ENTREVISTA

A Aeronáutica não liberou tudo o que sabe sobre a Operação Prato

Por Lalla Barreto | Edição 266 | Março de 2019

Nos anos 1977 e 1978, a Força Aérea Brasileira (FAB) registrou uma série de avistamentos de objetos luminosos não identificados nos arredores e no município de Colares, pequena cidade localizada na ilha homônima do estado do Pará. Diferentemente de outras ocorrências ufológicas, estas incluíam ataques a pessoas por parte das luzes. Os relatos foram tantos que o assunto logo começou a espalhar o temor na população. Em função da repercussão, a Força Aérea iniciou suas investigações dos fatos, que acabaram se transformando — até onde se sabe — na maior missão militar de que se tem conhecimento na história para investigação de discos voadores, a Operação Prato.

A missão militar teve início em setembro de 1977 sob o comando do então capitão Uyrangê Bolívar Soares Nogueira de Hollanda Lima, que, inclusive, foi quem deu o nome à operação. Sua equipe, composta por algo entre 20 e 30 militares, tinha por objetivo investigar aquele trecho do litoral paraense, conversar com testemunhas e vítimas e registrar os fatos. Os investigadores da Força Aérea estavam equipados com binóculos potentes, radares portáteis, câmeras fotográficas e filmadoras para observar e documentar as estranhas manifestações relatadas pelos moradores. E até um contato com os supostos tripulantes daqueles objetos estava na pauta.

É importante ressaltar que a Operação Prato se deu em um momento político bem delicado no país e no mundo, durante a Guerra Fria e em pleno governo militar, quando a censura de informações ocorria de forma corriqueira. À época, os militares estavam muito preocupados que os acontecimentos no Pará fossem, na verdade, um ressurgimento da Guerrilha do Araguaia, encerrada três anos antes. Havia também o medo de que os objetos luminosos vistos pela população fossem algum tipo de tecnologia soviética ou invasão comunista, o que logo foi descartado.

Pesquisa que não acaba

Naquela ocasião o assunto tomava conta dos noticiários e das conversas entre os populares em Belém, e cada vez mais pessoas davam entrada nos hospitais da região apresentando estranhas marcas e queimaduras que, segundo os próprios pacientes, haviam sido causadas pelas luzes do céu. No cotidiano das testemunhas e vítimas, os artefatos eram chamados de “chupa-chupa” ou apenas “chupa”, apelido que acabou por nomear o que ficou conhecido como Fenômeno Chupa-Chupa. A denominação popular ocorreu em função dos relatos de pessoas que eram atingidas pelos raios de luz, que acreditavam que lhes extraÍam seu sangue.

A equipe do capitão Hollanda restabeleceu a ordem na cidade durante os quatro meses em que permaneceu em atividade no local. A Operação Prato foi, então, oficialmente encerrada em dezembro de 1977 e não se ouviu mais falar do assunto. Isso até 1997, quando, já coronel e na Reserva, Uyrangê Hollanda ofereceu-se para conceder uma entrevista inédita e exclusiva ao editor da Revista UFO, A. J. Gevaerd, que levou consigo o então coeditor Marco Petit. O militar revelou, naquela conversa, tudo o que havia presenciado durante aqueles meses no Pará.

Na entrevista, Hollanda desmentiu a versão oficial e contou que sua equipe fez, sim, registros em fotos e em vídeos dos objetos luminosos e de gigantescas naves que realizavam movimentos impossíveis para a tecnologia terrestre. Uma delas, segundo o coronel, emitia luzes de diferentes cores, liberava e recolhia pequenas sondas ufológicas — a equipe também coletou depoimentos da população sobre a existência de estranhos seres saídos do interior da nave. O chupa-chupa estava em todos os lados amedrontando a população, também conhecido como “aparelho”, “luz vampira”, “luz do medo” etc.

O relatório final da Operação Prato, escrito pelo próprio Hollanda e por um comandado seu, dizia que não havia indícios de seres extraterrestres na cidade de Colares, o que ele negaria depois de supostamente testemunhar a ação de pelo menos uma entidade não terrestre na região. A Força Aérea Brasileira (FAB) decretou o fim da missão e o retorno da equipe ao I Comando Aéreo Regional (COMAR), em Belém. Mas as pesquisas nunca pararam. Hoje se sabe que a onda ufológica paraense foi, na verdade, apenas a continuação de algo que havia começado em 1976 com o Caso Barroso, ocorrido no Ceará, e depois seguido pelo Caso da Ilha dos Caranguejos, no Maranhão, já em 1977. As testemunhas desses dois episódios relataram terem sido atacadas por luzes não identificadas que se comportavam de forma muito agressiva, coisa raramente vista na história da Ufologia Mundial.

Entre os pesquisadores que continuaram a se interessar pelo fenômeno e a levantar dados sobre ele, ainda que não os pudesse divulgar como gostaria, estava o entrevistado desta edição, o jornalista Carlos Mendes. Paraense de Belém, Mendes lançou recentemente o livro Luzes do Medo [Biblioteca UFO, 2019], uma obra que já é uma das principais da Ufologia Brasileira porque narra, de forma clara e jornalística, a experiência do autor durante e depois da Operação Prato. Recheado de depoimentos inéditos e relatos em primeira pessoa, o livro mostra que ainda há muito para ser descoberto.

Observação in loco

Mendes conviveu com o coronel Hollanda, pois esteve várias vezes na Ilha de Colares acompanhando a ação dos militares. Ele pessoalmente nunca testemunhou o chupa-chupa, mas isso não diminuiu sua curiosidade ou vontade de conhecer a verdade sobre os fatos. Vocacionado para o jornalismo, nosso entrevistado exerce a profissão desde 1974, mas já havia iniciado sua experiência pelas redações da capital paraense no começo de 1970, escrevendo sobre literatura e cinema no jornal A Província do Pará, onde depois seria repórter.

Entre 1976 e 1980, Mendes trabalhou no O Estado do Pará, veículo pelo qual, entre 1977 e 1978, cobriu as aparições das luzes misteriosas e seus ataques às populações rurais e ribeirinhas. Durante a onda do chupa-chupa em seu estado, e em outros da Região Norte, dedicou-se em caráter integral à cobertura in loco dos acontecimentos, entrevistando testemunhas e vítimas dos ataques da luz vampira. E quando foi iniciada a Operação Prato, esteve continuamente em busca de informações militares, acompanhando as ações dos membros da Aeronáutica para informar aos seus leitores.

Mendes também foi repórter especial e depois editor-geral de A Folha do Norte. Posteriormente, transferiu-se para O Liberal, ali atuando por 20 anos. Também trabalhou no Diário do Pará por seis anos. Nesses últimos 23 anos de intensa atividade jornalística, foi também correspondente de O Estado de São Paulo. No jornalismo investigativo, tornou-se especialista nas questões amazônicas, cobrindo, em 45 anos de profissão, temas polêmicos como conflitos e grilagem de terras, trabalho escravo e infantil, devastação florestal, invasão e extração de madeira em terras indígenas, grandes projetos de mineração, dentre outros. Hoje mantém nas redes sociais o blog Ver-o-Fato [Endereço: www.ver-o-fato.com.br]. É consultor da Revista UFO, casado e pai de três filhos.

Sobre seu livro, ele explica que “é uma obra escrita por quem esteve ao vivo no palco e no fervor dos acontecimentos”. Mendes complementa dizendo que espera “que Luzes do Medo contribua para forçar quem esteve na Operação Prato, e ainda está vivo, a vir a público contar sua participação naquela importante missão militar, a maior do mundo dedicada à investigação de objetos voadores não identificados”. Com certeza todos nós esperamos a mesma coisa.

Em sua trajetória profissional você teve oportunidade de investigar os fenômenos desconhecidos e ameaçadores que se precipitaram sobre muitos habitantes do Pará e que resultaram na Operação Prato. Que informações levaram o jornal a enviá-lo para a região? O fenômeno já ocorria no interior do Maranhão desde abril de 1977, mas as notícias que chegavam ao Pará eram esparsas e ainda sem grande repercussão na imprensa de Belém. O mais interessante é que moradores de Viseu, município do Pará localizado na divisa com o Maranhão, já acusavam a presença de luzes e ataques às localidades ribeirinhas. Esses registros, porém, não eram publicados pelos jornais belenenses, cidade distante 300 km da divisa. Então, cinco mulheres, na segunda quinzena de maio daquele ano, foram ao jornal O Estado do Pará e relataram as aparições em Viseu, despertando a atenção de meu editor-geral Walmir Botelho. A partir do relato de duas senhoras que haviam sido atacadas, uma delas maranhense, eu entrei na investigação. E, daí em diante, não parei mais. Os militares da Operação Prato tentaram me parar, mas não conseguiram. O que tenho de curiosidade, tenho de teimosia.

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