ARTIGO

O programa espacial russo e seus segredos

Por Paul Stonehill | Edição 230 | 01 de Janeiro de 2016


Créditos: RAFAEL AMORIM

O programa espacial russo e seus segredos

A ideia da exploração espacial começou muito antes do que a maioria de nós imagina. Ela foi proposta em 1903, por um cientista russo de nome Konstantin Tsiolkovskiy em um artigo chamado Exploração do Espaço Cósmico Por Meio de Dispositivos de Reação. O texto foi muito bem aceito pela comunidade científica europeia e, a partir de então, o conceito ganhou forma e os países começaram a competir para ver quem seria o primeiro a conseguir alcançar o cosmos. Nos anos 20, 30 e 40, Estados Unidos, União Soviética e Alemanha construíram e lançaram foguetes para o espaço e, em 1958, os norte-americanos colocaram em órbita o primeiro satélite de comunicação mantido por energia solar. Mas foi a União Soviética quem lançou o primeiro voo tripulado para a órbita terrestre, em 1961. O cosmonauta que teve o privilégio de ser o primeiro humano a ver a Terra do espaço foi Yuri Gagarin, a bordo da nave Vostok I. E, segundo dizem, teria cunhado a famosa frase “a Terra é azul”, na ocasião.

Muito embora, com o correr dos anos, a União Soviética acabasse sendo ultrapassada pelos Estados Unidos na corrida espacial, os cosmonautas continuaram a ser enviados para o espaço e em suas incursões viram e ouviram muitos eventos misteriosos — alguns deles podem ser explicados como falhas ou imperfeições nos equipamentos, mas outros simplesmente não têm explicações convencionais. Mesmo proibidos de contarem aquilo que presenciaram, alguns relatos escaparam ao controle do então Governo Soviético e chegaram até nós. Entre os casos que conhecemos, está o testemunho de Vladimir Lyakhov sobre um fenômeno bastante incomum que observou de sua espaçonave, enquanto olhava na direção da Terra. Segundo ele, duas ondas gigantescas surgiram no Oceano Índico e chocaram-se uma contra a outra. A massa de água resultante da colisão parecia uma enorme montanha e desapareceu rapidamente. Seu colega Vladimir Kovalenok relatou algo muito semelhante: um pilar de água com mais de 100 km de altura no mar do Timor, entre o Timor Leste e a Austrália.

Mistérios no espaço

Em artigo publicado em 1979 pela revista Tekhnika Molodezhi [Tecnologia Jovem], o cosmonauta e cientista Yevgeny Khrunov dizia que os UFOs não podiam ser negados, já que milhares de pessoas já os observara. “As características desses objetos voadores não identificados simplesmente surpreendem nossa imaginação”, disse o cosmonauta. Já seu colega Aleksei Gubarev foi mais adiante e admitiu acreditar em alienígenas. Ele também citou informações que estariam de posse dos norte-americanos e que confirmariam tal crença.

Após a queda da União Soviética, a Ufologia passou a ser discutida mais abertamente na então Rússia e, em 1992, o jornal Spektra publicou um artigo no qual listava vários incidentes vividos por cosmonautas. Em 1976, por exemplo, ano de um famoso incidente ufológico de Teerã, no Irã, o cosmonauta Vladimir Kubasov disse a um repórter que ele e outros cosmonautas conheciam inúmeros fatos que provariam a existência dos UFOs, mas não detalhou quais seriam. Já em 15 de agosto de 1978, o citado Kovalenok observou um estranho objeto quando estava na estação espacialSalyut 6, que se aproximou e afastou repetidas vezes da estação. Em 14 e 15 de junho de 1980, os cosmonautas Valery Ryumin e Leonid Popov, a bordo da mesma estação, observaram um grupo de pontos brilhantes decolarem de uma região de Moscou e voar para o espaço, acima da estação. Eles relataram o fenômeno ao controle em terra.

crédito: NASA
A espantosamente grande estação espacial Mir, que esteve em operação regular durante anos, em que variadas tripulações tiveram contatos com UFOs
A espantosamente grande estação espacial Mir, que esteve em operação regular durante anos, em que variadas tripulações tiveram contatos com UFOs

Outro avistamento interessante ocorreu em 02 de setembro de 1978. Os cosmonautas Kovalenok e Ivanchenkov observaram a sombra da Salyut 6acima das nuvens — ela tinha uma estranha coloração laranja-avermelhada. O mais impressionante é que a “sombra” mudava de tamanho. Naquele mesmo ano, em 25 de agosto, ambos os cosmonautas observaram nuvens iridescentes nas cores verde, roxa, avermelhada, azul e violeta. A origem do fenômeno permanece até hoje inexplicada. Esse tipo de nuvem já havia sido relatado pelo astrônomo russo Vitold Tsesarsky, em 1885. São as mais altas na atmosfera terrestre, localizadas entre 70 km a 90 km do solo. Sua natureza permanece incerta.

Há, também, um espantosamente interessante relato no livro Znakomtes [Editora NLO, 1990], no qual o pesquisador Vladimir Ajaja conta que o coronel Yury Nazarov, ex-vice-comandante do Centro de Controle Espacial Soviético lhe relatara que, em 29 de agosto de 1978, os cosmonautas Kovalenok, Ivanchenkov, o recém-chegado Bykovsky e o alemão-oriental Sigmund Jähn observaram um artefato esférico não identificado que voava ao redor da Salyut 6. Ajaja procurou Bykovsky para recolher algumas informações, mas o cosmonauta apenas admitiu terem observado algo inexplicado a bordo da espaçonave.

Cosmonautas e os UFOs

Outro que relatou um fato inusitado foi o cosmonauta Georgii Grechko, que disse ter visto um estranho ser de dimensões gigantescas sobre a Mongólia. Grechko e Yuri Romanenko também relataram aoCentro de Controle Espacial Soviético que, enquanto estavam na estação orbital sobre as Ilhas Malvinas, observaram letras gigantes — a fotografia que fizeram foi enviada à Terra pelos cosmonautas visitantes Dzhanibekov e Makarov. E Vladislav Volkov, falecido em 1971, falou de barulhos inexplicados que ouvira no espaço, em seu fone de comunicação — segundo ele, eram sons de cães latindo e bebês chorando. Até sua morte, Volkov não conseguia explicar o fenômeno. Já os cosmonautas Gagarin e Leonov ouviram uma música que Gagarin descreveu como “não sendo da Terra”. Enfim, são muitos casos e nem todos os fenômenos poderiam ser explicados pela privação sensorial ou por falhas técnicas nos equipamentos.

Por mais que o governo proibisse e sufocasse as declarações dos pilotos espaciais, não conseguiu impedi-los de pensarem sobre o assunto e nem calar todos eles. Em 1981, o cosmonauta Yury Malishev declarou que, quando se trata de UFOs, provavelmente ninguém no mundo pode dizer o que são. “É impossível refutar fenômenos deste tipo, pois há milhares ou dezenas de milhares de pessoas que já os avistaram. Ainda assim, a natureza física dos UFOs continua indeterminada”, garantiu Malishev. Anteriormente, naquele mesmo ano, o cosmonauta Vladimir Aksyonov fora mais cauteloso, dizendo que eles sempre observavam fenômenos luminosos peculiares e ainda de natureza inexplicável. “O estágio atual da pesquisa sobre o fenômeno é similar aos primeiros passos de ciências como a zoologia e botânica, quando os naturalistas podiam apenas descrever as espécies desconhecidas de plantas e animais”, declarou.

Mesmo proibidos de contarem aquilo que presenciaram, alguns relatos dos cosmonautas escaparam ao controle do então Governo Soviético e chegaram até nós. São depoimentos incríveis sobre fenômenos vistos ao redor da Terra, sem qualquer explicação

No ano seguinte, 1982, os cosmonautas Georgii Beregovoy e Valentin Lebedev também puderam observar um objeto incomum, em forma de gota, na tela de um monitor da Salyut 7 — o UFO voou em trajetória ascendente entre a estação orbital e a naveProgressor 14. O artefato, que estava a uma distância de 200 m, tinha o tamanho de uma espaçonave. Essa informação está no livro Fenomenon: Vzglyad iz Rossii [Fenômeno UFO: Uma Visão da Rússia, Likran, 1994], de Gherman Kolchin, coronel soviético e pesquisador ufológico. O autor relata ter falado com o cosmonauta Pyotr Klimuk, em abril de 1989, que por sua vez confirmou a existência dos UFOs e observações deles no espaço.

Em 16 de outubro de 1990, o jornal Rabochaya Tribunna trouxe o depoimento do cosmonauta Gennady Strekalov, que descreveu algo que observou em 28 de setembro daquele ano, durante sua estada na estação espacial Mir — era uma esfera sobre a região de Terra Nova, no Canadá, a uma altitude de 20 km a 30 km. Segundo Strekalov, a atmosfera estava clara e a visibilidade era ideal. A esfera era perfeita, mudava de cor e, após permanecer visível por 10 segundos, desapareceu de imediato. O cosmonauta relatou o incidente ao centro de controle da missão, mas não classificou o artefato como um UFO. Seu colega Gennady Manakov, que também estava a bordo da Mir,observou o mesmo fato.

Anjos reluzentes


Um dos mais espetaculares relatos envolvendo cosmonautas veio da estação orbital soviética Salyut 7, cuja tripulação, em 1984, época dos fatos, era formada por seis cosmonautas: Leonid Kizil, Oleg Atkov, Vladimir Solovyew, Svetlana Savitskaya, Igor Volk e Vladimir Dzhanibekov. No 155º dia de voo da estação, a tripulação estava ocupada planejando experiências, testes e observações científicas e prestes a iniciar os experimentos médicos quando algo inusitado aconteceu. Todos eram cosmonautas experientes e bem treinados. De repente, em frente à estação Salyut 7, surgiu uma grande nuvem de gás cor laranja e de origem desconhecida. Os cosmonautas informaram imediatamente ao centro de controle. Enquanto os surpresos controladores da missãoanalisavam o relato, a Salyut7adentrou a nuvem — a estupefata tripulação teve a breve impressão de que a nuvem é que penetrara a estação.

crédito: ESA
Cosmonautas russos fazem averiguações em sistemas da Salyut em uma de suas missões
Cosmonautas russos fazem averiguações em sistemas da Salyut em uma de suas missões

Os cosmonautas foram envolvidos por um misterioso brilho laranja, cegante, que os fez perder contato visual com os outros camaradas. A visão, no entanto, foi logo recuperada. Eles correram para as escotilhas da estação e o que viram os deixou sem fala: havia sete silhuetas gigantes facilmente distinguíveis dentro da nuvem laranja. Seus ideais políticos, sua fé no Marxismo e no Leninismo desapareceram em um instante, e não podiam acreditar no que viam. Nenhum deles duvidava daquelas formas, descritas por Svetlana, a única mulher a bordo, como “sete anjos celestiais com aparência humana”, porém com algumas diferenças. “Sim, anjos com enormes asas e halos reluzentes”, insistiu. “A principal diferença, porém, eram seus sorrisos”. Segundo os cosmonautas, quando eles olharam para a tripulação, sorriram com ares de felicidade, de arrebatamento. “Nenhum humano podia sorrir daquela forma”, asseverou Svetlana. Dez minutos depois, os “anjos” desapareceram com a nuvem e a tripulação da Salyut 7sentiu aquela partida como uma perda devastadora.

Material ultrassecreto

Enquanto isso, o controle da missão, na Terra, exigia uma explicação. Quando os controlaresreceberam o relatório, ele foi imediatamente classificado como ultrassecreto. Uma equipe médica especial foi formada para estudar a saúde dos cosmonautas — os testes indicaram que estavam bem tanto física quanto mentalmente. No contexto ideológico dominante, no entanto, o incidente — um tanto embaraçoso para o regime soviético — foi silenciado por anos. A popular revista russa NLO publicou, em 1998, um relato sobre o incidente, ocorrido antes do período da Perestroika. A fim de não criar um tumulto desnecessário, o comitê político da extinta URSS assegurou-se de que o relatório permanecesse secreto e a tripulação da Salyut 7foi advertida a manter sigilo. Anjos não podiam existir, dentro ou fora da Cortina de Ferro...

Sussurros cósmicos

Em 1997, o jornal russo Ekstra Press publicou uma interessante matéria baseada em depoimentos fornecidos por um cosmonauta, identificado apenas como “X”. O informante do jornal falou aos entrevistadores sobre um fenômeno apelidado por seus colegas de “sussurros cósmicos”. Segundo o entrevistado, havia rumores sobre tais sussurros correndo no Centro de Lançamento de Foguetes de Baikonur, mas ficavam restritos a alguns pilotos que não partilhavam muitas informações entre si e também não falavam sobre isso com os médicos — tinham medo de tocar no assunto e serem retirados do programa espacial. O “Cosmonauta X” disse ainda que ele e seus colegas acreditavam que tais boatos eram uma lenda criada pela primeira equipe de cosmonautas, a fim de assustar os novatos. Ele estava errado, como a experiência mostrou.

O informante contou que ele e alguns colegas estavam a bordo de uma espaçonave soviética, voando sobre o Hemisfério Sul, quando um dos tais sussurros surgiu. O narrador disse que, de repente, sentiu como se alguém estivesse próximo a ele, como se um ser invisível parado às suas costas o observasse. Um segundo depois, o engenheiro de voo que o observava pela portinhola virou-se de repente e o encarou. Ambos eram pessoas emocionalmente equilibradas e muito distantes de crenças místicas. Mas eram bons amigos e já se conheciam muito antes do treinamento na Star City [O centro soviético que reunia as instalações de treinamento do programa espacial], e por isso não tiveram receio de compartilhar suas impressões depois do episódio.

Uma voz dizia aos cosmonautas: ‘Vocês chegaram muito cedo até aqui e vieram da forma errada. Confie em mim, pois sou seu ancestral do lado materno. Vocês não deveriam estar aqui. Voltem para a Terra e não violem as leis do Criador’

O mais interessante desse caso, além do fato em si, é que ambos receberam textos ou mensagens diferentes. Segundo o “Cosmonauta X”, ele ouviu nitidamente a seguinte mensagem: “Vocês chegaram muito cedo até aqui e vieram da forma errada. Confie em mim, pois sou seu ancestral do lado materno. Vocês não deveriam estar aqui. Voltem para a Terra e não violem as leis do Criador. Vocês têm que voltar”. Ambos retornaram à Terra dois dias depois, mas o sussurro manifestou-se a eles mais uma vez, repetindo os mesmos textos. Como na primeira ocorrência, ambos sentiram a estranha presença alienígena durante todo o tempo de órbita. Ao chegarem ao solo, os homens enfrentaram um dilema sobre relatar ou não o incidente. Se o fizessem, suas carreiras poderiam ser imediatamente encerradas e eles considerados pessoas impressionáveis, com perfil psicológico instável e inadequado para novos voos espaciais. Outros cosmonautas que passaram pela experiência também se mantiveram silenciosos quanto aos sussurros e nada foi relatado aos superiores.

Convicções abaladas


O “Cosmonauta X” e seu colega passaram intermináveis horas tentando entender o que haviam experimentado. Como eram ateus e fãs de ficção científica, chegaram à conclusão de que uma inteligência alienígena, utilizando-se de algum tipo de hipnose, tentava enviar uma mensagem para evitar que a humanidade explorasse o espaço. A fim de convencer os cosmonautas de que os sussurros não eram alucinações, pesquisavam seus cérebros em busca de memórias que pudessem utilizar para validar a mensagem.

crédito: TASS
A Star City, nos arredores de Moscou, onde são treinados os cosmonautas e local em que se tem como certo que seres extraterrestres nos espreitam
A Star City, nos arredores de Moscou, onde são treinados os cosmonautas e local em que se tem como certo que seres extraterrestres nos espreitam

Mas seriam os alienígenas tão ingênuos a ponto de não perceberem que entenderíamos seu plano? E se não fosse um sussurro alienígena, seria possível que os espíritos de seus falecidos parentes os estivem visitando? Esses questionamentos abalaram convicções dos astronautas, seu ateísmo e visão de mundo. O senso de dever dizia que precisavam descrever a experiência em um relatório, mas eles ignoraram a questão. Outros que também ouviram os sussurros, mas relataram suas experiências. Como resultado, equipes médicas especiais passaram a fazer parte do treinamento, com os melhores profissionais especializados em hipnose explorando a psiquê das tripulações espaciais. A partir disso, todo o programa de treinamento de voo passou por mudanças.

O “Cosmonauta X”, hoje aposentado, não sabe como o assunto é tratado atualmente ou a quais conclusões os cientistas russos chegaram. “O espaço sideral é repleto de inteligências e é muito mais complicado do que o imaginamos”, disse ao Ekstra Press. Nosso atual conhecimento não nos permite compreender a essência da maior parte dos processos que ocorrem no universo. Nossas capacidades ainda são bem limitadas. Mas, para aqueles que ouviram o sussurro, uma coisa é clara: o futuro existe e é infinito, assim como o próprio espaço e o tempo.

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Sobre o Autor

Paul Stonehill

O autor é considerado, junto com Philip Mantle, os maiores especialistas em Ufologia Russa da atualidade. Mora em Los Angeles, mas nasceu na extinta União Soviética. É bacharel em ciência política, autor, conferencista e pesquisador de destaque internacional, tendo especial interesse nos fenômenos ufológicos e sua relação com a exploração espacial soviética. Stonehill passou a se interessar pelo Fenômeno UFO na juventude, quando morava na Ucrânia. Coletou uma quantidade enorme de informações sobre objetos submarinos não identificados (OSNIs) em várias partes do mundo. O autor também se dedica à parapsicologia e à pesquisa de fenômenos psíquicos, além de espionagem, guerra e história da Rússia. Seus trabalhos já foram publicados em várias partes do mundo. Desde 2005, Stonehill é consultor da Revista UFO.

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