Edição 96
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Rumo ao espaço

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01 de Feb de 2004
Uma das expectativas da NASA com suas recentes missões a Marte é tentar encerrar o mistério em torno da chamada Esfinge Marciana. Para tanto, a agência divulgou a foto ao lado, do estranho artefato sob outro ângulo
Créditos: nasa

05 de janeiro de 2004. Eis um dia para ficar na história da exploração espacial norte-americana e mundial. Depois do fracasso da missão japonesa a Marte, com a sonda Nozomi, e da européia Mars Express, finalmente a norte-americana Spirit chegou ao Planeta Vermelho nessa data. Enviada pela NASA, que tem imensamente mais experiência em viagens espaciais que o Japão e os países europeus, a Spirit passou seu primeiro amanhecer em solo marciano mandando imagens de regiões nunca antes vistas por olhos humanos. Com poderosas antenas e enviado a Marte em 2003, o “Espírito Explorador” – como foi apelidado o robô –, fez chegar à Terra uma miríade de fotos, ainda em tons cinzentos, do solo e do horizonte de nosso vizinho. Mas não demorou muito para que ela nos brindasse com imagens tridimensionais e coloridas do terreno, permitindo que se pudesse ter uma noção aproximada do local do pouso. Ainda durante o primeiro fim de semana marciano depois do pouso, a Spirit já utilizava a menor de suas três antenas para mandar dados importantes para as sondas que se encontravam em órbita do planeta, que retransmitiriam os dados à Terra.

No entanto, apenas durante poucos minutos a tarefa pôde ser realizada, uma vez que o consumo de energia para estas atividades é muito grande. Portando em seu milionário conjunto automatizado uma quantidade de equipamentos sem igual na história da exploração espacial, o robô explorador permitirá que os cientistas da NASA prossigam seus estudos para determinar se já houve de fato ou se ainda há vestígio de água em estado líquido no solo marciano, ou em suas camadas inferiores. Estudando os dados obtidos, a Spirit poderá ter esclarecido também se o que é hoje um planeta frio e árido já foi alguma vez quente e úmido, como a Terra.

Amostras Geológicas — A missão, orçada em cerca de 400 milhões de dólares, tem ainda o objetivo de analisar amostras geológicas do solo e das pequenas rochas das regiões circunvizinhas, além de efetuar uma nova série de fotos da superfície marciana. As primeiras a que tivemos acesso, em boa resolução, foram enviadas pela sonda Viking, em 1976, e as últimas, pela Mars Pathfinder, a partir de 1996 [Veja cronologia]. As fotos iniciais da Spirit, assim que recebidas, geraram histeria e entusiasmo por parte dos controladores da missão. E já na primeira leva, cerca de 60 a 80 delas – a maior parte do próprio Rover, como é chamado o veículo explorador –, foram divulgadas ao mundo. Apesar de algumas fotos parecerem repetidas, o objetivo principal das primeiras tomadas era verificar o estado geral do robô explorador após o pouso. O principal motivo da euforia dos técnicos e controladores da missão é o rompimento de uma tendência atual de verem fracassadas as tentativas de exploração do planeta.

A última missão coordenada pelos norte-americanos foi em 1999, mas não obteve êxito, perdendo-se no espaço, a exemplo do que ocorreu agora com as missões Nozomi e Mars Express, enviadas pelo Japão e pela Agência Espacial Européia (ESA). Os cientistas e técnicos calculam que o tempo médio que a Spirit deverá permanecer em operação no solo de Marte é de cerca de 90 dias, mas somente depois de transcorrida a primeira semana é que começará a exploração mais efetiva do planeta. Após isso, provavelmente suas baterias estarão exauridas e o aparelho ficará para sempre juntando poeira vermelha. Já faz tempo que Marte fascina e ao mesmo tempo intriga os pesquisadores. Desde que Percival Lowell declarara, em 1894, que o planeta era recortado por canais artificiais, ele se tornou alvo de inúmeras invasões dos terráqueos. Mas nem todas frutíferas, como no caso das sondas russas Phobos 1 e 2, da norte-americana Mars Observer, além de inúmeras outras bem mais antigas.

crédito: NASA
O Rover, o jipe transportado pela missão Spirit, que está procurando vestígios de vida na superfície do planeta
O Rover, o jipe transportado pela missão Spirit, que está procurando vestígios de vida na superfície do planeta

No entanto, o número de missões que tiveram êxito está por equilibrar a balança da curiosidade humana. Com a chegada da missão atual ao Planeta Vermelho, a perspectiva é de que durante os próximos três meses o mundo possa saber em definitivo se Marte um dia abrigou alguma forma de vida, ainda que microscópica, e se em algum momento de sua história já teve oceanos ou lagos, como a Terra.

Água em Estado Líquido — Fotos enviadas pela Mars Pathfinder, em 1997, revelaram um mundo tão árido quanto o fotografado pela Viking, em 1976. Mas algumas imagens efetuadas pela Pathfinder, em 1998, contradisseram as palavras de alguns cientistas, que alegavam jamais ter existido água em estado líquido em Marte. Tais imagens mostraram alguns locais onde a existência do líquido não parece ser mera ficção ou alucinação de quem vê conspiração em tudo que a NASA faça – sua reputação de esconder descobertas do público é notória. Mais do que isso, algumas fotos trazem imagens insólitas de estruturas na superfície que sugerem mais do que a simples força erosiva dos ventos para terem sido formadas. Objetos de formas ovóides e discóides, sombras indecifráveis e uma porção de outras estruturas poligonais e simétricas causou alvoroço entre os estudiosos do planeta, fazendo os cientistas torcerem o nariz diante de tais evidências – e a NASA a abolir as imagens de seus sites na internet.

Existe, no entanto, a esperança de que a atual filosofia de esconder informações acabe, ou que pelo menos diminua, uma vez que tanto japoneses quanto europeus estão dispostos a dividir com os norte-americanos as novas descobertas. Dentro de poucos anos, a China também deverá engrossar ainda mais os investimentos na área espacial, lançando missões semelhantes. Para isto pretende, já em 2007, mandar uma nova nave à Lua que portará dois astronautas, retomando assim a época de ouro da navegação espacial.

Histórico das missões terrestres a Marte

1960 — Pioneiramente, a então URSS lança a sonda Marsnik 1, também conhecida como Mars 60 pelos norte-americanos. Foi a primeira tentativa de enviar uma nave de sondagem a Marte. Nos primórdios da conquista espacial, a Marsnik 1 fracassara, não conseguindo sair da atração gravitacional da Terra.

1963 —
Ainda a URSS, que dominava o cenário mundial dos grandes lançamentos espaciais, foi foco das atenções durante os trabalhos da Mars 1, que passou a cerca de 190.000 km do Planeta Vermelho. Foi uma proeza para a época, mas infelizmente a sonda perdeu contato com a Terra durante sua aproximação ao planeta.

1964 —
Os Estados Unidos não deixam por menos e, seguindo o rastro soviético, lançam a série denominada Mariner, obtendo êxito em sua quarta tentativa. A Mariner 4 foi a primeira sonda humana a obter de grande altitude imagens da superfície do planeta, passando a cerca de 9.800 km de Marte.

1966 — A Zond 2, também da URSS, entra em órbita de Marte. Mas não obtendo o sucesso pretendido pelos cientistas soviéticos, é abandonada.

1971 —
Nos anos da Guerra Fria era impensável ser ultrapassado pelo inimigo, e foi planejando dar um novo salto sobre os EUA que os soviéticos conseguiram depositar no planeta o primeiro artefato criado por mãos humanas a tocar seu solo. A pequena nave, denominada Mars 2 acabou se espatifando em Marte, depois de um erro de cálculo na entrada da atmosfera. Logo após, a Mars 3 pousou suavemente em solo vermelho, sendo esta a primeira missão bem sucedida a Marte. Mas a sonda não pôde prosseguir suas investigações por perda de sinal. Cogita-se que a interferência tenha sido gerada por uma tempestade de areia.

1971 — Também neste ano chegaria a Marte a sonda norte-americana Mariner 9, acirrando ainda mais a disputa pela conquista do Planeta Vermelho. Apesar de não ter descido ao solo, foi a primeira a obter imagens de alta resolução (para a época), que foram suficientes para mapear toda a superfície marciana, gerando controvérsia sobre a existência ou não de depósitos de água no planeta.

1976 —
Depois de um intervalo de cinco anos infrutíferos, a NASA voltou à cena obtendo êxito nas missões Viking 1 e 2. A primeira pousou em Marte em 20 de julho e, a segunda sonda, 9 semanas depois, em 03 de setembro — mas a cerca de 7.500 km de distância de sua antecessora. Foi esta última que descobriu a existência de minerais ferrosos e magnéticos no solo do planeta, além de dados relevantes acerca de atividades geológicas e mineralógicas. Viking 2 foi a primeira a mandar fotos coloridas da superfície marciana, revelando sua aparência desértica e alaranjada que conhecemos hoje. Nesta missão, outros fatos fizeram com que as sondas estimulassem ufólogos e admiradores do planeta, como a revelação de pirâmides e de uma suposta estrutura artificial semelhante a uma face humanóide na Planície de Cydonia.

1988 — Depois de um longo intervalo sem grandes investimentos na área espacial, e devido ao arrefecimento dos ânimos da Guerra Fria, a então URSS retomou suas pesquisas, tentando colocar em órbita de Marte as sondas Phobos 1 e 2. A primeira deixara de mandar sinais logo ao sair da atmosfera, enquanto a segunda, após algumas órbitas de aproximação, desaparecera misteriosamente sem deixar vestígios. Tudo o que se pôde obter foi um silvo estridente como o de uma interferência e a foto de um estranho objeto cilíndrico, desconhecido, muito próximo da sonda. Depois disso, silêncio total. Ufólogos estimam que tenha sido neutralizada por um UFO.

1996 —
Com a Mars Pathfinder e a Mars Orbital Câmera (MOC), a humanidade aumentou seus conhecimentos sobre Marte em uma semana tudo o que levara séculos para obter. Com uma infindável quantidade de dados e milhares de fotos obtidas, a Pathfinder foi a que obteve maior sucesso entre as missões e que maior quantidade de questionamentos gerou. Nunca os cientistas tiveram tanta dúvida sobre o que supostamente já se sabia.

1999 —
Em circunstâncias não totalmente explicadas, a sonda Mars Observer, encarregada de orbitar Marte e obter dados sobre a existência de água no planeta, simplesmente desapareceu no espaço, interrompendo as comunicações com o controle da missão, nos EUA. Ela carregou para o abismo cósmico cerca de duas toneladas e meia de equipamentos de última geração e investimentos da ordem de um bilhão e meio de dólares.

2004 —
Chega a Marte a mais promissora das missões de toda a história da exploração espacial. A Mars Spirit, enviada pelos EUA, tem por objetivo descobrir de uma vez por todas se ainda há ou se já houve alguma vez água em Marte. Os fãs de Marte podem aguardar ansiosos, pois devem vir mais revelações por aí.

Chegamos lá de novo. Mas nem sinal dos marcianos...

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Feb de 2004

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