ARTIGO

[email protected]: a procura por alienígenas em cada lar

Por Claudio Brasil | Edição 37 | 01 de Outubro de 2005

O [email protected] é um programa de computador que cabe num disquete e processa sinais provenientes do radiotelescópio de Arecibo
Créditos: Editoria de Arte

[email protected]: a procura por alienígenas em cada lar

O Projeto [email protected] é, sem sombra de dúvida, o mais bem-sucedido empreendimento do SETI. A idéia é simples: milhões de computadores no mundo ficam ociosos quando seus usuários executam tarefas corriqueiras como tomar um café ou atender à campainha. Porque não utilizar esse tempo do equipamento para o Projeto SETI? De que forma isso é feito? Um dos grandes problemas do SETI é a quantidade de dados que precisam ser processados. A pesquisa tradicional utiliza a região do Buraco d’Água, que vai de 1,4 a 1,7 GHz. Se a dividirmos em intervalos de 10 KHz, teríamos 30.000 janelas para serem analisadas em cada ciclo e que são varridas constantemente. Imagine a quantidade de informações coletadas.

Mesmo um computador dedicado somente à tarefa de analisar esses dados levaria um tempo enorme para processá-los. A grande idéia de David Gedye, um cientista de computação de Seattle, Estados Unidos, foi dividir esses arquivos em pequenos pacotes, para que pudessem ser analisados por diversos computadores, aumentando a capacidade de processamento e diminuindo o tempo gasto nessa tarefa. Esse procedimento se chama computação distribuída e está sendo utilizado também em outras áreas da ciência. O [email protected] analisa as informações coletadas pela antena gigante de Arecibo. Construída num vale natural, é o maior radiotelescópio do planeta, com 305 m de diâmetro. É uma antena fixa, que aponta sempre para o zênite [Veja o Glossário nesta edição]. Embora seja utilizada para inúmeros projetos radioastronômicos, instrumentos para a pesquisa SETI estão acoplados nela e analisam as freqüências captadas com a finalidade de procurar por sinais de vida inteligente extraterrestre. Os sinais coletados pelo radiotelescópio são divididos em pequenos “pacotinhos” de dados, os chamados work units. Cada um tem cerca de 350 Kb e é enviado aos usuários pela internet. O [email protected] é um programa de computador que funciona como um salva-telas.

Funcionamento do programa — A finalidade de ser um recurso desse tipo é que ele pode ser executado quando o computador do usuário ficar ocioso, jogando imagens aleatórias no monitor do aparelho visando protegê-lo, uma vez que uma imagem fixa que fique por muito tempo inalterada pode causar danos na tela do monitor. O [email protected], tal qual um protetor de tela, entra em ação quando o micro não está sendo usado e utiliza esse tempo para processar os sinais provenientes da central em Arecibo. Além disso, os work units são recebidos pela internet. Quando o programa termina seu processamento e detecta que o usuário está conectado, o software recebe um novo pacote para processar e envia o resultado do anterior. Isso tudo leva menos de um minuto. Ao contrário do que se pensa, não há necessidade de se ficar conectado à rede o tempo todo, pois são necessários apenas alguns segundos de conexão para o envio dos resultados e o recebimento de um novo work unit. Após isso, o processamento pode ser feito “off-line”, com o micro desconectado da rede mundial de computadores.

À medida que o processamento é feito aparece no monitor do computador um gráfico do sinal que está sendo processado naquele instante, assim como as coordenadas celestes da região onde o sinal foi captado, o dia e a hora em que foi gravado. Uma barra de progresso indica o andamento das atividades do pacote de dados, que pode demorar desde algumas horas até alguns dias, dependendo da velocidade do computador e do tempo que o mesmo permanece ocioso. Cada work unit representa 107 segundos de tempo de captação de Arecibo e cerca de 10 KHz de largura de banda. São necessários 256 deles para cobrir a faixa de 2,5 MHz em menos de dois minutos.

Usuários em todo o mundo — O que é necessário para participar do [email protected]? Basicamente um microcomputador com conexão à internet. Não há necessidade de conexão permanente e nem acesso por banda larga, já que ela é usada pelo programa durante alguns minutos apenas para a troca das informações captadas. O computador deve ser no mínimo um Pentium II com 32 Mb de memória RAM. O programa [email protected] tem menos de um 1 Mb de tamanho – cabe num disquete – e pode ser obtido através da internet. Sua instalação é fácil e não requer cuidados nem conhecimentos especiais [O programa pode ser obtido através do site http://boinc.berkeley.edu/download.php].

Quando o projeto foi iniciado em 1999, cerca de 942 mil pessoas baixaram o programa e 61% delas retornaram pelo menos um work unit processado. A contribuição dessas pessoas foi equivalente a 41.900 anos de processamento. Atualmente, temos 5.436.301 usuários que colaboraram com 1.935.997.150 work units. Os dados são provenientes de 226 países. Atualmente, o que mais apresenta resultados são os Estados Unidos, com mais de 2 milhões de usuários. O Brasil ocupa a 29ª posição com cerca de 69 mil usuários. Hoje, o [email protected] está sendo migrado para um projeto mais abrangente denominado Berkeley Open Infrastructure for Networking Computing [BOINC – Infra-estrutura Aberta de Berkeley para Computação em Rede]. Ele expande a utilização do computador, com o consentimento do proprietário, para outros tipos de pesquisa que utilizam a computação distribuída, tais como estudo de variações do clima, busca por sinais gravitacionais oriundos de pulsares e pesquisas biomédicas. Existem planos para a Fase II do [email protected], que terá como objetivo observar novamente sinais candidatos captados ao longo de seu desenvolvimento. Durante seis anos, milhões de pessoas têm colaborado com o projeto através do empréstimo de seus computadores pessoais para a análise dos dados coletados pelo radiotelescópio de Arecibo. Nada menos do que 5 bilhões de sinais candidatos têm se acumulado no centro de comando do projeto nesse período. Cada um deles pode ser um sinal real de uma civilização alienígena. A primeira reobservação do [email protected] foi feita entre os dias 18 e 25 de março de 2003. Os cientistas tiveram por oito horas em cada dia acesso total ao radiotelescópio, de modo a verificarem 166 locais no céu onde fortes, claros e promissores sinais candidatos foram captados.

O futuro do [email protected] — Um único sinal que seja revisado e confirmado dessa maneira poderá ser considerado uma potencial transmissão inteligente vinda das estrelas. Em uma primeira análise, não se encontrou evidências de algum sinal extraterrestre, mas os dados coletados na reobservação serão ainda analisados por muito tempo. Atualmente, o [email protected] trabalha somente com o radiotelescópio de Arecibo como fonte de dados, aproveitando 70% de seu tempo – o restante é utilizado para manutenção. Devido à sua posição e ao fato de ser uma antena fixa, o gigante de Arecibo consegue observar apenas um terço de todo o firmamento. Existem planos para estender o programa para o hemisfério Sul, o que permitiria uma cobertura mais abrangente do céu. Essas possibilidades envolvem ainda a utilização de 13 pontos de coleta de dados, ao invés de apenas um como é feito hoje. Um dos observatórios a serem utilizados nessa fase seria o de Parkes, na Austrália.

Outro projeto que está nos planos é o astro-pulse, que tem como objetivo vasculhar as fitas de dados coletados pelo [email protected] em busca de pulsos com duração de microssegundos, ao invés dos tradicionalmente procurados. Os sinais pulsados teriam possivelmente três origens. Podem estar sendo emitidos pelos pulsares, que são estrelas de nêutrons que giram em torno de seu eixo em alta velocidade ou por uma civilização extraterrestre inteligente. Dessa forma, o astro-pulse seria um projeto complementar ao [email protected] na busca por sinais extraterrestres. Uma terceira alternativa é que eles sejam gerados por buracos negros que estejam se dissipando. Mesmo que não se consiga detectar alguma forma de vida inteligente, tal procedimento nos permitirá uma diferente visão do universo.

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Sobre o Autor

Claudio Brasil

É ufólogo, físico, astrõnomo amador e coordenador da Área de Planetas Inferiores da Rede de Astronomia Observacional (REA). É diretor científico do Instituto de Pesquisas Avançadas em Transcomunicação Instrumental (IPATI) e consultor da UFO

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