ENTREVISTA

Nem a sociedade, nem os cientistas estão preparados para um contato com ETs

Por Thiago Luiz Ticchetti | Edição 206 | Dezembro de 2013

O entrevistado deste mês é um dos prolíficos escritores sobre fenômenos insólitos do mundo, e não apenas sobre discos voadores. Ufólogo conhecidíssimo e referência em seu país, os Estados Unidos, Jerome Clark já foi editor da revista Fate e vice-presidente do J. Allen Hynek Center for UFO Studies (CUFOS), um dos mais científicos do planeta, de cujo conselho diretor ainda faz parte. Clark passou por uma cirurgia complicada no início de 2013 para tratar um câncer que já vinha se manifestando há alguns anos, mas já está em plena recuperação e na ativa. Mesmo durante sua convalescença não deixou de responder às nossas perguntas, transformando esta entrevista em uma aula de metodologia científica com suas opiniões firmes e sinceras.

Escritor obstinado

No final dos anos 90, Jerome Clark escreveu um marco da Ufologia Mundial, The UFO Encyclopedia: The Phenomenon from the Beginning [A Enciclopédia UFO: O Fenômeno Desde o Começo, Omnigraphics, 1998], em dois tomos que totalizam quase 1.500 páginas. Trata-se de um compêndio poderoso que traz absolutamente tudo o que há na Ufologia. “Tinha planos, junto com a minha editora, de fazer mais um volume, dando ênfase a casos famosos em outros países, mas pouco relatados nos Estados Unidos”, diz. Infelizmente o projeto não saiu do papel, mas Clark é um crítico da falta de informação ufológica fora dos Estados Unidos e Europa. E faz seu mea-culpa com relação à Ufologia Brasileira: “A Ufologia do seu país é conhecida internacionalmente. Eu sei de vários casos que foram pesquisados pelo casal Jim e Coral Lorenzen com a ajuda do ufólogo Olavo Fontes. Eles disseminaram a Ufologia Brasileira mundialmente. Mas hoje confesso que não tenho tido muito tempo para ler as notícias do seu país — até mesmo por estar afastado há algum tempo dos congressos”.

Além do sucesso da The UFO Encyclopedia, Clark foi autor de outras obras importantes na área, tais como Extraordinary Encounters: An Encyclopedia of Extraterrestrials and Otherworldly Beings [Clio, 2000], The UFO Book: Encyclopedia of the Extraterrestrial [Visible Ink Press, 1997], Strange Skies: Pilot Encounters with UFOs [Citadel Books, 2003], além de títulos sobre fenômenos anômalos, como Unexplained: Strange Sightings, Incredible Occurrences and Puzzling Physical Phenomena [Visible Ink Press, 2003], Cryptozoology A to Z: The Encyclopedia of Loch Monsters, Sasquatch, Chupacabras [ Simon and Schuster, 1999], estes ultimos tratando de monstros, chupacabras, pé-grandes e outras aberrações que foram parte de seu interesse pelo insólito em geral.

crédito: Luca Oleastri
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O entrevistado descarta os episódios de contatismo, mas afirma reconhecer a necessidade de estudar as abduções mais a fundo

Jerry Clark estudou história e ciência política na South Dakota State University e Minnesota State University, porém seu interesse por Ufologia surgiu muito antes disso, quando tinha apenas 11 anos, ao ler o livro pioneiro Report on Unidentified Flying Objects [Relatório sobre objetos voadores não identificados, relançado em 2011 pela Create Space], de Edward J. Ruppelt, que influenciou grande número de ufólogos de sua mesma geração. Clark logo cedo se mostrou avesso aos casos de polêmicos contatados, tais como Billy Meier e George Adamski. “Se eu tivesse lido algum livro deles antes do Ruppelt teria desistido da Ufologia naquele momento”. Em suas respostas nesta entrevista ele disse que acha as histórias desses personagens fantasiosas e também muito chatas, cheias de influências new age — além de serem baseadas direta ou indiretamente em teosofia, com zero de objetividade.

Por outro lado, já casos de abduções alienígenas, que também foram abordados neste trabalho, tem outro tratamento pelo entrevistado. Clark mostrou que leva este assunto muito a sério mesmo que não creia em todos os episódios narrados na literatura ufológica. Para ele, os relatos dos abduzidos são de uma complexidade tão grande que fica difícil negá-los, mas faz um alerta: “Já pesquisei casos em que um abduzido tornou-se um contatado, e isso em minha opinião pode acontecer quando a pessoa perde todos aqueles holofotes que lhe dirigem quando ainda são abduzidos”. Ele está se referindo à conhecida Síndrome do Contatado, quando uma pessoa que passou por uma experiência de abdução perde a atenção temporária que recebe da comunidade ufológica e a glória que ganha da mídia, precisando criar um algo mais para voltar à cena. Acompanhe agora esta impressionante entrevista com um dos mais bem informados ufólogos da atualidade.

Pesquisa não é estudo

Quando você começou a pesquisar a fenomenologia ufológica?
“Pesquisa” é uma palavra muito ampla, pois eu considero um pesquisador aquele sujeito que vai atrás dos fatos, que faz uma investigação de campo e consegue provar que determinado fato não tem explicação. Eu diria que sou mais um estudioso do assunto, e comecei quando eu tinha 11 anos de idade, ao ler, meio que por acidente, o livro Report on Unidentified Flying Objects, de Edward J. Ruppelt, o livro mais influente dos ufólogos norte-americanos da minha geração. Isso foi em 1957. Antes disso eu nunca tinha parado para pensar sobre discos voadores. Mas o livro de Ruppelt me conquistou, o que me levou a outros autores, como Charles Fort e Donald Keyhoe. Se a minha iniciação na Ufologia tivesse sido com os livros de George Adamski, tenho certeza de que jamais leria algo relacionado a esta área novamente. Mesmo na minha adolescência eu não teria acreditado em alguém que dizia conversar com venusianos e voar em suas naves — e mais tarde aprendi que contatados também são chatos, enquanto autores sérios, como Ruppelt, Fort e Keyhoe não.


Então está claro que você não acredita nos relatos de George Adamski e de outros contatados semelhantes.
Não é que eu não creia em suas mensagens e, no caso de contatados que alegam ter tido encontros físicos com ETs, como Adamski, na sua sinceridade. É que há muitos elementos que não se encaixam em seus relatos. Os contatados que alegam ter tido conversas telepáticas com ETs, por exemplo, tendem a uma posição demasiadamente positiva quanto a eles, mas as evidências físicas de que estes casos ocorreram são inexistentes. Há, em minha opinião, muitas ambiguidades neste cenário, que é algo muito complexo.

crédito: FOTOS ARQUIVO UFO
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O ex-boina verde John Alexander: ele contribuiu para o avanço da Ufologia

O que seriam essas ambiguidades e complexidades que você menciona?
São as mesmas complexidades e ambiguidades inerentes a qualquer estudo de anomalias em geral. Muitos fenômenos estranhos parecem puramente fantasia, mas isso não significa que algo anômalo não esteja ocorrendo, algo que falta em nosso vocabulário ou arcabouço de conceitos. Significa que um fenômeno não é real no entendimento ordinário, mas parece ser se empregarmos outra ótica. Eu chamo esses fatos de anomalias experimentais, que seriam diferentes de outros eventos atípicos. No contexto ufológico, uma pessoa pode ter uma vívida experiência com um alegado irmão espacial angelical, mas essa experiência é muito limitada. Ela não entra na categoria de evento objetivo, onde evidências empíricas podem ser demonstradas, como registros em radares ou evidências físicas deixadas pelo ser ou sua nave.

O que as pessoas normalmente relatam quando se referem ao Fenômeno UFO?
As pessoas relatam geralmente coisas que se parecem com bolas luminosas, por exemplo, o que na verdade não são. Um avistamento de bolas luminosas é um evento anômalo, enquanto o relato de uma bola de luz é uma anomalia experimental, que não pode ser explicada pela física ou meteorologia.

Histórias baseadas na teosofia

Para você, quais são as diferenças entre contatados e abduzidos?
Os contatados contam histórias chatas — frequentemente baseadas direta ou indiretamente em teosofia — sobre seres angelicais provenientes do espaço. Em sua maioria, têm um histórico no ocultismo, com um interesse antigo pelas doutrinas esotéricas, como George Adamski tinha. Já os abduzidos têm o mesmo perfil de outros tipos de testemunhas de UFOs, ou seja, são pessoas normais que tiveram uma experiência fantástica e abrupta. As histórias que relatam são estranhíssimas e realmente alienígenas em todos os sentidos. Estou longe de crer que algumas abduções sejam mesmo parte do fenômeno ufológico, mesmo em casos de contato imediato de graus elevados, mas não tem como negar que os relatos das testemunhas são exóticos. Leia um livro de Adamski e depois o de um abduzido e veja as gritantes diferenças entre eles.

ocorre porque seus 15 minutos de fama se acabam e eles querem mais publicidade, e assim começam a fantasiar sobre o que originalmente lhes aconteceu?

Sim, isso pode acontecer. Eu mesmo observei esse processo em um caso que investiguei no início dos anos 80. Os estágios iniciais de uma abdução original estavam todos presentes e até havia outras testemunhas do fato, como membros da família que viram o UFO pousar próximo ao quarto do abduzido antes de sua esposa cair em sono profundo repentinamente. Mas algo se passou após aquela experiência e o abduzido começou a dizer que estava recebendo mensagens psíquicas de um alienígena benevolente que prometera aterrissagens em massa de seu povo, levando-o a profetizar eventos que nunca ocorreram. Esta é a Síndrome do Contatado, quando a pessoa, depois de virar celebridade no mundo ufológico por causa de sua abdução, volta à vida normal. Ela passa a querer perpetuar a glória vivida e tende a aumentar seu relato original, geralmente com detalhes ainda mais fantásticos.

Se a minha iniciação na Ufologia tivesse sido com os livros de Adamski, tenho certeza de que jamais leria algo relacionado a esta área novamente. Mesmo na adolescência eu não teria acreditado em alguém que dizia conversar com venusianos.

Conte-nos mais sobre esse caso.
A principal testemunha, que morreu há alguns anos, vivia em uma pequena cidade ao norte de Chicago, nos Estados Unidos. Ele e sua família viram um UFO pousar em um terreno que ficava do outro lado da rua, em frente a casa deles. Os outros membros da família, embora fascinados por aquela visão, de repente foram para a cama, por razões que eles mesmos desconhecem. Já Keith, o abduzido, teve uma experiência de perda da sensação de tempo [Missing time] e sob hipnose relatou todos os passos de uma abdução padrão. Entretanto, tempos depois, segundo ele, vozes em sua mente começaram a lhe dizer que ele fora escolhido para ser o profeta de um suposto povo de Landa para preparar a raça humana para uma aterrissagem em massa — Landa seria o nome do planeta dos abdutores. Quando uma profecia não se concretizava, ele contava outra, e mais uma etc, assim por diante.

As respostas não vêm fácil

No caso de Keith estar falando a verdade, por que os alienígenas enviariam suas mensagens através de pessoas se podem usar outros meios mais eficazes?
Bem, eu acho que temos que ser bem céticos com relação a essas supostas mensagens provenientes de seres espaciais, venham como vierem. Algumas, obviamente, são pura ficção e outras — como as dos profetas — são subjetivas e psicológicas em sua origem. Mesmo em casos aparentemente reais, como alguns encontros frente a frente com ETs, certamente as respostas finais sobre a natureza do Fenômeno UFO não nos serão dadas facilmente.

E sobre o mais famoso amigo espacial da humanidade, Ashtar Sheran? Muitas pessoas em todo mundo afirmam ter sido visitadas por ele. Todas o descrevem do mesmo jeito, o que, para alguns, é a prova de que ele existe. O que você pensa a respeito?
Isso torna real o suposto Ashtar Sheran para eles, mas não há razão para que seja real para o resto de nós. Ashtar é a criação de uma imaginação religiosa visionária. Ele é descrito da mesma forma porque a imagem de como ele se parece é amplamente divulgada entre os adeptos do movimento new age.

crédito: UFO PHOTO ARCHIVES
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Para Jerome Clark, casos como o de Eduard Meier e suas belas fotos de naves alienígenas sobre campos suíços não se sustentam

Assim como Adamski, temos outro famoso contatado, o suíço Eduard Billy Meier. Podemos acreditar que ele teve mesmo contato com seres extraterrestres?
Eu nunca encontrei qualquer evidência que corroborasse essa afirmação. E, aliás, Meier é página virada na história da Ufologia Mundial. Não sou nenhuma autoridade no seu caso, mas eu o acho desinteressante demais para sequer ser levado em consideração. Entre os dois, ainda prefiro Adamski, mas surpreende-me que estejam no mesmo contexto, pois estão apartados por décadas de diferença.

Em sua opinião, por que os cientistas ainda não levam a Ufologia a sério?

Esse assunto por si só daria um livro inteiro. Em alguns casos isso ocorre devido a uma crença própria dos cientistas. Poucos deles conhecem o Fenômeno UFO, mas, entre os que conhecem, o assunto é tratado de maneira muito séria. Décadas atrás, um dos mais influentes astrônomos do mundo, o doutor Donald Menzel, criticava ferozmente quem acreditava que os UFOs pudessem ser algo além de farsa ou da simples má interpretação de algo natural — sendo um nome reconhecido e tendo uma personalidade agressiva, ele disciplinou jovens cientistas que se quisessem ter uma carreira de sucesso a não se meterem com o assunto. Consequentemente, estes passaram a afirmar que não investigavam relatos de UFOs simplesmente porque não havia o que ser investigado. Ou seja, estavam apenas dando uma desculpa para não entrarem no problema, seguindo as ameaças de Menzel.

Mas há como se sobrepor à tal pressão?
Sim, porque a verdade sempre vem à tona. No futuro, sociólogos, historiadores e filósofos da ciência serão forçados a considerar que seus dogmas do século XX estavam errados. Os exobiólogos já estão hoje em dia procurando por evidências de vida fora de Terra em atividades cotidianas. Estamos dando passos largos para encontrarmos outras formas de vida e confirmarmos em definitivo que os discos voadores existem. É questão de tempo.

Acho apenas rumores infundados que qualquer governo mantenha contatos secretos com ETs. Tudo o que existe sobre isso é pura ficção, como a história do suposto encontro entre o presidente Dwight Eisenhower e alienígenas em uma base aérea.

Quer dizer que no futuro olharemos para trás e diremos aos cientistas: nós tínhamos a prova, mas não acreditamos nela?
Mais ou menos isso. Ou talvez, de forma mais técnica, lhe diremos: nós tínhamos todas as evidências de que precisávamos para que vocês pudessem realizar uma investigação séria e profunda, que nos daria respostas verdadeiras, mas não o fizeram.

Hoje, nossos cientistas estariam preparados para um contato com outras espécies cósmicas? E a sociedade estaria?

Bem, se fosse apenas por meio de um sinal de rádio, sim, os cientistas estariam preparados. Mas sendo de qualquer outra forma, como o pouso de uma espaçonave no meio de uma praça, não. A sociedade tampouco está preparada. A aceitação de presença alienígena na Terra como um conceito abstrato é uma coisa, já um contato real com UFOs e ETs é totalmente outra história. A humanidade não está pronta para isso.


Eisenhower não encontrou ETs

Você acredita que algum governo tenha contato com seres extraterrestres?
Não, não creio. Acho apenas rumores infundados que qualquer governo do mundo mantenha contatos secretos com extraterrestres. Tudo o que existe sobre isso é pura ficção, como a história daquele suposto encontro entre o presidente norte-americano Dwight Eisenhower e alienígenas em uma base aérea, em 1954. Esta é outra lenda ufológica.

O que dizer então do senhor Henry W. McElroy, vereador aposentado do estado de New Hampshire, que afirmou que o próprio presidente Eisenhower lhe contou sobre a presença alienígena na Terra?
Nunca ouvi falar desse indivíduo. E se ele realmente foi vereador em New Hampshire, não teria conhecimento do assunto e nem teria como ir para Washington e ser recebido pelo presidente para falar com sobre isso. Trata-se apenas de mais uma lenda ufológica.

Nos dê mais exemplos do que você considera lendas ufológicas.
Essas lendas em particular vêm do início da controvérsia sobre os UFOs. Desde o começo há boatos que sugerem que presidentes norte-americanos e altos oficiais do governo dos Estados Unidos se reuniram secretamente com alienígenas. Provavelmente, histórias como essa são inevitáveis no meio, já que o folclore cresce quando há falta de evidências — e em Ufologia faltam muitas evidências que calariam tais rumores. Eu suponho que a inspiração para esses boatos vem da convicção de que alguém em algum lugar deva saber de alguma coisa bem contundente sobre os UFOs, e a história assim vai crescendo. Os maiores conspiradores a criar estas lendas que conheço são John Lear e Milton William Cooper.

crédito: Nasa
\"Abandonaremos
Abandonaremos os métodos tradicionais e viajaremos ao espaço em modernas espaçonaves, tal como os seres extraterrestres fazem hoje

De fato, a entrevista que Milton Willian Cooper deu à edição número 10 da Revista UFO, da década de 90, foi estarrecedora — foi a edição que mais vendeu em toda a história da publicação. Suas afirmações beiravam o absurdo, mas chamaram a atenção de muitas pessoas.
Não se enganem. Cooper era um charlatão e provavelmente um doente mental. Ele simplesmente reciclou histórinhas populistas que já existiam na área para criar aquele cenário todo. Algo parecido podemos dizer de Bob Lazar. Não sei se o que ele fala é verdade — não posso ler a mente dele, mas suas histórias em nada contribuem para a Ufologia.

Mudando um pouco de assunto, recentemente, no Fórum Mundial Econômico de Davos, houve um debate sobre quais principais riscos a humanidade correria nos próximos 10 anos, e um dos que foi aludido se referia à ideia de vivermos entre seres alienígenas no futuro. Você crê que isso possa acontecer na próxima década ou ainda mais para frente?
Bem, se entendermos que os UFOs são veículos pilotados por visitantes alienígenas, então já temos essa convivência há muito tempo. Mas, para responder aos questionamentos de Davos, eu listaria o aquecimento global, o colapso econômico e a superpopulação como assuntos mais urgentes para a humanidade.

Você concorda que pelo simples fato desse assunto ter sido levado em consideração no Fórum de Davos já é um avanço?
Eu duvido que isso vá servir de alguma coisa prática para nós. Se estamos sendo visitados por alienígenas, a decisão é deles, dos visitantes, não é? O que falamos e fazemos, achamos e acreditamos não vai influenciar no que eles fazem ou deixam de fazer. Resumindo, haja o que houver, a decisão final é deles, destes visitantes.

Talvez os ETs sintam curiosidade científica pela Terra. Talvez eles tenham conseguido tecnologia para realizar viagens interestelares e venham aqui e a outros planetas como parte de seu interesse pelo que há no universo. Mais do que isso seria especulação.

A literatura ufológica mostra que são vários os tipos de alienígenas relatados visitando a Terra há décadas. O que pensa disso?
Sim, nós somos visitados por inúmeras espécies. Podemos assumir com certeza que a galáxia é densamente povoada por incontáveis civilizações inteligentes, como muitos astrônomos hoje acreditam.

Para que a nossa raça exista, necessitamos de água, oxigênio e outros elementos essenciais, mas seria possível que outras espécies se desenvolvessem em outros tipos de ambientes?
Não posso afirmar nem que sim, nem que não. Temos poucas informações sobre isso, e é claro que o que conhecemos hoje pode mudar em segundos quando descobrirmos outras espécies cósmicas. Assim é a ciência: o que hoje é uma lei universal, pode deixar de ser amanhã mesmo. Quando encontrarmos e passarmos a conviver com outros seres, saberemos como se desenvolveram. Provavelmente existam milhões de raças apenas em nossa galáxia — e isso não é apenas o meu ponto de vista, mas a visão de muitos astrobiólogos que não são muito simpáticos à ideia de que somos visitados por alienígenas.

ETs com curiosidade científica

E quais seriam suas intenções conosco? Somos ratos de laboratório?
Quem sabe? Ninguém sabe! Mas que existe alguma razão para eles virem aqui e nos observarem tão atentamente, isso está comprovado. Talvez seja puramente por uma curiosidade científica. Talvez eles tenham conseguido tecnologia para realizar viagens interestelares e venham aqui e a outros planetas como parte de seu interesse científico pelo que há no universo. Mais do que isso eu estaria especulando.

Outro fato relacionado às supostas intenções dos alienígenas seria que eles estariam criando seres híbridos, isto é, uma mistura genética entre humanos e extraterrestres. Você crê nisso?
Muitos abduzidos falam de seres híbridos como resultado de experimentos entre a nossa e a espécie deles. Mas a menos que consigamos estabelecer que as abduções estejam realmente ocorrendo para esse fim, algo que até hoje não comprovamos, esses relatos são apenas isso, relatos. Tais histórias talvez sejam análogas àquelas de antigamente entre seres humanos e fadas. É algo curioso, estranho, mas impossível de se documentar empiricamente.

Você escreveu vários livros sobre Ufologia e outros fenômenos, em alguns casos assuntos que se inter-relacionam. Mas você se considera um escritor de Ufologia ou de fenômenos estranhos?

Há muito tempo eu me considero mais um anomalista do que um ufólogo. Após despender muitos anos na década de 90 escrevendo os meus dois volumes da The UFO Encyclopedia, senti que havia feito o máximo que podia dentro dos meus conhecimentos ufológicos. Meu interesse básico, além da Ufologia, é a história, e esses livros me deram a chance de aplicar a história em um contexto ufológico.

crédito: FOTOS ARQUIVO UFO
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O norte-americano Milton Cooper seria o maior criadore de teorias conspiracionistas nos meios ufológicos

Sua enciclopédia ufológica é o melhor compêndio sobre o assunto que já li. Entretanto, nela há falta de casos brasileiros, assim como em muitos livros estrangeiros. Por quê? O Brasil é um dos países com maior incidência ufológica em todo o mundo.
Eu e minha editora chegamos a concordar com a publicação de um terceiro volume da enciclopédia, com foco total em casos internacionais. Infelizmente, no entanto, a ideia não foi para frente. Concordo com você que as publicações estrangeiras dão pouco espaço para os casos brasileiros, mas também sinto falta de informações vindas do seu país — quase nunca temos uma publicação do Brasil, escrita em inglês, para que possamos acompanhar o que ocorre aí.

Um dos casos brasileiros mais famosos no exterior é, sem dúvida, o que envolve as fotos de um UFO na Ilha de Trindade, feitas por Almiro Baraúna, em 1957. Há algum tempo o caso foi novamente notícia ao surgirem pessoas afirmando que tudo não passou de uma fraude, o que foi categoricamente reprovado pela Comunidade Ufológica Brasileira. Mas você, vendo de fora, o que acha do caso?
Eu o considero um caso muito bom. Como você mesmo disse, os céticos têm tentado provar que é uma farsa há muito tempo, mas suas afirmações são sempre sem fundamento e muito exageradas. Em minha opinião, depois de tantos anos, essas fotos ainda têm publicidade e até hoje ninguém envolvido diretamente com o caso veio a público negar sua veracidade de forma consistente — até hoje ninguém conseguiu provar que as fotos são falsas. E nunca conseguirão, pois são verdadeiras.

Eu comparo as fotos da Ilha da Trindade com as de Rex Heflin, de 1965, devido ao constante ataque que ambas sofrem céticos e debunkers, que tentam inutilmente provar que são falsas. Quais as considerações que você pode nos oferecer sobre o Caso Rex Heflin?
Existe muito ceticismo com relação às fotos de Rex Heflin. Eu investiguei o caso, mas não cheguei a nenhuma conclusão. Se a legitimidade das fotos está mantida até hoje, é bem capaz de permanecer assim, a não ser que alguém surja e conte outra história sobre elas. Caso contrário, permanecem como válidas.


Pesquisa com entusiasmo

Você considera alguma foto de UFO genuína sem sombra de dúvidas?
Eu acredito firmemente nas fotos de McMinnville, no Oregon, de 1950. As fotografias, obtidas por Paul Trent, também têm sobrevivido ao ataque dos céticos há décadas. São provavelmente as fotos de UFOs mais investigadas de todos os tempos. Pelo menos a cada dois anos alguém surge com “provas” de que as fotos de Trent são falsas, mas, depois que a poeira baixa, a veracidade das imagens permanece intacta.

As fotos de Paul Trent foram analisadas de todas as formas, principalmente em investigações de campo — um meio de pesquisa imprescindível. E por falar nisso, hoje uma reclamação constante de muitos ufólogos é a de que a internet está acabando com a investigação de campo. Você concorda com isso?
Fiz parte do J. Allen Hynek Center for UFO Studies (CUFOS) como diretor geral e posso dizer que há muitas razões para o declínio da investigação de campo. Em minha opinião, a internet é apenas uma consequência disso, embora muitos não aceitem esta resposta. As primeiras décadas de investigação de campo na Ufologia eram cheias de entusiasmo e de esperança que o mistério seria solucionado se você coletasse boas evidências e analisasse seu significado. Mas, como sabemos hoje, o problema imposto pelo Fenômeno UFO é bem mais complicado — não se pode simplesmente resolver algo tão complexo com recursos tão escassos como os dos ufólogos civis. Ciência é coisa cara e você não pode fazê-la de forma barata, sem conhecimento relevante de várias disciplinas e sem o acesso a laboratórios e equipamentos sofisticados. E pior: não podemos nem divulgar pesquisas ufológicas em revistas científicas, pois elas não estão abertas a isso.

Os mais intrigantes relatos de UFOs descrevem objetos que têm estruturas tecnológicas e se movimentam como se fossem guiados por alguma inteligência, além de terem sistemas de propulsão e gravidade desconhecidos.

Como exemplo, haverá novamente um interesse em massa da sociedade pelo tema?
Pode ser uma boa saída para o retorno do interesse. Porque mesmo pessoas anteriormente simpáticas à ideia de que estamos sendo visitados por UFOs já perderam parte desse interesse. Isso é fato. Os UFOs fazem as mesmas coisas sempre e não mudam seu modo de agir — são avistamentos, sobrevoos, pousos e alguns contatos aqui e ali, mas nada mais. Seria necessário algo novo e impossível de se ignorar para atrair novamente a atenção da população. Para os céticos, o fenômeno padece do mesmo problema. Em outras palavras, mesmo que o Fenômeno UFO seja real, ele afeta apenas a vida de alguns humanos, não de toda a sociedade.

Fotos mais nítidas

Eu acrescentaria mais um fato a esse desinteresse: as fotos de UFOs das décadas de 40, 50 e até 80 são muito mais nítidas e bonitas. Mas hoje temos muito mais tecnologia e ela deveria nos dar imagens mais perfeitas dessas naves. Você não acha?
Talvez sim, talvez não. O maior problema quando se observa um UFO ou alguma anomalia é que aquilo não é esperado e tem pouca duração. Mesmo que você tenha uma câmera em mãos, até você pegá-la, apontá-la e fazer a foto, o evento poderá ter terminado. Ou você pode ficar tão fascinado com o que está vendo que não vai querer perder nem um segundo de observação, e então se esquece de registrar o fato. E tome cuidado quando você fala de fotos antigas, pois muitas foram desmascaradas no decorrer dos anos — antigamente era ainda mais fácil falsificá-las,
pois era mais difícil elucidá-las.

Segundo estimativas, um UFO é visto a cada três segundos em alguma parte do mundo. Você acredita que há um aumento no número de avistamentos?

Quem sabe? Existem tantas variáveis envolvidas no Fenômeno UFO que é impossível responder a essa pergunta. Só o que podemos afirmar é que os avistamentos continuam da década de 40 até hoje. Se aumentaram, não temos como afirmar.

Você escreveu muito sobre a hipótese extraterrestre (HE) para a origem dos UFOs, algumas vezes inter-relacionando-a com ciência. Poderia nos falar sobre isso?
Na verdade, foi meu colega Michael Swords, cientista aposentado da Universidade de Western Michigan, que escreveu tão eloquentemente sobre essa hipótese. Ele argumenta, baseado em uma pesquisa científica, que os alienígenas — pelo menos aqueles que desenvolveram tecnologia para virem até aqui — se pareceriam e teriam modos de agir semelhantes aos nossos. É a partir daí que a HE e a ciência seriam compatíveis. Os mais intrigantes relatos de UFOs descrevem objetos que têm estruturas tecnológicas e se movimentam como se fossem guiados por alguma inteligência, além de terem sistemas de propulsão e gravidade desconhecidos da nossa ciência. Eu acredito que depois que se alcança um nível tecnológico muito avançado, a viagem pelo espaço não seja tão difícil assim. Como J. Allen Hynek gostava de dizer: “Existirá uma ciência no século XXI, outra no século XXII e outra ciência após isso. O que nós consideramos hoje como impossível poderá ser muito simples no futuro”. Talvez daqui a algumas décadas nossos descendentes irão viajar pelo espaço zombando dos cientistas de hoje, que acham impossível isso acontecer. Lembre-se de que há algumas décadas eles afirmavam que o corpo humano não sobreviveria a uma velocidade maior do que os 70 km/h...

crédito: Daniel Costa
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O entrevistado atribui mais importância aos relatos oferecidos por pilotos, que, por seu treinamento, tem maior credibilidade

Poderemos no futuro constatar que existem planetas com civilizações muito mais antigas do que a nossa e que poderiam ser os alienígenas que nos visitaram no passado?
Seria se tivéssemos evidências para comprovar isso, sim. Até onde sei, se alienígenas nos visitaram no passado, não deixaram nenhuma evidência disso — isso não significa que eles não estiveram aqui, mas que simplesmente não temos como provar isso.

Então você não crê, por exemplo, que as várias pinturas, esculturas e até obras de diferentes culturas ao redor do mundo, relatando a presença de seres do espaço no passado, sejam evidências válidas?
Não. Eu prefiro acreditar em especialistas científicos, como arqueólogos, antropólogos e historiadores, que devotaram suas carreiras para o estudo de antigas culturas, do que em amadores que tiram as mais extraordinárias conclusões para explicar essas coisas todas de que você fala.

O escritor Erich von Däniken é bem convincente nas suas afirmações...
Däniken, com quem me encontrei uma vez, é geralmente tachado de um ficcionista, não um cientista. Ele reclama por ser discriminado por arqueólogos e historiadores, mas não é pra menos. Sempre que me perguntam sobre suas pesquisas eu sugiro que leiam outros livros que discutam aquilo que ele fala nos seus. Na segunda edição da minha The UFO Encyclopedia, eu escrevi um longo texto chamado Antigos Astronautas na Literatura Ufológica, no qual tracei as várias especulações sobre as visitas de extraterrestres em todas as suas vertentes. Enquanto eu realizava a pesquisa para escrever sobre o texto, fiquei impressionado ao constatar o quão pouco havia sido feito nesta área. Antes mesmo de Däniken, tivemos outras personalidades na Ufologia tratando do assunto, como Desmond Leslie e George Hunt Williamson, que falavam sobre a teoria dos antigos astronautas. Qualquer tentativa de reinventar o passado colocando alienígenas nele e tornando-os peças chaves do Fenômeno UFO vai por terra abaixo por não termos evidências que corroborem esta extraordinária afirmação.

Isso nos leva mais uma vez à ciência. Em sua Enciclopédia você divide a hipótese extraterrestre (HE) entre ciência e Ufologia. Qual é a diferença?
Ufologia não é uma ciência, como já sabemos. Seria no máximo uma protociência, ou seja, uma ciência em criação. O objetivo de Swords era demonstrar que somente alguns poucos cientistas aceitam que os relatos de UFOs sejam evidência da presença alienígena na Terra. Noutras palavras, as evidências coletadas pelos ufólogos são menos consistentes com o entendimento geral de como a inteligência extraterrestre deve ter se desenvolvido e como deveria se parecer, segundo parâmetros científicos. Para complementar, a HE não é uma ideia pseudocientífica, mas uma respeitável interpretação científica das informações. Ela tem feito parte da história da Ufologia antes de ser chamada de HE, e tem a sua própria história.

Algo maior e mais complexo

Para os ufólogos provarem que estamos sendo visitados por alienígenas, devem mostrar evidências, certo? Sendo assim, uma vez que as apresentemos, a Ufologia irá desaparecer para se transformar em um estudo extraterrestre formal?
É claro, assumindo que o que hoje chamamos de Ufologia vire algo como pesquisa da visita de veículos de outros sistemas estelares. Acho esse argumento plausível, mas não estou bem certo de que seria o fim do mistério envolvendo os UFOs. Com tantos relatos estranhos, talvez estejamos lidando com algo muito maior e mais complexo, algo totalmente contrário aos eventos que temos hoje — precisamos repensar todos os nossos fundamentos.

Falando em evidências concretas do Fenômeno UFO, quais os tipos de casos que você considera os mais intrigantes?
Os melhores casos ufológicos são aqueles que se encaixam na categoria dos contatos imediatos de segundo grau, ou seja, avistamentos por grupos de pessoas, por militares ou registrados por radar, nos quais os UFOs interagem com o meio ambiente de alguma forma. Nenhum caso de abdução, por exemplo, poderá nos provar qualquer coisa, mesmo que seja absolutamente fantástico. O que não significa que não devam ser investigados, mas se vamos estudá-los cientificamente e de acordo com o que a sociedade pensa, precisamos de casos com os quais seja possível fazer ciência.

Os militares tem um compromisso com seus países e são doutrinados a obedecer a ordens. Se há uma determinação para que não falem sobre avistamentos ufológicos, eles vão obedecer. Mas tenha certeza de que têm que relatar o fato aos seus superiores.

Em sua opinião qual seria um caso aeronáutico com evidências incontestáveis?
Sem sombra de dúvidas, o caso de um avião militar RB-47 que foi seguido por um UFO. Não há nenhum melhor. O episódio envolveu simultaneamente a visualização e a detecção por radar de um UFO na manhã de 17 de julho de 1956 sobre três estados norte-americanos, Mississippi, Louisiana e Texas. Seis militares a bordo do RB-47 provido com um equipamento de inteligência eletrônica chamado ELINT detectou e perseguiu um alvo desconhecido por horas. O UFO também foi registrado pelos radares em terra e visto pelos pilotos da aeronave. Esse é um acontecimento muito complexo e que foi investigado pelo Comitê Condon — trata-se de um incidente que não se encaixa em nenhuma explicação até hoje.

Houve inclusive uma perseguição do avião ao objeto, certo?
Sim, os pilotos pediram permissão à torre de controle para mergulhar e interceptar o UFO, que estava abaixo deles. Quando estavam a 6.700 m de altitude, indo em direção ao objeto, este se apagou e desapareceu de todos os radares, os de bordo e em terra. A perseguição continuou quando o aparelho reapareApós mais alguns minutos em perseguição, o artefato desapareceu mais uma vez e eles tiveram que retomar seu plano de voo devido ao pouco combustível que tinham. Entretanto, um pouco mais à frente, os pilotos pegaram o sinal do objeto mais uma vez, só que agora tiveram também contato visual.O UFO foi para a parte traseira do avião, perto da cauda. Finalmente, quando se aproximaram de Oklahoma City, havia sumido. Os relatórios do caso indicaram que não era apenas um veículo, mas pelo menos quatro.

crédito: Schweizer ILLUSTRIERTE
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Bem antes de Erich von Däniken falar de sua teoria dos antigos astronautas, outros estudiosos já tratavam do assunto

Você escreveu o livro Strange Skies: Pilot Encounters with UFOs [Céus Estranhos: Encontro de Pilotos com UFOs, Citadel2003]. É consenso entre os ufólogos que os pilotos são as testemunhas de maior credibilidade entre todas. Você concorda com isso?
Certamente eles estão entre as melhores testemunhas do Fenômeno UFO, não tenha dúvidas. A qualidade de um avistamento depende também da habilidade do depoente em discernir corretamente o que está vendo, e os pilotos são os melhores nisso por sua familiaridade com fenômenos meteorológicos, atmosféricos e outros artefatos voadores.

Mas os pilotos geralmente não têm muita vontade de relatar o que veem...
Pilotos comerciais, não. Eles relatam seus avistamentos apenas de vez em quando, pois têm muito a perder, inclusive seus empregos, se o fizerem com estardalhaço. O pesquisador Richard Haines [Entrevistado da edição UFO 168, agora disponível na íntegra em ufo.com.br] é especializado em avistamentos de pilotos. Ele tem muitos dados relativos a isso.

O receio dos pilotos é real

Você disse pilotos comerciais têm receio de tratar de avistamentos, mas e os militares também têm receio?
Sim, muito mais que os pilotos comerciais. Os militares tem um compromisso com seus países e são doutrinados a obedecer a ordens — se há uma determinação para que não falem sobre avistamentos ufológicos em público, eles vão obedecer. Mas tenha certeza de que, quando veem algo, eles têm que relatar o fato aos seus superiores ou a algum departamento ou órgão de defesa aérea de seus países.

Posso imaginar como os pilotos militares lidavam com os foo fighters durante a Segunda Guerra Mundial, algo totalmente novo e desconhecido para eles naquele tempo.
E cada lado do conflito acreditava que os foo fighters fossem uma nova arma do inimigo. Imagine você combatendo aviões hostis e de repente surgem bolas luminosas ao lado da sua aeronave, algo que você nunca viu antes, e que não o ataca, como você imaginaria que fosse ocorrer. Veja bem, a Era Moderna dos Discos Voadores começou em 1947 e a Segunda Guerra Mundial durou de 1939 e 1945, antes, portanto de a Ufologia ter início. E desde então já havia registros abundantes de UFOs.

Existem rumores de que os militares nazistas, a pedido de Hitler, tinham planos de construir aeronaves iguais aos discos voadores — e até que eles os tenham derrubado e resgatado para este propósito. O que acha disso?

Isso é pura fantasia, mais uma teoria da conspiração. Eu, pelo menos, não acredito em teorias da conspiração, que estão para os assuntos de governos assim como a pornografia está para a sexualidade humana, isto é, elas sempre existirão. Lee Oswald agiu sozinho ao matar Kennedy e Obama nunca se encontrou com alienígenas. Temos que parar com os boatos que alegam coisas que não se provam.

Mas, por outro lado, teorias de conspiração podem ser usadas pelos governos para acobertar alguma coisa, correto?

Certamente que sim, mas não sei como isso se aplicaria à Ufologia — os governos simplesmente negam a questão ufológica, não se utilizam de teorias para fazê-lo.

crédito: The White House
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Não, Obama não teve nenhum encontro com algum alien e estes não estão infiltrados na Casa Branca...

Mas se as negativas não funcionam, as teorias podem ser usadas. Por exemplo, alguns ufólogos já afirmaram que o falecido coronel Philip Corso era um agente da desinformação governamental para tumultuar ainda mais o Caso Roswell.
Mas onde está o resultado desse efeito? Sem evidências, só o que nos resta são especulações. E serei ainda mais direto: isso é paranoia. A minha impressão sobre Philip Corso [Autor de Dossiê Roswell, Educare, 1998], a partir de pessoas que o conheceram pessoalmente, é que ele foi alguém que conseguiu criar uma fantasia e fazer com que acreditassem nela. A personalidade humana é muito complexa e pode fazer estas coisas.

Alguns anos após a morte de Corso, eis que surge o coronel John Alexander, que também já foi entrevistado pela Revista UFO [Edição 196, agora disponível na íntegra em ufo.com.br], e com ele mais uma esperança para os ufólogos de que alguém com acesso aos altos escalões do governo norte-americano pudesse finalmente abrir a caixa preta.
Eu penso muito sobre Alexander. Seu livro UFOs: Myths, Conspiracies, and Realities [UFOs: Mitos, Conspirações e Realidades, Martin Griffin, 2012] está entre os mais desafiadores e inteligentes que já li. Isso não significa que eu concorde com tudo o que ele escreve — e até discordo sobre muitas de suas afirmações relacionadas a vários casos. Mas alguns pontos da obra trazem contribuições preciosas para a discussão ufológica, como, por exemplo, o quanto o governo teria que gastar para manter até hoje o acobertamento do resgate de um UFO, como em Roswell. Seria uma fortuna. Vale à pena saber que o coronel John Alexander conheceu e gostava de Corso, mas não acreditava em suas histórias.

Mas para muita gente o coronel John Alexander está mais para cético do que para um ufólogo de verdade...
Não penso assim. Ele tem uma história riquíssima dentro do meio militar dos Estados Unidos. É um oficial condecorado e muito respeitado. Creio que ele queira realmente trazer à tona o que ainda existe a ser dito sobre o Fenômeno UFO, e por isso luta pela anistia aos militares que tiveram que jurar segredo sobre seus testemunhos. Na entrevista que Alexander deu à Revista UFO, em momento algum ele disse acreditar que os UFOs sejam aeronaves extraterrestres, mesmo concordando que não são construídos pelo homem. Isto deixou muita gente furiosa e descrente de sua real intenção. Mas eu penso o mesmo. Eu acredito que exista vida fora da Terra, mas até o momento não tive uma evidência concreta comprovando cientificamente que os UFOs seriam realmente espaçonaves extraterrestres — essa é a prova cabal que todos nós procuramos.

Chupacabras e pés-grandes

Além de escrever sobre UFOs e alienígenas, sua outra paixão é a criptozoologia, o estudo de espécies animais lendárias, mitológicas, hipotéticas ou avistadas por poucas pessoas. Seus livros relatam centenas desses casos e criaturas. Fale-nos um pouco disso.
Sim, gosto muito desse assunto e acho que já escrevi tudo o que podia e sabia sobre os UFOs. Mas o fenômeno ufológico e os eventos anômalos estudados pela criptozoologia convergem em algum ponto. Nesta ciência, o que existe é um fato real, mesmo em pouquíssimos casos — o que creio serem animais não ainda conhecidos pela ciência —, e eventos que já existam dentro da mente das pessoas.

Dentre todas as estranhas criaturas da criptozoologia, qual seria a mais intrigante? Ela poderia ser real?
Depende de como você define a criptozoologia. Eu duvido que algo como o homem mariposa [Mothman] seja um animal perdido, termo usado pelos criptozoologistas. Eu faço uma distinção entre os relatos de criaturas cuja explicação biológica seja plausível daqueles que não têm explicação. O homem mariposa é um exemplo clássico do tipo de criatura que fica no limiar entre o folclore e a experiência — ninguém jamais vai capturar um ser desses e colocá-lo no zoológico. Em outras palavras, é algo que você pode encontrar à sua frente algum dia, como tantos já encontraram, mas que não poderá provar ser real, já que não existe concretamente.

Então o chupacabras poderia estar nesse mesmo entendimento que você faz?
Sim, por que não? Mostre-me o corpo de um chupacabras e veremos...

Sabemos que os humanos, quando não têm explicação para algo, tentam associar um ser ou um fenômeno considerado a algo que lhes seja parecido com o que conheça. Por exemplo, os UFOs na Idade Média eram descritos como escudos de fogo, sóis, visões divinas etc. Seres mitológicos, como sereias e deuses, por exemplo, poderiam ser reais e provenientes de outros mundos?
Depende de novo de como você define outros mundos. O que sei é que essas criaturas e entidades são descritas somente em relatos históricos, sem que jamais se tenha tido uma prova dela. Não há porque, se essa é a sugestão, incluir os extraterrestres nesse campo se o fenômeno por si só já tem sua própria dinâmica. O que é difícil de entender, em alguns casos, é como existem experiências vívidas com eles sendo reais, se na verdade não são.

Para terminar, o que a Ufologia e os ufólogos devem fazer para que a ciência analise o Fenômeno UFO com a seriedade que ele requer?
Os ufólogos devem dar o seu melhor nas pesquisas e nas análises dos casos ufológicos. Não devem pular etapas metodológicas e muito menos concluir alguma coisa sem ter as evidências necessárias. Eles devem buscar sempre a ajuda da ciência, assim como devem se comunicar com os cientistas e com a mídia sem querer empurrar goela abaixo suas conclusões sem uma boa e sólida evidência. Tempo e persistência também são essenciais, pois o Fenômeno UFO fará o resto.