ENTREVISTA

O fenômeno das abduções nos impõe uma grande mudança de paradigmas

Por Jeffrey Mishlove | Edição 271 | Agosto de 2019

As abduções alienígenas têm sido, desde que as descobrimos, no final dos anos 50, uma pedra no sapato dos ufólogos. Toda a conjuntura que cerca o fenômeno, suas características parte físicas parte psicológicas, a impossibilidade lógica de sua ocorrência, as nuances de sonho e o forte conteúdo subjetivo das experiências impuseram tal dificuldade à pesquisa que muitos estudiosos da Ufologia simplesmente negavam sua existência. Mas as abduções continuaram acontecendo.

Conforme a pesquisa ufológica começava a ganhar corpo e a acumular documentos e literatura de pesquisa, as abduções passaram a receber mais atenção de alguns estudiosos, mas ainda assim seguiam estigmatizadas e convenientemente ignoradas pela maioria. Em uma época em que a Ufologia ainda lutava para ser aceita pela ciência, alegações de que alienígenas estavam fazendo experiências com humanos não ajudavam em nada.

A questão é que, por mais fantásticas e improváveis que sejam, os sequestros por extraterrestres teimam em continuar acontecendo, embora atualmente em um ritmo muito mais lento. Mas o que são eles? As teorias variam tanto, e há tantos entendimentos diferentes, que é difícil se apontar uma direção nesse assunto — o que sabemos, com certeza, é que há um fenômeno em curso, que ele é conhecido como abdução alienígena e que faz parte do universo do Fenômeno UFO.

Psiquiatra, militar e ativista

Dentro do grupo de pessoas que se dedicam a estudar o fenômeno do rapto por seres de outras espécies cósmicas há alguns nomes de peso, cujas carreiras e formações profissionais são tão sólidas e bem-sucedidas que fizeram com que os críticos, céticos e negadores de plantão se perdessem em seus argumentos. Uma dessas pessoas era o autor, professor e diretor do Departamento de Psiquiatria da Universidade de Harvard, doutor John Edward Mack, nosso entrevistado dessa edição.

Mack se tornou um dos grandes nomes da pesquisa com abduzidos, com um trabalho extenso sobre o assunto e vários livros publicados sobre suas descobertas e teorias — antes de começar a trabalhar com “experienciadores”, como chamamos os abduzidos e contatados, Mack já havia ganhado um prêmio Pulitzer por seu livro A Prince of Our Disorder [Um Príncipe de Nossa Desordem. Little Brown Company, 1976] e tinha uma sólida e conceituada carreira em Harvard. Ao todo, o psiquiatra escreveu 11 livros e mais de 150 artigos científicos em sua carreira.

Em 1959 nosso entrevistado se alistou na Força Aérea Norte-Americana (USAF), onde serviu em um departamento médico no Japão, e chegou à patente de capitão. Quando retornou aos Estados Unidos, no início dos anos 60, voltou aos estudos e se especializou no tratamento psiquiátrico de crianças e adolescentes, campo em que se tornou referência. No início dos anos 70 tornou-se professor titular de Harvard, de onde nunca mais saiu — Mack estudava como a percepção do mundo afetava os relacionamentos humanos.

Na década de 80, John Mack entrevistou muitas figuras políticas internacionais como parte de sua pesquisa sobre as causas profundas da Guerra Fria, incluindo o ex-presidente dos Estados Unidos, Jimmy Carter, e o “pai” da bomba de hidrogênio, Edward Teller. Em meados da década, Mack juntou-se a outros cientistas, entre eles Carl Sagan, em movimentos civis pelo fim das armas atômicas. Em 1986, ele e mais outros 700 cientistas fizeram uma marcha na Área de Testes Atômicos de Nevada, em prol da destruição do arsenal nuclear norte-americano.

Mas foi no começo da década de 90 que a vida do psiquiatra realmente deu uma virada. Por intermédio de uma amiga psicóloga, Mack conheceu um artista plástico de Nova York chamado Budd Hopkins, que à época fazia um trabalho amador com pessoas que se diziam abduzidas. Apesar de acreditar que Hopkins fosse alguém que não devia ser levado a sério e que possivelmente sofresse de algum distúrbio mental, ele concordou em encontrar-se com o artista diante da insistência de sua colega, que afirmava que tudo era muito sério e que ninguém ali era louco. A partir de então, Mack nunca mais deixou a pesquisa sobre abdução.

Abdução e consciência

Hopkins mostrou a ele os casos que havia pesquisado e mais cerca de 200 outros cujos relatos ainda não havia tido tempo para estudar — era muita gente falando a mesma coisa, em locais diferentes, com condições de vida, instrução e religião diferentes. Mack se sentiu curioso e decidiu entrevistar algumas daquelas pessoas, certo de que sofriam de alguma sorte de doença mental, mas não encontrou qualquer sinal de que aquelas testemunhas não fossem mentalmente sãs. E ele começou a investigar o fenômeno.

Seguindo os conselhos de seu amigo de longa data, o historiador da ciência Thomas Kuhn — que após adverti-lo sobre o assunto, o aconselhou a coletar os dados brutos, ignorar análise materialista comparativa e a tomar cuidado com a categorização de seu pensamento —, Mack iniciou seu estudo e começou a receber relatos de todos os tipos, desde aqueles que apontavam os sequestros como traumáticos, violentos e dolorosos até aqueles que mostravam todo o processo de abdução como um gatilho para a evolução espiritual.

Embora tenha confessado que fora fisgado pelo fenômeno e que não via como seria possível se separar as abduções dos UFOs, ele nunca foi categórico em afirmar que havia alienígenas abduzindo pessoas — o que ele afirmava com veemência é que o fenômeno é real e que existe tanto em um plano subjetivo, psíquico, quanto no plano material concreto de nossa realidade. Por outro lado, John Mack afirmava que, segundo todas as testemunhas que entrevistou, elas haviam sido levadas por extraterrestres.

“Eu não posso afirmar categoricamente que sim ou que não, mas posso afirmar que é nisso que as pessoas que passaram por esse fenômeno acreditam”, disse ele em uma entrevista à rede britânica BBC. O psiquiatra também ressaltou em outra entrevista o caráter global das abduções: “Não importa se foi na Argentina ou no Havaí, todos os relatos se parecem. E não há como alegar contaminação cultural quando você está falando sobre pessoas que muitas vezes sequer tinham um aparelho de TV”.

O estudo com abduzidos também fez com que nosso entrevistado se dedicasse a assuntos como física quântica e a pesquisar cada vez mais linhas de estudo ligadas à consciência e em suas ações em nosso mundo físico. Isso porque ele acreditava que talvez ao estudarmos esse aspecto de nosso ser, conseguiríamos, talvez, entender do que tratavam, afinal, as abduções. Mas toda essa dedicação ao assunto também lhe rendeu problemas.

Harvard contra-ataca

Quando a diretoria de Harvard soube que um de seus professores de psiquiatria — que também era um dos chefes do departamento da área —, estava dando entrevistas para a TV dizendo que tratava pessoas que haviam sido abduzidas por alienígenas e levadas para naves espaciais, o alerta vermelho foi ligado na universidade. Em segredo, um dos decanos da Escola de Medicina de Harvard, Daniel Tosteson, criou um comitê secreto para investigar os procedimentos psiquiátricos de Mack — foi a primeira vez na história da universidade que algo do tipo acontecia.

Quando a notícia chegou à mídia, surgiram manchetes no mundo inteiro ridicularizando John Mack e seus amigos, colegas e até sua esposa chegaram a pensar que ele havia enlouquecido. Durante 14 meses o psiquiatra enfrentou a caça às bruxas que foi deflagrada contra ele e nunca tentou voltar atrás ou se retratar do que havia dito ou escrito. Ele se manteve firme, apoiando os abduzidos que haviam confiado nele.

Por fim, com o auxílio de advogados famosos que atuaram a favor do médico, a universidade foi forçada a reconhecer que todo o trabalho de nosso entrevistado era legítimo e feito com todo o cuidado científico e emitiu uma conclusão dizendo que John Mack tinha liberdade acadêmica para estudar o que quisesse e que ele continuava sendo um sólido e respeitado membro de Harvard.

É importante ressaltar que, meses antes dessa conclusão ser emitida, o relatório preliminar do comitê sugeria que “comunicar de qualquer maneira a uma pessoa que relatou um encontro próximo com uma forma de vida extraterrestre que essa experiência poderia ter sido real é profissionalmente irresponsável”. Harvard teve que aceitar Mack, mas não gostou nem um pouco de fazê-lo.

Seja como for, o cientista continuou seu trabalho até 2004 e seus livros se transformaram em bestsellers em todo o mundo. Entre eles, os mais famosos são Abduction: Human Encounters With Aliens [Abdução: Encontros de Humanos com Alienígenas. Maxwell MacMillan, 1994] e Passport to the Cosmos: Human Transformation and Aliens Encounters [Passaporte para o Cosmos: Transformação Humana e Encontros com Alienígenas. Three Rivers, 1999].

John Edward Mack, um homem brilhante que acreditava que as abduções eram um fator evolutivo, uma maneira de a humanidade abrir a mente para coisas maiores e de a ciência expandir seus conhecimentos, morreu em 2004, em Londres, após ser atropelado por um motorista bêbado. Vamos à entrevista.

Tradicionalmente, na psiquiatria, quando um paciente chega até um profissional da área e alega que foi abduzido por alienígenas, o primeiro pensamento é que aquela pessoa provavelmente sofre de alguma psicose. O que o senhor tem a dizer sobre isso? Sim, essa foi a minha reação inicial quando eu ouvi sobre esse tipo de caso. Uma amiga psicóloga me perguntou se eu gostaria de me encontrar com Budd Hopkins. Isso aconteceu antes de 1989. E eu perguntei a ela quem era Budd Hopkins, porque eu nunca havia ouvido falar nele e isso mostra o quão pouco eu sabia sobre esse assunto. Ela então me explicou que se tratava de um artista de Nova York que apoiava pessoas que alegavam ter sido levadas por alienígenas para dentro de naves espaciais.

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