se você tivesse me perguntado isso há uns dois anos, teria respondido que a abertura ufológica espanhola era apenas uma manipulação, pois meu governo, claro, sabe muito mais do que admite, como todos os outros. Mas faz dois anos que venho recebendo um volume de relatos, documentos e informações ainda não liberadas que me obrigou a mudar de opinião. Este material é proveniente de uma fonte muito próxima ao organismo que conduziu a abertura na Espanha. Assim, continuo convencido de que todas as forças armadas do mundo, pelo mero fato de conhecerem a origem de muitos desses UFOs — e inclusive de serem responsáveis por alguns deles —, devem ocultar da opinião pública muitas informações graves sobre os fatos, com vistas a protegerem informações sobre a cobertura de seus radares e testes balísticos, seus novos aeróstatos híbridos e aeronaves não tripuladas, seus métodos de espionagem eletrônica etc. A história dos UFOs, por razões óbvias, evoluiu paralelamente à história da espionagem.

O que mais podemos esperar do governo espanhol quanto à abertura oficial de arquivos? Há alguma coisa programada para curto prazo? Muitíssimo. Nunca se publicou todos os detalhes deste processo e nem o que foi liberado ou ainda está para ser. Em meu blog El Ojo Critico há anos venho publicando informes e documentos do Exército do Ar [Semelhante à Aeronáutica brasileira] que ainda não foram liberados e que consegui através de vazamentos a partir de uma fonte privilegiada. Eles vão desde partes dos arquivos liberados que haviam sido “perdidas” pelas autoridades e nunca vieram a público, até dossiês sobre os ufólogos espanhóis. Há também um conjunto de documentos — e esse é um assunto delicioso de se tratar, que ninguém nunca abordou antes — redigidos por um grupo de militares espanhóis lotados no Comando de Operações Aéreas (MOA), justamente o órgão onde se processou e se desenvolveu a abertura ufológica, que não estavam de acordo com as explicações oficiais que se tentou dar aos casos divulgados. Aprendi mais sobre a dimensão militar do Fenômeno UFO na Espanha nos últimos dois anos do que em toda minha vida, graças a esta fonte.

Você entrevistou o comandante Juan Ignácio Lorenzo Torres, conhecido na casuística ufológica espanhola por ter protagonizado um caso sensacional. Por favor, fale-nos desta ocorrência.
Sim, costumamos dizer que Lorenzo Torres “falou” com um UFO. O fato ocorreu em 04 de novembro de 1968. Ele voava de Londres para Alicante quando um objeto não identificado se posicionou a 10 m da cabine de seu avião. Disse que tinha a forma de balão com outros dois balões laterais, e uma espécie de ‘veias’ pelas quais corria um ‘líquido’. Parecia algo vivo. Torres e seu co-piloto tiveram medo e o primeiro agarrou o rádio e tentou se comunicar em inglês e em espanhol com as torres de controle, sem sucesso. Torres improvisou um código acendendo e apagando as luzes da cabine e o UFO respondeu. Ele acaba de escrever um livro sobre sua experiência, ainda não publicado.

É possível perceber, nos documentos liberados oficialmente ou recebidos por você, algum indício de cooperação entre as forças armadas espanholas e as de outros países? Não sei. A informação privilegiada que estou publicando em El Ojo Critico está limitada à Espanha, ainda que eu também tenha recebido algum material relacionado a Portugal, França e ao norte da África, por fazerem fronteira com a Espanha. Além do que, os protocolos da abertura ufológica em meu país têm sido usados como modelo para outros países que também estão liberando arquivos secretos. Portanto, é possível que haja cooperação entre as nossas forças armadas e as de outros países.

Você acredita que os militares espanhóis tenham em sua posse alguma forma de tecnologia de origem extraterrestre? Não creio. Já investiguei vários casos de supostas quedas de UFOs na Espanha, mas na maioria das vezes somente obtive depoimentos de testemunhas descrevendo objetos de origem desconhecida que caíam do céu e a presença posterior da polícia ou de militares que recolhiam e levavam os destroços. Em dois casos consegui evidências físicas, sendo que, em um deles, a Universidade de Santiago de Compostela elaborou um volumoso informe técnico a respeito, partindo da teoria de que se tratava de um corpo estrelar. Noutro caso, um fascinante episódio ocorrido em Coronil, uma testemunha conseguiu tirar dez fotos do objeto e dos militares de uma base militar norte-americana, que recuperaram rapidamente os destroços, e as entregou a um partido de oposição — que, inclusive, fez um pedido formal à Câmara dos Deputados para averiguação dos fatos. Eu as reproduzo em meu livro. Graças a elas pudemos demonstrar que o governo mentia quando assegurava que em Coronil nada ocorreu de estranho. Não era um disco voador, mas um avião espião norte-americano, o que, logicamente, poderia ter criado um conflito diplomático muito sério. Quando se mente sobre algo assim, imagine o que ocorreria no caso de uma nave alienígena...

Você está presentemente trabalhando em algo especial, novos artigos e livros? Veja, ainda que participe de eventos e tenha publicado alguns livros, eu não sou jornalista e nem me considero um divulgador. Sou apenas um investigador, sobretudo para saciar minha própria necessidade de conhecimento. Assim, a publicação de artigos e livros não é prioridade para mim, mesmo que há 16 anos eu esteja à frente de uma humilde publicação sobre o mundo dos mistérios, a El Ojo Crítico. Presentemente também colaboro com certa freqüência com o programa A Rosa dos Ventos, dirigido por meu querido amigo Bruno Cardeñosa. Mas tenho a intenção de publicar um novo livro no final deste ano.

crédito: Cinematech
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Para o entrevistado, as abduções alienígenas são pouco prováveis e a pesquisa ufológica deve se basear em outras informações

Sobre o que será seu novo livro? Ufologia? Não, será sobre anjos, essas figuras míticas que estão presentes em todas as religiões e que me apaixonam. E ainda que o Cristianismo, o Hinduísmo, o Islã e o Judaísmo os apresentem com matizes diferentes, no fundo são personagens muito recorrentes e similares em todas as tradições religiosas, inclusive na atualidade. Recolhi testemunhos realmente surpreendentes na África, Ásia e nas Américas sobre eles, e tive minhas próprias experiências com o que chamamos de anjos da guarda. Isso me estimulou a escrever a obra. Também estou trabalhando em várias investigações criminológicas, das quais trato habitualmente no meu blog El Archivo del Crimen [Endereço: http://manuelcarballal.blogspot.com], ainda que sejam mais relacionadas com o mundo do crime do que com o do mistério, como assassinos seriais, criminalidade ritual etc.

O que você conhece da Ufologia Brasileira? Há algum caso específico que lhe interesse mais? Estive no Brasil somente de passagem, e meus contatos no país estão relacionados a religiões afrobrasileiras, como o Candomblé e a Umbanda, além do espiritismo. Mas sempre me interessei muitíssimo pela casuística ufológica brasileira, porque muitos dos casos clássicos, tanto antigos como modernos, se produziram no Brasil, desde Antonio Villas Boas [Veja edição UFO 133] até Varginha [Veja edição UFO Especial 034]. Também me interesso muito por casos de implicação militar, como as perseguições durante a Noite Oficial dos UFOs no Brasil, ocorrida em 1986.

Como você vê o movimento UFOs: Liberdade de Informação Já, liderado pela Comissão Brasileira de Ufólogos (CBU)?
Com muito interesse! Veja que na Espanha a abertura ufológica por parte do Exército do Ar ocorreu a partir de 1992, e ainda hoje, em 2010, estamos recebendo documentos não liberados de fontes secretas. Assim, imagino que em um país com maior tradição ufológica, como o Brasil, serão necessários muitos anos para que toda a verdade seja conhecida, sobretudo porque em muitos relatos sobre UFOs há dados militares estratégicos — tais como a situação e a capacidade de radares, detalhes dos sistemas de vigilância aérea, da capacidade operacional de interceptação de defesa etc — que logicamente as forças armadas querem manter em segredo. Por tudo isso, militares e investigadores civis devem fazer um exercício de boa vontade e compreender que, quando encontramos parágrafos mutilados de um arquivo liberado, ou mesmo dados falsificados e páginas extraviadas, pode haver muitas razões para os governos não desejarem que a opinião pública conheça todos os seus segredos.

Você acha que um movimento semelhante à campanha UFOs: Liberdade de Informação Já, conduzido por civis, possa nascer na Espanha? Na Espanha, a comunidade ufológica está muito dividida para conseguir algo assim. Em nosso caso, a pressão sobre os militares, para que abram seus arquivos, ocorreram individualmente ou através da política — em três ocasiões foram apresentadas moções oficiais no parlamento espanhol para que se encerre o segredo sobre os UFOs. Creio que temos que amadurecer muito para conseguirmos juntar esforços em uma iniciativa como a brasileira.

Como já vamos finalizando, quer deixar alguma mensagem aos leitores da Revista UFO? O escritor Noam Chomsky fala em um de seus livros da armadilha dialética da “contenção do debate”, ou seja, a estratégia para controlar a opinião pública levantando uma discussão baseada em duas únicas opiniões, que no fundo estão controladas por um mesmo interesse oculto. Por exemplo, enquanto centralizamos a discussão entre se é melhor um refrigerante ou outro, as mesmas multinacionais norte-americanas que os produzem controlam o mercado dessas bebidas, e assim nos esquecemos de que existem outras opções de bebidas feitas em outros países. Com os UFOs acontece algo parecido: enquanto o debate se limita a questionar se são ou não extraterrestres, nos esquecemos que existem muitas outras coisas interessantes e enriquecedoras que podemos aprender estudando o fenômeno, não importando sua natureza. Tais como novos acontecimentos atmosféricos e físicos, campanhas de publicidade viral que tentam nos manipular, protótipos de novas aeronaves militares, experiências psicossociais etc.

Interessante... Investigar os UFOs nos obriga a saber astronomia, meteorologia, história, sociologia, psicologia etc. Faz com que viajemos para entrevistar testemunhas, conhecer países distantes e diferentes tradições. Não conheço nenhuma forma mais maravilhosa de expandir nossos conhecimentos sobre ciência, cultura e religião do que a Ufologia. Por isso, recomendo a todos os leitores da Revista UFO que não deixem de buscar suas respostas. Talvez nunca saibamos realmente o que se oculta por trás desse mistério, mas aprenderemos muitas coisas enquanto tentamos!

O que pode nos contar do caso que envolveu uma nave-mãe sobre o Aeroporto de Madri, ocorrido com o comandante José Antonio Silva em 10 de março de 1979? Este é outro caso impressionante. Silva, já falecido, foi comandante da Ibéria e acumulou mais de 14 mil horas de vôo, sendo um dos pilotos mais famosos da Espanha. Seu encontro com um UFO aconteceu em um dia de excepcional visibilidade. Ele vinha de Bilbao e, ao fazer a aproximação para pouso em Madri, a uns 1.500 m, escutou a torre de controle perguntar a outro piloto se via um objeto não identificado que aparecia no radar. Ele confirmou. Silva disse também que o UFO o acompanhou até quase a chegada ao aeroporto. Depois, o controlador explicou que o objeto voltou seguindo uma rota conhecida e que três objetos menores saíram dele. O conjunto subiu ao norte a umas 10 vezes a velocidade do som. Incrível!

Muito obrigado por sua atenção e pela interessante entrevista, que nos permitiu dar ao público brasileiro uma chance de conhecer um pouco mais do cenário ufológico espanhol. Obrigado à Revista UFO por seguir buscando a verdade, seja qual for, ainda que talvez o mais perigoso sobre buscá-la seja o fato de que podemos acabar encontrando-a. E pode ser que não nos agrade o que viermos a descobrir.

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