Edição 213
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Qual é a verdade sobre o suposto encontro de Eisenhower com seres extraterrestres?

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01 de Jul de 2014
São inúmeras as histórias que circulam pela Ufologia a respeito de UFOs sendo mantidos por militares norte-americanos. Seriam todas meras invenções?
Créditos: Luca OleAstri

Uma das primeiras conclusões a que um observador imparcial chega sobre o assunto UFO é que rumores e boatos desempenham um papel muito grande no que deveria ser uma missão mais exigente para o conhecimento. Foi essa observação que uma vez levou Carl Sagan a comentar secamente que “os UFOs são mais uma questão de religião e superstição do que um tema para a ciência”. Embora esta conclusão talvez seja pouco científica em sua própria definição, ela é clara e acertada. Participe de qualquer reunião sobre Ufologia que se queira e simplesmente escute o que dizem seus participantes para ver que rumores e boatos sem sustentação abundam. Talvez o pior nisso tudo, porém, seja que alguns desses rumores tendam a circular durante anos, até mesmo décadas, sem que ninguém faça um razoável esforço para chegar ao fundo deles.

A viagem de Eisenhower

Um dos rumores mais persistente da Ufologia é uma história sobre o presidente Dwight Eisenhower ter visitado a Base Aérea de Edwards, no início de 1954, e ter se reunido com alienígenas que estariam em algum tipo de missão diplomática na Terra — outra versão desta história diz que ele apenas viu corpos de alienígenas mortos junto aos destroços de sua nave. Este curioso rumor toma muitas formas, mas o traço comum é que Eisenhower desapareceu misteriosamente durante uma noite enquanto estava em férias em Palm Springs, na Califórnia, e que teria sido levado para Edwards para encontrar alienígenas. Diz-se que ele voltou de madrugada e logo em seguida pediu sigilo absoluto sobre qualquer coisa que tivesse a ver com discos voadores.


Sem dúvida que uma das razões que fez esse rumor continuar a circular por tão longo tempo é que há uma série de fatos verificáveis associados a ele, alguns bastante curiosos. Por exemplo, o presidente Eisenhower, de fato, fez uma viagem para Palm Springs entre 17 e 24 de fevereiro de 1954 e na noite de sábado, 20 de fevereiro, ele desapareceu sem nenhuma explicação. Quando a imprensa soube que o presidente dos Estados Unidos não estava onde deveria estar, os rumores correram desenfreados, dizendo que ele estaria morto ou seriamente doente.

O dentista do presidente

A história acabou sendo transmitida apenas para ser desmentida momentos depois. Para acabar com a confusão, a Casa Branca e seu relações públicas na época, James Haggerty, fizeram uma conferência de imprensa urgente, tarde da noite, para anunciar solenemente que o presidente tinha perdido a obturação de um dente ao comer frango frito, e que precisou ser levado a um dentista para o tratamento. Quando Eisenhower apareceu como previsto, na manhã seguinte, para uma cerimônia religiosa logo cedo, o assunto parecia encerrado. Embora a viagem a Palm Springs tenha sido anunciada como um “período de férias para o presidente”, segundo nota oficial, ela parece ter sido marcada em cima da hora. Além disso, é uma questão de registro que o presidente havia retornado de um período de férias de caça a codornas, na Geórgia, menos de uma semana antes de partir para Palm Springs.


O fato de um dentista local ser chamado para tratar um presidente dos Estados Unidos é raro o suficiente para constituir um evento bastante memorável para todos os envolvidos. Porém, a viúva do dentista, em uma entrevista em junho de 1979, foi incapaz de recordar qualquer detalhe relativo ao suposto envolvimento do marido no caso, nem mesmo a hora do dia em que tinha ocorrido. Como isso é possível? No entanto, a memória dela pareceu impecável quando lhe pediram para detalhar sua presença e de seu marido, por convite presidencial, em um jantar na noite seguinte, onde seu marido foi apresentado como “o dentista que havia tratado o presidente”, também segundo nota oficial.

Os registros

Isso parece sugerir um acobertamento e os detalhes dele poderiam ter sido facilmente repetidos na época, mas naturalmente esquecidos 25 anos depois. Uma pesquisa feita na Biblioteca Eisenhower levou à descoberta de dois outros fatos inconsistentes em relação à história do dentista. A primeira é que, enquanto a biblioteca mantém um extenso índice de registros relacionados à saúde do presidente, não há nenhuma anotação de qualquer trabalho dentário realizado durante o mês de fevereiro de 1954 — o arquivo do item “dentistas” não contém nada sobre qualquer incidente. Em segundo lugar, há uma grande pasta contendo cópias de todos os tipos de agradecimentos que foram enviados pela Casa Branca às pessoas que tinham algo a ver com a viagem a Palm Springs.

Há cartas de agradecimento, por exemplo, para pessoas que enviaram flores, para as que encontraram o avião presidencial, para as que tinham se oferecido para jogar golfe com o presidente e assim por diante. Existe ainda uma carta de agradecimento ao pastor que presidiu o culto de domingo, ao qual Eisenhower compareceu. No entanto, não há registro de qualquer carta de agradecimento ter sido enviada para o dentista que teria tratado do presidente! Caso a questão fosse tão rotineira quanto Haggerty tentava fazê-la parecer, então a ausência destes registros parece estranhamente inconsistente.

A carta de Gerald Light


O rumor da suposta visita do presidente à Base Aérea de Edwards não é novo. Escritores começaram a fazer alegações infundadas sobre isso menos de dois meses depois. Um deles foi um sujeito bizarro das colinas de Hollywood, chamado Gerald Light, que, em uma carta datada de 16 de abril de 1954 para o chefe de uma organização metafísica do sul da Califórnia, alegou ter estado em Edwards, onde ele viu o presidente, os discos e os alienígenas. A carta da Light tem gerado controvérsia por anos e cópias dela apareceram em todos os lugares, inclusive no tabloide National Enquirer.

Uma investigação sobre o passado de Light, no entanto, mostrou que ele era um místico idoso e excêntrico que acreditava em poderes psíquicos e que experiências fora do corpo — mais conhecidas como viagens astrais — eram uma extensão lógica da realidade da vida e deviam ser tratadas como tal. Na análise final, a alegada visita de Light a Edwards foi apenas mais uma dessas “experiências”. E assim a história termina. É evidente que algo incomum ocorreu envolvendo o presidente na noite de 20 de fevereiro de 1954. Porém, se foi uma visita ao dentista, uma viagem para ver discos voadores ou algo completamente diferente, ninguém pode dizer. E é dessa matéria-prima que os rumores são feitos.

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