A. J. Gevaerd
Entrevista
A. J. Gevaerd

"Com sua gente pequenina, os discos voadores me preocupam demais"

As entrevistas da Revista UFO têm características e objetivos muito especiais e bem definidos. Entre as primeiras, a mais importante é que sejam detalhadas, aprofundadas e consistentes, e por isso são tão longas, para que se conheça o entrevistado e sua obra muito além do básico. E entre seus objetivos, naturalmente, está o de cumprir a ousada vocação da publicação de apresentar aos seus leitores as ideias dos homens e mulheres mais geniais que se dedicam à fascinante questão dos discos voadores, sejam eles ufólogos ou não. Ao longo de sua trajetória, aliás, a UFO entrevistou pessoas que ninguém suspeitaria serem grandes pensadores da Ufologia, mas que foram assim revelados em nossas páginas, podendo dar à Comunidade Ufológica Brasileira sua inestimável e imprescindível contribuição.

É nesta condição que republicamos nesta edição uma entrevista com um dos mais celebrados músicos e compositores brasileiros, Zé Ramalho, um homem que, quem diria, é um grande apaixonado pela pesquisa da presença alienígena na Terra. “Com sua gente pequenina, em viagem intergaláctica, vem trazer nova gramática ou mudar nossa doutrina, beber nossa gasolina, que já é pouca demais, desmantelar nossos cais, engrenar novos motores. Esses discos voadores me preocupam demais”, é um trecho de uma das mais belas canções que interpreta. A entrevista original foi publicada em outubro de 2010 e já se perdeu no tempo, sendo necessário resgatá-la.

Da Jovem Guarda a Bob Dylan

Zé Ramalho não poderia estar mais distante do simples perfil de músico, como vemos no cenário atual. Definitivamente, muito poucos tiveram, como ele, tantas e tão variadas influências, que vão desde a Jovem Guarda, de Roberto e Erasmo Carlos, a Pink Floyd, passando por Raul Seixas, The Beatles, Rolling Stones e até Bob Dylan. Adicione a esta receita a particularíssima cultura nordestina de cantadores e repentistas, assimilada por Zé Ramalho de forma única, e teremos uma obra nada menos do que magnífica, continuamente ampliada por um dos mais inventivos, talentosos e originais artistas do país.

Mas nosso entrevistado vai bem além e mostra que sua vasta cultura não se restringe à música. Nesta entrevista, Zé Ramalho mostra que tem elevado conhecimento de Ufologia — o que talvez não fosse de estranhar, tendo sido assinante da Revista UFO por quase 20 anos. Filmes clássicos e obrigatórios a todo ufólogo, como o original de O Dia Em Que a Terra Parou [1951], o pânico resultante da adaptação radiofônica de A Guerra dos Mundos [1938], e livros igualmente históricos, como Admirável Mundo Novo [1982], de Aldous Huxley, são obras de sua cabeceira.

Ufólogo nato e informado

Zé Ramalho passou a maior parte da infância em Campina Grande, na Paraíba, tendo sido criado pelo avô, após o falecimento do pai, quando tinha dois anos. A forte relação com o avô rendeu uma homenagem marcante e singela, quando escreveu a canção Avôhai. A família a seguir mudou-se para João Pessoa e todos esperavam que ele se formasse médico. “Mas não passei do segundo ano, quando decidi sair da faculdade e me dedicar exclusivamente à música”, disse. Foi nesta época que teve uma experiência com o Fenômeno UFO, enquanto realizava uma pesquisa sobre cogumelos alucinógenos em uma fazenda da região. Felizmente, o Brasil perdeu um médico, mas ganhou um músico como poucos e um ufólogo nato.

Foi na capital paraibana que Zé Ramalho esteve em alguns shows com a Jovem Guarda, antes de participar da trilha sonora do filme Nordeste: Cordel, Repente e Canção, em 1975. Seu primeiro álbum foi gravado pouco depois, Paêbirú, hoje raridade de colecionador. O primeiro disco veio em 1977, com o título Zé Ramalho, e os trabalhos seguintes foram plenos de sua criatividade, em constante mutação pelas influências já descritas, mas seguindo uma linha que revelaria o cantor e compositor como dono de uma das vozes mais conhecidas do Brasil. Zé Ramalho, inquieto e buscador, foi formando em sua música matizes que iam do forró ao rock and roll — é difícil dizer onde acaba um gênero e começa o outro, e mais ainda definir quantos estão entre ambos.

Suas canções estiveram em diversas novelas de sucesso, como Mistérios da Meia Noite em Roque Santeiro [1985], da Rede Globo. Este é também um típico exemplo do misticismo que permeia a obra de Zé, bem dosado com uma busca racional pelo insólito, como fica claro na entrevista a seguir. Foi até mesmo indicado ao Grammy Latino, com o álbum Nação Nordestina, que um dia mandou autografado a este editor que o entrevistou — até então, aquele José Ramalho Neto no cadastro da UFO era apenas um assinante. Hoje é um amigo. Em 2007, repetiu o feito com Parcerias dos Viajantes. Além de se apresentar ao lado de grandes artistas, como a prima Elba Ramalho e Alceu Valença, também prestou homenagens a seus ídolos, Raul Seixas e Dylan, este último no álbum Zé Ramalho Canta Bob Dylan: Tá Tudo Mudado. Até um livro foi lançado em sua homenagem, Zé Ramalho: Um Visionário do Século XX, da escritora Luciane Alves [Nova Era, 1997]. UFOs na Amazônia

Essa carreira movimentada e riquíssima, a estafante rotina de viagens, gravações e shows não são obstáculo para Zé Ramalho se manter informado quando o assunto são os UFOs. Exibe um impressionante conhecimento sobre a matéria, acompanhando até mesmo os mais recentes desdobramentos da abertura ufológica de vários países e principalmente a brasileira, que considera uma vitória dos ufólogos. “Quero ver as 16 horas de filmes de discos voadores sobre a Amazônia, feitos pelo pessoal da Operação Prato e que a Força Aérea Brasileira (FAB) está retendo”, disse, referindo à declaração do coronel Uyrangê Hollanda apurada pela revista [Veja UFO 114 a 117, agora disponíveis na íntegra em www.ufo.com.br].

Para Zé Ramalho, a humanidade tem sido colocada à parte de uma incrível realidade, que pode mudar substancialmente a maneira como vemos a nós mesmos, o nosso mundo e o universo que nos cerca. “Creio que existam raças interessadas em nosso desenvolvimento, assim como outras apenas curiosas com a forma como realizamos as coisas aqui”, acredita. Ele também defende que a mentalidade de manutenção do segredo quanto à existência de outras espécies cósmicas precisa terminar, ao mesmo tempo em que a sociedade precisa ser educada para deixar de lado a violência, o preconceito e tantas outras mazelas. Desta forma, pensa, estaremos finalmente preparados para o contato final com nossos visitantes, cujos primeiros sinais já podem ser percebidos. Vamos à entrevista.

Muitas de suas músicas falam de assuntos transcendentais, e algumas até tratam de discos voadores. Você sempre teve interesse pelo assunto, sempre teve essa veia mística? Sim. Acho que descobri isso mais ou menos quando tinha uns 20 anos. Sempre gostei muito de falar sobre discos voadores e extraterrestres. Quando eu era garoto, nas décadas de 50 e 60, morei em Campina Grande, na Paraíba — onde acontece o forró mais gostoso do mundo —, e no Nordeste, na época, havia uma inclinação para estes temas. Eu era muito ligado em filmes de ficção científica, como O Dia Em Que a Terra Parou [1951] e A Guerra dos Mundos [1953], por exemplo, que tratavam da questão dos UFOs. Eu os assisti várias vezes, pois era muito impressionado com o tema. Já no final dos anos 60 começou uma explosão de notícias sobre Ufologia em todo o mundo e só se falava nos discos voadores, que apareciam aqui e ali. Foi quando começaram a surgir, também, muitos livros interessantes sobre o assunto, como Planeta das Possibilidades Impossíveis, de Louis Pauwels e Jacques Bergier [Melhoramentos, 1972], que me despertaram ainda mais, apesar de ser difícil conseguir boa literatura sobre Ufologia onde eu morava. 

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