Ufologia, Ciência e Ficção

Novas Toadas para um Planeta Vermelho

Por A. J. Gevaerd | 13 de Março de 2013

Créditos: Lorem Ispun

“Talvez haja grandes formas de vida em Marte, mas não nos dois locais de pouso (das sondas Viking). Talvez haja pequenas formas de vida em cada rocha e em cada grão de areia. Na maior parte de sua história, as regiões da Terra não cobertas por água pareceram bastante com as do Marte atual...”. Carl Sagan, Cosmos, Francisco Alves, 1985.

A citação acima e o próprio título deste texto são uma pequena e modesta homenagem ao maior divulgador da Ciência em todos os tempos, o saudoso Carl Sagan. No capítulo 5 de sua obra-prima, Cosmos, intitulado precisamente “Toadas para um Planeta Vermelho”, ele traça um pequeno histórico da verdadeira paixão humana por Marte, além de descrever detidamente os impressionantes resultados da Missão Viking da NASA, que ali pousou em 1976.

É fundamental fazer neste momento um rápido flashback a respeito da exploração humana de Marte, a fim de compreendermos melhor as extraordinárias implicações do histórico anúncio da NASA, ocorrido no último dia 12 de março de 2013, de que o planeta já possuiu condições de abrigar vida no passado. De fato, os cientistas admitem inclusive que Marte pode ter sido habitável antes de a Terra, mas disso falaremos em breve.

O planeta vizinho chamou a atenção da humanidade no momento em que esta olhou para os céus e percebeu sua cor vermelha, associando-o ao sangue e a guerra. Não por acaso os romanos o batizaram de Marte, o deus da guerra. Por séculos especulou-se a respeito dele, e em um dos momentos mais importantes da história da Ciência, foram graças as observações cuidadosas da órbita de Marte por Tycho Brae que Johannes Kepler pôde elaborar suas Três Leis do Movimento Planetário, a primeira explicação dos céus que não se baseava em misticismo e superstições. Hoje o telescópio espacial Kepler da NASA, o mais bem sucedido instrumento caçador de planetas que temos, leva merecidamente o nome do sábio.

Marte voltou a chamar a atenção do mundo com a obra de Ficção Científica de H.G. Wells, A Guerra dos Mundos. A trama assustadora relatava uma invasão marciana contra a Terra, que assistia impotente a derrota de seus exércitos e a destruição da civilização, até que os marcianos foram derrotados pelos germes terrenos. A obra foi adaptada ao cinema em 1953 e em 2005, mas a mais famosa interpretação sem dúvida ocorreu em 1938, quando uma transmissão radiofônica feita pelo depois famoso cineasta Orson Welles causou pânico nos Estados Unidos. Existe inclusive uma versão em português feita pela Rádio USP.

Quase contemporâneas foram as idéias de Percival Lowell, que inspirado pela descrição do astrônomo italiano Giovanni Schiaparelli de “canali” em Marte, dedicou sua vida a provar que o planeta abrigava uma civilização decadente. Schaparelli descreveu linhas retas cruzando-se por quase todo aquele mundo, e Lowell foi mais além, confeccionando uma série de mapas e globos marcianos para comprovar que os seres inteligentes tentavam, através de uma rede imensa de canais, levar a escassa água das calotas polares marcianas para suas sedentas cidades.

O Lowell Observatory foi o resultado da paixão de Percival Lowell, mas infelizmente jamais os canais marcianos foram comprovados. Por incrível que possa parecer, as idéias a respeito de um Marte aprazível para a vida permaneceram até o princípio da Era Espacial, e o próprio Carl Sagan afirmou como as histórias das Crônicas Marcianas, de autoria de Edgar Rice Burroughs, o haviam inspirado quando criança. Daí a decepção sentida quando chegaram as primeiras fotos próximas do planeta, obtidas pela sonda Mariner 4 em julho de 1965. Marte parecia então um mundo morto pontilhado de crateras, como a Lua.

Entretanto, em 13 de novembro de 1971 a Mariner 9 tornou-se a primeira nave terrestre a orbitar Marte, fotografando todo o planeta e revolucionando nosso entendimento a seu respeito. Pela primeira vez tornaram-se evidente os cânions marcianos, tal como o colossal Valles Marineris que foi batizado em honra a essa sonda (que aliás, mesmo desativada permanece lá em órbita). Ficou comprovado que o passado marciano havia sido bem mais interessante que seu árido presente.

Para conhecer de maneira mais completa o planeta, era óbvia a necessidade de se descer ali. Foi isso que a NASA conseguiu, pela primeira vez na história, com as Viking 1 e 2, respectivamente em 20/07/1976 (planície de Chryse), e 03/09/1976 (planície de Utopia). Cada veículo também possuía um orbitador que permanecia circulando o planeta, mas foram de fato os módulos de pouso ou landers que obtiveram os resultados mais impressionantes. As Viking foram a primeira busca científica por vida extraterrestre realizada em outro mundo.

Cada lander realizou vários experimentos a fim de detectar microorganismos marcianos, e de forma impressionante, criando uma polêmica que persiste até os dias de hoje, dois dos experimentos deram resultado positivo. Um caldo de nutrientes levado pelas naves foi quebrado quimicamente por algo no solo, produzindo resultados medidos pelos sensores. E no segundo experimento, gases terrestres se combinaram a alguma coisa nas amostras do solo de Marte, gerando matéria orgânica nos gases emitidos. Poderia haver marcianos microscópicos realizando fotossíntese ali.

Infelizmente, com exceção de clorometano e diclorometano (lembrem-se destes compostos), as Viking não encontraram qualquer outro sinal de elementos de química orgânica no solo marciano. Assim, conforme Sagan descreve em Cosmos, os resultados foram atribuídos à complexa química do muito reagente solo marciano. Por cima, a ausência de uma camada de ozônio e de de um campo magnético no planeta significa que a radiação solar destruiria qualquer microorganismo exposto na superfície.

Entretanto, o próprio Carl escreveu: “Os resultados têm sido torturantes, perturbadores, provocativos, estimulantes e, pelo menos até pouco tempo, substancialmente inconclusivos”. Tão inconclusivos que o grande divulgador científico, mesmo já hospitalizado poucos meses antes de seu falecimento, em 1996, aplaudiu os resultados das pesquisas da NASA sobre o meteorito ALH 84001, anunciado em agosto de 1996 como possuindo fósseis de bactérias marcianas em seu interior. Sagan disse que, se confirmada, seria uma das mais significativas descobertas de todos os tempos.

Antes de prosseguir, é interessante responder a algumas questões que frequentemente aparecem, vindas tanto de pessoas legitimamente interessadas no assunto quanto de, infelizmente, mistificadores e detratores da Ciência: por que buscar a água? Qual a razão de buscar uma vida similar a nossa? Por que limitar-se a “reles” microorganismos? Em primeiro lugar, os elementos constituintes da vida na Terra, carbono, hidrocarbonetos, nitrogênio, e mesmo a água, são abundantes no universo, e existem em Marte. Vejam aqui e aqui, por exemplo, que já existia água no universo há 11,1 bilhões de anos (Terra, Marte e o sistema solar foram formados há 4,5 bilhões de anos). Logo, resta evidente que teremos uma facilidade muito maior de identificar um tipo de vida previamente desconhecido se esta se basear nos mesmos elementos que nós mesmos. E a respeito de microorganismos, a própria Terra, por 3 bilhões de anos ou mais de três quartos de sua existência, foi dominada exclusivamente por micróbios. Os primeiros seres multicelulares terrestres surgiram há 700 milhões de anos, um longo tempo transcorrido desde o surgimento da vida, que pelas informações mais recentes surgiu aqui há 3,8 bilhões de anos.

A noção de que microorganismos não são importantes é totalmente equivocada, pois o mecanismo da evolução não implica automaticamente em seres mais complexos, sequer mais inteligentes. De maneira alguma nós, seres humanos, somos o ápice ou o objetivo final da evolução da vida na Terra! A definição de evolução é adaptar-se ao meio com o fim de sobreviver, e a Biologia conhece inúmeros exemplos de seres que, ao longo da evolução, tornaram-se mais simples. Portanto, resta evidente que temos, sim, que aplaudir os esforços da NASA e outras agências espaciais, que já realizaram fatos extraordinários e descobertas que já fazem parte dos livros de história! Para maiores esclarecimentos sobre evolução e vida terrestre e extraterrestre, em termos de Ciência e Biologia, recomendo o excelente blog Pegadas de um Dinossauro do Século XXI.

A missão Mars Pathfinder, que operou em Marte entre 04/07/1997 e 27/09/1997 envolveu o Sojourner, primeiro veículo a rodar em outro planeta, em um teste de novas tecnologias, tais como o pouso amortecido por air bags. Em honra ao grande incentivador da busca por vida extraterrestre, o local onde o Pathfinder está foi batizado como Carl Sagan Memorial Station, e foi recriado digitalmente no seriado Star Trek Enterprise. O aprendizado levou ao lançamento, em 2003, dos Mars Exploration Rovers, Spirit e Opportunity.

A fim de serem encaixados no mesmo módulo de pouso com air bags do Pathfinder, os novos e maiores rovers eram dobrados, e se desdobravam após a aterrissagem em Marte. De 04/01/2004 a 22/03/2010, quando cessaram as comunicações, o Spirit explorou a Cratera Gusev e arredores, e graças ao imprevisto de um problema na roda dianteira direita, encontrou um local com sílica, formada em ambiente vulcânico imerso em água. Na Terra um ambiente assim é um autêntico viveiro de microorganismos.

O Opportunity, por sua vez, pousou em 25/01/2004 e até hoje continua sua épica exploração marciana, ultrapassando de longe a duração estimada da missão dos dois robôs, que era de somente 90 dias. Quando constatamos que, movido a energia solar tal como seu gêmeo Spirit, o Opportunity sofreu diversas vezes com tempestades de areia que chegaram a cobrir seus painéis solares, causando severos problemas de energia, a sobrevivência e longevidade dessa extraordinária máquina é prova da imensa perícia da NASA e de seus técnicos. Com 35.615,79 metros rodados, é de longe o recordista de quilometragem em outro planeta, aproximando-se do rover soviético Lunokhod 2, que percorreu 37 km na Lua em 1973.

Ambos os MERs comprovaram, além de qualquer dúvida, que vastas regiões em Marte estiveram cobertas por quantidades imensas de água líquida há milhões de anos. Os rovers encontraram rochas que foram roladas em cursos de água, elementos químicos produzidos em ambiente aquoso tal como a clorina, e indícios de uma praia de um mar salgado. Atualmente o Opportunity explora a grande Cratera Endeavour, após uma épica viagem de mais de 18 meses.

Atualmente a NASA mantém duas naves em órbita de Marte, a Mars Odissey, lançada em 07/04/2001, e batizada em honra a Arthur C. Clarke e sua mais conhecida obra, 2001: Uma Odisséia no Espaço (que também é mais longa missão orbital no planeta); e a Mars Reconnaissance Orbiter ou MRO. Ambas servem também como satélites de comunicação para as sondas de pouso. Igualmente a Agência Espacial Européia (ESA), conduz a missão Mars Express em órbita. Os maiores destaques dessas naves foram locais propícios a vida fotografados pela MRO, incluindo ladeiras onde pode fluir água líquida em determinadas ocasiões durante o ano marciano, e a detecção de metano na atmosfera de Marte pela Mars Express.

Esta descoberta, também controversa, é importante pois tal emissão de metano é sazonal, sempre no verão no planeta, e também pela comprovação de que é um processo contínuo que tem reposto este gás extremamente volátil. A gravidade marciana é fraca para reter o metano, e as condições no planeta logo o decompõe. Algo está repondo o metano, e novamente devemos nos voltar para a Terra como exemplo. Aqui esse material é produzido pela geologia e pela atividade biológica. Contudo Marte não possuir vulcões ativos ou placas tectônicas, e depósitos subterrâneos de metano não poderiam explicar as grandes quantidades detectadas. Ainda é um mistério a ser desvendado, pelas atuais ou futuras missões.

A sonda Phoenix, que pousou no pólo norte de Marte em 25/05/2008 e operou até 10/11/2008, pela primeira vez tocou a água de Marte, abrindo pequenas valas no solo com seu braço mecânico e fotografando o gelo sublimando logo abaixo da superfície. Mais impressionante, e igualmente polêmicas, são as imagens de seu trem de pouso, cujas traves parecem cobertas por gotas de água líquida. Outro ponto alto da missão foi a descoberta de perclorato. A importância desse composto está no fato de microorganismos terrestres consumirem perclorato e produzirem clorometano e diclorometano. O que recomendei aos ilustres leitores parágrafos acima? Quais foram os compostos encontrados pelas Viking? Estes mesmos clorometano e diclorometano!

Vale a pena retornar um pouco no tempo, até agosto de 1996, “coincidentemente” poucos meses após o Caso Varginha, e lembrar a respeito do anúncio de fósseis de bactérias marcianas no meteorito ALH 84001. Em 06/08/1996, a NASA anunciou sua existência, defendendo que ele prova a existência de vida em Marte há bilhões de anos. O meteorito foi atirado ao espaço por um impacto há 15 milhões de anos, e caiu na Antártida 13.000 anos atrás. A afirmação de que contém provas químicas de vida e mesmo fósseis de nanobactérias marcianas causa polêmica na comunidade científica até hoje. Com técnicas atuais não disponíveis em 1996, comprovou-se a existência de carbonato e magnetita quase puros, e compatíveis com a existência de vida.

Finalmente, em 26 de novembro de 2011, foi lançado o robô de exploração mais capaz já enviado a Marte. Apropriadamente batizado como Curiosity, é também o maior veículo a rodar em outro mundo (e também mais pesado, com perto de uma tonelada), bastando conferir nesta imagem, com dois engenheiros da NASA ao lado de réplicas do próprio Curiosity, de Spirit e Opportunity, e do pioneiro Sojourner. A complexa operação de pouso, em que o casulo de proteção térmica é ejetado após a entrada na atmosfera marciana, seguindo-se a desaceleração com paraquedas, depois um voo com foguetes e por fim a descida com o guindaste aéreo, foi apropriadamente chamada de “7 minutos de terror”. Não há comunicação nesse momento com a Terra, e mesmo se houvesse seria inútil devido a distância entre os mundos (um sinal de rádio leva mais de 20 minutos entre Marte e Terra, e depois outros 20 minutos para a resposta chegar lá), resultando que os computadores precisam fazer tudo sozinhos. Todos os vários componentes envolvidos nesse pouso nunca foram testados em conjunto, e a operação bem sucedida, ocorrida em 05 de agosto de 2012, é mais uma vez a comprovação da perícia, dos conhecimentos e do talento das pessoas dentro da NASA.

No site de UFO continuaremos seguindo a missão do Curiosity, e já publicamos além de um artigo meu na edição 193 vários textos com suas atividades e descobertas, entre eles:

Curiosity opera bem após pousar em Marte

Local de pouso do Curiosity batizado como Terra de Bradbury

Rover Curiosity encontrou um antigo canal de água em Marte

Curiosity encontra compostos orgânicos em Marte

Marte teve condições de abrigar vida

E chegamos com este último link ao ponto crucial deste artigo. A histórica descoberta realizada pelo Curiosity, comprovando a existência em Marte, hoje, de compostos essenciais à vida como conhecemos, a saber enxofre, nitrogênio, hidrogênio, oxigênio, fósforo e carbono, levaram os especialistas da NASA a afirmar: \"As amostras analisadas pelos instrumentos a bordo do Curiosity mostram que o antigo Marte pode ter abrigado microorganismos\". Ainda mais, Michael Meyer, cientista líder do Programa de Exploração de Marte da NASA, disse: \"Uma questão fundamental para esta missão é se Marte pode ter sido habitável. E pelo que sabemos hoje, a resposta é sim\". Outra importante declaração foi: “Os cientistas estão surpresos por encontrar uma mistura de elementos químicos, oxidados, parcialmente oxidados e mesmo não oxidados, provando a existência de um gradiente de energia semelhante ao que muitos microorganismos da Terra exploram para viver”.

Como apresentado, encontrar mesmo um micróbio marciano seria uma das mais profundas descobertas de todos os tempos. Carl Sagan afirmou em Cosmos que essa descoberta levaria a conclusão de que uma biologia independente da nossa em um planeta próximo é um tesouro incalculável, e preservar essa vida teria prioridade sobre qualquer outro uso de Marte. Os mistificadores e detratores fazem pouco do esforço da raça humana da qual fazemos parte, porém a verdade evidente é que a Ciência tem avançado muito mais rapidamente nos últimos temos que a Ufologia.

Além da suprema incoerência de usar a Internet, computadores e celulares produzidos pela Ciência para criticar essa mesma Ciência, esses promotores da ignorância e mediocridade sequer conseguem enxergar a imensa possibilidade que esse anúncio histórico abre. Pois graças aos mesmos tão absurda e injustificadamente métodos da Ciência, sempre se reinventando e se reconstruindo, as descobertas do Curiosity tornaram obrigatório um novo exame de todos achados anteriores! Além disso, uma questão primordial igualmente começa a ser feita: se Marte foi habitável, significa que pode ter abrigado vida. Onde está essa vida hoje?

Por exemplo, os resultados expostos acima, do metano encontrado pela Mars Express da ESA, podem significar que essa vida ainda existe hoje em Marte? Que tal os achados das Viking e da Phoenix? Percebem que o Curiosity pode ter encaixado a última peça que faltava no complexo e fascinante quebra-cabeça da busca por vida em Marte?

Encerro este longo e detalhado artigo por aqui, esperando que os caros leitores visitem os links apresentados e destacados, e possam formar o retrato mais amplo possível da exploração humana de Marte. Um esforço de várias décadas que nos enche de orgulho, e cujos impressionantes resultados vão se avolumando a cada nova missão, todos parecendo apontar em uma só direção: a existência de vida em um planeta vizinho que sempre habitou a imaginação e os sonhos da humanidade. Mesmo se os marcianos forem micróbios, encontrá-los será sem sombra de dúvida o momento mais importante de nossa história, e que pode estar muito perto de acontecer.

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Em 23 de março próximo, será realizada mais uma edição do Dia do Fã, e para maiores informações confiram meu blog Escritor com R ou cliquem aqui.

Sobre o Autor

A. J. Gevaerd

Ufologia e dois dos mais importantes aspectos a ela ligados, a Ciência e a Ficção.