ARTIGO

?Sinal candidato?, a possível resposta

Por Claudio Brasil | Edição 37 | 01 de Outubro de 2005

O sinal mais famoso recebido até hoje foi o Wow!, batizado com este nome porque o operador do radiotelescópio não conseguiu decifrar a mensagem
Créditos: Jim Krantz

?Sinal candidato?, a possível resposta

O SETI lida com um mar de sinais e interferências. Nossa civilização emite ondas de rádio em diversas freqüências. Satélites de comunicação cruzam o céu constantemente e são detectados pelas antenas parabólicas. Os piores são os satélites Iridium, que transmitem numa região muito próxima ao do Buraco d’Água [Water hole], sendo uma preocupação especial para os pesquisadores SETI. Não bastassem as fontes artificiais, existem também as naturais: planetas, estrelas e galáxias que emitem ondas de rádio normalmente em função dos processos que neles ocorrem. Júpiter é um poderoso emissor. Quando o planeta está acima do horizonte detectam-se com facilidade seus sinais. O pesquisador SETI precisa lidar com essa infinidade de sinais e “garimpar” neles aqueles que podem ser de origem extraterrestre. Mas como isso é feito? Como será o sinal esperado pelo SETI?

O sinal candidato é aquele que tem as características de uma freqüência extraterrestre, mas que ainda não foi confirmado como tal. Há uma lei no SETI que diz: “Sinais não confirmados não provam nada”. Ou seja, para ter valor tal dado precisa ser confirmado, sendo captado pelo menos por mais uma estação SETI. Ao contrário do que se imagina, apesar de trabalhar com freqüências de rádio, o pesquisador não precisa ouvir nada. No filme Contato [1997], uma belíssima adaptação para o cinema do livro homônimo de Carl Sagan, estrelado pela atriz Jodie Foster, a protagonista da história usa um fone de ouvido para realizar a pesquisa. Na realidade, o pesquisador SETI não ouve o sinal, mas vê na tela do computador uma representação do mesmo. Um dos programas mais acessíveis que grava e analisa os sinais oriundos da antena é o FFTDSP, do americano Mike Cook. Esse programa é muito similar ao utilizado nos rádio observatórios profissionais.

Nele o sinal é representado através de uma escala temporal vertical e de freqüências na horizontal. Nessa representação, uma interferência surge como uma linha reta, paralela ao eixo do tempo. Um sinal candidato apareceria nesse programa como uma linha curva. Em um gráfico de intensidade versus freqüência, o sinal candidato deve aparecer como um espigão estreito, de uma certa altura. Ou seja, ele deve ter uma intensidade específica e ser estreito. Os sinais de origem natural sempre são largos, pois existe emissão ao longo de uma faixa de freqüência bastante grande. Ao se detectar algo suspeito, a primeira providência é confirmá-lo através do deslocamento da antena para outra área do céu e reposicioná-la novamente na fonte emissora do sinal suspeito, tentando recaptá-lo. Normalmente esse teste é feito com grandes radiotelescópios e tem como objetivo verificar se tal dado captado vem realmente da esfera celeste e não se trata de nenhum tipo de interferência. Em seguida é preciso checar se não existe nenhuma radiofonte – emissor natural de rádio – nessa região do céu. Para isso, analisa-se uma lista de radiofontes e se compara suas coordenadas celestes – ascensão reta e declinação [Veja o artigo: Glossário] – com as coordenadas do local onde a antena está apontada. Se esse resultado for negativo, uma terceira verificação deve ser feita: a de satélites artificiais. Há de se descartar a possibilidade de que, naquele instante, algum satélite artificial tenha passado na direção da antena, fazendo com que seu sinal fosse registrado.

Rastreamento de satélites — Existem softwares na internet que servem para o rastreamento de satélites artificiais tais como o WinOrbit e o saudoso IT, um simples mas eficiente programa que rodava no sistema operacional DOS. Realizadas essas três verificações e descartando-se as possibilidades acima, é hora de comunicar a captação do sinal candidato na rede da SETI League. A entidade trabalha com três listas de e-mail que permitem a comunicação entre os membros e simpatizantes do SETI a nível mundial. A primeira é pública e qualquer um que se interesse pode participar, pois não existe nenhuma restrição. Todos podem enviar e ler as mensagens. A segunda lista é restrita aos coordenadores regionais, os membros da SETI League que têm a função de coordenar as atividades SETI em sua área ou país. Existe também uma terceira relação de nomes, ainda mais restrita, da qual só podem fazer parte aqueles membros da SETI League que construíram uma estação que tenha passado pelo teste inicial de sensibilidade do sistema.

Poucos sabem, mas diversos protocolos regem o SETI. Ao se lidar com uma possível mensagem de uma forma de vida alienígena estamos tratando de um assunto que diz respeito a todos os seres humanos no planeta. Ao responder uma mensagem alienígena, estamos representando toda a humanidade. Por ser uma questão delicada, a captação de um sinal candidato, sua divulgação na comunidade científica, a comunicação à imprensa e a decisão de respondê-lo ou não segue uma série de protocolos que devem ser cumpridos à risca. A SETI League tem seu livro de protocolos, que é distribuído a todos os coordenadores da entidade. Tal obra dita as regras que devem ser seguidas para todas as atividades da Liga, desde a construção da estação, passando pelos testes de sensibilidade para sua homologação e abordando a forma de se proceder com relação a um sinal candidato.

O mais famoso sinal recebido até hoje foi o Wow!, batizado com esse nome porque era tão forte que o operador escreveu essa palavra na listagem do computador onde foi registrado. Foi captado em 15 de agosto de 1977, no radiotelescópio Big Ear, em Ohio, pelo radioastrônomo Jerry R. Ehman. Até hoje não foi satisfatoriamente explicado e nunca confirmado. A seqüência 6EQUJ que o identifica é uma medida de intensidade do sinal em relação ao ruído de fundo. Ou seja, tivemos um sinal de intensidade considerável que chegou a ser 31 vezes maior que o ruído de fundo! Segundo o computador do observatório, o sinal foi originário de um ponto na Constelação de Sagitário, de coordenada ascensão reta 19h17m24s e declinação negativa 27 graus e 3 minutos. Em 1997, por ocasião do 20º aniversário da captação do sinal, Ehman escreveu um artigo intitulado The Big Ear Wow! Signal – What We Know and Don´t Know About it After 20 Years [O Sinal Wow! do Big Ear – O que sabemos e o que não sabemos após 20 anos], que apresenta detalhes, analisando e descartando diversas explicações que poderiam ser dadas como origem desse intrigante sinal – não havia nenhum planeta, asteróide ou satélite artificial na região celeste onde o mesmo foi captado.

Comparação de um sinal natural de rádio [Cor preta] e um artificial [Cor vermelha], que seria esperado de uma civilização extraterrestre
Comparação de um sinal natural de rádio [Cor preta] e um artificial [Cor vermelha], que seria esperado de uma civilização extraterrestre

O mistério do sinal Wow! — Além disso, não podia ser um avião, porque eles não transmitem em 1.420 MHz e geram um padrão de uma fonte que se desloca rapidamente na esfera celeste, o que não foi constatado no Wow! Outro questionamento revelado era que não havia nenhuma espaçonave terrestre na direção onde o sinal foi captado. Pode-se descartar também que um sinal de origem terrestre pudesse ser captado pelo observatório após ser refletido em destroços em órbita do planeta: primeiro, pois nenhum transmissor terrestre utiliza a freqüência protegida de 1.420 MHz e segundo, porque os destroços deveriam estar parados com relação à esfera celeste para produzir o padrão observado.

O Wow! é o mais intrigante e misterioso sinal candidato já captado em toda a história do SETI. É tão importante que sobreviveu inclusive ao radiotelescópio que o captou. Infelizmente o Big Ear foi desativado em 1998, porque no local em que estava seriam construídos campos de golfe para um curso. Tudo que resta hoje do grande radiotelescópio são pedaços, alguns dos quais são vendidos pela SETI League em uma placa comemorativa para arrecadar fundos para a pesquisa. Em 1987, apoiado pela Universidade de Harvard, teve início o projeto Million Channel Extraterrestrial Assay (META). Tal pesquisa foi desenvolvida para observar os objetos em seu trânsito meridiano, cobrindo da declinação - 30° até a + 60°. Utilizou-se um analisador de espectro de 8,4 milhões de canais acoplado a uma antena de 26 m de diâmetro, operando na linha do hidrogênio (1.420 MHz) e em uma de suas harmônicas (2.840 MHz). Os dados eram processados por 128 computadores, divididos em oito núcleos. O projeto conseguia monitorar 66% do céu, numa taxa de 0,5 graus por dia, demorando 210 dias para cada freqüência escolhida.

Em seis anos de operação, foram detectados 37 sinais candidatos, mas que jamais foram captados numa integração adjacente (cerca de três minutos). As regiões celestes correspondentes a esses 37 sinais foram observadas em outras ocasiões e o sinal suspeito não foi encontrado novamente. Mas nem só de sinais candidatos vive o SETI. Temos também casos de falsos sinais e fraudes deliberadas. Os motivos podem ser vários: obtenção de fama em cima de uma descoberta falsa – a notícia da detecção de um sinal extraterrestre correria o mundo rapidamente –, ou até mesmo pregar uma “peça” nos cientistas do SETI. Um caso recente que teve bastante repercussão foi o de EQ Pegasi. Em 1998, o projeto Phoenix captou um sinal candidato que, descobriu-se mais tarde, tratar-se de uma interferência terrestre. Alguém se aproveitou desse fato e simulou a captação de um falso sinal, que foi divulgada em uma lista fechada da SETI League. O caso teve tais proporções que a detecção do sinal chegou a ser noticiada no programa dominical Fantástico. Inúmeras listas na internet e sites divulgaram a falsa informação, entre eles o conhecido Enterprise Mission, que possui uma página repleta de links, ainda no ar, tratando do assunto. A fraude foi elaborada de tal forma que uma imagem do programa de computador FFTDSP, utilizado no processamento de sinais, foi adulterada com comandos “copiar” e “colar” para simular a freqüência falsa.

Fraude descartada — A farsa pode ser percebida através da análise do padrão de ruídos que aparece na tela e que se repete de forma idêntica em dias diferentes, algo totalmente impossível. O autor da fraude chegou a alegar que o suposto sinal extraterrestre havia sido confirmado pelo radiotelescópio de 100 m do Instituto Max Planck¸ informação que foi imediatamente negada pelo doutor Rolf Schwartz, dessa instituição. Diversos membros da SETI League tentaram confirmar a veracidade da detecção, inclusive com radiotelescópios de grande porte, com resultado negativo, desmascarando completamente a fraude. Um outro caso acontecido recentemente envolveu um suposto sinal recebido através do projeto [email protected] e que foi logo divulgado como sendo um sinal de origem extraterrestre. Essa notícia foi divulgada pela conceituada revista New Scientist, além de ter sido veiculada em diversas listas de Ufologia e na internet. Dan Whertimer, diretor do [email protected], disse que o sinal em questão não passava de um ruído.

O único sinal candidato recebido até hoje pela SETI League foi detectado pela estação do membro Daniel Fox, em 01 de dezembro de 1996, porém, nunca foi confirmado. Fox é um assíduo colaborador da SETI League, autor do programa de processamento de sinal chamado SetiFox e já foi agraciado em março de 1997, com o prêmio Bruno Award que a entidade confere àqueles que prestaram contribuições relevantes para o seu projeto Argus. O sinal candidato faz parte da rotina do pesquisador e cabe a ele ter acesso a todas as ferramentas necessárias para analisá-lo, classificá-lo como autêntico ou descartá-lo, sem esquecer de respeitar todos os protocolos da comunidade SETI. A busca continua. E os sinais candidatos, fraudes e falsos alarmes continuarão no dia a dia dos pesquisadores, da imprensa e dos entusiastas que acompanham o desenrolar da pesquisa, até o tão esperado dia em que a primeira mensagem comprovadamente alienígena e de origem inteligente marque a história da humanidade para sempre.

Como deve ser um sinal extraterrestre

por Cláudio Brasil

Vivemos em um mar de sinais eletromagnéticos e ondas de rádio. Motores, como os de automóveis, geram fortes interferências. Temos diversas estações transmitindo seus programas, assim como satélites metereológicos, militares e de outros tipos transmitem seus dados ao planeta através de rádio. Não bastasse essa enxurrada de sinais, os objetos celestes também emitem uma radiação natural. Júpiter, por exemplo, é um forte emissor. Quando o planeta está acima do horizonte é fácil detectar os sinais emitidos por ele, experiência que pode ser realizada por qualquer aficionado por radioastronomia. Galáxias, quasares e pulsares também emitem suas ondas. Então como diferenciar um sinal natural de algo enviado por uma civilização alienígena?

Que sinal estamos procurando no SETI? Todos os objetos celestes que são emissores naturais de rádio emitem sinais de banda larga, ou seja, onde o mesmo se espalha por um largo de freqüência. Já uma transmissão alienígena, gerada por algum equipamento transmissor, seria de banda estreita – espalhando-se por um intervalo de freqüência bastante curto –, uma vez que seria um desperdício de energia um sinal de banda larga. Esse é o diferencial. Uma freqüência extraterrestre esperada seria como um espigão. Nos gráficos gerados pelo projeto [email protected] também teríamos algo similar a um espigão. Em alguns filmes temos uma correta representação do sinal que é esperado como, por exemplo, em A Invasão [1996]. Logo no início da película uma ótima seqüência mostra a detecção de um sinal extraterrestre e as conseqüentes etapas de verificação.

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Sobre o Autor

Claudio Brasil

É ufólogo, físico, astrõnomo amador e coordenador da Área de Planetas Inferiores da Rede de Astronomia Observacional (REA). É diretor científico do Instituto de Pesquisas Avançadas em Transcomunicação Instrumental (IPATI) e consultor da UFO

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