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Por que as abduções alienígenas diminuíram dramaticamente?

Por Linda McRobbie | Edição 243 | 01 de Fevereiro de 2017


Créditos: ARQUIVO UFO

Por que as abduções alienígenas diminuíram dramaticamente?

A primeira vez que um alienígena falou com Denise Stone ela tinha dois anos e meio. Ela estava em sua casa com seu avô e sua mãe no hospital dando à luz à sua irmã mais nova. Denise se lembra de olhar para fora através de uma grande janela e ver um objeto em forma de ovo pairando sobre algumas linhas elétricas. “O que Humpty Dumpty está fazendo no céu?”, perguntou-se a menina, referindo-se ao personagem de uma rima inglesa que tem a forma de um ovo antropomorfizado. Ela se lembra do medo no rosto de seu avô, quando ele lhe disse que era hora de ir dormir.

Mais tarde naquela noite, ela estava deitada olhando para o papel de parede em seu quarto quando uma entidade entrou atravessando a parede. “Ele se parecia com um macaco. Usava uma túnica e estava carregando uma luz em uma das mãos. Eu não senti medo”, declarou Denise. “Ele esticou a outra mão para mim e eu a peguei. Então, nós saímos para o corredor”. O alienígena apontou a luz para a parede e eles passaram através dela. A menina se recorda de estar em uma grande sala em formato de domo cheia de crianças e elas pareciam estar aprendendo alguma coisa. Pela manhã, ela estava de volta à sua cama.

Desde então, Denise foi “levada” mais de 50 vezes. De sua casa, da rua, de seu carro e, na última vez, há três anos, quando estava dirigindo pelas montanhas do Colorado. Em todos as vezes pelo mesmo ser. “Ele é um gray [Cinza] típico, mas é alto. Seu rosto é mais sutil e seu queixo mais largo”, explica. Ela o chama de “acompanhante”. “Não existe amizade. Ele vem me buscar e eu sei que estarei em segurança independentemente do que aconteça. Ele também supervisiona todas as atividades”. Denise, hoje com 68 anos, vive na Flórida com seu marido. Sua história é coerente, ela não gagueja ou se perde em seus relatos. Você acredita nela?

O fenômeno das abduções

Se o leitor respondeu que sim, então poderia estar entre os 77% dos norte-americanos que, em uma pesquisa feita pelo Instituto National Geographic, em 2012, disseram acreditar que alienígenas visitam a Terra. Ou entre os 30% de norte-americanos que, segundo uma pesquisa feita pela empresa YouGov, em 2015, creem que o governo dos Estados Unidos acoberta as evidências e esconde provas das visitas extraterrestres. Ou, quem sabe, isso tenha acontecido com você, leitor. Há poucos números concretos, mas uma pesquisa rápida feita por um programa britânico apurou que 25% das pessoas entrevistadas acreditavam que já tivessem sido abduzidas por alienígenas.

A crença de que existe vida inteligente em outros planetas é convincente e sensata, e 80% dos norte-americanos acreditam nisso, de acordo com uma pesquisa de 2015. Já crer que os aliens estejam aqui é outra coisa, uma vez que isso envolve um salto de fé maior do que apenas saber que o universo é um lugar imenso e desconhecido. Histórias de abdução e contato não são mais o assunto dos programas vespertinos nem o tema dos grandes bestsellers na lista do New York Times já há algumas décadas e o tabloide sensacionalista Weekly World News não está mais vendendo histórias sobre o bebê alienígena de Hillary Clinton nas prateleiras dos supermercados. Boas e sólidas histórias sobre visitas e contatos alienígenas raramente chegam à grande imprensa hoje em dia, mas elas prosperam em canais da TV paga e em fóruns na internet. Mas também queremos levar em conta a opinião de céticos, cientistas e psicólogos que dizem que não há evidência sólida apoiando os relatos.

O fenômeno da abdução começou, entre outros, com o estranho caso de Betty e Barney Hill. Na noite de 19 de setembro de 1961, os Hills estavam dirigindo de Montreal para sua casa, em Portsmouth, no estado de New Haven. De repente, Betty notou um UFO que os seguia. Barney parou o carro no acostamento, próximo a Indian Head, nas Montanhas White, e desceu para ver a nave com binóculos — quando percebeu figuras humanoides usando uniformes em estilo nazista e olhando pelas janelas do UFO, ele correu de volta para o carro, gritando “Oh, meu Deus. Vamos ser capturados!” Eles saíram dali, mas duas horas mais tarde deram por si a 56 km de distância do local onde tinham visto o UFO, sem saber como haviam chegado até lá. Hoje em dia há um marco comemorativo no local. Logo depois disso, Betty começou a ter pesadelos.

Regressão hipnótica

Em 1964, os Hills se submeteram à hipnoterapia. Sob regressão hipnótica, cujo objetivo é ajudar o paciente a relembrar certos eventos com mais clareza, o casal disse que havia sido levado para dentro da nave e submetido a experimentos invasivos. A história dos Hills, que foi revelada ao público em 1965 em um artigo do jornal Boston Traveler, e um ano mais tarde no livro A Jornada Interrompida, [Record, 1982], de John G. Fuller, despertou o fascínio do público sobre as abduções.

"Missing time"

Barney Hill faleceu em 1969, vítima de uma hemorragia cerebral, mas Betty continuou sua sina e virou uma espécie de ícone das experiências paranormais. A história do casal se tornou um modelo para experiências de abdução alienígena nos anos que se seguiram, especialmente após a transmissão do filme feito para televisão, em 1975, The UFO Incident, estrelado por James Earl Jones no papel de Barney Hill. Experienciadores subsequentes passaram a descrever episódios de tempo perdido, os tais “missing time”, ou que tinham sonhos bizarros e recordações de coisas que eles não conseguiam entender — muitos passaram a usar a regressão hipnótica para recuperar suas experiências.

Pelas próximas duas décadas, a narrativa das abduções encontrou seu caminho em direção à consciência da população, alimentada por filmes de ficção científica como Contatos Imediatos de Terceiro Grau [1977] e por novos relatos sobre misteriosos incidentes de tirar o fôlego. Em 1966, uma pesquisa do Instituto Gallup perguntou aos norte-americanos se já haviam visto um UFO. 5% disseram que sim, mas se referiam ao significado literal da sigla e não especialmente a uma nave alienígena — somente 7% dos norte-americanos acreditavam que os UFOs viessem do espaço exterior. Em 1986, uma nova pesquisa do Laboratório de Opinião Pública detectou que 43% das pessoas que responderam à enquete concordavam com a declaração que lhes foi apresentada, de que “é possível que alguns dos UFOs que foram relatados sejam realmente veículos vindos de outras civilizações”.

Salvar ou escravizar?

Alguns experienciadores disseram que os aliens estão aqui para nos estudar e salvar, outros disseram que estão aqui para extrair nossos órgãos e nos escravizar. Porém, no final dos anos 80, pessoas cujas histórias haviam sido descartadas como delírio pela geração anterior estavam sendo entrevistadas no programa Oprah Winfrey Show e histórias reais de encontros com ETs, como as descritas no livro Intrusos [Record, 1993], de Budd Hopkins, e Comunhão [Record, 1987], de Whitley Strieber, viraram bestsellers. Nos anos 90, aqueles que acreditavam que as histórias de abdução eram verdadeiras, ganharam um importante aliado em John Mack, um psiquiatra e professor da Universidade de Harvard que compilou seu estudo sobre o fenômeno em um livro lançado em 1994 chamado Abduction: Human Encounters with Aliens [Scribner, 2007]. Algum tempo depois, Mack disse à rede BBC: “Eu nunca afirmei que há alienígenas levando pessoas. Mas eu diria que há um intrigante e poderoso fenômeno aqui e que eu não posso explicar de outro modo”.

“Esse tipo de livro vendeu muito, mas muito mesmo, em aeroportos e estações ferroviárias. Você não conseguia evitá-los”, disse o doutor Chris French, líder do Departamento de Anomalias Psicológicas da Faculdade Goldsmith, em Londres, e autor de um estudo sobre abduções. E não eram apenas livros. Arquivo X, uma das mais populares séries de televisão dos anos 90, era quase que inteiramente dedicada à teoria da conspiração alienígena. “Todas essas coisas juntas influenciaram a crença das pessoas sobre o que pode ser verdade e o que pode ser plausível”, disse French.

Outras correntes sociais, algumas delas peculiarmente dos Estados Unidos, ajudaram a formar essas histórias e nosso interesse por elas. A exploração espacial nos anos 50 e 60 forçou o país a admitir que um vasto desconhecido se estende além de nossa atmosfera. Ao mesmo tempo, a Guerra Fria inspirava um medo existencial de uma invasão alienígena. Os anos 60 e 70 foram acompanhados por um misticismo que expandiu os horizontes, por experiências com drogas que eram publicitadas e por pessoas falando sobre experiências fora do corpo, a tal projeção astral. Já a década de 80 viu explodir a angústia em torno de um “estranho perigo”, com os quase diários relatos de raptos de crianças e de molestamento sexual vindos de memórias reprimidas e depois recuperadas — os relatos de abduções absorveram esse filão e o reinventaram substituindo a violência sexual humana por implantes e por um sinistro programa de criação de híbridos.

O que diz a ciência?

Enquanto isso, psicólogos como French examinam as narrativas de abdução sob uma perspectiva mais cética. E o que eles descobriram foi que a verdade não está lá fora, mas dentro de nossas cabeças. “As pessoas de todas as sociedades têm experiências estranhas, dado que nossos sistemas nervosos são iguais. O que difere é a interpretação que damos a elas”, explicou French. Há uma pequena, porém persistente, porcentagem de casos de abdução para a qual não há uma explicação científica clara, mas muitos outros podem ter diversas explicações fisiológicas ou psicológicas, incluindo epilepsia, cujas crises podem ser precedidas por distúrbios visuais, narcolepsia ou paralisia do sono.

No sono normal, seu corpo relaxa quase até o ponto de paralisia, provavelmente para impedi-lo de agir fora de seus sonhos. A paralisia do sono é uma interrupção do sonho lúcido, no qual a mente acorda parcialmente e descobre que o corpo ainda dorme. Isso pode ser apavorante — as pessoas relatam sentir a presença de entidades no quarto, mas são incapazes de se mover, assim como relatam pressão no peito e sensação parecida com experiências fora do corpo acompanhada de intensas emoções. No passado, e em outro contexto cultural, essa experiência era atribuída a demônios, espíritos malignos ou fenômenos religiosos. Nos Estados Unidos, onde a ficção científica torna-se cada vez mais parte da indústria do entretenimento e histórias sobre contatos com aliens são tratadas como notícias reais, estes pareciam uma explicação plausível para essas experiências.

E há, também, a natureza escorregadia da memória em si. A nitidez e riqueza de uma experiência lembrada não é garantia de sua realidade objetiva, ainda mais se essa memória é recordada por meio de regressão hipnótica. Embora hoje em dia seja rejeitada por grande parte da Psicologia oficial, a hipnose regressiva continua a ser popular entre os experimentadores. Os psicólogos dizem que é possível discernir memórias verdadeiras de eventos reais de memórias verdadeiras de eventos imaginados.

Além disso, há a nossa conhecida alucinação. Uma pesquisa internacional recente, feita com mais de 30 mil pessoas que nunca foram diagnosticadas com esquizofrenia ou qualquer outro tipo de distúrbio mental, descobriu que 6% delas relataram ter experimentado alucinações não relativas a drogas, álcool ou sono. E, finalmente, como observou Michael Shermer, proeminente cético norte-americano e colunista da revista Scientific American, “as pessoas simplesmente inventam coisas”.

Questão de crença?

No final dos anos 90, a bolha das abduções estourou. Em abril de 2001 circularam boatos, mais tarde negados, de que o British UFO Research Organization (Bufora), que em seu auge chegou a ter 1.500 membros, estava fechando após um longo período sem avistamentos. Cinco meses depois, dois aviões se chocaram contra as Torres Gêmeas e ninguém mais se importou com “homenzinhos verdes”. Chris Carter, diretor de Arquivo X declarou, no evento ComicCom de 2008, em San Diego, que depois do 11 de Setembro nada mais tinha graça. Em 2006, Ben MacIntyre, colunista do The Times, declarou que a internet havia minado a crença em UFOs e visitas alienígenas. “Os UFOs foram identificados e não podem mais voar. Os ETs foram para casa”, disse ele, irônico. O ceticismo, parecia, tinha matado os UFOs. Só que não matou. Não mesmo!

O pesquisador David Clarke investigou os arquivos ufológicos do Governo Britânico. Ex-crente em UFOs, ele agora é um cético e autor de vários livros, incluindo How UFOs Conquered the World: The History of a Modern Myth [Aurum Press, 2015]. Na opinião de Clarke, a internet não só não matou a certeza quanto aos alienígenas como ainda ofereceu a ela uma centena de câmeras de eco para que esta certeza possa prosperar. “Acho que há muitas pessoas que acreditam que essas coisas acontecem, mas elas se retiraram da cena pública e só conversam entre si”, declarou. “Para você fazer parte da comunidade ufológica, precisa acreditar nessa realidade”, completou Clarke.

Os céticos querem pensar que menos pessoas acreditam em UFOs e que mais pessoas estão cientes de que explicações como paralisia do sono e memórias falsas são as causas dos relatos. “As pessoas são capazes dessas experiências fantásticas sem que precisem ser reais fora do cérebro”, disse Shermer, acrescentando também que a era dos telefones com câmeras está aumentando assim o ônus da evidência sobre os experienciadores.

Já os experienciadores querem pensar que o ceticismo público está diminuindo. Rosemary Ellen Guiley, prolífica escritora sobre experiências paranormais e místicas, explicou que “mais pessoas estão dispostas a falar sobre suas experiências porque a mídia abriu a porta e porque tem havido muita atenção da mídia para todos os tipos de experiências, positivas e negativas. Isso permite que elas possam falar sobre isso e não serem ridicularizadas”.

Descrença no governo

No entanto, se as pesquisas periódicas são uma indicação, os norte-americanos permaneceram consistentes sobre a existência dos extraterrestres nas últimas três décadas. Em qualquer momento dado, cerca de 10% deles acreditam ter visto um UFO. Uma nova pesquisa do Instituto Gallup, de 1990, descobriu que 47% dos entrevistados acreditavam que os UFO eram reais, assim como os alienígenas. Já a pesquisa do Instituto Ipsos, de 2015, descobriu que 56% dos norte-americanos acredita em UFOs 25 anos depois. A descrença nas declarações do governo dos Estados Unidos sobre os UFOs também se manteve estável. Em 1996, 71% achavam que ele escondia algo. Em 2012 já eram 79%, de acordo com pesquisa da National Geographic. Em outras palavras, há mais pessoas que acreditam que o governo norte-americano está encobrindo evidências de vida alienígena do que pessoas que acreditam que Jesus é o filho de Deus — uma pesquisa da Harris Poll, feita em 2013, descobriu que apenas 68% dos entrevistados acreditavam no princípio central do Cristianismo. Isso fez com que a promessa da campanha de Hillary Clinton, de abrir arquivos na Área 51, parecesse ainda mais esperta. Só que não deu certo.

Tudo isso também aponta para um momento estranho para nós, humanos, sobre como nossa compreensão acerca de nosso lugar no universo mudou nos últimos 50 anos. “Nós nos tornamos mais materialistas, científicos, seculares, mas ainda somos exatamente os mesmos seres humanos, com a mesma composição fisiológica e psicológica. Nossos cérebros são equipamentos que têm dificuldade de acreditar em algo diferente de nós mesmos”, disse Clarke. “As pessoas continuarão acreditando porque, penso eu, isso é apenas uma parte natural do que somos”.

Quem somos nós?

Nesse ponto, alguns céticos e alguns crentes concordam. Há uma longa história de experiências anômalas atribuídas a anjos, fadas, deuses e monstros — experiências de contato não humano construídas de modo a se encaixarem em um determinado contexto cultural. Elas apontam para algo comum na consciência humana. “Tivemos experiências ao longo da história que demonstram que estamos conectados a algo maior que nós mesmos”, disse Guiley.

Ou talvez não. Em 1978, o poeta vencedor do prêmio Pulitzer James Merrill publicou Mirabell: Books of Number [Atheneum, 1978], uma obra que transcreve as conversas do poeta com os espíritos, usando um tabuleiro Ouija. “Se os espíritos não são externos, quão assombrosos os médiuns se tornam”, disse ele em uma entrevista. A implicação é, talvez, decepcionante. Não são espíritos, não são alienígenas, somos apenas nós. Mas também é bonita e útil. “Investir tempo e dinheiro em porque as pessoas têm esse tipo de experiências extraordinárias pode nos ajudar a responder a perguntas fundamentais para as quais não temos respostas, como, por exemplo, a razão de termos consciência? Eu não acredito em aliens, mas sim que algo incomum está acontecendo com essas pessoas e isso deve ser estudado”, disse Clarke.

Resolver esses enigmas pede um monte de trabalho sério, que pode levar a vários becos sem saída, e que pode não ser satisfatório, ainda que cheguemos às respostas. E é por isso que, no final, pode ser mais fácil atribuir aos alienígenas todas as coisas maravilhosas que simplesmente não entendemos sobre a nossa condição de ser humano.

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Linda McRobbie

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