ARTIGO

O perigo da ufolatria ao redor de Ashtar

Por Marco Antonio Petit | Edição 78 | 01 de Junho de 2014

Das novas seitas ufológicas surgidas dos anos 80 para cá, mais da metade tem como elemento catalisador de seus integrantes a figura de Ashtar Sheran
Créditos: James Neff

O perigo da ufolatria ao redor de Ashtar

Podemos dizer que, independentemente do pensamento de cada um sobre este personagem do cenário ufológico mundial, não há dúvidas de que o nome Ashtar Sheran é de maneira disparada o mais divulgado entre os supostos extraplanetários que estariam nos visitando. Não há quem tenha adentrado no meio ufológico e tenha escapado de histórias relativas à sua suposta missão junto à nossa humanidade. Mesmo antes de iniciar minhas atividades na Ufologia, em 1979, quando participei do I Encontro Nacional de Teses Ufológicas, no Rio de Janeiro, já conhecia pessoas que afirmavam estar recebendo mensagens do referido comandante da Frota Extraplanetária Universal em missão no planeta Terra.

Tais pessoas, além de contatos frequentes com Ashtar Sheran, mediante processos mediúnicos ou telepáticos, apresentavam ainda outro padrão comum: não conseguiam mostrar a menor evidência sobre suas experiências com o ilustre personagem. Para falar a verdade, depois de quase 40 anos como investigador, ainda estou procurando um sinal indicativo da existência física e objetiva de tal ser. Apesar de conhecer pessoas sérias e até ter amigos que defendem sua existência, e de alguns supostos comandados seus, ainda hoje continuo na mesma posição que tinha quando ingressei na Ufologia.

crédito: The awekening
Faz parte da natureza do homem agregar-se a pessoas que pensam igual, e esse é o mecanismo que une pessoas que creem em UFOs de maneira messiânica para formarem seitas
Faz parte da natureza do homem agregar-se a pessoas que pensam igual, e esse é o mecanismo que une pessoas que creem em UFOs de maneira messiânica para formarem seitas

Sabemos que o aspecto mais polêmico e controverso da Ufologia Mundial são justamente os contatos diretos com ETs — as abduções —, que muitas vezes apresentam em sua manifestação casuística o contato mental ou telepático entre os protagonistas entre tais experiências e tripulantes dos discos voadores. Isso não é incomum, pelo contrário. Mesmo assim, existem numerosos casos na história da Ufologia em que os pesquisadores encontram sinais suficientes para a aceitação de muitos fatos desse tipo. Mas o ponto-chave para essa discussão é saber que, ao contrário do que poderíamos desejar, estamos até hoje sem um único caso em que a hipnose regressiva ou um teste poligráfico tenha sido aplicado e gerado um resultado positivo em pessoas contatadas por Ashtar Sheran. Na verdade, se desconhece a existência de qualquer pessoa contatada por Ashtar que tenha se submetido a qualquer tipo de teste, ou que pudesse nos levar a algo diferente de uma simples crença em relação à sua existência. E a situação torna-se evidentemente ainda mais desconfortável se formos falar de suas alegadas mensagens.

Os supostos contatos com Ashtar e seus comandados são um caso à parte dentro da Ufologia, na qual qualquer forma de avaliação de tais experiências passa longe do interesse de seus protagonistas, transformando o personagem — que pode até existir realmente —, no ícone daqueles que não entenderam ainda que Ufologia, por mais transcendentes que possam ser seus limites, deve continuar a ser vista como uma forma de estudo e pesquisa legítima, a busca sistemática da compreensão do Fenômeno UFO. Diante do que acabamos de expor, não é de admirar que o nome Ashtar Sheran esteja associado a praticamente todos os mistificadores e embusteiros que infelizmente infestam nosso meio. Ser um enviado ou “amigo” dos extraterrestres e não ser contatado por Ashtar Sheran é algo inaceitável por esses novos messias.

Mulheres sensitivas

Este tom crítico em relação ao fenômeno Ashtar Sheran não é algo inspirado em qualquer forma de despeito por ainda não ter sido contatado pelo mesmo, até porque, em inúmeras oportunidades, fui procurado por pessoas — em sua grande maioria mulheres sensitivas — que traziam mensagens do próprio ou de seus supostos comandados para mim. Falando claramente, as informações repassadas por tais contatados só diferiam no aspecto de minha posição dentro do que muitas vezes é chamado de Comando Ashtar. Na última vez que fui “contatado”, fiquei sabendo que seria braço-direito e representante de Ashtar Sheran na Terra! Ora, estamos diante de um fenômeno a ser estudado, mas que, até que se prove o contrário, não parece estar associado ao nosso mundo real. Talvez, uma das maiores evidências disso seja a sua associação com as seitas ufológicas, o lado certamente mais perigoso do fenômeno Ashtar Sheran.

Na verdade, se desconhece a existência de qualquer pessoa contatada por Ashtar que tenha se submetido a qualquer tipo de teste, ou que pudesse nos levar a algo diferente de uma simples crença em relação à sua existência

O número de seitas ufológicas em que a crença e o fanatismo são a base para que falsos profetas, travestidos de contatados, manipulem seus seguidores na busca de compensações financeiras e privilégios sexuais — ou, na melhor das hipóteses, que visam o preenchimento das carências e frustrações pessoais de alguns desses líderes, na busca da elevação de seus egos — é cada vez maior. Com a falência das religiões mais tradicionais, que não conseguem mais responder os anseios espirituais de nosso tempo, esse caminho tortuoso vem sendo percorrido no seio dessas seitas por um número cada vez maior de pessoas, prontas a receberem “ensinamentos” de Ashtar e seus comandados, sem qualquer tipo de questionamento quanto à origem de tais mensagens.

Rebanhos

Em alguns desses casos, os líderes de movimentos desse tipo, desprovidos de limites mínimos de sanidade, acabam por assumir a responsabilidade total pela condução de seus rebanhos, deixando o próprio Ashtar em segundo plano, quando passa a ser citado com menos reverência. O líder de uma dessas seitas chegou a publicar em um de seus livros que certa noite esteve na presença de “apenas 600 naves de Ashtar Sheran”. Uma das dezenas de fotos publicadas pelo mesmo “enviado” em um outro de seus livros, como sendo de uma formação de UFOs, não passava do planeta Júpiter e de estrelas da Constelação do Touro. Da mesma forma, anos atrás, um desses “mentores espirituais” levou seus seguidores a cometerem suicídio, meio que seria utilizado para que todos chegassem a uma nave que viajava no interior da cauda de um cometa que se aproximava das regiões centrais do Sistema Solar.

Todos nós que militamos no meio ufológico devemos estar sempre atentos, pois o perigo representado palas seitas ufológicas não é algo abstrato ou distante, tenham elas associação ou não com o personagem desta edição. Ashtar Sheran, mito ou realidade, certamente não é o responsável pelo surgimento de tais grupos. Tal responsabilidade, evidentemente, é fruto da interação entre mentes sem o menor sentido do que é a realidade do universo com as carências de parte de nossa população, que prefere acreditar agora que a salvação virá no interior dos discos voadores. É preciso entender que existe uma grande diferença entre as mistificações que existem por aí e uma visão transcendente sobre o próprio cosmos, que começa a emergir não só a partir dos estudos ufológicos, mas também de certos setores de nossa ciência. Os verdadeiros representantes das várias raças que nos visitam parecem esperar que o homem consiga ver além do que lhe é mostrado, justamente para que possamos atingir um conhecimento sólido, uma nova visão sobre nossa existência, e não desenvolver mais uma crença.

Um exame atento das chamadas seitas ufológicas

Dificilmente iremos encontrar um cidadão brasileiro inteiramente satisfeito com a sua situação e a do país. Todos nós temos os nossos problemas e todos lutamos com dificuldades. Para superá-los, muitos apelam às diversas religiões, que, para não ficarem para trás, tratam de se modernizar. Nos terreiros de umbanda, por exemplo, o preto velho já foi substituído por ETs. Na Ufologia, infelizmente, vamos encontrar um pouco de tudo. Há aqueles que, em atitude de ignorância extremada, retiraram o Cristo do altar e o substituíram por um modelo de extraterrestre. Em 1980, Edenilton Lampião, então editor da revista Planeta, já alertava que só no Rio de Janeiro e São Paulo havia cerca de 120 seitas ufológicas. De lá para cá elas se multiplicaram. Seus líderes, que fazem questão de se apresentarem como mestres ou gurus, se dizem em contato telepático permanente com entidades extraterrestres. Seus seguidores os obedecem cegamente, sem nada questionarem.

Com várias décadas de pesquisa na bagagem, nunca encontrei nenhum contatado — não confundir com abduzido — autêntico. Contatados deveriam, no mínimo, ter algo de especial. Todos os que testei, no entanto, se mostraram tão mortais quanto eu, e o único aspecto excepcional que pude constatar foram seus egos exacerbados e doentios. Jamais, em tantos contatos que alegam ter mantido com ETs, trouxeram alguma informação científica nova ou sequer válida. Ao traçarmos o perfil psicológico dos contatados, constatamos que 86% deles estavam envolvidos com processos anímicos, uma espécie de contato com seu eu interior, 8% com fenômenos poltergeist, 4% com espíritos e somente os restantes 2% com entidades supostamente extraterrestres. Sempre desafiamos aqueles que alegavam possuir poderes a nos provar isso, mas só o que obtivemos foram respostas vagas e lacônicas do tipo “eu não preciso provar nada a ninguém”.

Uma ciência é embasada em provas, e jamais a Ufologia será reconhecida como tal enquanto houver pessoas desequilibradas proclamando os mais disparatados absurdos. Todo cuidado é pouco quando se trata de seitas e de figuras míticas usadas por elas, como a de Ashtar Sheran. Devemos questionar tudo. Todo contatado é um sonhador até que se prove o contrário. É importante saber dos antecedentes do alegado guru, inclusive se já esteve internado em hospitais psiquiátricos para tratamento e se tem ficha criminal na polícia. Se algum deles assediá-lo, tentando convencê-lo a largar a família, abandonar o emprego, vender os seus bens e doar todo o dinheiro à seita dele, chame a polícia imediatamente.

O tema já virou até novela da Rede Globo. Algo que está aí há muitos anos e que infelizmente ainda não saiu de moda é contatar telepaticamente Ashtar Sheran. Contatar qualquer outro ser é muito pouco. Ocorre o mesmo entre os médiuns de cura, que só incorporam o doutor Fritz, já que os outros não dão status. Estatisticamente falando, deve haver mais de 3.000 ashtares sherans para dar conta das milhares de pessoas ao redor do mundo que afirmam estar em contato com ele. Só aqui no Brasil, já conheci mais de 200. Para analisar a questão, devemos agir como detetives. Se quisermos fazer uma Ufologia séria, temos que ser sérios. Caso contrário, jamais faremos da Ufologia uma ciência. Os ETs jamais irão resolver a situação individual de cada um ou coletiva da humanidade. Cada pessoa deve resolver seus próprios problemas com os seus próprios méritos. — Claudeir Covo

Para continuar lendo este artigo, você deve se cadastrar no Portal UFO. O cadastramento é gratuito e dá acesso a todo o conteúdo do site.

Login

Compartilhe esse artigo:

Sobre o Autor

Marco Antonio Petit

Marco Antonio Petit de Castro nasceu em 27 de maio de 1957. Seu interesse pelos mistérios do universo começou cedo, tendo construído o primeiro de seus vários telescópios aos 13 anos, com os quais mergulhava nos mistérios celestes durante as noites. A constatação de que não estamos sós no universo foi decisiva para o autor abraçar firmemente a Ufologia em 1975, por certa “intuição” que parecia lhe revelar a existência de alguma ligação entre os UFOs vistos na atualidade e a origem e evolução da vida em nosso planeta. No início dos anos 80, Marco Antonio Petit começou a estudar contatos nos quais nossos visitantes deram a abduzidos informações sobre o passado da humanidade, assim como de sua origem extraterrestre. Um estudo comparativo das provas fósseis da trajetória humana acabou por permitir ao ufólogo lançar sua teoria sobre a origem extraterrestre da vida e do homem. Suas conclusões foram inicialmente divulgadas através de conferências que realizou e artigos que publicou, como na extinta revista Ufologia Nacional & Internacional, precursora da atual Revista UFO, da qual o autor é co-editor. Mais tarde, a partir de 1990, lançou seu primeiro livro, Os Discos Voadores e a Origem da Humanidade. São de Petit também os livros Terra: Laboratório Biológico Extraterrestre, Contato Final: O Dia do Reencontro e UFOs: Arquivo Confidencial, todos pela Biblioteca UFO. Além de OVNIs na Serra da Beleza e UFOs, Espiritualidade e Reencarnação, que marca seu mergulho definitivo na área da espiritualidade, ocorrido a partir da pesquisa de novos casos de abdução e contatos com ETs, além de algumas experiências pessoais, estes pela Editora do Conhecimento. Marco Antonio Petit também proferiu mais de 500 conferências, várias delas em congressos internacionais de Ufologia e é um dos mentores da campanha UFOs, Liberdade de Informação Já, deflagrada pela Comissão Brasileira de Ufólogos (CBU).

Comentários