ENTREVISTA

É hora de encerrar o segredo sobre os discos voadores

Por A. J. Gevaerd | Edição 200 | Maio de 2013

A seção Mensagem do Editor da edição 140 da Revista UFO, de março de 2008, conteve um elemento desencadeador de um processo significativo para a Ufologia Brasileira. Nela foi publicado o texto Militares Confrontados Pelos Ufólogos se Contradizem Sobre os UFOs, comentando o fato de que autoridades das Forças Armadas têm repetidamente dado declarações infelizes e desencontradas sobre o tema. O personagem central da questão, agora, era o brigadeiro José Carlos Pereira, que, confrontado com as afirmações dadas por este editor em entrevista ao site O Globo Online, em 29 de janeiro — de que a Aeronáutica teria centenas de registros de ocorrências ufológicas no país —, teve uma reação inusitada. Embora confirmasse a existência dos arquivos secretos sobre UFOs em poder da Aeronáutica, Pereira disse que “todos sabem que os discos voadores não existem”, garantindo também que “os ufólogos vão se decepcionar com os registros”. Foi uma grande surpresa para os estudiosos do Fenômeno UFO no país, que tinham Pereira como uma das figuras mais favoráveis à realidade da presença alienígena no meio militar brasileiro.

A certeza dos ufólogos quanto à intimidade do brigadeiro com discos voadores decorre de alguns posicionamentos que o militar adotou publicamente no passado, de franca receptividade, atenção e até mesmo de interesse pelo assunto. Pereira é, de longe, o membro de nossas Forças Armadas que mais se pronuncia sobre o Fenômeno UFO. Tanto que, em entrevista ao deputado Celso Russomanno, apresentada no programa Circuito Night And Day, em 19 de janeiro de 2002, o militar chegou a mostrar no ar um livro de registros de casos ufológicos mantido na sede do Comando de Defesa Aeroespacial Brasileiro (Comdabra), em Brasília, órgão que comandou. Apenas naquele ano, o livro contava com mais de 90 episódios de “tráfego hotel” sobre o país, como são chamados pelos militares os casos de UFOs captados por radar. Pereira apenas não permitiu a Russomanno que abrisse o livro diante das câmeras, por ser confidencial.

Outra circunstância já bem conhecida de todos ocorreu durante o encontro oficial — e inédito — que os integrantes da Comissão Brasileira de Ufólogos (CBU) tiveram com militares da Aeronáutica, em 20 de maio de 2005 [Veja edição UFO 111, disponível na íntegra em ufo.com.br]. No fim do encontro, que durou quase cinco horas, o próprio brigadeiro José Carlos Pereira escoltou os ufólogos até a saída do prédio do Comdabra. Durante a despedida, ao ser presenteado com alguns exemplares da Revista UFO, falou: “Agradeço o brinde, mas informo que sempre compro a publicação nas bancas de Brasília”. Informalmente, e sem qualquer restrição, Pereira confirmou aos ufólogos seu grande interesse e elevado nível de informação sobre o assunto. Assim, diante de um posicionamento como este, soou contraditório que o brigadeiro tenha dado a inusitada declaração ao O Globo Online, em resposta à afirmação de que a Aeronáutica tem mesmo arquivos secretos sobre UFOs.

Desvendando a contradição

“Não é fácil para os militares admitirem sua inoperância e falta de capacidade de controlar nosso espaço aéreo, quando os ‘invasores’ são discos voadores”, declarou Marco Antonio Petit, coeditor da Revista UFO, tentando entender a manifestação negativa de Pereira. “O brigadeiro pode ter sido instruído a reverter seus depoimentos favoráveis ao Fenômeno UFO, dados anteriormente, em uma tentativa de esconder importantes documentos”, analisou Fernando de Aragão Ramalho, então conselheiro especial da publicação, hoje também seu coeditor. Pode ser, mas o fato é que o desapontamento dos estudiosos com a resposta do militar ao O Globo Online tinha uma justificativa clara. É de conhecimento geral da Ufologia Brasileira que, se alguém na hierarquia militar tem informações concretas sobre a existência e materialidade dos UFOs, além de sua procedência inquestionavelmente extraterrestre, este alguém é ninguém menos do que o brigadeiro José Carlos Pereira.

crédito: Alexandre Jubran
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Já foi revelado que são rotineiras as situações em que caças da Aeronáutica são enviados ao encalço de “alvos radar” sobre o país, entre eles UFOs

Até tempos atrás, aliás, ele nem sequer fazia questão de esconder o que os militares sabiam sobre o assunto. E foi assim, neste clima de surpresa e perplexidade na Comunidade Ufológica Brasileira, que a edição UFO 140 foi lançada no começo de março estampando a matéria Militares Confrontados Pelos Ufólogos se Contradizem Sobre os UFOs. Porém, quase simultaneamente à chegada da edição às bancas, a situação se reverteu drasticamente, quando, para nossa surpresa, o brigadeiro José Carlos Pereira aceitou conceder uma entrevista exclusiva à Equipe UFO, na qual mostraria a realidade dos fatos. A entrevista se concretizou em 08 de março de 2008, em Brasília, e ofereceu a oportunidade ímpar, para a Ufologia Brasileira, de esclarecer definitivamente a posição do militar quanto ao assunto. Mais do que isso, permitiu a todos conhecer em detalhes seu pensamento sobre diversos aspectos relativos ao Fenômeno UFO, notadamente no que se refere à Aeronáutica, à Segurança Nacional e as reações que o meio militar brasileiro tem quanto ao tema. Foi um diálogo histórico e significativo para desfazer por completo o mal-estar anterior.

“Estou inteiramente à disposição dos ufólogos da Revista UFO e será um prazer atendê-los a qualquer instante”, declarou Pereira ao aceitar o convite, formulado em nome da Equipe UFO por Ramalho, que também se surpreendeu com a receptividade do militar. “Pensei que fosse ter que convencer o brigadeiro da importância que suas declarações têm para os ufólogos brasileiros, mas não foi necessário, pois ele estava ciente disso e queria realmente colaborar”, disse o hoje coeditor. “Sempre respeitei o trabalho desta publicação e desejo contribuir para o movimento que ela realiza, visando à liberdade de informação ufológica no país”. Mesmo dias antes de definida a data da entrevista, já se estimava que ela teria, após publicada, impacto semelhante à outra ocasião histórica da Ufologia Brasileira, em que a Revista UFO também esteve diretamente envolvida: a entrevista com o coronel Uyrangê Hollanda, em 1997, onze anos atrás.

Toneladas de documentos

Para a publicação, esta seria a oportunidade não somente de conhecer as ideias de um dos mais brilhantes militares do país, mas também de atraí-lo para o movimento UFOs: Liberdade de Informação Já, o que foi feito. “É hora de serem liberados todos os segredos sobre este assunto no Brasil, estejam em que bases aéreas estiverem, e vou trabalhar para isso”, declarou. Como se verá na entrevista, reproduzida aqui como parte da comemoração aos 30 anos da Revista UFO, o brigadeiro Pereira chegou a mencionar que, há poucos anos, quando foram destruídos documentos secretos da época da Ditadura Militar na Base Aérea de Salvador, ele determinou que todos os que restaram fossem centralizados em Brasília, e isso teria resultado em mais de 14 toneladas de papel. “Quanto disso tudo o senhor estima que sejam documentos ufológicos?”, perguntei ao militar. “Não posso dizer com precisão, mas não é pouca coisa”. Pouco a pouco, na entrevista, que teve mais de 100 perguntas e durou cerca de quatro horas, o militar foi mostrando a seriedade com que vê o assunto e sua pesquisa, e confiou aos leitores de UFO importantes informações. A entrevista será publicada em duas partes, nesta e na próxima edição.

Estou à disposição dos ufólogos da Revista UFO e será um prazer atendê-los a qualquer instante. Sempre respeitei o trabalho desta publicação e desejo contribuir para o movimento que ela realiza, visando à liberdade de informação ufológica no país.

O brigadeiro José Carlos Pereira falou abertamente sobre todos os assuntos abordados, não se esquivando de qualquer pergunta formulada. “Pretendo conversar com meus colegas de farda e me informar sobre qual é exatamente o clima hoje dos quartéis e bases aéreas, e buscar trazer o apoio de alguns deles ao trabalho de vocês”, ofereceu antes mesmo de ser solicitado a fazê-lo. Sua ajuda foi mais do que bem-vinda e chegou em um momento crucial para a campanha UFOs: Liberdade de Informação Já. Ao longo da sabatina, Pereira falou da segurança do espaço aéreo brasileiro, das infiltrações que a Nação sofre de objetos não identificados, da Noite Oficial dos UFOs no Brasil, da Operação Prato e de seu comandante, e até descreveu alguns episódios ufológicos que desconhecíamos. “Hollanda era um homem sério e de resultados, diligente e respeitado por todos”, disse Pereira, confirmando o que os ufólogos sempre souberam, mas não tinham como garantir — que de fato a Operação Prato resultou em mais de 2.000 páginas de documentos, além das já sabidas mais de 500 fotos e 16 horas de filme. Sobre o Caso Varginha, no entanto, alegou nada saber além do que leu na imprensa e na Revista UFO, e pareceu sincero. Afinal, o caso pertence à outra Arma, o Exército.

Membro da elite militar

Mas quem é o brigadeiro José Carlos Pereira? Este não é um militar qualquer. Nascido em Salvador (BA), Pereira ingressou na Força Aérea Brasileira (FAB) em março de 1958 e passou para a reserva em julho de 2005, ocupando todos os principais postos da hierarquia militar daquela Arma, inclusive o mais alto da carreira. Formou-se oficial em dezembro de 1963 e realizou inúmeros cursos na área, entre eles o de formação de oficial-aviador, de táticas aéreas, de comando e de Estado-Maior. É um dos maiores especialistas do país em políticas e estratégias aeroespaciais. Pereira foi também piloto de caça, de transporte e de operações aéreas especiais, além de paraquedista militar. Voou dezenas de tipos de aeronaves em todo o mundo, por mais de quatro décadas. “Vocês não podem imaginar como é lindo e inusitado o pôr-do-Sol sobre o oceano, a mais de 13 km de altitude”, declarou.

Pereira exerceu importantes funções da engrenagem militar brasileira, entre as quais a de comandante de esquadrão de suprimento, manutenção e infraestrutura, de oficial de operações e comandante de Unidade Aérea de Instrução de Caça, de comandante de bases aéreas e oficial de Estado-Maior nas áreas de pessoal e operações. Teve distinguida atuação na área de Inteligência Militar, sendo oficial do gabinete militar da Presidência da República e oficial de Inteligência no Estado-Maior da Junta Interamericana de Defesa, em Washington, Estados Unidos. Como general, Pereira foi ainda chefe de logística e mobilização do Estado-Maior das Forças Armadas, presidente da Comissão Nacional do Serviço Militar, comandante da Academia da Força Aérea (AFA) e chefe de Estado-Maior do Comando-Geral de Operações Aéreas.

crédito: Aeronáutica
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UFOs não representam um risco à Segurança Nacional nem um perigo à aviação civil e militar, e por isso os arquivos pertinentes ao tema já deviam ser liberados

Nos últimos 10 anos, o brigadeiro José Carlos Pereira foi ainda comandante de operações da Força Aérea Brasileira (FAB), tendo 13 generais e um total de 27 mil homens subordinados a ele. De 1999 a 2001, foi comandante-geral de Operações Aéreas e do Comando de Defesa Aeroespacial Brasileiro (Comdabra), órgão que já foi chamado de “Área 51 Brasileira”. Como se vê, não é nenhum exagero dizer que Pereira foi, durante um bom tempo, o guardião da chave do cofre onde estão os segredos ufológicos do país. Em 27 de março de 2006, já na reserva, o brigadeiro ainda tomou posse na presidência da Empresa Brasileira de Infraestrutura Aeroportuária (Infraero), nomeado pelo ministro Nelson Jobim em meio ao terrível caos aéreo que tomou conta da Nação. Com pulso firme, quase resolveu a crise, que, no entanto, persistiu por problemas maiores do que se pode supor. “Ninguém queria acabar com o problema, esta é a verdade”, declarou.

Brigadeiro, o senhor tem sido o militar brasileiro graduado que mais se manifesta sobre UFOs na imprensa, tendo dado várias entrevistas, quase sempre de uma maneira muito aberta, muito natural. A que se deve sua posição quanto ao assunto?
Eu acho que esta é uma questão de doutrina pessoal. Eu defendo a tese de que não pode e não deve existir assunto fechado para a humanidade. Um assunto, por mais extravagante e por mais bizarro que possa parecer, precisa ser sempre analisado e investigado. Galileu que o diga, Copérnico que o diga, e tantos outros cientistas que o digam. Então, acho que nem o ser humano, nem qualquer instituição têm o direito de fechar as portas para a discussão de qualquer assunto, seja de natureza científica, política, social ou religiosa. Nem mesmo para a Ufologia, que eu classifico no
campo da ciência. Esta é uma visão pessoal minha, que mantenho até hoje.

Para manter este posicionamento aberto, o senhor já teve alguma experiência ufológica, ou seja, a observação de algum objeto que pudesse considerar que foge a uma explicação ordinária?
Como aviador, durante 40 anos, voei pelo mundo afora e vi muitas coisas, mas todas com alguma explicação científica. Vou dar um exemplo: quem já viveu a experiência de ver o pôr-do-Sol a 40 mil pés [Cerca de 13 km] sobre uma camada de nuvens cirrus, sabe que esta é uma coisa maravilhosa, que forma um reflexo verde no horizonte. Então, há coisas fantásticas por aí, mas com explicação imediata. Quem conhece um pouco de aviação e de meteorologia consegue entender o fato na hora. Quem não conhece, pode consultar depois e descobrirá a explicação. Desta forma, eu tive muitas visões estranhas, todas explicadas cientificamente. Mas há coisas para as quais eu não tenho explicação científica ainda, seja por desconhecimento ou ignorância minha, ou porque a ciência ainda não chegou ao ponto de esclarecê-las. Não tenham dúvida alguma quanto a isso: se há alguma coisa inexplicável hoje, um dia não será mais. Seja esta explicação algo que remete a uma natureza terrestre ou não.

O senhor tem algum parente, comandado ou amigo que já relatou algum avistamento que possa ser enquadrado dentro da categoria dos discos voadores?
Olha, comandei muita gente na Força Aérea Brasileira (FAB) e várias vezes ouvi relatos de companheiros e pilotos. “Hoje eu vi uma coisa estranha no céu”, sempre alguém me dizia. Na maioria das vezes nós sentávamos para discutir, e geralmente encontrávamos alguma explicação para tais avistamentos. Mas esta pergunta tem relação com o que falei há pouco: por que nós não conseguimos explicar certas coisas? É porque ainda não sabemos o que são, mas um dia saberemos [Dando ênfase].

No momento em que o Governo abre alguma coisa, acaba o receio de todo mundo quanto aquilo e as coisas começam a ficar transparentes. Ninguém tem medo da transparência, todos têm medo do que é opaco. A abertura ajuda sim.

Mas algum desses fenômenos que permanecem inexplicados, seja por falta de compreensão de sua natureza agora ou no futuro, o senhor poderia considerar como tendo origem externa à Terra, algo que pudesse vir de fora?
Bem, é difícil você fazer uma afirmação dessas. Mas existem fenômenos que são mistério, que permanecem sem explicação. Vou citar um exemplo: um objeto que se move aparentemente sem propulsão e contra o vento, dá o que pensar, não dá?

Sim, e os discos voadores fazem isso...
Um avião também faz isso, voa contra o vento, lógico. Agora, como explicar um balão, que não tem propulsão própria e é conduzido pelo vento, ir na direção contrária a ele? O primeiro passo é saber como flui o vento na altitude que o objeto está, e este é um dado sobre o qual temos controle, por meio da meteorologia. Por exemplo, eu sei exatamente qual é o vento em uma determinada altitude e posso estimar se o balão está contra ele. Coisas desse tipo são questões que aparecem e não têm uma explicação no momento.

Já foi dito que o senhor é dono da chave do cofre onde se encontram os segredos ufológicos brasileiros: documentos, fotos e filmes feitos por militares servindo em várias bases aéreas, às vezes acidentalmente, às vezes em missões secretas, como durante a Operação Prato. O que esses segredos revelariam?
Veja, eu sou um homem que trabalha com ciência, que tem um cérebro muito científico. Se você colocar a ideia de que seres extraterrestres estão aqui, que estão nos visitando e investigando, que estão fazendo alguma coisa que nós não sabemos exatamente o que é, sua tese bate de frente e contraria completamente a razão científica. Sim, porque, até onde sabemos, no nosso Sistema Solar, pequenininho, não há qualquer indicação da existência de vida, exceto na Terra. Fora do nosso sistema, a estrela mais próxima é Alfa do Centauro, a 4,3 anos-luz de nós. A nave Voyager, por exemplo, que está há 30 anos no espaço, vai levar 93 mil anos para chegar próximo a Alfa do Centauro. Assim, é difícil imaginar que alguém ou alguma coisa pudesse chegar aqui na Terra,
vinda de fora do Sistema Solar.


Conhecimento atual

E se houvesse uma tecnologia muito mais avançada do que a nossa?
Sim, veja bem, eu estou pensando com o conhecimento que detemos hoje em nosso planeta, com o conhecimento que a nossa ciência atual possui. Esta é a ressalva que devemos fazer. Por isso, considerando apenas este conhecimento, eu nego toda e qualquer possibilidade de alguém vir de fora para cá. E a coisa se complica quando se vai mais longe, pois Alfa do Centauro não parece ser um sistema planetário. Vamos então para o local do universo que os astrônomos chamam de “zona habitável”, que parece estar a muitos anos-luz da Terra. Se sabemos que o Sol tem cerca de 5 bilhões de anos, quem estivesse em um planeta lá na tal zona habitável, olhando para cá em um telescópio, estaria vendo apenas a formação do Sol. Da mesma forma que, olhando hoje para uma galáxia a dezenas ou centenas de anos-luz da Terra, vamos ver coisas que aconteceram há muito tempo.

Para o senhor, o entendimento desta situação estaria fora de nosso controle?
A questão, hoje, é o nível de tecnologia de que dispomos para entender o universo. Eu não descarto que alguém possa ter avançado um bilhão de anos na nossa frente, em algum lugar. Por outro lado, com a tecnologia que nós temos hoje na Terra, precisamos negar peremptoriamente a possibilidade de que alguém de fora do Sistema Solar tenha possibilidade de chegar até aqui. Mas volto a repetir, com humildade, que acredito que nosso conhecimento deve ser ainda [Novamente dando ênfase] insignificante para entendermos tudo isso. Haja vista o que aconteceu nos últimos 100 anos, com descobertas que vão da penicilina ao avião.

Todas as detecções de UFOs por radares e as perseguições por caças a jato que já aconteceram, algumas das quais vazaram e acabaram caindo no conhecimento da Comunidade Ufológica, denotam que eles são originários de civilizações como as que o senhor definiu, ou seja, que existem dentro de um contexto que não conhecemos, que detêm uma tecnologia que ainda não conseguimos compreender. Certamente, estas naves não vêm até aqui usando os mesmos métodos de propulsão que usamos para explorar a Lua, Marte ou Vênus. O senhor acha que esse tema deve ser discutido abertamente pela sociedade?
Não, elas não devem usar motores foguetes, como o de nossas naves enviadas ao espaço. Minha opinião sobre Ufologia é a de que, no futuro muito próximo, ela precisaria se aproximar muito mais de setores científicos pesados, especialmente nas áreas de astronomia, astrofísica e astronáutica, de modo a compor um congregado científico mais consistente. Eu não rejeito nem a ideia da filosofia entrar nesta somatória, com seus conceitos modernos buscando responder às perguntas que até hoje ninguém respondeu: quem somos, de onde viemos, para onde estamos indo... Desde Aristóteles que fazemos estas perguntas e ninguém responde. A Ufologia, junto das citadas disciplinas, poderá ser um caminho para as respostas.

crédito: Carolina Riffo
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A sede do IV COMAR, em São Paulo, onde foi criado, em 1969, o Sistema de Investigação Civil de Objetos Aéreos Não Identificados (SIOANI), da Aeronáutica

O problema são as restrições que a comunidade científica impõe à Ufologia, rejeitando a manifestação do fenômeno. Por exemplo, nós temos astrônomos que, por falta de informação, rejeitam os dados coletados sobre UFOs, inclusive e até principalmente pelos militares. Em geral, o problema alegado por eles é de que é impossível que naves venham de outros planetas até a Terra, pois eles estão a distâncias impensáveis...
Eu acredito que esta rejeição tem várias origens. No campo militar, ela se deve ao receio de que uma informação militar possa vazar junto da divulgação de um caso [Ufológico]. Um exemplo emblemático disso é o medo de que determinada frequência de operação de nossos radares acabe vazando. Além do que, ainda hoje muitas pessoas têm medo de serem ridicularizadas. “Pô, esse cara é maluco”, falam de alguém que diz ter visto um UFO. Sim, tem gente que ainda pensa assim. Da mesma forma que, na época da vacinação, tinha gente que pensava que vacina era coisa de louco. A história está cheia de coisas deste tipo. Por isso, eu acho que temos que vencer essa rejeição através de um método quase filosófico, um método exigente. Temos que criar o antagonismo, pois o progresso só surge quando você cria o antagonismo. Daí que nasce a síntese, que nasce a solução. Temos que tolerar os astrônomos que não acreditam nos UFOs, os militares que os rejeitem e tudo o mais. E acho até que isso é muito bom, desde que as pessoas estejam realmente dispostas a conversar, a colocar os embates na mesa, e desses embates possamos colher alguma coisa positiva, que vai produzir um novo embate lá na frente. É essa a posição que eu defendo.

Sua posição, aberta e franca, encontra paralelo com a de poucos militares brasileiros. Mas encontra uma resistência por parte de certos segmentos do meio militar, que preferem que o assunto UFO permaneça sem ser amplamente discutido. O senhor acredita que é hora dessa resistência ser quebrada? Como isso poderia ser feito?
Olhe, eu acho que simplesmente abrir os arquivos [Secretos] e entregar para a imprensa ou dá-los para vocês é algo que pode ser feito amanhã de manhã, sem nenhum problema. Mas acho que isso não basta, que não é suficiente. Vocês, ufólogos, podem até ter uma desilusão quando virem os arquivos, pois acho que esperam por coisas mais sólidas, e talvez não vão encontrar o que imaginam naquelas pastas. No entanto, acho que o exemplo governamental de abrir os arquivos ufológicos é algo que favorece e fortalece outras pessoas que têm receio de tratar do assunto. Eu acho que no momento em que o Governo abre alguma coisa, acaba o receio de todo mundo quanto àquilo e as coisas começam a ficar transparentes. Ninguém tem medo da transparência, todos têm medo do que é opaco. Então, acho que a abertura ajuda sim e tem um efeito favorável muito grande nesta discussão.

Em uma entrevista que deu ao site O Globo Online, o senhor disse isso o que acabou de repetir: que os ufólogos vão se decepcionar com os registros de UFOs no Comdabra. Disse até que os discos voadores não existem. Sua afirmação decepcionou os ufólogos, que iniciaram uma grande discussão. Ora, se discos voadores não existem, o que seriam aqueles registros mantidos no Comdabra?
Veja bem, o que eu quis dizer é que discos voadores não existem na medida em que não se tem um dado oficial explícito onde esteja a afirmação “aqui está um disco voador”. Ou seja, um documento oficial que diga que ele existe nessa forma e que esteja em dado lugar.

Informações secretas estão espalhadas por quartéis do mundo todo, não só no Comdabra. Elas provam que estão ocorrendo fenômenos inexplicados, que nos levam a deduzir serem a presença de seres ou objetos estranhos ao planeta Terra.

Então o problema é o formato? Ou qual é o problema? Pois, quando falamos o termo disco voador, nos referimos a toda uma fenomenologia de objetos de vários formatos, de várias cores e executando diversos tipos de manobras, que aparecem em inúmeros locais e nós sabemos que não são aviões...
Sim, mas vamos voltar à visão puramente científica. E vamos fazê-lo através de exemplos, porque assim a coisa fica mais fácil. Veja, até certo tempo atrás, na África, havia pessoas que morriam e todo mundo dizia que eram atacadas por um vírus letal. Mas parte da comunidade científica da época não aceitava que um novo vírus tivesse simplesmente surgido do nada, até que um dia um cientista apareceu com um tubo de ensaio e disse: “Aqui está o vírus”. Era o ebola e estava acabada a discussão! Com isso eu só quero dizer o seguinte: nós só podemos falar que um disco voador existe quando o tivermos no tubo de ensaio, ou seja, bem visível e à mostra para todos checarem. Até lá, ele é uma hipótese.

Mas, e enquanto não tivermos isto, e sim os depoimentos de milhares de pessoas de alta credibilidade, que tiveram experiências com discos voadores?
Bem, nenhuma credibilidade foi maior do que a dos mortos da África, apenas para continuar no exemplo dado. De qualquer forma, devem-se levar em consideração as diferentes formas de evidências que existem dos discos voadores. Como em um trabalho policial, temos as provas documentais, as testemunhais e as circunstanciais, cada qual com seu peso. A prova documental, por exemplo, tem seu impacto, mas a testemunhal também. Alguém viu alguma coisa no céu? Ótimo! Mas quando 50 ou mais pessoas virem, melhor ainda. Especialmente pessoas que não se conhecem, que vivem em locais diferentes etc. É assim que a prova testemunhal começa a ficar muito mais forte. E, por fim, temos a prova circunstancial, que é a mais frágil de todas. Temos que separar os três tipos de provas que temos hoje em relação à Ufologia. As provas circunstanciais estão em grande quantidade, assim como as testemunhais, e destas, 90% recebem uma explicação científica. Mas os 10% restantes, não. Já as provas materiais, não temos nenhuma.

Interceptação aérea

O senhor classificaria a ocorrência de 20 de maio de 1986, a chamada Noite Oficial dos UFOs no Brasil, como uma prova circunstancial dos discos voadores?
Você se refere àquele caso que ocorreu sobre o Rio e São Paulo, que começou com o então presidente da Embraer, Ozires Silva, a bordo do avião Xingu, indo para São José dos Campos (SP)? E que teve depois o depoimento do ministro da Aeronáutica na época, o brigadeiro Octávio Moreira Lima, que foi à televisão relatar o fato? Bem, no meu entender, as observações que se deram naquela ocasião são provas testemunhais de pessoas que viram.

Mas os pilotos dos caças que foram enviados pela Aeronáutica para interceptar os objetos eram bastante experientes.
Sim, eram. Por isso aquelas são provas testemunhais, situações em que testemunhas viram alguma coisa e os radares detectaram aquela coisa. Veja, radar pode ter eco falso, pode ter uma porção de coisas afetando seu funcionamento. Porém, quando você tem mais de um radar detectando o mesmo alvo, aí é quente demais para não se levar a sério [Em tom determinado]. Estes equipamentos trabalham em frequências diferentes.

Um dos caças que interceptaram os objetos chegou a ter vários deles ao seu redor, relativamente próximos...
Aí você tem a somatória de fatos. Alguém viu uma coisa e o radar a detectou, e este aparelho não tem nada a ver com olhos, é eletrônico. Um terceiro par de olhos também viu aquela mesma coisa [Outro piloto], e por aí vai. Então você começa a dar alta credibilidade para a ocorrência e a situação começa a ficar substantiva. Sim, tudo bem, mas cadê o objeto? Ele foi capturado? Aí é que vem a questão da prova material, que não temos.

Tantas evidências somadas não constituem uma prova material suficientemente forte em favor do fenômeno?
Sim, mas quero que você entenda bem a resposta que eu dei: eu digo que disco voador não existe quando você não tem a prova material dele naquele instante...

Certo. O que não temos é o objeto, mas sim os relatos de quem o viu. Brigadeiro, quando a Comissão Brasileira de Ufólogos (CBU) esteve no Comdabra, em 20 de maio de 2005, fomos recebidos pelo brigadeiro Atheneu Azambuja, que nos mostrou três pastas de casos ufológicos arquivadas no órgão. Ao perguntarmos desde quando o Comdabra registrava UFOs, identificados como “tráfego hotel” pela Aeronáutica, ele nos respondeu que desde 1954. Estas pastas não contêm as provas de que nós estamos sendo visitados por objetos tripulados e controlados inteligentemente por seres não terrestres?
Bem, estas pastas não estão apenas no Comdabra, mas estão espalhadas em quartéis do mundo todo. Elas provam que estão ocorrendo fenômenos inexplicados, que nos levam a deduzir serem a presença de seres ou objetos estranhos ao planeta Terra. Isso mesmo, não comuns ao nosso planeta. Agora, classificar o que são estes seres ou objetos estranhos é uma coisa muito temerária, pois não temos conhecimento para tanto [Cauteloso]. Novamente usando um exemplo, é como você ter uma doença que está matando pessoas e ir logo dizendo que é causada por um vírus ou uma bactéria, e resolver fazer uma vacina para aquilo. Isso é temerário! Assim, acho que a Ufologia terá muito mais trabalho pela frente [Para identificar o fenômeno], e precisará também agregar novas disciplinas a ela.

Na época da visita ao Comdabra, nos foi sugerido que buscássemos a liberação oficial daquelas pastas, e nós argumentamos que desejávamos, futuramente, realizar um estudo junto com a Aeronáutica, formando uma equipe de ufólogos civis e militares. O que o senhor acha disso?
Sim, mas eu diria que precisa ter mais gente nesta equipe. Acho que, além de ufólogos civis e militares, têm que ter cientistas, astrônomos, físicos etc.

Certo. É que, quando falamos em ufólogos, queremos dizer que entre eles já há gente de várias áreas.
Ótimo, então já tem essa comunidade formada. Porque este é um conhecimento que tem que agregar mais pessoas.

crédito: ARQUIVO UFO
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O coronel Uyrangê Hollanda foi um homem íntegro que sofreu um grande impacto com os contatos que teve, que transformaram sua vida

Como militar, ainda que na reserva, o senhor tem um posicionamento. Mas e pessoalmente, o senhor acredita em discos voadores, em vida em outros planetas e que estas formas de vida estejam realmente nos visitando?
Hoje eu estou convencido de que não existe vida no Sistema Solar, só na Terra. A última esperança que eu tinha era essa lua de Saturno recém-estudada, mas lá também não há nada. Então, se em nosso sistema não tem vida, talvez devamos pensar na questão ao contrário. Ou seja, nós, terráqueos, é que vamos ter que ocupá-lo. O Sistema Solar é nosso quintal e vamos ter que descobrir como poderemos viver na Lua, como poderemos viver em Saturno. Eu não tenho a menor ideia, mas há 200 anos ninguém acreditava que um dia o homem poderia voar. Então, acho que o Sistema Solar é só nosso e vamos ter que habitá-lo, que ocupá-lo todo. Fora dele, temos que examinar as possibilidades de uma zona habitável, como já falamos.

O senhor acompanha as descobertas astronômicas nesta área?
Sim, e hoje, quando vejo a astronomia se dedicar à pesquisa das zonas habitáveis, fico muito feliz. Especialmente porque os astrônomos estão procurando nelas áreas em que haja, basicamente, estabilidade gravitacional, que é uma condição essencial para a vida. Em primeiro lugar, tem que haver esta estabilidade para que a vida prospere. Mas temos que levar em consideração outros aspectos. A vida, como nós a conhecemos, precisa de oxigênio, de uma cadeia de carbonos e de água para existir. Quando tratamos nestes termos, estamos falando de química, não de física. E se encontrarmos pela frente alguma forma de vida que não precise de oxigênio, nem de carbono e nem de água? Teremos então que partir para uma estimativa da situação através da física. Veja que até aqui na Terra temos microrganismos que não precisam de oxigênio, os chamados extremófilos. Como temos peixes que vivem nas profundezas dos oceanos e que não precisam de luz. Isso me leva a crer que podemos ter formas de vida com estruturas químicas completamente diferentes da nossa. Agora, com a física isso não ocorre, pois pressão, temperatura e estabilidade gravitacional têm que haver em um ambiente para que a vida possa nele prosperar, e estas variáveis independem do processo químico que irá gerá-la.

O senhor acha que os astrônomos estão perto de encontrar alguma forma de vida fora da Terra?
Veja um planeta como Júpiter, por exemplo, que é muitas vezes maior do que a Terra e tem quatro vezes menos densidade. Como é que nós vamos admitir que um planeta como aquele possa abrigar um tipo de ser como o que conhecemos na Terra? E nos mundos onde a temperatura está estabilizada em torno de centenas de graus centígrados? É difícil imaginar, química mente falando, que possa haver alguma forma de vida nesses ambientes. Por isso que eu gosto de ver os astrônomos dizerem que estão procurando vida nas zonas habitáveis sob o ponto de vista puramente da física. Hoje até se determinou que são cerca de 300 os planetas possivelmente habitáveis fora do Sistema Solar [Os números atuais beiram 1.500]. Devem ter estabilidade gravitacional, porque a gravidade não pode ficar mudando toda hora que um meteoro passa perto deles.

O senhor acredita que os planetas existentes nessas zonas habitáveis sejam semelhantes ao nosso ou diferentes?
Acredito que alguns deles possam ser muito semelhantes à Terra, e aí terão condições de abrigar vida parecida com a nossa. Isto é, desde que lá existam condições habitáveis, estabilidade gravitacional, cadeias de água e carbono etc.

Não há nenhum motivo para manter os arquivos ufológicos em sigilo. Sua liberação não expõe o país a uma guerra, não vai provocar pânico na população, não coloca em risco a Segurança Nacional e nem atinge a privacidade de pessoas citadas neles.

Para o senhor, é plausível que em tais planetas existam civilizações que poderiam estar nos visitando?
Bem, meu pensamento quanto a isso é o seguinte: nós, humanos, saímos do chão pela primeira vez com um avião há cerca de 100 anos, e em apenas um século conseguimos chegar à Lua. Em termos astronômicos, pode-se dizer que 100 anos não são nada, nem poeira. Então, se em um século, com nossa limitada capacidade, conseguimos tudo isso... Agora pense: onde nós estaremos daqui a outros 100 ou 1.000 anos? Ninguém é capaz de imaginar...

Do jeito que a tecnologia está avançando continuamente, é possível que daqui a 20 ou 30 anos, tudo o que já temos conquistado até agora esteja ultrapassado e uma nova tecnologia tenha surgido...
Perfeito. Veja, 500 anos atrás Cabral estava chegando a uma praia da Bahia. E daqui a 500 anos, onde é que vamos estar? Quem se aventurar a dizer alguma coisa sobre isso estará fazendo uma futurologia irresponsável, porque realmente não sabemos o que vai acontecer. Então, se em uma zona habitável do universo, muito provavelmente dentro da Via Láctea, alguém estiver 500 anos à nossa frente, será algo espetacular. Embora 500 anos também não seja muita coisa, em termos de universo, pode ser um salto gigantesco. E olha que a Via Láctea, a nossa galáxia, não é das maiores que há...

Dificuldades astronômicas

Basta pensarmos um pouco, pois o bom senso nos diz que tem que haver vida inteligente no universo, embora ela ainda não esteja provada cientificamente.
Claro. Mas se analisarmos as condições da vida na Terra, veremos que temos aqui situações muito particulares, que talvez dificilmente seriam encontradas juntas noutros planetas. Por exemplo, a Terra está na distância exata do Sol para a proliferação da vida. Parece até que foi colocada nesta posição “com a mão”. A temperatura de nosso planeta é ideal e nossa água está em estado líquido. Daí, “foi colocada” uma Lua para girar ao nosso redor, que regula exatamente a quantidade e o fluxo de água na Terra, mantendo as marés funcionando direitinho. E por aí vai. Alguém aí também “colocou” Júpiter no sistema, um gigantesco planeta funcionando como para-choques, impedindo que qualquer coisa
atinja a Terra, batendo nele antes.

Brigadeiro, sabemos que a Aeronáutica Brasileira pesquisa ou pesquisou oficialmente discos voadores desde 1969...
Sim, pesquisou...

Certo, obrigado. A data se refere ao ano em que o brigadeiro José Vaz da Silva estabeleceu no 4o Comando Aéreo Regional (IV COMAR) o Sistema de Investigação de Objetos Aéreos Não Identificados (SIOANI). Era um órgão oficial que chegou a emitir dois boletins, um em março e outro em agosto de 1969, e depois parou.
Eu me lembro...

Mas por que a pesquisa oficial de discos voadores feita pelo IV COMAR não foi para frente e aparentemente foi encerrada naquele mesmo ano?
Olha, esta é uma questão interessantíssima. Eu não estava por perto naquela época e não pesquisei estes fatos. Não me ocorreu de examinar por que aquele trabalho foi paralisado, mas presumo que o brigadeiro Vaz da Silva não tenha tido mais condições de continuá-lo. A história dele é diferente [Das de muitos militares]. Ele era um homem que estava sempre na vanguarda, estava sempre à frente do seu tempo.

O brigadeiro Vaz da Silva ainda é vivo? O senhor o conheceu pessoalmente?
Não, já faleceu. Eu não o conheci pessoalmente, mas sei que foi um homem muito dinâmico. Só que pessoas que estão à frente de seu tempo costumam, de alguma forma, se prender a este tempo, ter sua vida paralisada por este tempo. E eu acho que até como uma forma de manter a estabilidade. Mas, por outro lado, esse dinamismo também provoca um choque [Com a realidade]. Tenho a impressão de que foi por isso que essa coisa parou e o SIOANI foi encerrado.

crédito: ARQUIVO UFO
\"Caças
Caças da Força Aérea Brasileira (FAB) estão sempre de prontidão para identificar objetos intrusos em nossos céus

O senhor acha que pode ter havido uma interferência superior para que houvesse o estabelecimento do SIOANI, ou esta foi uma iniciativa somente do brigadeiro Vaz da Silva?
Eu tenho quase certeza que sim, que houve uma determinação superior. E certamente o Estado-Maior do brigadeiro Vaz da Silva trabalhou com ele, apoiando o projeto, assessorando e montando o SIOANI. Um comandante sozinho não faz nada, ele tem que ter um Estado-Maior por trás de suas ações.

Os dois boletins do SIOANI, que acabaram vazando, traziam descrições de casos pesquisados pelo órgão, inclusive de UFOs pousados e com tripulantes do lado de fora. São casos seríssimos investigados por militares e mantidos ocultos. Este é o tipo de documentos que os ufólogos querem que sejam liberados. O senhor acha que eles podem ser revelados ao público?
Em minha opinião, não há nenhum motivo para manter esse material em sigilo. Nenhum. Eu vejo que sua liberação não afeta nenhum dos quatro critérios clássicos que os militares sempre têm em mente quando se trata de segredos nacionais. E eles são representados pelos seguintes questionamentos: primeiro, a liberação deste material vai expor o país a uma guerra? Segundo, vai provocar pânico na população? Terceiro, vai colocar em risco a Segurança Nacional, seja com relação a algum país da América do Sul ou outros? E quarto, a liberação deste material vai atingir a privacidade de pessoas eventualmente citadas nele? Isso é o que temos que ter em mente. Se não vai afetar nenhuma destas questões, e o material do SIOANI não vai mesmo, então revela!

Abertura irrestrita

Quer dizer que o senhor é a favor de revelar documentos ufológicos gerados pelos militares brasileiros e mantidos em sigilo até hoje?
Totalmente. A menos que tal liberação afete algum dos quatro itens que acabei de citar. Neste caso, acho que o material não deve ser revelado. Temos que respeitar a privacidade das pessoas e a Segurança Nacional, e precisamos preservar a paz e a ordem. Também não podemos provocar guerra e mal-estar com outros países. Enfim, não vamos revelar os nossos planos para os inimigos. Fora isso, está na hora de fazer a transparência e botar isso a limpo.

O senhor acha que isso se aplica também aos documentos secretos da Operação Prato, realizada pela Aeronáutica no Pará, em 1977, que já foi alvo de várias matérias da Revista UFO?
Claro! Sem dúvida alguma! Isso se aplica a toda e qualquer operação ocorrida!

O senhor tomou conhecimento específico daquela operação, na época?
No momento em que ela foi realizada, não. Apenas depois eu soube dos resultados. Mas eu conheci o Hollanda [Coronel Uyrangê Hollanda, comandante daquela missão militar]. Não vou dizer que ele era um amigo íntimo, porque não servimos juntos, mas o Hollanda era aquele sujeito bonachão, amigão, e a gente estava sempre se encontrando em algum lugar. Ele trabalhou na área de Inteligência da Aeronáutica, como eu, e então nós vivíamos nos cruzando por aí. Agora, tem uma coisa que eu preciso falar para vocês a respeito do Hollanda. Primeiro, deixem-me dizer que eu gostava muito dele, mas ele era um homem muito conturbado, muito sofrido. Eu não sei dizer exatamente qual era a origem de sua tristeza. O Hollanda interiorizava demais as coisas e acabou chegando ao suicídio. Acho que foi porque interiorizou seus problemas a tal ponto que não aguentou mais e “fechou a caixa”.

E antes dele conseguir finalmente, tinha tentado suicídio outras três vezes.
Sim, exatamente.

Eu entrevistei o Hollanda em 1997, junto do meu coeditor Marco Antonio Petit. Tinha acabado de dar uma entrevista ao Fantástico, falando sobre documentos da Força Aérea Brasileira, e ele assistiu e me ligou no dia seguinte, dizendo: “Olha Gevaerd, eu acompanho o seu trabalho e sei que você está fazendo a coisa certa. Quero dizer que estou na reserva agora e não tenho mais compromisso com a farda. Então, se você quiser vir ao Rio me entrevistar, terei muita coisa para falar”. Eu fui imediatamente ao Rio, encontrei o Petit e fizemos juntos uma entrevista histórica com ele. O senhor já leu esta entrevista?
Sim, claro. Eu tenho uma cópia dela e também já a encontrei em muitos sites. É uma entrevista longa, que eu li com atenção. Outro dia, um colega da minha turma me passou uma cópia dela e eu disse a ele: “Cara, você acha que eu não tenho isso? Tenho uma cópia aqui há muito tempo!”

É mesmo? Que bom! Então, presumo que militares graduados, como o senhor, possam ter tomado conhecimento das declarações do Hollanda.
Sim, certamente. É uma entrevista longa e muito conhecida. Agora, o Hollanda era um homem realmente conturbado. Ele teve problemas no primeiro casamento, problemas psicológicos sérios. Hoje talvez ele fosse definido por um psiquiatra como tendo um comportamento bipolar, que antigamente se chamava condição psicótica maníaco-depressiva. Mas eu digo que não era isso. Um cara que sofre de comportamento bipolar alterna momentos de euforia e de depressão, e o Hollanda não tinha isso. Ele tinha, isso sim, uma personalidade constantemente introspectiva.

O senhor acha que esses problemas influenciaram de alguma forma nas declarações que o coronel Uyrangê Hollanda nos deu sobre a Operação Prato? Que modificaram alguma coisa que ele relatou à Revista UFO?
No conteúdo não, mas na forma, talvez. O Hollanda era um homem sério e não seria capaz de alterar um conteúdo, ainda mais daquela importância.

Li com atenção a entrevista que a Revista UFO fez com o coronel Uyrangê Hollanda, ainda em 1997. O que ele relatou à publicação é verdade. O Hollanda era um homem sério e não seria capaz de alterar um conteúdo, ainda mais daquela importância.

Ele tinha uma memória aguçadíssima e chegou até a descrever minuciosos detalhes da Operação Prato, assim como de sua vida militar.
Acredito. Como todas as pessoas sofridas, que também têm memória aguçada. Já notou isso? Por que as pessoas são sofridas? Justamente porque têm memória aguçada. Elas se lembram! Se ele fosse meio baiano, assim como eu, era só pensar “eu quero esquecer esse negócio”, e bastaria para ser mais feliz. Mas ele não, ele lembrava mais da metade da sua infância.

O senhor tem razão. Quando eu e o Petit o entrevistamos, a primeira coisa que notamos foi que o Hollanda era um homem sem amigos, e isso nos aproximou bastante. Passamos a ser amigos e a apresentá-lo a todas as pessoas de nossa comunidade, tanto que ele começou a frequentar a Ufologia Brasileira e até a fazer palestras em congressos. Mas, infelizmente, entre a entrevista que fizemos e sua publicação na UFO, ele acabou se suicidando...
A tristeza que ele sentia era uma coisa muito comum na Aeronáutica, naquela época. Eu acho que tem a ver com o fato de que ele tentou ser aviador, mas não foi. Isso ocorria a muita gente, que entrava para a instituição querendo voar, mas acabava na intendência [Serviços internos, burocráticos]. Há milhares de casos assim, mas hoje isso mudou. Antigamente, o cadete entrava para ser aviador e era aproveitado na intendência, e isso acabou criando uma geração de pessoas frustradas, que carregavam a frustração por toda a vida.

Como isso mudou?
O que se faz hoje é diferente. O jovem que quer ingressar na Aeronáutica já define para que setor quer ir. Uns querem ser tenentes, e não aviadores. Outros querem ser administradores. Eles fazem cursos e já são direcionados para as áreas de suas preferências, e então tentam atingir seus objetivos. Assim, não fica mais aquela coisa ruim para a pessoa que não deu certo em uma coisa e tem que ir para outra. Como ocorreu ao Hollanda, que tinha uma frustração profunda por não ter sido aviador. E ele nunca se conformou com isso, porque o trabalho de um oficial intendente na Aeronáutica, ou em qualquer das Forças Armadas, é massacrante. Especialmente se você não gosta dele. Pô, o cara queria ser aviador, ser piloto de caça, estar no céu enfim, mas, ao invés, ele se vê trancado em um escritório cuidando da administração, que é pesada. Quem gosta disso?