ARTIGO

UFOs em bases na Inglaterra

Por Renato A. Azevedo | Edição 210 | 01 de Abril de 2014


Créditos: Rafael Amorim, exclusivo para a Revista UFO

UFOs em bases na Inglaterra

No começo dos anos 80, a Guerra Fria estava no auge. A Europa era o cenário mais provável para um enfrentamento entre as nações do Pacto de Varsóvia, liderado pela então União Soviética, e as forças da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), encabeçada pelos Estados Unidos. Os dois lados dispunham de um número imenso de tropas estacionadas no continente europeu, além de uma grande quantidade de armas nucleares táticas e estratégicas. Aviões de reconhecimento faziam constantes incursões testando as defesas do lado oposto, e manobras eram feitas regularmente, buscando antecipar-se a qualquer ação inimiga.

As forças militares convencionais russas e de seus aliados tinham números muito superiores aos dos países liderados pelos Estados Unidos, razão pela qual grande quantidade de armas nucleares estava estocada em várias bases utilizadas pelos norte-americanos na Europa, mais perto de um local de possível enfrentamento. Duas dessas bases estratégicas que armazenavam as ogivas pertenciam à Força Aérea Real Britânica (RAF) e ficavam nas proximidades da Floresta de Rendlesham, em Suffolk, e eram Bentwaters e Woodbridge. Os locais haviam sido cedidos à Força Aérea Norte-Americana (USAF) pelos ingleses, sendo duas das principais instalações da OTAN na época.

Porém, em dezembro de 1980, aconteceu algo ali para o qual os militares não haviam sido preparados, e este é o tema deste trabalho. O Caso Rendlesham, também conhecido como Caso da Floresta de Rendlesham, é motivo de intensas polêmicas até hoje, devido a enganos, depoimentos contraditórios e negativas oficiais. Mesmo assim, é considerado um dos episódios ufológicos mais importantes de todos os tempos — e certamente o principal já ocorrido em solo britânico. Tudo começou às 03h00 de 26 de dezembro de 1980, quando o soldado John Burroughs estava em seu turno de patrulha no portão leste da base de Bentwaters. Com 20 anos na época, Burroughs descreveria depois que a noite estava clara e estrelada, e que logo teve a companhia de outro militar, Budd Parker.

Adentrando no local de pouso

Os dois homens saíram em um caminhão militar de patrulha, passando pela Floresta de Rendlesham. Subitamente, um estranho objeto luminoso surgiu entre as árvores e imediatamente os soldados imaginaram se tratar de uma aeronave acidentada. Alarmados, decidiram então retornar ao portão da base, onde havia uma cabine com uma linha de telefone segura para comunicação com a central de operações de todo aquele vasto complexo militar. Seus superiores então enviaram o sargento Jim Penniston, oficial de segurança, a fim de averiguar o que fora avistado. Dali mesmo os homens observaram, entre as árvores, uma estranha luminosidade vermelha e amarela. Comunicando-se com o comando da base de Bentwaters, tiveram permissão para entrar na floresta e investigar.

crédito: Natgeo
O tenente-coronel Charles Halt mostra o molde de gesso com a impressão do pé de aterrissagem da nave
O tenente-coronel Charles Halt mostra o molde de gesso com a impressão do pé de aterrissagem da nave

Eles seguiram com o caminhão através da mata, mas quando o veículo não foi capaz de continuar, Burroughs e Penniston seguiram a pé. Comunicando-se o tempo todo com o motorista do caminhão, que permaneceu estacionado até onde conseguiu chegar, os militares logo constataram uma interferência nos aparelhos de rádios, e em seguida uma sensação de carga elétrica no ar. Penniston disse também que logo percebeu que as luzes na floresta não poderiam ser de um acidente aéreo, como se pensou a princípio, pois não havia cheiro de queimado ou combustível, e tudo ao redor parecia intacto. De uma clareira adiante vinha uma forte luminosidade e os dois homens prosseguiram.

Burroughs descreveu posteriormente como ele e Penniston viram uma luz muito forte, da qual o sargento aproximou-se até cerca de três metros. Então, a luminosidade enfraqueceu, permitindo que eles vissem o aparelho que a emitia. Penniston disse em seu relato do episódio, anos depois: “Sou uma pessoa racional e queria encontrar uma explicação racional para o que via, mas não consegui”. Circulando o objeto, ele bateu fotos com a câmera que carregava e anotava em um bloco de papel observações a respeito do que estava vendo. Era um artefato triangular medindo aproximadamente 3,0 m de largura e pouco mais de 2,0 m de altura. Penniston afirmou que não havia motores ou cabine visíveis, e que a nave era feita de um material totalmente plano, liso como vidro. O sargento anotou todas as características que conseguiu observar, como o fato de o evidente veículo voador não emitir qualquer som, mas aparentemente estar em operação — ele não conseguiu ver trem de pouso e fez esboços de sinais que viu gravados na lateral da coisa.

Um dos pontos mais interessantes das anotações de Jim Penniston é o fato de sua caligrafia ir piorando à medida que escrevia, dando conta da intensa pressão psicológica que estava experimentando. Ele se aproximou da nave — e a esta altura já era dado como certo de que seria uma — a ponto de tocá-la, constatando sua textura lisa e que estava quente, mas não de forma a impossibilitar o toque. “Não havia lâmpadas ou dispositivos de iluminação. Era como se a luz fizesse parte dela”, disse.

Caso bem documentado

A observação do aparelho à curta distância continuou até que o UFO começou a brilhar mais intensamente. Os homens então se afastaram rapidamente, enquanto o veículo se elevava do solo, indo na direção das árvores para, em seguida, desaparecer em instantes com uma velocidade que os dois descreveram impraticável por qualquer aeronave conhecida. Após a partida do UFO, os homens ainda observaram entre as árvores fachos de luzes que, a princípio, tomaram como ainda sendo da nave. Contudo, imediatamente perceberam que se tratavam das luzes do Farol de Orford Ness, a oito quilômetros dali. Mesmo diante desse fato, os céticos e negadores do Fenômeno UFO continuam a atribuir parte ou todo o Caso Rendlesham às luzes daquele farol. Mas o caso continua para consolidar-se como um fantástico episódio. John Burroughs e Jim Penniston então apanharam seus rádios e perceberam que voltaram a funcionar normalmente. Já eram 05h00, e após entrarem em contato com os superiores, foi-lhes ordenado que se dirigissem ao portão leste, para um encontro com a equipe de segurança da base.

crédito: Nick Challoner
A antiga torre de controle de tráfego aéreo da Base Aérea de Bentwaters, que era operada conjuntamente por militares ingleses e norte-americanos
A antiga torre de controle de tráfego aéreo da Base Aérea de Bentwaters, que era operada conjuntamente por militares ingleses e norte-americanos

Os soldados então se reuniram com o comandante da base de Bentwaters, apresentando um relato resumido dos acontecimentos. Seu superior alertou-os de forma velada a manterem silêncio sobre aquilo, dizendo que seria preferível “deixar as coisas como estavam, já que o Projeto Blue Book [Livro Azul], havia sido encerrado em 1969”. Penniston, incomodado com os fatos que presenciara, decidiu retornar na manhã seguinte ao local do avistamento, encontrando três depressões formando um triângulo perfeito de três metros de lado. Tinham cerca de 30 cm de diâmetro cada e profundidade aproximada de 7 cm. O militar havia se prevenido e levara um pouco de gesso, com o que fez moldes das marcas — mas, ao contrário do restante do material, tais moldes não foram mostrados a seus superiores.

Porém, isso tudo não encerra o caso. Há ainda os episódios da segunda noite. Nesta ocasião, em 27 de dezembro, ocorria uma festa no clube dos oficiais da base de Bentwaters, quando um dos subordinados do vice-comandante da instalação militar, o então tenente-coronel Charles Halt, chegou repentinamente mostrando afobação e dizendo “ele retornou” a um grupo restrito de homens — o UFO havia voltado. Halt afirmaria anos depois aos pesquisadores que pretendia acabar com essa história, que considerava descabida, dizendo que os soldados estavam mais interessados em observar o céu à caça de coisas estranhas do que em fazer seu trabalho. E então ordenou que sua equipe de segurança apanhasse equipamentos e o encontrasse em seguida. Minutos depois, todos se dirigiram à Floresta Rendlesham.

Tudo se repete novamente

Quando Halt chegou com seus homens ao local, um cordão de isolamento foi colocado ao redor do bosque e o tenente-coronel foi informado de que, apesar de o UFO já haver sumido novamente, os holofotes da base se encontravam desativados por razões desconhecidas. A seguir os militares entraram na floresta munidos de contador Geiger, câmeras fotográficas e um aparelho de visão noturna. Charles Halt ainda carregava um gravador de fita cassete que sempre trazia consigo, no qual registrava notas a respeito dos acontecimentos. Eles seguiram para o mesmo ponto onde o soldado John Burroughs e o sargento Jim Penniston tiveram seu avistamento dias antes, e constataram que sofriam as mesmas dificuldades com o rádio que seus colegas na outra noite.

Halt percebeu que várias árvores apresentavam sinais de algo que batera nelas, estando descascadas em vários pontos, e ordenou que um de seus homens tirasse fotos. Na área onde o UFO havia aterrissado eles constataram com o contador Geiger que havia níveis mais altos de radiação. Ao mesmo tempo, eles começaram a ouvir a agitação nos animais, tanto os que habitavam a floresta como os abrigados no estábulo de uma fazenda nas imediações. Um dos militares apontou na direção das árvores e em seguida todos puderam ver um objeto à distância, vermelho e luminoso, que Halt descreveu como “similar a um olho vermelho e brilhante com um centro escuro”. O tenente-coronel gravava observações a respeito do que avistavam, vendo que o UFO zigue-zagueava entre as árvores. Os militares procuraram seguir o intruso. As testemunhas então observaram como o aparelho parecia lançar fagulhas ou destroços no chão entre as árvores diante deles, descritos como similares a metal derretido.

Era um artefato triangular medindo aproximadamente 3,0 m de largura e pouco mais de 2,0 m de altura. O sargento Jim Penniston afirmou que não havia motores ou cabine visíveis, e que a nave era feita de um material totalmente plano, liso como vidro

Os homens foram investigar aquilo, mas nada encontraram, enquanto observaram que o UFO também emitia luzes amarelas junto às vermelhas. Subitamente, no campo onde procuraram os destroços, que enfim não puderam encontrar, viram o aparelho virar de repente e vir na direção deles em alta velocidade, a partir do sul de sua posição. O objeto parou sobre eles e lançou um feixe de luz similar a um laser logo a sua frente. “Agora observamos o que parece ser um feixe de luz descendo ao chão. É surreal”, ouve-se na gravação feita por Charles Halt. “O feixe de luz tinha largura constante e veio pelo chão até nossos pés. Ficamos abismados. Pensei se queriam nos enviar um sinal, nos alertar ou nos ameaçar. De repente, como aquilo havia surgido, desapareceu”, disse Halt em entrevistas seguintes.

Investigação conturbada

O UFO se afastou velozmente e Halt e sua equipe puderam vê-lo sobrevoar a vizinha base de Woodbridge, lançando feixes de luz sobre o chão e as instalações — alguns tiveram a impressão de que os raios eram disparados sobre o depósito de armas ali existente, onde ogivas nucleares eram armazenadas. Vários pesquisadores do Caso Rendlesham afirmam que centenas de funcionários e militares que trabalhavam nas bases viram os tais raios de luz, que também teriam sido avistados por residentes das redondezas, como Sarah Richardson. O tenente-coronel registrou até esse momento em seu gravador, quando a fita terminou. Ele e seus subordinados não sabiam o que fazer, devido à falta de protocolos que explicassem como lidar com essa inusitada situação, e decidiram então retornar à base.

No mês seguinte, janeiro de 1981, as bases de Bentwaters e Woodbridge foram tomadas por rumores acerca dos acontecimentos, e o próprio Charles Halt iniciou uma investigação, começando por interrogar os militares que haviam testemunhado os fatos. Ele hoje admite que, embora sua intenção inicial — antes de participar dos eventos da segunda noite de avistamentos — fosse colocar tudo aquilo a limpo, depois se convenceu que era uma coisa muito além do que podiam esperar. “Era algo muito grande, havia muitas testemunhas qualificadas que tiveram avistamentos em diferentes locais e simplesmente não era possível ignorar aquilo”, explica.

Ele também informa que ouviu diversos rumores sobre os fatos vividos nas duas noites, como o de que seus subordinados tinham sido interrogados por agentes dos serviços de Inteligência norte-americanos e britânicos, de alta hierarquia, semanas após os avistamentos. Sobre as fotos tiradas durante os avistamentos, os negativos foram revelados, porém retornaram do laboratório totalmente em branco — nada ficou registrado. O tenente-coronel ainda afirma que ouviu boatos, corroborados por testemunhos de várias pessoas, de que no dia seguinte aos eventos um avião militar chegou à base de Bentwaters e seus passageiros realizaram uma profunda investigação na região.

Registros em radar

Um dos aspectos mais controversos do Caso Rendlesham é quanto à jurisdição sobre a investigação conduzida. As bases eram operadas pela Força Aérea Norte-Americana (USAF), porém, estando situadas em território britânico, seria natural que o Ministério da Defesa (MoD) inglês tivesse ao menos uma importante participação na investigação do caso. Como parte de suas funções, Charles Halt escreveu um memorando, datado de 13 de janeiro de 1981, descrevendo de maneira sucinta o incidente. Intitulado Luzes Inexplicáveis, o documento descreve o UFO como sendo de aparência metálica e formato triangular, tendo ficado flutuando ou assentado sobre pés de pouso quando foi visto pelos militares.

crédito: PRG
John Burroughs [E] e Jim Penniston durante as Audiências Públicas sobre Abertura, em Washington, em 2013, descrevem sua experiência
John Burroughs [E] e Jim Penniston durante as Audiências Públicas sobre Abertura, em Washington, em 2013, descrevem sua experiência

Porém, um problema aconteceu com as informações que Halt prestou no memorando, que por vários anos atrapalhou a pesquisa do caso. O tenente-coronel aparentemente se confundiu com as datas, apontando a primeira noite de avistamentos como sendo do dia 27 de dezembro, e a segunda noite como 29 de outubro. Devido a isso, quando o MoD realizou sua investigação, procurou encontrar gravações dos radares de suas bases naquelas datas, na tentativa de ter uma confirmação da presença do aparelho intruso, e a busca não deu em nada. Contudo, as gravações nas datas corretas — 26 e 27 de dezembro — acabaram por ser encontradas. Devido à possibilidade de invasão inimiga na costa inglesa banhada pelo Mar do Norte, a região de East Anglia, onde se situam as bases envolvidas no caso, tinha pesada cobertura por radar.

Na base da Real Força Aérea (RAF) de Neatishead, não longe dali, um objeto não identificado também foi captado em 26 de dezembro, causando agitação na sala de controle de tráfego aéreo. Seu desempenho era muito superior ao de qualquer aeronave disponível e, após o UFO desaparecer a uma velocidade incrível, uma investigação foi realizada. Algumas fontes afirmam que as gravações de Neatishead e também da base Watton, nas proximidades, foram requisitadas três dias mais tarde. Também há rumores de que Watton foi visitada por pessoal da Inteligência norte-americana para apanhar as fitas, e que esses homens teriam mencionado que um UFO teria caído na floresta, evento testemunhado por pessoal da USAF, e que pequenos seres haviam sido vistos a seu lado. Por mais estranho que possa parecer, a mesma fonte afirma que os operadores de radar não foram aconselhados a guardar segredo quanto a esses eventos.

Alta taxa de radiação

Nick Pope, responsável entre 1991 e 1994 pelo chamado UFO Desk inglês, o projeto de investigação do Fenômeno UFO do MoD, teve acesso privilegiado à documentação relativa ao Caso Rendlesham, constatando os erros provocados pelo memorando de Charles Halt. Apesar disso, um fator que ele destaca como tendo chamado a atenção dos oficiais que investigaram o caso se refere às leituras de radiação na segunda noite de eventos. Feitas nas três depressões na clareira onde Burroughs e Penniston tiveram seu avistamento na primeira noite, foram classificadas pela equipe de Inteligência do Ministério da Defesa como “significativamente mais altas do que no ambiente ao redor”. Pope afirma que o relatório aponta que a radiação era sete a oito vezes mais elevada do que seria de esperar naquela área. O relatório oficial foi liberado em 2001.

Em 1994, Pope que é consultor da Revista UFO e foi seu entrevistado nas edições 174 e 175 [Agora disponíveis na íntegra em ufo.com.br], realizou uma revisão geral do caso e ficou chocado com o que encontrou. Como explica em seu site oficial, houve inúmeros equívocos e negligências ao longo da investigação oficial, erros de procedimentos, atrasos e quase nenhuma troca de informações entre os dois países envolvidos. Ele aponta que a USAF não isolou a área dos contatos, não colheu amostras de solo e nem sequer utilizou detectores de metais. O próprio MoD não foi informado sobre o incidente até quase três semanas depois de ocorrido, pelo memorando de Charles Halt — que, como já destacado, continha falhas a respeito das datas que apresentava. Nem mesmo os depoimentos das testemunhas e os desenhos do objeto feitos por Jim Penniston foram repassados aos britânicos.

O UFO se afastou velozmente e passou a sobrevoar a vizinha base de Woodbridge. Alguns dos militares tiveram a impressão de que raios eram disparados sobre o depósito de armas ali existente, onde ogivas nucleares eram armazenadas. Seria esta a razão?

Pope aponta também que o próprio e meticuloso MoD cometeu erros. As conclusões citadas acima quanto às leituras de radiação não foram passadas para a USAF, não foram tomados novos depoimentos de Halt e seu pessoal e o atraso geral nas comunicações a respeito do incidente podem ser, de acordo com Pope, resultado das incertezas do próprio tenente-coronel em como agir naquela situação inédita. Contribuiu ainda para a confusão o fato de que estava em férias o líder de esquadrão da RAF, Donald Moreland, o oficial de ligação britânico designado para a base Bentwaters. Nick Pope também comenta que, a respeito do problema de jurisdição, acredita que tanto norte-americanos quanto ingleses poderiam dividi-la, mas que a RAF deveria ter tido a primazia.

Mais uma polêmica

O fato é que Pope descobriu que cada lado acreditava que o outro deveria comandar a pesquisa do caso, e até mesmo o comandante da USAF na Grã-Bretanha, general Robert Bazley, após ser informado do incidente, teria afirmado que “aquele era um problema para os ingleses resolverem”. Nick Pope lembra que é bem conhecida a política dos dois países de não chamar atenção do público quanto ao assunto UFO, e que, portanto, era conveniente para ambos a atitude de delegar ao outro a responsabilidade, deixando a coisa esfriar. Assim, o público em geral somente tomou conhecimento do Caso Rendlesham em 02 de outubro de 1983. Nessa data, o tabloide inglês News of the World saiu com a manchete Confirmado pouso de UFO em Suffolk, descrevendo os avistamentos nas regiões das bases de Bentwaters e Woodbridge e apresentando como prova dos fatos o memorando assinado por Charles Halt.

No depoimento que prestou para o episódio O Roswell Britânico da série Arquivos Extraterrestres, do The History Channel, Halt comentou que toda a imprensa britânica deu grande destaque à revelação e que ele foi procurado por pessoas de todo o mundo. O memorando foi vazado por outro militar, Larry Warren, ex-oficial de segurança da USAF na base de Bentwaters. Igualmente falando para a equipe do canal, Warren disse que também tomou parte nos eventos, adicionando detalhes ainda mais controversos. Entre outras coisas, afirmou que esteve no grupo formado por Halt na segunda noite, em 27 de dezembro, e que observou em uma clareira, pousado, um objeto triangular de 10 m de largura por 6 m de altura, intensamente iluminado. E disse que ao lado do UFO havia três pequenos seres em meio à luz, com oficiais e soldados junto a eles. O episódio de Arquivos Extraterrestres mencionado apresentou uma reconstituição da descrição de Warren dizendo que “os militares pareciam estar se comunicando com as criaturas”.

É bem conhecida a política dos Estados Unidos e da Inglaterra de não chamar atenção do público quanto ao assunto UFO. Portanto, era conveniente para ambos a atitude de delegar ao outro a responsabilidade, deixando o Caso Rendlesham esfriar

O ex-militar comentou que nos dias seguintes foi levado para um interrogatório conduzido por homens de terno, que lhe mostraram filmes de supostos encontros com alienígenas nos anos 40. Assim como Penniston e Burroughs, ele também afirmou que sofreu procedimentos envolvendo lavagem cerebral e uso de substâncias químicas, tais como o sódio pentotal, conhecido como soro da verdade. O episódio O Roswell Britânico prossegue com as outras testemunhas acusando Warren de prestar informações fantasiosas. Burroughs, por exemplo, afirma que o relato dele prejudicou a credibilidade de todos os demais, e que nada do que ele descreve aconteceu. Pesa contra Larry Warren, ainda, o fato de ser a única testemunha que afirma ter visto seres — nem Charles Halt, nem os demais soldados se lembram de terem visto Warren entre eles, somente na base em treinamento.

Novas testemunhas

Ainda a respeito da participação de Larry Warren nos episódios do Caso Rendlesham, Nick Pope comenta que é bem conhecido o fato de diferentes pessoas perceberem o mesmo evento ufológico de maneira diversa, como qualquer investigador policial sabe que ocorre. Sobre o ex-oficial de segurança de Bentwaters, Pope afirma ter conversado com ele diversas vezes, estando convencido que de fato Warren presenciou algo extraordinário. Porém, o ex-funcionário do MoD também comenta que a descrição dos fatos, como apresentada por Warren, não tem semelhança com o memorando de Charles Halt, e nem muito menos com os outros testemunhos.

A polícia de Suffolk recebeu alguns informes sobre UFOs na noite anterior aos acontecimentos em Bentwaters e Rendlesham, e objetos teriam sido captados inclusive pelos radares do Aeroporto de Heathrow, em Londres. Sabe-se que parte desses fatos pode se referir aos restos de um foguete soviético lançado em 25 de dezembro, às 21h00, que reentraram na atmosfera sobre o sudeste da Inglaterra e caíram no Mar do Norte. Tanto a Autoridade de Aviação Civil (CAA) inglesa, quanto a Associação Britânica de Pesquisa de UFOs (Bufora) têm em seus arquivos informes de fatos registrados naquela noite, em que muitas pessoas chegaram a descrever a explosão de uma aeronave no ar.


Para Nick Pope, que foi diretor do UFO Desk do Ministério de Defesa britânico, este é o mais importante incidente com UFOs já ocorrido no país e, na recente onda de liberações de documentos antes classificados como secretos, tem obtido bastante destaque

Os ufólogos Brenda Butler e Dot Street, por exemplo, localizaram pessoas em vilarejos nas proximidades das bases de Bentwaters e Woodbridge que, na primeira noite dos eventos, avistaram estranhas luzes. Um dos casos envolve a família Webb, que seguia de carro de volta para casa por uma rodovia que atravessava a Floresta Rendlesham, quando todos os seus membros viram luzes que pareciam flutuar no ar — eles tiveram tempo de diminuir a marcha e parar o carro para observarem aquilo melhor, e este fato elimina uma das teorias dos céticos de que tudo não teria passado do avistamento de um meteoro ou das luzes do farol de Orford Ness.

Uma das várias explicações aventadas para o Caso Rendlesham foi apresentada pela BBC, alegando que um policial de segurança da Força Aérea Norte-Americana (USAF), Kevin Conde, pretendia fazer uma brincadeira com conhecidos que faziam a ronda no portão da base. Conde alega que dirigiu um carro de patrulha Plymouth Volare, ano 1979, em meio à floresta e distante da vista dos guardas ao lado do portão. Ele teria ligado as luzes azuis e vermelhas de que o veículo era dotado em meio a névoa, e após o incidente ser divulgado pela imprensa apresentou sua versão. Contudo, Conde depois retirou o que disse, alegando que sua brincadeira teria acontecido durante um exercício na base, e não nas datas em que os fenômenos ocorreram.

Sem chances de erros

É interessante que os céticos do Caso Rendlesham e da Ufologia em geral sempre tenham alegado que os militares devem ter se confundido com o farol de Orford Ness. Porém, o tenente-coronel Charles Halt e todos os demais soldados afirmam categoricamente que conheciam muito bem aquela construção e suas luzes. Apesar de Penniston e Burroughs terem se confundido em meio aos eventos da primeira noite, embora logo tenham percebido seu engano, também disseram não ser possível confundir as luzes do farol com o UFO. Halt completa: “Um farol não se movimenta pela floresta, não sobe e desce, não explode e nem muda de formato, e também não dispara feixes de luz do céu”. Por cima disso tudo ainda existem testemunhas civis acerca dos fatos da segunda noite, moradores locais ainda mais familiarizados com o farol e que jamais o confundiriam com algo estranho.

Interesse da segurança nacional

A respeito das armas nucleares estocadas na base de Bentwaters, entre as informações existentes está a de que sua presença não era anunciada para a sociedade britânica na época. Ainda sobre as ogivas, cujo número não se conhece, testemunhas civis e militares observaram o UFO disparar raios de luz sobre o depósito onde estavam armazenados artefatos. Mas são inconsistentes os relatos de que duas das armas teriam sido levadas para análise, a bordo de um cargueiro militar, para a Base Aérea de Kirtland, nos Estados Unidos, a fim de serem analisadas — não existe qualquer confirmação oficial ou de segunda mão a respeito disso, e a posição oficial dos militares norte-americanos quanto ao caso é que ele não envolveu ameaça à segurança nacional.

Nick Pope afirmou recentemente que o Caso Rendlesham regularmente volta a ser de interesse público e até mesmo do Parlamento Britânico, seja na Câmara dos Comuns ou na Casa dos Lordes. Diante dos contínuos ataques de céticos e negadores sistemáticos ao acontecimento, Pope aponta para o almirante Lorde Hill-Norton, chefe da Defesa e líder do Comitê Militar da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). A respeito do caso, Hill-Norton afirmou: “A mim parece que algo físico aconteceu ali. Não tenho dúvidas de que algo pousou. As explicações são de que ou um grande número de pessoas sofreu alucinações, o que seria extremamente perigoso para uma base nuclear da Força Aérea Norte-Americana (USAF), ou o que eles viram realmente aconteceu. E em qualquer uma dessas circunstâncias, somente uma resposta é possível, a de que esse caso tem um extremo interesse em termos de defesa”.

crédito: US navy
O que atraiu os UFOs para as bases de Bentwaters e Woodbridge foi o armazenamento, ali, de grande quantidade de armas atômicas
O que atraiu os UFOs para as bases de Bentwaters e Woodbridge foi o armazenamento, ali, de grande quantidade de armas atômicas

O próprio Pope comenta que o caso está muito longe de ser resolvido e o considera tão importante quanto o Caso Roswell, de julho de 1947. “É sem dúvida o mais importante incidente com UFOs já ocorrido em território britânico e, na recente onda de liberações de documentos antes classificados como secretos, tem obtido bastante destaque”. Competirá aos ufólogos ingleses e de todo o mundo seguir pressionando as autoridades, buscando as respostas para o que aconteceu naquela fria noite de dezembro de 1980. A necessidade disso é ainda maior se se confirmarem que os UFOs observados sobre as bases de Bentwaters e Woodbridge estavam ali atraídos pelo armamento nuclear armazenado nestas instalações, como defende, entre outros, o ufólogo norte-americano Robert Hastings, autor de Terra Vigiada, o mais recente lançamento da coleção Biblioteca UFO [Código LIV-025. Confira na seção Shopping UFO desta edição e no Portal UFO: ufo.com.br].

Terceira Guerra Mundial

Para Hastings e diversos estudiosos que defendem que outras inteligências cósmicas estão monitorando nossos arsenais e conflitos bélicos, especialmente quando há a possibilidade de uso de armamento nuclear, os avistamentos em Bentwaters e Woodbridge não têm nada de misterioso. “Naquelas bases eram mantidas ogivas em grande quantidade que poderiam deflagrar a Terceira Guerra Mundial, e sabemos que desde as explosões atômicas da guerra anterior, em 1945, extraterrestres observam atentamente o uso que fazemos de energia nuclear, sobretudo para finalidades de destruição”. Em seu recente livro — que em três meses se tornou um dos mais vendidos da Biblioteca UFO —, Hastings vai além e garante que fatos semelhantes aos ocorridos nas bases em território britânico igualmente se deram em instalações militares soviéticas que também tinham armamentos nucleares estocados.

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Sobre o Autor

Renato A. Azevedo

Renato A. Azevedo, editor convidado desta edição de UFO Especial, é engenheiro, escritor e jornalista. É autor dos livros virtuais – e-books – Contato em Methárion, Inimigo Interior e Lembranças, todos disponíveis na editora virtual Hotbook [www.hotbook.com.br]. Neles desenvolve uma temática inspirada pelas visitas alienígenas no passado da Terra. É de sua autoria também o conto de ficção Zé da Pinga, publicado na edição 62 da revista Scifi News [www.scifinews.com.br], que pode ser lido na seção Literatura do site.

No mesmo universo em que esta narrativa é ambientada, Azevedo escreveu vários livros ainda inéditos e outros contos, sempre do mesmo gênero e publicados em seu blog [http://escritorcomr.blog.uol.com.br]. Entre essas histórias encontram-se Brasilis 2027, A Rocha Natalina, O Caso Guabiraba, O Dossiê, Irmãos e O Dia em que o Brasil Parou. Diferente dos e-books anteriormente citados, o último texto traz um pano de fundo mais próximo da realidade brasileira, onde freqüentemente são citados a Operação Prato, o Caso Varginha e outros famosos fatos da casuística ufológica nacional.

Azevedo é ainda colunista da Scifi News desde 2001, onde manteve a coluna Espaço Ovni, que em novembro de 2004 cedeu espaço à página Quem Conta um Conto, na qual o autor desenvolve uma série de histórias intitulada A Lista. Faz parte do Conselho Editorial da Revista UFO desde dezembro de 2000, tendo já publicado artigos sobre mapas antigos, as séries Taken, The 4400 e Arquivo-X.

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