George Knapp
Entrevista
George Knapp

Os últimos dois anos foram incrivelmente movimentados e sem precedentes para a Ufologia Mundial. Desde que o jornal The New York Times publicou, em dezembro de 2017, uma matéria revelando que o governo dos Estados Unidos investigava há anos, pelo Pentágono, incidentes militares envolvendo objetos voadores não identificados, a Ufologia prendeu o fôlego esperando o que viria a seguir.

Na ocasião foram liberados — e reproduzidos milhares de vezes — alguns vídeos mostrando o encontro de pilotos militares com UFOs, a Marinha dos Estados Unidos veio a público e reconheceu a existência de objetos voadores desconhecidos, o Exército firmou um contrato de parceria com uma entidade privada cujo nome, To The Stars Academy of Arts and Science [Para as Estrelas Academia de Artes e Ciência, TTSA] — parece algo tirado da ficção científica e pilotos militares começaram a dar depoimentos em rádios e emissoras de televisão contando suas experiências.

No centro de toda essa movimentação, que inclui, também, a análise de supostos materiais relacionados à queda ou avistamentos importantes de UFOs, documentários para o canal pago History e uma série de revelações que vêm sendo feitas a conta-gotas pelos militares e pela equipe da TTSA, está uma figura totalmente inesperada: o líder e fundador da banda de punk rock Tom DeLonge, na verdade, o homem que criou o pop punk.

Currículo diferente

DeLonge, o nosso entrevistado desta edição, não é um novato na matéria, mas sempre foi solenemente esnobado e descartado pela comunidade ufológica como sendo apenas mais uma celebridade que estava tentando se meter em coisas que não conhecia ou querendo usar a Ufologia para se promover. Mas ele não se importou muito com a opinião das pessoas e continuou seu caminho — de origem pobre e vindo de um lar problemático, enfrentar dificuldades ou desaforos não era exatamente uma novidade para ele.

“Eu morava na garagem da casa dos meus pais, literalmente. Meu quarto era ali. O mais longe possível das brigas e discussões”, diz ele. Adolescente rebelde e cheio de raiva contida, ele viu no skate e na música duas saídas para aliviar seus problemas, mas segundo o próprio guitarrista, ele sentia um profundo tédio sobre tudo. “Eu me sentia mal, sentia que precisava colocar um pouco de emoção nas coisas, porque tudo me parecia horrível. Não era possível que a vida fosse apenas trabalhar, lutar, pagar contas e ser infeliz. Assim, sempre que conseguia arrumar alguma encrenca, eu arrumava mesmo, mas só porque queria sentir um pouco de adrenalina”, confessa.

Em sua ânsia por algo que fosse além daquilo que conhecia como realidade, DeLonge encontrou a Ufologia e passou a estudar o assunto de todas as formas que conseguiu. Assistiu filmes, documentários, leu muitos livros e conversou com muitas pessoas que estavam de alguma forma ligadas ao assunto. Mais tarde, sua posição de celebridade mundial o ajudou a abrir portas que de outra forma lhe estariam fechadas, e ele foi avançando em seus contatos.

“As coisas vão acontecendo”

“Você sabe como é, alguém lhe indica uma pessoa, que lhe indica outra e assim as coisas vão acontecendo”, explicou o músico em uma entrevista. Durante muitos anos as coisas seguiram mais ou menos em silêncio enquanto ele fazia seus contatos e ia conhecendo pessoas. Nesse meio tempo, sua banda de punk rock Blink-182 chegou ao primeiro lugar nas paradas e ele começou uma nova banda em paralelo, chamada Box Car Racer. Dois anos depois nosso entrevistado lançou uma terceira banda, com a qual permanece até hoje, chamada Angels & Airwaves.

Nessa trajetória, DeLonge começou outra linha de negócios, como roupas e tênis para skate, e uniu-se a outros empreendimentos dos quais mais tarde se desligou. De tudo isso, ele disse que aprendeu a como avaliar pessoas, quando falar e quando ouvir e, principalmente, saber a hora certa de fazer uma piada. “No começo, eu não tinha a menor noção do que era uma reunião séria, de negócios, mas fui aprendendo com meus erros. No meu ramo, erros são iguais a prejuízo”, explica DeLonge com humildade.

Da música para os UFOs

Toda essa experiência que foi adquirida por meio da música e de outras empresas a que se dedicou serviu para que ele ganhasse fôlego para voos bem mais altos. “Eu sinto que tudo o que me aconteceu, toda essa incrível jornada, foi apenas uma preparação para o que eu vivo hoje. Mas sou muito grato à música, aos meus amigos e colegas de banda, ao público, a tudo”, declarou.

Os voos mais altos de DeLonge o levaram para dentro do Departamento de Defesa dos Estados Unidos (DoD) e, claro, das Forças Armadas. Não foi um caminho fácil nem rápido. Ele precisou elaborar um discurso e uma proposta factível para se apresentar como alguém confiável e sólido o suficiente para conhecer determinados segredos que jamais estiveram disponíveis para civis. “Para minha sorte, muitas das pessoas com quem conversei não sabiam nada sobre punk rock ou sobre minhas maluquices no palco”, diz, brincando.

Em algum momento dessa trajetória DeLonge se encontrou com Luis Elizondo, o agente que comandava o departamento responsável pelos relatos sobre encontros de militares com UFOs no Pentágono, o Programa Avançado de Identificação de Ameaças Aeroespaciais (AATIP). Elizondo, segundo se sabe, já vinha desde 2014 soltando algumas informações sobre o assunto, porque estava frustrado com a pouca importância que o governo dava à matéria — em determinado momento, ele se deu conta de que nada iria acontecer se a opinião pública fosse mantida fora do cenário.

Ciência de ponta

Porém, Elizondo não era o único descontente com o desenvolvimento das coisas. Como exatamente tudo se deu ainda não está claro, mas o que sabemos é que dois meses antes da matéria do The New York Times, DeLonge lançou seu ambicioso projeto To The Stars, Academy of Art and Science. A empreitada, que pretende reunir entretenimento, ciência de ponta e engenharia aeroespacial, conta com um corpo refinado de membros e está associada a projetos da Agência Espacial Norte-Americana (NASA), do Departamento de Defesa e do Exército dos Estados Unidos. Nada mal para um garoto que morava na garagem.

A To The Stars só fez crescer nesses dois anos e tem se mantido constantemente nas notícias, principalmente porque foi ela quem praticamente fez com que a Marinha dos Estados Unidos viesse a público admitir que os UFOs são reais. Isso só aconteceu porque o documentário que DeLonge lançou em parceria com canal History trouxe o depoimento dos pilotos que fizeram as imagens dos vídeos divulgados pelo DoD. São pilotos altamente treinados, os melhores do país, olhando diretamente para as câmeras e dizendo com clareza sobre aquilo que viveram — a força desses depoimentos fez as coisas andarem.

Nós não sabemos o que mais pode acontecer nessa vertiginosa sequência de acontecimentos que vêm movimentando a Ufologia Mundial. O que sabemos é que, de forma discreta e quase tangencial, o governo norte-americano admitiu a existência de UFOs. Embora isso tenha gerado muitas manchetes nos Estados Unidos e em outros países, ainda que em número menor, nós ainda aguardamos explicações e revelação mais amplas. Na entrevista a seguir vamos conhecer mais sobre DeLonge e sua incrível história.

Como você se interessou por Ufologia? Bem, eu fui uma criança rebelde e problemática desde o ensino médio e tive muitos problemas. Meus pais trabalhavam o dia todo, eu era skatista e gostava muito de punk rock, um estilo de música que é rebelde por natureza. Honestamente, eu fazia de tudo para que os seguranças e policiais me perseguissem só para sentir um pouco de adrenalina. Lembro-me de estar muito entediado durante um verão e pensar: “Uau, tem que haver mais nisso tudo”. Comecei a ficar fascinado com a ideia do que mais podia existir além de trabalhar das 09h00 às 17h00 e vir de uma família disfuncional. Por alguma razão me encantei com a ficção científica. Meu irmão e eu gostávamos muito do universo de Guerra nas Estrelas [1977], no início dos anos 80. Isso meio que me levou a pensar um pouco mais sobre o assunto.

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