ARTIGO

Urandir Fernandes de Oliveira: do charlatanismo ao estelionato

Por A. J. Gevaerd | Edição 71 | 01 de Maio de 2000

Urandir na Cadeia, enquanto cumpria mandado de prisão expedido por uma juíza gaúcha: estelionato e falsidade ideológica
Créditos: foto extraída da televisão

Urandir Fernandes de Oliveira: do charlatanismo ao estelionato

Há três anos a Revista UFO vem noticiando com regularidade a inesgotável capacidade de fabricação de fatos ufológicos do auto intitulado contatado Urandir Fernandes de Oliveira, hoje o mais notório de todos os personagens que já foram combatidos pela Comunidade Ufológica Brasileira. As atividades do referido cidadão, que é fundador do Projeto Portal, foram iniciadas há cerca de sete anos e podem ser caracterizadas como o mais fantasioso e maldosamente criado repertório ufológico já montado em qualquer parte do mundo para que se aufiram benefícios pessoais às custas do Fenômeno UFO. Agora, viraram também caso de polícia.

Urandir foi algemado e preso em Porto Alegre (RS), em 26 de março passado. Sua prisão provisória foi decretada pela juíza de plantão e cumprida pelos policiais da 17ª Delegacia de Polícia Distrital daquela cidade. Pesam contra ele inúmeras acusações, entre elas as de curandeirismo, charlatanismo, estelionato e falsidade ideológica. Por não ter residência fixa nem profissão definida, e por sua facilidade de locomoção e possibilidade de eventual fuga, a juíza entendeu que Urandir deveria ficar à disposição da Justiça para que se esclareçam os fatos pendentes sobre ele. O estopim da prisão foi aceso pelo advogado gaúcho Nicolau Borges Lütz Netto, representante de inúmeras vítimas de Urandir, que adquiriram do improvável contatado terrenos frios em um loteamento que chama de “Cidade dos ETs”. Lütz Netto tentou negociar com o preso amigavelmente, na expectativa de vê-lo ressarcir as pessoas que adquiriam as terras ilegais, sem escritura nem qualquer outra forma de documentação legal apropriada. Urandir ignorou as solicitações, zombou da Justiça e, em questão de horas, foi detido.

Cidade dos ETs – O referido cidadão, como bem sabem os leitores de UFO, alega aberta e descaradamente ter poderes especiais, a ele conferidos por seres extraterrestres, para atrair naves e fazê-las pousar em sua propriedade em Corguinho, município a 70 km de Campo Grande (MS). É lá que funciona seu projeto e onde se situa a imaginária Cidade dos ETs. Suas alegações, no entanto, não encontram o mínimo respaldo na realidade, já que jamais ele teria realmente conseguido o feito diante de pessoas que tivessem capacidade de distinguir o efetivo pouso de uma nave alienígena de manobras com canetas a laser e faróis de milha, instrumentos que ele e seus funcionários utilizam – entre outros – para iludir as dezenas de milhares de pessoas que o procuram. É esse expediente queUrandir usa para atrair a atenção de seus seguidores e entusiasmá-los a adquirir os lotes ilegais. Muitos já o fizeram.

Entre as afirmações mais absurdas e descabidas do suposto paranormal, que vem se safando a submeter-se a uma análise e pesquisa rígidas em torno de seus alegados poderes, está um emaranhado de mentiras mais ou menos lesivas aos seus seguidores, em especial, e à Ufologia Brasileira em geral. Em programas de cunho popularesco, como o infame Brasil Verdade, já extinto, ou o Programa do Ratinho, Urandir garantiu ter a capacidade de falar em idiomas de extraterrestres. Também afirmou efetuar viagens a outros mundos a hora em que bem entendesse. Por fim, completando seu fabricado repertório, insistiu para o fato de que ele próprio seria um ser alienígena encarnado na Terra, cuja missão seria alertar a Humanidade e salvar alguns de seus membros. É claro que se salvariam preferencialmente os moradores da sua cidade extraterrestre...

Enquanto que suas colocações não passam de subterfúgios para amealhar alguns pontos no Ibope desses programas e até certo ponto são inofensivas para a população brasileira, algumas das declarações e atos que desenvolveu após lograr a notoriedade e o conhecimento nacional são motivo de preocupação e constituem graves agressões à lei e à moralidade, como agora se comprovou. Entre tais declarações, Urandir passou a garantir a seus seguidores – e com isso angariou ainda mais adeptos – ser capaz de curar quaisquer tipos de enfermidades que tenham, até as mais graves, como câncer, leucemia e até AIDS. Alega o improvável contatado ser possível que, apenas com o toque de suas mãos, consiga extrair tumores cerebrais de pessoas desenganadas da morte.

Não satisfeito com tamanhas inverdades, Urandir publicou em seu site na Internet, estrategicamente retirado do ar após a denúncia que este autor fez no programa Paulo Lopes na TV, da Rede Bandeirantes, em 02 de fevereiro passado, ser capaz de ressuscitar pessoas, trazendo-as do que chama de quarta dimensão. Urandir chegou a anunciar tal feito em seus inúmeros cursos pelo Brasil afora, conforme documentado em vídeo pela Revista UFO. Em certos eventos que realizou, o referido cidadão explica como é capaz de tal façanha e alega que recebeu o poder de reviver pessoas diretamente de seus amigos extraterrestres. Suas alegações e práticas, como se vê, são nitidamente escusas e altamente reprováveis. Mas ainda assim Urandir conseguiu atrair cerca de 78 mil brasileiros, que é a conta dos seguidores que amealhou em seus anos de atividades, a quem ilude sistematicamente.

A prática de charlatanismo e curandeirismo está claramente tipificada nas ações que Urandir realiza impunemente há pelo menos quatro anos. Nesse período, milhares de pessoas com as mais diversas – e às vezes graves – enfermidades a ele acorreram buscando ingenuamente alívio para seu sofrimento. Ninguém foi atendido de graça, e ainda que pagando – e bem – pelo curandeirismo, ninguém jamais foi curado de coisa alguma. Há casos, no entanto, de pessoas que foram orientadas por Urandir a encerrar o uso de medicamentos após terem sido tratadas por ele, e por isso tiveram seus problemas agravados. O suposto paranormal vê isso com naturalidade. “Para ser curado, você tem que ter boa energia e estar em sintonia com os extraterrestres”, afirmou Urandir a Maria das G. S., de Novo Hamburgo (RS), que pagou R$ 300,00 por uma consulta e continua até hoje com suas terríveis dores de cabeça.

O menor Afonso C. N. foi levado no colo por sua mãe, com imenso sacrifício, desde sua cidade no norte de Minas Gerais até Corguinho. Ao todo, para chegar à propriedade de Urandir, o menor enfermo com leucemia suportou mais de 50 horas de viagem, e sua mãe investiu quase R$ 900,00 em despesas de ônibus e alojamento, além de R$ 500,00 cobrados por Urandir para fazer a suposta cura. “Ele não ficou nem dois minutos com o menino e já saiu da sala dizendo que meu filho estava curado”. Pois Afonso continua com seu problema de saúde. Sua família viu-se em apuros por ter investido o que não podia na esperança de que Urandir fosse realmente um escolhido de ETs para curar pessoas. Tudo não passa de um golpe contra pessoas de boa-fé e desesperadas por algum alento que as induza a sentirem-se melhores.

Um empresário aposentado carioca também passou por semelhante constrangimento, mas, em seu caso, teve a ilusão de cura mantida por vários meses por Urandir, que sempre ligava e perguntava como estava seu estado de saúde. Ao fim de cada ligação, Urandir simulava fazer uma transmissão telepática de energia e garantia que o advogado iria ficar bom prontamente. Em seguida, lhe pedia um pequeno pagamento. “Urandir me levou mais de R$ 12 mil, sempre com sua conversa de que o dinheiro seria empregado na construção de um ambulatório para tratamento de doentes”, disse o advogado. “Na verdade, o que ele queria é arrancar o máximo de dinheiro e enganou-me o tempo todo”. O advogado rompeu com o curandeiro, mas não sem antes tentar reaver seu dinheiro, sem sucesso.

Estas três situações estão entre dezenas apuradas nos últimos dois anos. Os depoimentos das vítimas de Urandir estão mantidos junto a vasto volume de evidências de suas atividades de charlatanismo, em nossos arquivos. As pessoas que foram lesadas, como as indicadas acima, apesar de orientadas pela direção da Revista UFO a prestarem queixa às autoridades competentes, não o fizeram por receio de sofrerem represálias de Urandir e seu vasto corpo de funcionários, que garantem que o calote seja bem aplicado e permaneça impune. Em hipótese alguma tais pessoas permitiram que esta publicação as identificasse por completo. “Um dia, ao ligar para Urandir e dizer que não iria mais lhe dar dinheiro algum e que ainda iria denunciá-lo, ele me ameaçou dizendo que minha vida e de minha família estariam em risco se eu o fizesse”, disse o empresário à UFO.

crédito: ARQUIVO UFO
 O esquema montado por Urandir é engenhoso e milionário
O esquema montado por Urandir é engenhoso e milionário

As ameaças são uma constante nas atividades de Urandir. Ao longo de seus anos de atos ilícitos, sempre que alguém descobria algo sobre suas manobras, tal pessoa era imediatamente execrada do grupo e, ainda, terrivelmente ameaçada. Um dos casos mais graves aconteceu a uma microempresária paulista, que descobriu em galpões da fazenda de Urandir, em Corguinho, motos preparadas para trafegar em regiões rurais e uma parafernália composta por rádios de comunicação tipo walkie-talkie, baterias, faróis de milha e variados instrumentos cuja finalidade não compreendeu. Ao ver que tais equipamentos só poderiam ser usados para fraudar as insistentes luzes nos morros da região em volta da propriedade de Urandir, que todos pensam ser discos voadores, foi perguntar-lhe do que se tratavam.

“Urandir foi taxativo: ‘Se você abrir a boca, juro que vai se arrepender amargamente’. Ele me amedrontou e continuou a fazê-lo mesmo depois de voltar a São Paulo e garantir a ele que não ia contar nada a ninguém”, disse a vítima, contabilizando mais de 10 ligações recebidas de Urandir e seus ajudantes, que são parte do esquema e asseguram desde a consecução dos truques na fazenda até a garantia de que ninguém falará nada, caso venha a descobrir. Um dos irmãos de Urandir, Jurandir Fernandes de Oliveira, é policial militar em São Paulo e freqüentemente se ausenta do trabalho para dar expediente na fazenda de Corguinho, onde se encarrega, entre outras coisas, da proteção ao irmão.

Banheiros Entupidos – O ambiente em que as jamais confirmadas curas de Urandir acontecem também é objeto de repugna. As pessoas que já estiveram em sua propriedade em Corguinho sabem das péssimas condições de higiene e conforto a que são submetidas – pelas quais pagam altas somas. “Os banheiros ficam entupidos ao ponto dos dejetos saírem para fora, invadindo os alojamentos. Os alimentos são preparados com água barrenta que vem de uma barragem feita pelo Projeto Portal, onde o senhor Urandir, com a maior cara-de-pau, banha as pessoas e pede aos céus para que fiquem boas e curem-se de seus males”, descreveu a comissária de bordo aposentada Julieta Paraíso, uma das lesadas por Urandir, que concordou em ter seu nome citado. Ela acrescenta ainda que Urandir afirma que a prometida cura só será concedida se o paciente tiver muita fé. “Se tiver fé de menos, segundo ele, o encanto não dá certo”.

Há ainda o caso de belas moças que buscam os aludidos poderes paranormais de cura de Urandir e acabam conhecendo sua intimidade de uma forma que não imaginaram. Célia B. S. H. é uma delas, uma bela curitibana que procurou o auxílio de Urandir para curar dores nas costas e acabou recebendo inúmeras cantadas. “Urandir dizia que a cura só viria se ele pudesse ‘trocar energias’ comigo. No início não entendi bem do que se tratava, mas depois, quando ele insistia em ficar sozinho comigo no mato, percebi que se tratava de cantada”. Célia descreve que Urandir tenta iludir suas vítimas afirmando que podem ser suas ‘almas gêmeas’. Mas para descobrir se são mesmo, tais moças teriam que ter seus ‘chakras abertos’, evidentemente através de contato sexual.

Assédio e promiscuidade na propriedade de Urandir são fatos comuns e já foram denunciados à UFO por inúmeras pessoas. Recentemente, o pai de uma adolescente que visitou o Projeto Portal escreveu à nossa Redação e desabafou: “Gastamos em média R$ 400,00 por pessoa para ficarmos num acampamento precário e só o que presenciamos foi um show de ilusionismo, com canhões a laser em contagem regressiva, realizado por Urandir e seus seguidores. Discos voadores nem em sonho vimos”, disse Fernando Gonçalves da Silva, de Santo André (SP). Entre os fatos que notou, está o constante assédio que Urandir faz a jovens adolescentes, como sua filha. “Urandir passeia com ninfetas a tiracolo, fazendo não sabemos o quê”. Indignado, Silva ainda alerta para o fato de que o Ministério da Fazenda precisaria visitar sua propriedade, pois trata-se de uma mina de ouro. “O senhor Urandir abusa de pessoas carentes e ignorantes, e em suas palestras, em São Paulo, cobra de cada uma R$ 60,00 por sessões de pura asnice. Seu lugar é na cadeia!”, completou. Parece que seu desejo foi realizado.

Curandeirismo é crime segundo o Código Penal Brasileiro, definido no Artigo 284, conforme interpretado pelo jurista Celso Delmanto em Código Penal Comentado [Editora Freitas Bastos, 1986]: “É crime contra a saúde pública prescrever, ministrar ou aplicar qualquer substância ou fazer diagnósticos sem ter conhecimentos médicos, ou ainda, usar gestos, palavras ou qualquer outro meio para iludir a vítima. O sujeito ativo do crime é qualquer pessoa que não tenha conhecimentos médicos, podendo um médico ser co-autor ao prestar auxílio ao curandeiro”. Segundo o código, Urandir é passível de punição, prevista como detenção de seis meses a dois anos. Não foi isso, no entanto, o que o levou à cadeia. Como Urandir é servente de pedreiro, apesar de se apresentar como engenheiro civil em várias cidades por onde ministra seus cursos, é evidente que não detém qualificação médica e, com isso, fica enquadrado no artigo.

É difícil estimar quanto dinheiro Urandir já conseguiu obter de suas vítimas através de suas práticas de curandeirismo, mas não é pouco. Tanto que, desde que passou a ser denunciado constantemente por quase a unanimidade dos ufólogos brasileiros, guinou vertiginosamente para o lado das curas, o que demonstra sua viabilidade econômica de forma mais clara que a Ufologia. “De fato, Urandir passou a se dedicar mais às curas porque assim pode conseguir mais dinheiro e ainda fica livre da perseguição dos ufólogos”, disse à Revista UFO Alcione Giacomitti, um dos amigos que Urandir teve em seu círculo íntimo de relacionamento e com o qual compartilhou muitos de seus truques.

O volume de recursos materiais que passaram a fazer parte da fortuna pessoal do referido cidadão – avaliada em mais de 10 milhões de reais – foi substancialmente engordado com a prática do charlatanismo e curandeirismo. Mas há ainda algo tão ou mais grave do que isso. Urandir recentemente descobriu na venda de lotes frios da tal Cidade dos ETs um meio ainda mais fácil de arrancar dinheiro de seus seguidores. Foi por causa disso que recebeu voz de prisão dos policiais da 17ª Delegacia de Polícia Distrital de Porto Alegre, onde permaneceu encarcerado por quase uma semana, e depois foi posto em liberdade para responder a processo nesta condição. Suas complicações com a Justiça estão apenas começando.

De um tempo para cá, Urandir passou a anunciar aos quatro cantos que pretendia construir a referida e imaginária cidade em sua propriedade. Mas, para ter o privilégio de morar no empreendimento cósmico – e não falta gente que queira –, o candidato deveria lidar com um espantoso esquema ilegal criado por Urandir. Simplesmente, ele passou a lotear sua propriedade com terrenos que tem vendido indistintamente a quem quer que se prontifique a pagar os R$ 1.500,00 exigidos. O valor é alto, mas as promessas são convidativas: a Cidade dos ETs seria um dos poucos refúgios da Terra que seria salvo depois que o planeta, segundo Urandir, tivesse seu eixo de rotação alterado e os mares avançassem sobre os continentes. “Lá estaremos a salvo e ainda receberemos visitas de nossos ‘irmãos cósmicos’, que passarão a conviver conosco”, alegava Urandir em seus cursos, com a maior desfaçatez. A juíza de Porto Alegre entendeu tais promessas de forma bastante diferente.

Para se compreender o esquema, é importante que se saiba que Urandir anexou à propriedade original do Projeto Portal, que era de cerca de 400 hectares, mais de dez vezes esse montante de terra, espalhada pela região. Tais aquisições foram e estão aos poucos sendo anexadas à fortuna de Urandir de maneira informal, feitas a partir do desmembramento de propriedades de outros fazendeiros da região. Em nenhum caso tais compras são legalmente registradas e sequer estão completamente pagas. Também não há registro de terra alguma em nome de Urandir Fernandes de Oliveira ou da pessoa jurídica, o Projeto Portal, no cartório que jurisdiciona Corguinho. Ainda assim, sentado sobre o que não é seu e sem reconhecer os trâmites legais pertinentes ao caso, Urandir loteou sua propriedade em terrenos de 800 m2, em quantidade desconhecida, sem o menor mapeamento dos lotes ou a devida autorização dos órgãos que regem tais atos. E tem aumentado sua fortuna vendendo-os a pessoas que muitas vezes sequer sabem onde está o projeto, mas que se entusiasmam com a possibilidade de estar na companhia de Urandir quando os ETs vierem salvar aqueles que o paranormal designar...

“Urandir já vendeu mais de mil terrenos, mas a maioria dos compradores sequer tem idéia de onde eles ficam. E nenhum vai um dia receber escritura dos lotes”, disse à UFO Márcio Uller, que trabalhou no projeto por mais de um ano e foi mandado embora sem qualquer pagamento ou indenização. Os terrenos são vendidos pelos representantes de Urandir através do que chama de núcleos, espalhados pelo Brasil afora. Para agilizar o processo, o suspeito paranormal mandou imprimir grande quantidade de recibos, muitos dos quais simplesmente assina em branco [Conforme documentação em poder da Revista UFO], distribuindo-os aos milhares entre os núcleos.

Aos seus representantes basta que encontrem pessoas dispostas a pagar pelo terreno, quando então preenchem o recibo e fornecem cópia aos eventuais compradores. Não há controle algum. “Comprei um desses terrenos aqui no núcleo de São Paulo, mas quando fui checar no cartório não havia nada de legal na transação”, disse à nossa Redação a enfermeira paulista Maria S., que também tem medo de se identificar. Maria, como mais de mil outros compradores, ficou a ver navios, já que os UFOs de Urandir são bastante improváveis... Ela está entre as vítimas que querem seu dinheiro de volta. Mais: no recibo que Urandir passa aos compradores, ele afirma que “...se compromete a vender uma área de 800 m2, retirada de uma área maior de 1.000 hectares, do imóvel rural pró-indiviso [Sem divisão] localizado em Corguinho, matriculado sob o número 1.687, Livro 2, em 25 de março de 1998, no Cartório de Registros de Imóveis da Comarca de Bandeirantes (MS)”.

Negociatas – Além de assinar embaixo desse termo, Urandir ressalta ainda que o imóvel é “...livre e desembaraçado de qualquer ônus, impostos, taxas, etc”. Pois essa é mais uma de suas mentiras, já que quem for ao referido cartório vai descobrir que o imóvel não pertence nem nunca pertenceu a Urandir Fernandes de Oliveira. Além disso, o comprador vai encontrar no cartório o senhor Aristides Borges de Esquivel, um prestativo oficial de registros que garante estar disposto a conhecer a fundo os detalhes de tais negociatas. “Fico sem saber o que dizer a quem nos telefona ou visita buscando informações sobre os lotes adquiridos”, disse Esquivel ao emitir uma certidão que confirma que Urandir não tem imóvel algum registrado naquele cartório. Essa documentação foi levada ao conhecimento das autoridades gaúchas, resultando na acusação de estelionato contra Urandir e, conseqüentemente, sua prisão provisória. A propriedade mencionada sob o referido número de matrícula pertence na verdade à Agropecuária San Valentim Ltda.. E mesmo que o imóvel envolvido fosse de Urandir, há ainda o fato, da maior gravidade, de que certos requisitos jamais foram cumpridos e sequer cogitados para que se fizesse o loteamento da área em questão.

Para se consumar um loteamento, há uma série de providências legais a serem tomadas, entre as quais a elaboração de um mapa detalhado da área a ser loteada, com todas as informações geográficas disponíveis. Nada disso jamais foi feito. Segundo alguns de seus funcionários já exonerados, Urandir sequer sabe quantos terrenos ao certo foram vendidos, para quem e onde ficam. O propósito dessa desorganização é simples: não há interesse algum em efetivamente lotear ou povoar a área em questão, mas apenas em se arrecadar dinheiro rápido.

crédito: foto extraída da televisão
 Márcio Uller, um dos ex-funcionários de Urandir a apontar suas irregularidades
Márcio Uller, um dos ex-funcionários de Urandir a apontar suas irregularidades

Diz a lei que, em se tratando de área rural, seria necessário que Urandir obtivesse autorização do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) para efetuar o desmembramento da propriedade a ser loteada, além do cancelamento de sua inscrição como área rural, para apresentar ao Cartório de Registro de Imóveis responsável. Isso jamais foi feito! Além dessas providências, Urandir deveria fornecer uma autorização do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama) para a realização do tal desmembramento, mediante oferecimento ao órgão do chamado Relatório de Impacto no Meio Ambiente (Rima), que deveria ser juntado aos demais documentos. Isso também nunca foi feito, até porque, entre outras contravenções, Urandir destruiu matas ciliares e mananciais da Bacia Hidrográfica do Pantanal, desmatou sua propriedade além do permitido, fez barragens ilegais e assoreou rios – atos que seriam imediatamente condenados pelo Ibama. O advogado Lütz Netto tentou dissuadir Urandir de agir ilegalmente, antes de perder sua paciência e levar o caso às autoridades.

“Fui procurado pela equipe do Urandir em outubro de 1997 para orientá-lo sobre a defesa contra uma eventual denúncia de curandeirismo e charlatanismo, que não chegou a se consumar”, disse à UFO. “A partir daí, assisti várias das suas reuniões de ‘cursos e de energizações’ e cheguei a ir ao Projeto Portal, em maio de 1999. Quando Urandir lançou o loteamento, em julho de 1998, procurei-o para adverti-lo para o fato de que tal empreendimento estava totalmente alheio aos regramentos jurídicos, e alertei-o de sua total ilegalidade.” Lütz Netto chegou a oferecer sua ajuda legal gratuitamente para que se regularizasse o sonhado empreendimento imobiliário de Urandir. Mas este desconversava em cada ocasião que o advogado tocava no assunto, o que despertou suas suspeitas. O resultado é aquilo que o programa Fantástico mostrou a todo o país em 26 de março.

“Fiz a proposta de ajudar nos aspectos jurídicos por saber que gente humilde, que não tem plano de saúde, que não tem casa própria, que não tem FGTS nem emprego fixo, estava comprando tais lotes sem qualquer garantia, sem qualquer documentação válida”, lamenta Lütz Netto. Urandir chegou a marcar com o advogado datas para que as providências jurídicas fossem tomadas, fazendo com que Lütz Netto transferisse compromissos profissionais para atendê-lo. Mas, simplesmente, Urandir jamais permitiu que se viabilizasse qualquer iniciativa do profissional no sentido de se acertar juridicamente as promessas de venda de lotes que continuava fazendo através de seus prepostos e gerentes do Projeto Portal, em Porto Alegre e nas cidades onde mantém os núcleos. Isso caracteriza nitidamente má-fé. “Concluí que não havia interesse por parte de Urandir e seus apaniguados em regularizar o empreendimento imobiliário, pois ele não é proprietário do imóvel que está partilhando. Os recursos que está recebendo para isto estão sendo aplicados em outras finalidades e a intenção demonstrada é a de lesar os promitentes compradores. Fiquei totalmente desiludido sobre suas intenções e me afastei do grupo, declarando a todos minha decepção”, afirmou o advogado Lütz Netto, que tomou providências. Não sem antes tentar, inúmeras vezes, resolver a questão amigavelmente. Porém, Urandir não se interessava por esta opção.

Dinheiro de Volta –
O advogado não foi o único a se decepcionar com as intenções do suposto contatado. Dúzias de pessoas hoje procuram seus escritórios para pedir seu dinheiro de volta – a maioria das quais calmamente. Outras nem tanto. “Já liguei inúmeras vezes ao Jurandir e até ao Urandir, e nenhum deles atende meus telefonemas. Quero meu dinheiro de volta e eles que fiquem com seus terrenos”, desabafou Doraci Alves Cunha, uma das enganadas com a promessa da Cidade dos ETs. Através do processo contra Urandir, no entanto, o advogado gaúcho espera reaver o dinheiro de seus clientes. “Tenho sido procurado por vários compradores para promover a nulidade dos negócios realizados”. Como ele, outros profissionais estão representando várias vítimas de Urandir, que caíram no golpe mais original criado na história da Ufologia para se aproveitar da boa-fé das pessoas.

crédito: ARQUIVO UFO
Os documentos ao lado mostram como funciona o esquema do Projeto Portal
Os documentos mostram como funciona o esquema do Projeto Portal

Ao insistir com seu loteamento clandestino, Urandir se enquadrou na Lei 6.766, de 1979, que regulamenta a questão. Divulgar ou promover a venda, promessa de venda ou reserva de lotes, antes de que todas as providências necessárias sejam tomadas, constitui-se em crime contra a administração pública e contra a economia popular. As penas para quem incorre em tal crime vão da reclusão à cadeia, de dois a cinco anos, com direito a algemas no momento da prisão. E a lei foi cumprida, pois Urandir foi levado do hotel em que estava algemado pelos policiais. A lei ainda considera como elemento agravante para a aplicação da pena o fato de não haver área de terras registradas em nome do loteador, o que é exatamente o caso de Urandir. O crime se tipifica também como estelionato, com emprego da respectiva pena, considerando-se como agravante que as vendas foram feitas mediante exploração da crendice popular. Visto isso, observa-se a enrascada em que se meteu Urandir e seus adeptos quando os frustrados compradores de seus terrenos na Cidade dos ETs moverem ações cada vez mais graves contra a quadrilha que se instalou em Corguinho. Mesmo tendo saído da cadeia, sua vida certamente não será mais a mesma.

Até então os ufólogos brasileiros, que têm em suas mãos vastíssimo material confirmando as intenções ilícitas de Urandir Fernandes de Oliveira em auferir lucros pessoais através do pretexto ufológico, agiram dentro daquilo que é seu papel: denunciar tais atos à Nação. Agora, as autoridades competentes enxergaram o problema e entraram na questão, para garantir aos que foram lesados pelo suposto paranormal a reposição imediata de suas perdas financeiras e outras. A Comunidade Ufológica Brasileira, que busca uma aceitação e reconhecimento cada vez maiores do objeto de sua dedicação – que é a presença de extraterrestres em nosso planeta –, fez sua parte em apontar e provar as falcatruas de Urandir. Agora, os poderes policiais e judiciais da Nação farão a sua.

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Sobre o Autor

A. J. Gevaerd

A. J. Gevaerd nasceu em Maringá (PR), em 1962, e foi professor de química até 1986, quando abandonou a profissão para se dedicar exclusivamente à Ufologia. Em 1983, fundou o Centro Brasileiro de Pesquisas de Discos Voadores (CBPDV), a maior entidade do gênero em todo o mundo, com mais de 3.000 associados. Em 1985, Gevaerd fundou a Revista UFO, única publicação sobre Ufologia no país, com 25 anos de existência, e a mais antiga em circulação em todo o mundo. O editor interessou-se por Ufologia ainda muito jovem, com 11 anos, ouvindo histórias de observação de naves e contatos com seres extraterrestres, e começou suas atividades na Ufologia imediatamente, fazendo suas primeiras investigações e vigílias. Fez sua primeira palestra sobre UFOs no colégio em que estudava, aos 15 anos, e de lá para cá realizou mais de 2.000 em todo o Brasil. A partir de 1989, começou a se apresentar também no exterior, tendo realizado pesquisas e mais de 600 palestras em 54 países. É diretor no país, desde 1986, da Mutual UFO Network (MUFON), e, desde 1991, do Annual International UFO Congress, um dos eventos de Ufologia mais concorridos da atualidade. Foi um dos idealizadores da campanha pioneira UFOs: Liberdade de Informação Já, lançada em 2004 pela Comissão Brasileira de Ufólogos (CBU), da qual é coordenador. O pesquisador tem participação ativa em praticamente todos os círculos mundiais onde o Fenômeno UFO é tratado com seriedade, participando de eventos, debates, programas, campanhas etc.

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