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Revista UFO | Edição 70 | 01 de Março de 2000

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CONTATO IMEDIATO

Urandir processa o editor da Revista UFO

No mês de fevereiro passado, o Brasil inteiro acompanhou uma série de reportagens em que se viu algo que já prevíamos há muito tempo: o esquema montado pelo suposto paranormal Urandir Fernandes de Oliveira ser denunciado por ufólogos atentos e algumas das muitas vítimas de suas infundadas alegações. Em matérias levadas ao ar pelo programa Fantástico, de 30 de janeiro e 06 de fevereiro, e em artigo publicado pela revista Istoé, de 02 de fevereiro, a mais polêmica e combatida figura já surgida na Ufologia Brasileira foi simplesmente desmascarada. E na tarde de 02 de fevereiro, no programa Paulo Lopes na TV, da Rede Bandeirantes, um debate entre o suposto paranormal e o editor de UFO A. J. Gevaerd esquentou ainda mais a polêmica.

O editor mais uma vez – agora com muito mais incisividade – lançou a Urandir o desafio que lhe fora desferido através de UFO 56, de janeiro de 1.998. Para garantir caráter oficial ao desafio, registrou-o no 4° Cartório de Registro de Títulos e Documentos de Campo Grande (MS), em 08 de fevereiro passado. E novamente, através de variados veículos da Imprensa brasileira, Urandir não aceitou a disputa e sequer dispôs-se a falar do assunto. No programa Paulo Lopes na TV, Gevaerd chegou a insistir para que o suposto paranormal não somente aceitasse a contenda, cujas condições são plenamente favoráveis a ele, como também que definisse a data de sua realização. Urandir disfarçou e desconversou, mas não aceitou submeter-se ao crivo da Ufologia Brasileira.

O desafio, por sinal, é bastante claro: como alega ser capaz de atrair naves extraterrestres e conversar com seus tripulantes, a quem chama de amigos, à hora que bem entende, bastaria que ele tentasse fazê-lo e lograsse êxito. Urandir teria três oportunidades distintas para tentar a façanha, para aumentar as possibilidades de conseguir fazer baixar um UFO e dialogar com os ufonautas. Nem assim ele aceitou o desafio, talvez porque o editor exigisse, como sua única condição, que pudesse estar acompanhado de ufólogos, jornalistas e oficiais de várias forças policiais, para que todos possam isentamente atestar a capacidade do suposto paranormal de realizar aquilo que alardeia. Como resultado de tamanha agitação na Imprensa, a saída encontrada por Urandir foi processar Gevaerd através de uma ação cível e outra criminal, impetradas no Fórum de Campo Grande. Assim, iniciou-se uma nova fase nesta disputa, tendo o alegado contatado encontrado neste ato algo que pudesse, pelo menos por enquanto, calar as críticas e denúncias cada vez mais fortes e veementes que o editor vinha lhe fazendo.

Urandir tenta calar a Revista UFO movendo ações judiciais. Mas isso não nos impedirá de continuar expondo seus truques
- Rafael Cury

A estratégia de Urandir pode ser vista como uma espécie de intimidação, cujos objetivos, no entanto, estão longe de ser alcançados. O editor de UFO não somente não se calará diante do processo, como vê nestas ações a chance de tornar o debate público e em foro apropriado. “Iremos apresentar um rol de provas e testemunhas que mostram que Urandir se utiliza da Ufologia para atrair as pessoas e enganá-las com truques simplórios”, garante Gevaerd. Através de seus advogados, Urandir, que alega também ter dons para curar câncer e ressuscitar pessoas, quer que o editor desta revista prove tudo o que afirmou.

Ou seja, quer que prove que está falando mentira e que ele é absolutamente incapaz de fazer baixar qualquer nave extraterrestre, em momento algum. Ora, isso será absolutamente simples, pela simples exceção da verdade. É ele quem afirma ser capaz de fazer tais peripécias. Nós, ufólogos, apenas nos reservamos o direito de não crer em suas alegações e, quando consultados pelo público ou a Imprensa, de dizer o que achamos. Gevaerd foi além: disse que não apenas não crê que Urandir seja capaz de atrair UFOs e conversar com ETs, mas que tem certeza dessa impossibilidade! E disso também tem certeza a esmagadora maioria da Comunidade Ufológica Brasileira. Para convencer-nos do contrário, Urandir vai ter que aceitar o desafio.

O direito da crítica científica aos supostos paranormais e improváveis contatados por ETs

Fenômenos ufológicos e paranormais, por não serem aceitos nos meios acadêmicos, estão sujeitos a embustes e enganos. De seus aspectos fantasiosos e extraordinários, a Ciência ainda não encontrou razões para incorporá-los ao conhecimento. O maior motivo disso é a incursão de pessoas não comprometidas com um mínimo de metodologia e, pior, dos que desejam aproveitar-se do interesse público por tais fatos. Há os que se dedicam a tais estudos, mesmo contando com metodologia precária. O papel desses “paracientistas”, como são apelidados pelos acadêmicos, é o de tentar convencer a Ciência de que o fenômeno merece estudo.

Os fatos ufológicos já foram satisfatoriamente provados, ainda que sua origem careça de estudo mais aprofundado. Isso causa uma divisão. Por um lado estão os ufólogos, cuja atuação é alertar as áreas do conhecimento acadêmico. E, do outro, aqueles que são crentes nos aspectos transcendentais dos fatos e seus valores místicos. Tome-se o exemplo das seitas que pululam no mundo e no Brasil, envolvendo discos voadores. Mas há ainda uma terceira categoria no meio ufológico: a dos aproveitadores e farsantes. São facilmente detectáveis, pois tentam singelamente substituir o papel de antigos profetas e fazer as vezes de modernos gurus. Estes têm nefasta influência sobre o difusão da Ufologia, que está no meio desse tiroteio. Sua linha é atacada pelos que cultuam o fenômeno no papel de adoradores, que criticam um posicionamento científico quanto ao assunto.

Os centros acadêmicos também atacam os ufólogos sérios, confundindo-os com aqueles que representam os conhecidos grupos que levantam cartazes do tipo “bem vindos irmãos do espaço” ou “o arrebatamento está próximo”, retratados em filmes como Independence Day. É direito dos adeptos dessa linha assim atuarem, mas são exatamente eles que vêm alimentando aquela terceira categoria, a dos aproveitadores, que são um dos alvos prioritários da linha objetiva da Ufologia. Desmascará-los, apontar suas farsas e a de seus comparsas, seus métodos com canetas a laser e lanternas, etc, embaça completamente o lado sério do fenômeno ufológico. Ademais, quem se dispõe a fazer afirmações públicas, alardeando alegados poderes e influenciando milhares de pessoas, deve ter consciência de que é passível de crítica.

Crítica a supostos paranormais e auto assumidos contatados por extraterrestres, em programas de TV, revistas ou mesmo em conferências, enfocando o Fenômeno UFO, é legítima e amparada pelo bom senso

A Lei Penal no Brasil ainda prevê ilícitos afetos ao exercício ilegal da Medicina, quando tais pessoas extrapolam a mera questão ufológica e anunciam curas legadas por ETs, evidentemente muito bem cobradas. Trata ainda do charlatanismo, quando seus meios são desconhecidos e misteriosos, não demonstrados e não reconhecidos. Ao serem criticados quando assim agem, não são considerados vítimas de difamação e injúria, porque o inciso II do artigo 142 do Código Penal dá como exclusão do crime a opinião desfavorável da crítica literária, artística ou científica. Criticar algo, seja o próprio fenômeno ou os métodos, bem como linhas adotadas de pesquisa, seu entendimento e expressão, é comentar, sugerir, analisar principalmente os atos, a metodologia, os parâmetros e as bases do pensamento.

Nos dizeres do renomado professor Antonio Xavier Teles, uma posição crítica significa “...um exame a partir de seus fundamentos. Na atitude crítica, o pensamento procura aplicar-se aos processos, aos fundamentos do próprio conhecimento para explicitar os pressupostos lógicos – de verdade, de coerência, de não-contradição” [Introdução ao Estudo de Filosofia]. Já o jurista Aníbal Bruno alerta que “...a segunda causa excludente de crime é a opinião desfavorável da crítica literária, artística ou científica. Tutela-se o elevado interesse da cultura, que é o resguardo da liberdade de crítica em relação às ciências, artes e letras, indispensável ao aperfeiçoamento dessas manifestações do espírito”. Um ator, pintor ou escritor, por exemplo, que apresente sua obra ao público, expõe-se ao risco da crítica, ao risco profissional.

Qualquer um que se intitule um provocador de fenômenos extraterrestres está ainda mais sujeito à crítica, mesmo rígida ao extremo, porque anuncia absurdos e geralmente se recusa a prová-los. A Ciência é um sistema de proposições rigorosamente demonstradas, constantes, gerais, ligadas entre si pelas relações de subordinação relativas a seres, fatos e fenômenos da experiência. Apoiada na demonstração e experimentação, só aceita o que foi provado.

Inconformados quando criticados, alguns desses falsos contatados tentam convencer-nos de que foram moralmente atingidos, apesar de cientes da inverdade de seus alegados e improváveis fenômenos. Recusam-se, no entanto, a demonstrar a realidade das manifestações de suas naves espaciais ou de suas supostas energias. Porém, as críticas que sofrem não atingem sua integridade moral. Afinal, ao afirmar incitar contatos com ETs deve-se estar cônscio de críticas. Ninguém que assim lide pode dar-se ao luxo de se sentir tão rápida e ferrenhamente ferido em sua honra, credibilidade ou auto estima.

O grande jurista Nelson Hungria impulsiona os ufólogos a uma realista situação: “Quem sai da retrocena e surge na ribalta, é para receber aplausos ou apupos. O desfavor da crítica é um risco profissional. Ainda mesmo que se manifeste em termos ásperos, sarcásticos, mormente irônicos, não incide na sanção penal” [Comentários ao Código Penal]. Como se vê, a crítica é rígida. À luz da objetividade, portanto, no máximo o alerta desferido pela Ufologia pode ser interpretado como uma postura atrelada ao trabalho daquele que se diz ofendido. Assim, observa-se que a crítica a supostos contatados em programas de tevê, revistas ou conferências – todos enfocando Ufologia – é legítima e amparada pelo bom senso.
– Ubirajara Franco Rodrigues, co-editor e advogado


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