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Temporada de agroglifos de 2012 na Inglaterra suscita questionamentos

Por Renato A. Azevedo | Edição 195 | 01 de Dezembro de 2012

Ben Butler
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Temporada de agroglifos de 2012 na Inglaterra suscita questionamentos

O surgimento de um agroglifo em Ipuaçu, Santa Catarina, em 13 de outubro, surpreendeu a Comunidade Ufológica Brasileira, pois aconteceu com duas semanas de antecedência ao período em que normalmente surgem estas figuras, entre o final de outubro e começo de novembro. Apesar de enorme e complexo [Veja matéria nesta edição], lamentavelmente o fenômeno foi alvo de ataques de céticos, que sistematicamente negam a autenticidade dos desenhos nas plantações sem nem ao menos investigá-los. Tão logo foi descoberta surgiram inúmeras opiniões apressadas quanto à formação, entre elas uma atribuindo-a a ação de vândalos. Contudo, tais mazelas não fizeram com que o mistério desaparecesse, e muito menos conseguiram explicá-lo de forma convincente.

O mesmo problema tem acontecido há pelo menos três décadas nos campos ingleses, onde o fenômeno dos agroglifos teve origem. E com o agravante de que lá existem associações de experientes fraudadores das figuras, como os Circlemakers [Fazedores de círculos], que, como já é conhecido, fazem desenhos nas plantações que muitas vezes confundem os pesquisadores — além de servirem de base para as explicações mais afoitas para o mistério. Ainda assim, a safra de agroglifos de 2012 no país, assim como em toda a Europa, foi intensa. Como se sabe, lá eles se concentram nos meses de maio a agosto, quando se dá o verão europeu e ocorrem as plantações de grãos, alvos preferidos das inteligências por trás deste fenômeno.

O primeiro agroglifo inglês deste ano foi registrado em 15 de abril na localidade de Hill Barn, Wiltshire, local recordista de manifestações do fenômeno. Semelhante a uma flor com 12 pétalas, foi produzido em uma plantação de canola, planta de onde se extrai óleo de cozinha. Curiosamente, a cor amarela do vegetal inspirou interpretações extremas por parte de circólogos mais afoitos, como a de que o desenho apontaria algum tipo de perigo iminente para a humanidade — como um suposto alerta caso nossa civilização não realize uma aludida transição para um próximo ciclo da vida. A duvidosa leitura ainda teve como ingrediente o fato de muitos seres da natureza usarem o amarelo como um alerta, bem como a cor estar presente em placas de sinalização de trânsito.

21 de dezembro de 2012

Uma das interpretações mais estranhas para um agroglifo desta temporada, mas ao mesmo tempo óbvia, foi a atribuída à formação encontrada em 02 de junho em Manton Drove, também em Wiltshire. Era uma série de seis segmentos de círculo dentro de uma circunferência maior, que alguns apontaram como um inusitado “relógio polar”. Um total de sete círculos indicaria, nessa interpretação, o que se acreditou ser o ano, o mês, a semana, o dia, a hora, o minuto e até o segundo. Evidentemente, não faltaram aos mais empolgados insinuar que o tal suposto relógio polar apontaria a data de 21 de dezembro de 2012, sexta-feira, 00h11 e 38 segundos, data emblemática para os crentes no Calendário Maia.

Apesar das explicações apressadas e infundadas, o fenômeno foi abundante na Inglaterra neste ano. Mas apressar-se em sugerir interpretações apocalípticas ou místicas — estas últimas sempre dependendo de muito boa vontade ou ingenuidade — para todos os agroglifos de 2012 é tão ruim para a pesquisa do tema quanto dizer que são fraude, como chegaram a afirmar alguns céticos. O fenômeno, ao contrário de interpretações exóticas ou de ceticismo, precisa de intensa investigação multidisciplinar, o que vem se tentando com a ação de cientistas, ufólogos, técnicos em várias áreas etc.

Outro curioso exemplo de agroglifo em 2012 foi o de 09 de junho, encontrado em Woodborough Hill, novamente em Wiltshire. Ele surgiu com três desenhos que, à primeira vista, tinham semelhanças com peixes. Os donos do site Crop Circle Connector [http://www.cropcircleconnector.com], que o descobriram, contam que ainda examinavam o desenho quando surgiu um fazendeiro em um trator, pedindo que se retirassem dali, destruindo o desenho em seguida — atitude muito semelhante à tomada por Liana Faccio, dona da fazenda onde surgiu o agroglifo de Ipuaçu neste ano. De acordo com os pesquisadores, o homem teve prejuízo com visitantes em suas terras observando agroglifos em anos anteriores. O problema, como se vê, é global.

crédito: Andreas Müller
O agroglifo descoberto em 01 de agosto em Avebury Stone Circle, na região de Wiltshire, composto por três linhas e vários círculos, que pareciam orbitar uma circunferência central maior
O agroglifo descoberto em 01 de agosto em Avebury Stone Circle, na região de Wiltshire, composto por três linhas e vários círculos, que pareciam orbitar uma circunferência central maior

Uma interessante formação também foi encontrada em 20 de junho em Wenlock Wood, Shropshire, igualmente causando polêmica. Formada por três círculos e um anel de maior diâmetro, e unidos por uma reta, a figura tinha relativa semelhança com o agroglifo catarinense, mas media cerca de 100 m. A seu respeito logo surgiram relatos de que uma pessoa caminhou em seu interior e desmaiou, sendo retirada pelos acompanhantes, e assim se atribuiu o fato a alguma energia incomum — mas os circólogos advertiram que seria mais cauteloso afirmar que a pessoa tenha simplesmente se deixado levar pela emoção ou passado mal, algo que tem sido cada vez mais comum em situações envolvendo agroglifos.


Interpretações discutíveis

Já a figura surgida em 29 de junho em Stanton Saint Bernard, mais uma vez em Wiltshire, exibia um desenho tão insólito que chegou a ser comparado com a Catedral de Westminster, famosa na Inglaterra por ser local de celebração de cerimônias reais. Na imagem havia cinco retângulos com pontas em uma extremidade e desenhos que pareciam gotas na outra, dando margem a interpretações bastante discutíveis. Alguns viram no agroglifo uma duvidosa ligação com a abertura dos Jogos Olímpicos de Londres, dois dias antes. Surpreendentemente, em 17 de julho, uma formação circular surgiu ligada à “catedral”, o que estimulou algumas pessoas a relacioná-la com a posição astronômica de Júpiter e Vênus no céu.

Em 21 de julho surgiu um novo agroglifo em Wrekin, igualmente em Shropshire, que também suscitou interpretação astronômica. Uma grande circunferência contendo três anéis menores, de diâmetros e espessuras diferentes entre si e envolvidos por uma figura composta por segmentos retos — demonstrando certa similaridade com uma chave de boca —, foi associada à visão do triângulo formado no céu, em 05 de agosto, pela conjunção entre Marte, Saturno e a estrela Spica. Alguns destacaram que a imagem apareceu no vídeo Mars Landing Sky Show, liberado pela NASA como preparação para o pouso do rover Curiosity em Marte. Contudo, é nítido que o triângulo formado pelos três astros é diferente daquele apresentado pelos anéis do agroglifo.

Outro desenho surgiu na região exibindo notável semelhança com o rosto de um alienígena do tipo alfa ou gray [Cinza], na classificação brasileira. Foi descoberta em 25 de julho em Fox Hill, na recordista Wiltshire. Esse agroglifo estava acompanhado por um círculo com um sinal mais elaborado no interior, e próximo a este último havia quatro círculos menores, um deles contido dentro de dois anéis. Além dos evidentes comentários a respeito da “face extraterrestre”, cuja similaridade com desenhos facilmente encontrados na internet é suspeita — basta comparar com o de uma conhecida marca de notebooks —, dois círculos do grupo de quatro exibem um contorno irregular bastante singular. Infelizmente, no entanto, sua análise é dificultada pela ausência de mais informações sobre o agroglifo.

Par de mãos alienígenas

No dia seguinte, em 26 de julho, foi encontrado um dos desenhos mais impressionantes e controversos da temporada inglesa de agroglifos de 2012. Produzido em Hill Barn, mais uma vez em Wiltshire, a figura foi imediatamente associada a um par de mãos alienígenas, fazendo com que alguns entusiastas mais exaltados apontassem as semelhanças com esqueletos de espécies extintas, como o Deinonychus e o Archeopterix. De novo com o tema das Olimpíadas, alguns viram nos seis círculos do desenho os aros olímpicos, que, na verdade, são em número de cinco em alusão aos continentes terrestres — o sexto aro do desenho foi tomado, então, como referência a um suposto continente perdido e ligado a uma raça extraterrestre.

crédito: Donald Wallace

Como se pode ver, quando algum grande evento ocorre ao mesmo tempo em que é encontrado um agroglifo, sua imagem pode influenciar na interpretação do desenho. Mas seria realmente tão óbvio que tais sinais representem a “impressão digital” de alienígenas? Esta é uma pergunta que merece resposta. E outra: quem faz esse tipo de interpretação está tentando decifrar o enigma representado pelo agroglifo ou depositando nele seus desejos e ansiedades?

Dias depois das polêmicas formações, um novo agroglifo descoberto em 01 de agosto em Avebury Stone Circle, e nem precisa mais dizer que se trata da mesma região de Wiltshire, era composto por três linhas e vários círculos, que pareciam orbitar uma circunferência central maior. A imagem foi associada a previsões de alinhamentos astronômicos e também à formação de Stanton Saint Bernard, de 29 de junho, supostamente representando o alinhamento entre o Sol, a Lua, e os planetas Mercúrio, Vênus e Júpiter. Na mesma localidade, mas mais a leste, em Chalk Pit, surgiu em 02 de agosto um desenho em espiral que foi associado a uma imagem da estrela R. Sculptoris, que também exibe uma espiral de gases, detritos, rochas e possivelmente planetas e outros corpos em sua órbita.

Escada com degraus

Um agroglifo singular e cujo desenho parecia exibir um padrão de rotação foi descoberto em 05 de agosto em Milk Hill, a área de Wiltshire que detém maior número de manifestações. Os desenhos no círculo central e no anel interior chamaram a atenção. Já em 12 de agosto, em Devil’s Den, naquela mesma região, foi encontrado um desenho quadrado com um esquema no interior que se assemelha a uma escada com cinco degraus — cada um formado por sete segmentos, menos um deles, que teria oito. Como essa soma resulta em 36, alguns estudiosos estimaram ser uma contagem da Lua nova de 17 de agosto, tendo o equinócio de outono acontecido em 22 de setembro. Igualmente, houve quem associasse esse agroglifo à pirâmide de Chichén Itza e à Pirâmide da Lua de Teotihuacán. De novo, para variar, mais ligações com o Calendário Maia.

O que chamou muito a atenção no agroglifo de Uffington White Horse, em Oxfordshire, surgido em 14 de agosto, foi sua proximidade com a obra megalítica conhecida como Cavalo Branco. Com 110 m de comprimento e preenchida com calcita, material que também forma o giz, a figura data da Era do Bronze e tem, segundo arqueólogos, mais de 3.000 anos de idade. Mas não se conhecem mais informações sobre este agroglifo, cujo desenho exibia acentuada semelhança com uma serpente. Cinco dias depois foi a vez do agroglifo encontrado em Lurkeley Hill chamar a atenção. Exibindo uma aparente esfera quadriculada ladeada por dois segmentos semicirculares, e com um desenho de linhas retas na parte superior, a formação recebeu a exótica interpretação de que seria um tipo de portal, apontando a semelhança do desenho de linhas retas com a Porta de Amaru Meru, no Peru, próxima ao Lago Titicaca. A criativa hipótese ainda aponta uma suposta semelhança com o Portal Estelar do seriado televisivo Stargate.

Em Windmill Hill, também Wiltshire, foi encontrado em 14 de outubro um agroglifo bastante interessante, ainda que os pesquisadores somente tenham visitado o local após uma chuva que danificou as plantas. O curioso é o fato de esse agroglifo ter surgido em uma plantação de vários tipos de vegetais, destinada a prover comida e abrigo para pássaros e outras espécies selvagens. Já as interpretações do desenho, dessa vez, foram um pouco mais originais, como a ideia de que pode se tratar da planta de um suposto motor magnético.

crédito: Lucy Pringle
Agroglifo que parecia exibir um padrão de rotação descoberto em 05 de agosto em Milk Hill, Wiltshire, que detém maior número de manifestações
Agroglifo que parecia exibir um padrão de rotação descoberto em 05 de agosto em Milk Hill, Wiltshire, que detém maior número de manifestações

Surpreendente foi a associação desta figura com o agroglifo de 13 de outubro em Ipuaçu, com um desenho apontando os círculos menores como estatores, o círculo maior que estes circundam como o rotor, o círculo menor como uma mola e a corrente elétrica atravessando a linha que conecta as duas partes do desenho. Não deixa de ser uma leitura interessante da formação, por divergir das interpretações que sempre tendem ao místico, mas, novamente, caso se trate de obra de inteligências extraterrestres, elas realmente nos enviariam mensagens abordando nossa própria tecnologia, já disponível há várias décadas?

Ainda sem compreensão

Enfim, o resultado da temporada de agroglifos de 2012 na Inglaterra, até o fechamento desta edição, é de duas formações em abril, três em maio e 14 em junho. Em julho foram encontrados 25 agroglifos, em agosto 22 e quatro entre setembro e outubro. Como sempre, distinguir entre as formações autênticas e aquelas feitas pelos Circlemakers, apesar do aperfeiçoamento de suas técnicas, é simples. Os verdadeiros, ou seja, aqueles cuja origem não pode ser explicada em termos convencionais, exibem impressionante precisão no traçado, com plantas perfeitamente intactas e outras deitadas, sem vegetais parcialmente dobrados ou mesmo quebrados. Também são conhecidos os efeitos físicos e até genéticos nas diversas culturas onde esses desenhos surgem, mantendo o mistério que a Ufologia ainda não foi capaz de explicar.

Tampouco a ficção científica teceu um quadro completo do enigma dos agroglifos. O conhecido filme Sinais [2002], por exemplo, resumiu-se a um suspense sobre uma família tentando sobreviver a alienígenas ameaçadores. Outro caso raro de agroglifo em filme de ficção surgiu no quarto episódio de Taken [2002], a famosa minissérie de Steven Spielberg. Na história intitulada Acid Tests, o desenho é obra de Tom Clarke, um cético que depois passa a acreditar no Fenômeno UFO. Mais recentemente, na sexta temporada de Doctor Who [2011], produção da BBC britânica exibida no Brasil pela TV Cultura, o casal Amy Pond e Rory Williams tenta chamar a atenção de um viajante do tempo fazendo um desenho em uma plantação com seu carro Mini Cooper. Esses, enfim, são casos raros em que a arte não imitou a vida, ou seja, os agroglifos não inspiraram o cinema de ficção.

Escrita alien

Mas o que realmente se pode afirmar sobre os agroglifos? Serão mesmo uma forma de comunicação de outras espécies cósmicas? Neste caso, por que então não conseguimos decifrar essa “escrita alienígena” de maneira que não haja margem para dúvidas ou interpretações exóticas como as que apontamos aqui? Seriam tais supostas civilizações responsáveis pelos agroglifos tão avançadas assim? Em caso afirmativo, afinal, se a intenção é uma comunicação com a espécie humana, para que dificultar as coisas? Uma civilização milhares de anos à nossa frente estaria em condições de se fazer entender, se assim fosse seu desejo — a menos que estivesse superestimando nossa capacidade de perceber suas intrincadas mensagens cifradas, caso esse seja realmente o significado dos agroglifos.

crédito: Colin Andrews
Colin Andrews, o mais reconhecido circólogo do mundo, foi entrevistado pela Revista UFO na edição 194
Colin Andrews, o mais reconhecido circólogo do mundo, foi entrevistado pela Revista UFO na edição 194

De todo o vasto mistério, é particularmente interessante o fato de que a maioria absoluta dos círculos nas plantações inglesas surge em Wiltshire e outros locais onde se encontram sítios arqueológicas, como Stonehenge. Esse fato pode não ser coincidência, mas, assim como existem inúmeras teorias e muita especulação para explicar o famoso monumento megalítico, as hipóteses para desvendar os agroglifos se contam em número possivelmente ainda maior. Nesse cenário, infelizmente, vale quase tudo e vemos as mais esdrúxulas interpretações para as formações, desde avisos apocalípticos até supostas tentativas de comunicação, passando por fenômenos naturais ainda desconhecidos e alguma forma de arte alienígena. Seja como for, este é um dos mais complexos e fascinantes enigmas da Ufologia — e é provável que sua solução ainda demore anos até ser encontrada.

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Sobre o Autor

Renato A. Azevedo

Renato A. Azevedo, editor convidado desta edição de UFO Especial, é engenheiro, escritor e jornalista. É autor dos livros virtuais – e-books – Contato em Methárion, Inimigo Interior e Lembranças, todos disponíveis na editora virtual Hotbook [www.hotbook.com.br]. Neles desenvolve uma temática inspirada pelas visitas alienígenas no passado da Terra. É de sua autoria também o conto de ficção Zé da Pinga, publicado na edição 62 da revista Scifi News [www.scifinews.com.br], que pode ser lido na seção Literatura do site.

No mesmo universo em que esta narrativa é ambientada, Azevedo escreveu vários livros ainda inéditos e outros contos, sempre do mesmo gênero e publicados em seu blog [http://escritorcomr.blog.uol.com.br]. Entre essas histórias encontram-se Brasilis 2027, A Rocha Natalina, O Caso Guabiraba, O Dossiê, Irmãos e O Dia em que o Brasil Parou. Diferente dos e-books anteriormente citados, o último texto traz um pano de fundo mais próximo da realidade brasileira, onde freqüentemente são citados a Operação Prato, o Caso Varginha e outros famosos fatos da casuística ufológica nacional.

Azevedo é ainda colunista da Scifi News desde 2001, onde manteve a coluna Espaço Ovni, que em novembro de 2004 cedeu espaço à página Quem Conta um Conto, na qual o autor desenvolve uma série de histórias intitulada A Lista. Faz parte do Conselho Editorial da Revista UFO desde dezembro de 2000, tendo já publicado artigos sobre mapas antigos, as séries Taken, The 4400 e Arquivo-X.

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