Thiago Luiz Ticchetti
Entrevista
Thiago Luiz Ticchetti

A América Latina em geral, e a América do Sul em particular, sempre foi palco de casos ufológicos famosos e espetaculares. Até onde sabemos e mostra a literatura, praticamente todos os países da região têm acontecimentos emblemáticos em seus arquivos abrangendo todo o tipo de manifestação ufológica. Há eventos envolvendo militares, pilotos, quedas de UFO, contatos, abduções, mutilações de animais, manifestações paranormais e, nos últimos anos, também agroglifos.

Incrivelmente, porém, a pesquisa não é estruturada em todos os países — e alguns sequer têm grupos ufológicos organizados. Isso é uma pena porque, muitas vezes, um caso que começa no Brasil pode se desenvolver na Argentina e terminar no Paraguai, por exemplo. A ligação entre ufólogos de diferentes países do continente e o compartilhamento de dados e pesquisas precisa ser construído para que se possa ter uma visão mais ampla da movimentação do fenômeno em nossa região. O certo é que os casos são muitos e envolvem milhares de testemunhas ao longo do tempo. Muitas das ocorrências do continente, principalmente aquelas das décadas de 50 e 60, tiveram sério envolvimento das forças armadas de diferentes nações sul-americanas, sobretudo a Marinha da Argentina e Força Aérea Brasileira. Nas décadas de 70 e 80, a Força Aérea do Chile e do Peru também registraram fatos importantes.

Um caso de família

Toda essa casuística forjou ufólogos sérios e interessados, que nunca mediram esforços para pesquisar os casos a que se dedicavam. Um grande exemplo da qualidade dos pesquisadores do continente é a ufóloga argentina Andrea Simondini, que, junto com sua mãe Silvia Perez Simondini, elevaram a pesquisa ufológica de nossos irmãos argentinos a um patamar altíssimo. Silvia é a presidente do grupo Visión OVNI e consultora da Revista UFO. É veterana ufóloga especializada em investigação de campo e casos de mutilações de animais. Ela é também uma das fundadoras da Comissão de Estudo do Fenômeno OVNI da República Argentina (Cefora). Assim, desde que se entende por gente, Andrea acompanhou a mãe em suas pesquisas e não tardou a ser, ela mesma, testemunha ocular de algo impressionante.

“Quando eu tinha 11 anos, voltando para casa, em Buenos Aires, vi uma espécie de ‘trem voador’. Foi realmente emocionante para mim”, diz. “Eu estava com um colega de classe e vimos algo voando ligado a vários pequenos objetos ovais. Lembro-me de correr para a biblioteca da minha mãe, que já estava investigando o caso, e lá encontrei uma foto muito parecida com o que havia observado. Foi então que a Ufologia explodiu dentro de mim”. Quando estava na faculdade, Andrea investigou seu primeiro caso ufológico — e ele marcou sua vida. Os avistamentos que estavam ocorrendo em Victória, Província de Entre Rios, no centro da Argentina, levaram nossa entrevistada, sua mãe, pai e irmãos àquela cidade. A experiência que viveram em família é algo que até hoje a emociona: “Um objeto pairou sobre nós, emitiu uma luz e depois desapareceu”, conta Andrea. O acontecimento foi tão marcante que sua mãe decidiu se mudar definitivamente para Victória.

Casuística rica

A Argentina coleciona uma infinidade de ocorrências ufológicas importantes e teve, na década de 60, uma onda de avistamentos feitos por militares da Marinha que até hoje repercute na história da Ufologia do país. “Um dos casos mais impressionantes ocorreu em 1962 e envolveu uma formação de aviões da Marinha, cujos pilotos avistaram vários UFOs por 35 minutos”, conta Andrea. Além disso, houve na ocasião casos envolvendo objetos submarinos não identificados (OSNIs) e outros artefatos próximos à costa. Outro evento platino muito famoso é o Caso Trancas, que envolve uma família que observou luzes e pequenos seres próximas a elas. “O Caso Trancas deixou muitas evidências físicas, e parte delas foi analisada posteriormente na Universidade de Tucumán”, explica Andrea. Diante de tantos registros, não seria surpresa se o governo investigasse o Fenômeno UFO, mesmo que sigilosamente. “Em distintos momentos foram formadas comissões dentro das Forças Armadas argentinas. Por exemplo, a Marinha desenvolveu a Comissão Permanente de Estudos do Fenômeno OVNI (Copefo). Em 1979, o brigadeiro-general Rubens Omar Graffigna chefiou o órgão, que operou dentro da Comissão Nacional de Pesquisa Espacial (CNPE) até 1987”, informa.

Entretanto, um dos grandes e exitosos passos em direção à desclassificação de documentos ufológicos foi a criação da Cefora, motivo de orgulho para toda a Ufologia Mundial. “A Cefora é uma organização que tem como prioridade absoluta a abertura dos documentos ufológicos mantidos em sigilo pelas autoridades argentinas, sejam políticas, militares ou científicas”, diz Andrea, que também nos explica que sua entidade conseguiu desenvolver uma organização com estrutura federal. “Temos representantes em todas as províncias do país”. Hoje a Argentina atravessa um momento em que as mutilações de gado têm ganhado espaço na mídia e são objeto de discussão até mesmo dentro de esferas de governo — Andrea e sua mãe têm investigado a fundo o fenômeno e não descartam quaisquer hipóteses sobre quem ou o que seja o autor dessas mortes. “Se é um agente extraterrestre que mata esses animais, ainda não sabemos. Não temos nenhuma opinião formada e vislumbro várias hipóteses”.

Museu ufológico

Além de serem ufólogas empenhadas e competentes, Silvia e Andrea são também criadoras do Museu OVNI de Victória, um local que guarda muitas preciosidades da Ufologia Mundial. Apesar da modesta estrutura — o museu está em um conjunto de salas de uma residência —, há ali documentação e informes sobre casos ocorridos em todo o mundo, além de pedaços de UFOs que teriam se acidentado na Argentina e até em uma praia da cidade de Ubatuba, no litoral norte paulista. O caso é até hoje famoso em todo o mundo. O museu começou pequeno, mas como recebia muitas visitas de pessoas que queriam contar suas histórias e experiências, no decorrer dos anos tornou-se tão conhecido que gerou a necessidade de expansão. Assim, ao se colocar em instalações maiores, o espaço começou a chamar a atenção de escolas primárias, secundárias e até de ensino superior, e a ser frequentado por estudantes de todo o país que se interessam pelo assunto.

No museu são exibidas pesquisas em foto e vídeo, assim como análises que são feitas com a contribuição permanente de acadêmicos e cientistas na busca de evidências que permitam sustentar a pesquisa ufológica. Essa interação entre ufólogos e acadêmicos tem sido muito satisfatória. “Ela nos permite realizar estudos e garantir que os alunos encontrem novas formas de abordar a Ufologia de maneira científica”, explica Andrea, que é correspondente internacional da Revista UFO em seu país. Na entrevista a seguir conheceremos vários casos ufológicos argentinos, além de sabermos mais sobre o museu e seu incrível acervo.

Quando surgiu o seu interesse pela Ufologia e quando você começou a investigar o fenômeno? Meu interesse surgiu depois de uma experiência que tive aos 11 anos de idade. Ao voltar de um shopping center na cidade de Buenos Aires, pude ver no céu uma espécie de “trem voador”. Foi realmente emocionante para mim. Eu estava com um colega e vimos algo voando, ligado a vários pequenos objetos ovais. Como eles estavam um atrás do outro, aquilo parecia um trem voando irregularmente. Nós o seguimos até que ele se perdeu atrás de um prédio. Lembro-me de correr para a biblioteca de minha mãe e lá encontrar uma foto muito parecida com o que havia observado em uma antiga revista espanhola chamada Ciclope. A partir daquele dia tudo mudou para mim. Todos os dias eu procurava notícias sobre UFOs nos jornais que meu pai recebia e as recortava para montar um arquivo — ele montou um acervo técnico, detalhando locais, dias, horas e nomes das testemunhas e ufólogos envolvidos em cada caso retratado. Imagino que muitos daqueles que se interessam por esse assunto façam o mesmo.

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